Parece que andei horas a vaguear pelo campus, contudo o ponteiro pequeno do meu relógio nem trinta graus rodou, até finalmente dar com o portão que supostamente deveria dar acesso à praia, mas que está fechado.

Devem-no ter trancado para que nenhum estudante bêbado ou mocado se afogar. Oh! esperem, eles aqui não bebem nem fumam, muito menos pólen ou erva, por isso só devem ter fechado o portão para ninguém conseguir fugir de noite.

Queria ir para a praia, mas dá muito trabalho saltar o portão e ia demorar muito tempo por causa da minha muito reduzida estatura, por isso vou desistir desta ideia e dar uma volta junto à vedação até me encontrar perto do edifício Petúnia, não que a minha vontade de voltar seja muita, porque não o é, sem sombra de dúvidas que não.

Mas acho que até fiz bem em vir por aqui, não que eu saiba como é que me estaria a sentir se tivesse conseguido ir para a praia, mas adoro sentir esta brisa fresca entre os meus caracóis e sentir o toque frio do metal da vedação na ponta dos meus dedos à medida que vou avançando, muito lentamente, como o moroso murmurar do mar que é arrastado desde a praia até aos meus ouvidos, qual alma entristecida que me quer possuir.

Não sei como, mas consegui chegar às portas do dormitório sem me perder e com apenas a luz do luar, porque sim, fui suficientemente esperta para me meter por um caminho onde não havia candeeiros, mas bem, não tenho culpa, eu só queria estar perto do mar.

Cá dentro está ainda mais escuro do que quando cheguei hoje de manhã. Parece que fecharam tudo para não deixar entrar os ténues raios de luar e o parco brilho das estrelas, para nos manter na escuridão, como numa cadeia.

Entre apalpões às paredes, portas e corrimões de escadas consegui arrastar-me até à porta do meu quarto.

Agora só me falta encontrar as chaves. Eu sei que as tenho comigo, lembro-me de ter pegado nelas, mas onde é que as enfiei?

A saia não tem bolsos e o único sítio onde eu as podia ter metido era no bolso de dentro do casaco, mas também não estão lá.

Não é meu costume perder as coisas assim.

Eu não as posso ter perdido, não no primeiro dia.

Pensa. Pensa. PENSA!

Onde é que as meteste?

– Onde é que as meteste caralho? – quando dou por mim estou a puxar aso cabelos entre inspirações e expirações ofegantes e suores frios no meio do corredor deserto.

Calma.

Tem calma, respira, pensa.

Pensa, Ana, pensa.

Espera, é isso! Eu não tenho as chaves…

Já me lembro, eu pedi ao Tiago para mas guardar porque supostamente ele ia ficar comigo e não me ia deixar sozinha no meio de estranhos. Supostamente… Mas também do que é que eu estava à espera? Lá porque o conheci hoje de manhã não quer dizer que… não quer dizer que… não quer dizer nada.

Bato repetidamente à porta do quarto.

Nada.

Talvez ainda não tenha voltado, mas já está tudo fechado e escuro.

Mas pronto, agora só me resta esperar que ele volte. Sento-me no chão encostada à porta, tiro o telemóvel e os fones do único bolso que tenho e ponho-me a ouvir Suicide Silence.

Qualquer coisa pousa na minha cabeça sobressaltando-me.

Olho para cima e vejo que ele está a olhar para mim com uma cara sorridente e uma mão pousada na minha cabeça.

Tiro os fones a tempo de o ouvir dizer:

– Eu sei que tens muitas saudades minhas mas não era preciso ficares na rua à minha espera!

Tento retribuir-lhe o sorriso, mas não consigo.

– Tens noção que estive cinco minutos a falar para as paredes antes de me aperceber que estavas com os fones? – diz afagando-me o cabelo.

– Desculpa…

– Não tens de pedir desculpa Ann. O que é que estás aqui fora a fazer?

– É que… tu ficaste com as minhas chaves, lembras-te?

– Fiquei?

– Sim…

–Tens a certeza?

Abano a cabeça em consentimento e ele franze o sobrolho, baixando o olhar.

– Desculpa, esqueci-me completamente…Anda, vamos entrar. Estás aqui há muito tempo?

– Não sei – digo, deitando-me na cama.

– Desculpa, a sério.

– Já te disse que não faz mal.

Claro que não faz mal, já estou habituada a que as pessoas se esqueçam de mim.

– Sabes, sentimos a tua falta no jantar.

– O quê? Quem? – digo sem grande interesse.

– Bem, toda a gente acho eu.

– Mas ninguém me conhece.

– Pois não, mas digamos que a diretora falou de ti no discurso final e tu não te levantaste quando ela te pediu.

– A sério?

– Claro, pelos vistos és a pessoa com o QI mais elevado que já andou aqui.

