Kisses and Guns
42 Vem, me encontra, me leva, por tudo, apesar de tudo...
Notas iniciais
É engraçado como ninguém pensa em coisas banais como: andar. Colocar um pé na frente do outro. É natural. Nosso cérebro automaticamente nos condiciona a não pensar nessa ação. Sinto, que cada vez que movimentos minhas pernas meu cérebro se sobrecarrega. Meus músculos estão pesados e rígidos e o ato de andar até o estacionamento do hospital é uma tortura. Tente isso quando você está tentando ser discreta e a merda toda parece exatamente isso, uma merda. Levou mais tempo para chegar ao carro de Amélia do que eu esperava, mas enfim, chegamos. E eu poderia ajoelhar e agradecer por ser um carro espaçoso.
— Qual é o plano? – Amélia pergunta depois me ajudar a deslizar no banco do passageiro. E me ajudar a colocar o cinto. Meus ferimentos ainda estão rígidos e eu me estico tentando por o mínimo de pressão sobre eles. Amélia me olha com expectativa quando agarra o volante.
— Só dirija, o quando você conseguir. Mais horas possíveis. Quando você estiver muito cansada nós paramos em algum lugar para dormir. Depois vamos comprar algumas coisas essenciais. – ela assente com a cabeça determinada. Meus olhos pesam assim que ela pega a rodovia. Meu corpo cansado sede ao sono profundo. Meus sonhos são estranhos e desconexos, mas seu rosto aparece com frequência. Em um momento ele me beija e no outro está gritando comigo. Em um momento ele está fazendo coisas comigo e no outro eu ouço tiros, e sinto a dor, sinto minha pele se separar, e cada célula minha se partir, o sangue escorrer e a agonia dos meus nervos explodindo mensagens ao meu cérebro, e tudo é imerso em dor. Eu grito. Acordo e percebo que está escuro e minha cabeça dói.
— Alex! – Amélia diz me olhando. – Tudo bem?
— Sinto muito eu dormi.
— É normal, você ainda não está bem. Você teve pesadelos?
— Hum, sim. – engulo seco não querendo dizer que foram também uma cota de sonhos quentes.
— Vou parar, passa da meia noite. Eu dirigi por dez horas. – Porra eu dormi por dez horas? – Comprei uma sopa para você, mas acho que esfriou. – eu tento engolir um pouco da sopa por que meu corpo está fraco. E meu pior pesadelo é estar vulnerável como agora. Amélia para em um hotel descente e me espanta quando tira notas altas e paga a recepcionista não só pelo quarto como pelo silencio.
— Da onde saiu todo esse dinheiro? – pergunto quando entramos no quarto.
— Minha mãe me deu. Eu tenho um milhão em notas vivas.
— Porra!
— Minha mãe me ajudou a fugir. – ela diz. Lágrimas se acumulam em seus olhos. – Ela não queria que eu fosse infeliz.
— Isso é bom. Você ter ela do seu lado.
— E é. Apesar de tudo que ela sofreu nessa sociedade...
— Na máfia você quer dizer. — afirmo.
— Sim, na mafia. Apesar de tudo ela e meu pai eram apaixonados, foi um casamento arranjado que deu certo. Eles se amavam. Ela queria isso pra mim também.
— Amélia, como você pode ter tanta certeza que não daria certo com Dante? — pergunto apesar de tudo.
— Por que... não ia. Alex, eu... eu e...
— O que ? Algo aconteceu? Por que você noivou antes de fugir? Talvez pensasse que ia dar certo. – pergunto. É uma coisa que tem ficado na minha cabeça. Ela engole seco quando uma lágrima grossa desliza em seu rosto.
— Bem, no dia da festa de noivado eu... – ela engole seco outra vez. – Eu... dormi com o Lorenzo. – pisco por um momento.
— Dormiu? Como?
— Como fiz sexo. — ela diz engasgada. Seus bochechas adquirem um tom vermelho brilhante.
—Mas isso deveria ser bom não é? – digo me aproximando dela.
— Bom? Não poderia ser pior.
— Ele machucou você? — pergunto de repente preocupada. Afinal Lorenzo é um filho da puta mafioso também.
— Não! Não foi assim! Eu quis! Ele... ele estava no corredor da casa. Todos estavam no jardim. Ele estava bebendo. Mas, a garrafa de uísque estava pela metade, não achei que ele estivesse tão bêbado. E quando eu me aproximei dele ele me puxou e disse que precisava foder uma loira até que não pudesse se mexer. Ele me beijou antes que eu respondesse e... Alex... eu queria aquele beijo por tanto tempo! Eu queria ele por tanto tempo! Eu não pensei! Não percebi que as coisas estavam indo longe assim! Quando vi eu estava na cama dele. E nós tínhamos... nós fizemos... e...E então eu vi outras duas garrafas de uísque. Sai correndo do quarto dele enquanto ele estava desmaiado e no outro dia quando o vi, percebi o ódio que ele sentia de mim. Lorenzo nunca olhou para mim assim. Achei que era por que nós... mas ele veio me parabenizar pelo noivado e disse que pelo menos eu ia parar de parecer uma criança quando Dante estourasse minha cereja. Ele não se lembrava! Ele não estava sendo irônico! Eu vi! Ele simplesmente não se lembrava...– ela chora com força. Eu apenas a abraço. O que posso dizer? Aparentemente a mãe desses meninos só pariu idiotas!
— Sinto muito.
— Tudo bem.... – ela suspira. – Eu não queria fugir! Eu queria ficar com minha mãe! Mas, eu não poderia suportar... Deus! Eu nunca vi aquele olhar nele antes!
— Eu entendo você Amélia.
— Eu sei que entende. Harley me disse que você e Dante estavam envolvidos. Eu sinto que eu não percebi, por que eu teria contado antes, eu não queria causar sofrimento E eu não teria noivado com Dante. – ela diz. E maldição ela parece sincera. – Você foi a amiga mais leal que eu tive. As outras sempre se aproximaram de mim por causa dos meninos, ou da minha família. Queriam entrar para a sociedade. Queriam ser “mansas”, que em geral são amantes dos homens de negócios. São sustentadas e tem uma boa vida. Mas, não são senhoras. Não são nascidas nesse mundo. Todo mundo que se aproximou de mim foi por que queria alguma coisa. Você foi a primeira que não queria.
— Você foi minha amiga mesmo que eu não tivesse nada para oferecer Amélia. Eu sou grata por isso também.
Sinto um peso me sair do corpo quando ajeito as coisas com Amélia. Saber que ela não me traiu e que foi minha amiga de verdade me deixou mais leve. Mas, eu sinto por ela. Duas mulheres com o coração partido na estrada?
Eu sinto que não há caminho o suficiente para percorrer. Não há estradas o suficiente. Não há distancia que baste. E ainda assim, no fundo eu mantenho a esperança de que ele me cace, que venha por mim, que me encontre.
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