Eu? A melhor em alguma coisa? Deve-se ter enganado…

– Não devo ser eu, de certeza que se enganaram.

– Olha que não. Porque é que não me disseste?

– Porque é que haveria de dizer? Além disso, não sabia.

– Não faz mal idiota. O que é que se passou para saíres a meio?

– Fiquei maldisposta e tive de ir apanhar ar – respondo, abrindo as janelas do quarto para deixar entrar a briza marítima.

Ele juntou-se a mim na varanda:

– E já estás melhor?

– Acho que sim, mas vou tomar outro banho para me refrescar – não é por isso, é só para me afastar dele e de todos estes sentimentos estranhos.

Fecho a porta da casa de banho e ligo o chuveiro para ir aquecendo enquanto me dispo.

Quero tanto agarrar numa toalha e tapar o espelho para não me ver e não ter crises de repugnância que só me deixam com vontade de arrancar toda a gordura que tenho, de a arranhar, de a cortar, de fazer um monte de coisas a mim mesma, mas em vez disso entro simplesmente para a cabine e sento-me no chão com a água quente a cair-me na cabeça e percorrendo todo o meu corpo como uma droga qualquer para me acalmar.

Não sei durante quanto tempo fiquei assim, parada, quieta, a ser purificada por esta água que corria sem cessar e me encharcava os cabelos, alongando-os, ocultando-me o rosto, os ombros e parte dos peitos. Sei só que que já tinha os dedos todos enrugados quando finalmente desliguei a água e, muito lentamente, me embrulhei numa toalha e abri a porta que separa a casa de banho do quarto.

Lembro-me tarde de mais que me tinha esquecido de secar o cabelo com uma toalha e, é assim, a escorrer e pingar água para o chão de parquê que eu dou com o Tiago seminu na varanda.

Ele é tão lindo…

As costas musculadas com a pele branca a refletir o luar…

O cabelo curto a ser acariciado pelo vento…

Visto assim parece um ser sobrenatural, podemos até metê-lo ao mesmo nível do Edward Cullen, aquele vampiro da Saga Twilight.

Não sei se é por se parecer tanto com o vampiro que eu não consigo tirar os olhos dele e tenho de me obrigar a tentar dar um passo, mas, pelo menos, parece que ele não deu conta que já estou aqui… ou então deu:

– Não tens de ficar aí parada – diz, voltando-se para trás e sorrindo.

Estou tão envergonhada que nem falar consigo e devo estar pálida como cal pois não sinto gota de sangue na cara e tenho os olhos tão abertos que parece que podem saltar das órbitas a qualquer momento.

– Não tens de ficar assim por eu te ver embrulhada numa toalha ou isso nunca te tinha acontecido?

– Por acaso não, nunca me tinha acontecido – respondo, gaguejando um pouco e sentando-me na cama, não sei o que fazer mais.

– Olha que eu também nunca tinha visto nenhuma rapariga a sair do banho.

– A sério? – deve ser alta peta esta que ele me está a tentar pregar.

– Juro! Nem a minha mãe vi, quanto mais outra rapariga qualquer.

– Bem, há uma primeira vez para tudo.

Mas sinto que não é a primeira vez que os olhos dele percorrem o meu corpo desta forma. Mas não pode… não pode ser ele… Mas e se for?

É melhor não pensar nisso.

– Acho que é melhor ir vestir-me – digo eu.

– Não precisas de o fazer por minha causa, este é o teu quarto, por isso está à vontade.

– Mas não vou andar nua no meio do quarto à tua frente ou vou?

– Eu não tenho nada contra isso – disse ele fazendo um sorriso enviesado muito sedutor – mas eu só me estava a referir a vires aqui ver as estrelas enquanto partilhavas um delicioso cigarro comigo.

– Que interesseiro! – disse eu rindo-me com facilidade, havia qualquer coisa nele que me fazia sentir calma e bem disposta. – Gostei do pormenor da palavra deliciosa.

– É, não é? Dá mais enfase à frase.

– Bem, já que é para me pôr “à vontade” – fiz mesmo o gesto das aspas com os dedos indicador e médio de ambas as mãos, quase deixando cair a toalha – importas-te de me emprestar alguma roupa tua para eu dormir que não me apetece ir buscar a minha? – para além da particularidade da roupa masculina ser muito mais prática e confortável que a feminina, especialmente no que toca a pijamas e roupa interior.

– Mas que chula que a minha companheira de quarto me saiu! Conhecemo-nos hoje e já me está a pedir coisas emprestadas — o tom dele era de completa brincadeira e, muito possivelmente foi por isso que decidi alinhar com ele.

– Olha quem fala?! Também só conheci o meu companheiro de quarto hoje e ele já me anda a pedir para andar nua pelo quarto enquanto lhe dou deliciosos cigarros à pala!

– Coitada de ti, pelo que dizes ele deve ser um completo tarado, se eu fosse a ti tinha cuidado – disse ele começando a avançar para mim, fazendo o meu mundo parar por uns instantes.

Aqui estou eu, completamente nua, sentada numa cama, escondendo o meu corpo apenas com uma toalha azul de algodão enquanto o meu cabelo larga gotas de água por todo o lado, com um rapaz de cabelo flamejante e sem camisola que se dirige para mim com uma expressão na cara que eu acho melhor não descrever.

Eu não sei o que fazer.

Quando as mãos dele pousam ao lado das minhas e a cara dele se começa a aproximar eu faço a única coisa que me consigo lembrar: deito-me para aumentar a distância entre nós, mas fazendo apenas com que ele se desequilibre e caia com a cara em cheio no meu peito.

– Desculpa, não sei como é que isto foi acontecer – diz ele levantando-se rapidamente – que roupa é que querias?

– Não faz mal. Uns boxers e uma t-shirt, mas se não quiseres emprestar podes procurar nas minha coisas – estamos os dois um pouco corados e estamos a evitar o olhar um do outro, porquê?

– Na boa, eu estava a gozar quando disse aquilo – o ambiente agora está estranho, parece que a boa disposição e a calma que ele irradiou até agora se foram embora, como aconteceu quando estávamos na praia hoje ao almoço.

Como não sei o que dizer agarro nas coisas que entretanto ele pousou ao meu lado e ia dirigir-me para a casa de banho quando ele me agarra pelo braço e diz:

– Podes trocar-te aqui que eu vou fazer como tu e passar-me por água outra vez.

– Ok, té já então.

Ele fechou-se na casa de banho e eu olhei para a roupa que o Tiago me tinha deixado: uns bóxeres de algodão cinzentos às riscas roxas e uma camisola meia azul com uns desenhos roxos meios estranhos. O mais provável é que estas tenham sido as primeiras peças que lhe tenham vindo à mão e que tenha sido um mero acaso elas combinarem.

Vesti-me em silêncio. Os bóxeres até não me ficavam muito grandes, já a camisola era outra história, eu estava literalmente a nadar aqui dentro, mas tinha sido mesmo por isto que eu lha tinha pedido, assim escondia as cicatrizes.

Acabei por tirar o maço de dentro do bolso interior do casaco e o atirar para cima da cama enquanto ia para a varanda.

Tenho de arranjar um cinzeiro, não posso estar sempre a ir à varanda quando me apetecer fumar, além disso, é extremamente confortável fumar deitada na cama ou enquanto se estuda. Talvez amanhã vá até à praia e encontre lá uma concha que possa usar.

– Tinhas razão, está uma noite agradável para se fumar um delicioso cigarro na varanda enquanto se veste pouca roupa – digo quando ele sai da casa de banho.

– Lá isso está Ann – respondeu, encaminhando-se para mim e acendendo um cigarro com o isqueiro que lhe estendi.

E ficamos em silêncio durante uma eternidade a olhar para as estrelas.

Eu não sabia o que fazer, por isso decidi voltar para dentro para ir buscar outro cigarro, mas mal dou o primeiro passo ele fala:

– Desculpa aquilo de há pouco… Eu não sei o que me deu, queria só brincar contigo por causa daquela cena de me teres chamado tarado. Juro-te por tudo que a minha intensão nunca foi enfiar a minha cara nas tuas mamas.

Involuntariamente sinto o meu corpo a mexer-se na direção dele e a colocar as minhas mãos de ambos os lados da sua face, coisa que para tal me obrigou a ficar em pontas de pés. Eu não sei o que é que estou a fazer, não tenho mão em nenhum nos meus movimentos, limito-me a assistir aos meus atos de um canto remoto algures nos confins da minha mente, onde não tenho controlo sobre nada, muito menos sobre mim mesma. Então ouço a minha boca dizer:

– Eu sei, não faz mal, foi um “acidente”, estas coisas acontecem… também não somos dois velhos para fazer em escândalo com isto, além do mais, a culpa foi minha por me ter deitado – como se por uma vez, mesmo não sabendo o que estou a fazer, a culpa não seria minha.

Estamos tão próximos que os nossos narizes quase se tocam, devia afastar-me, mas não quero.

Mas porque é que me deveria afastar?

– Mas… — ia ele começar a dizer.

– Mas nada! Eu tenho razão, tenho sempre razão – interrompo-o abrindo muito os olhos. Parece que já estou a recuperar o meu corpo aos poucos.

Ele pousa as mãos na minha cintura e, fazendo um sorriso enviesado repete:

– Mas…

– Mas o quê?

– Nada, nada, é melhor não dizer, esquece – diz ele enquanto se ri entre dentes.

– Oh… diz lá, não sejas mau – tiro-lhe as mãos da cara, mas ele parece um íman e elas acabam por ficar pousadas nos ombros dele.

– Só se prometeres que não te chateias.

– Só se me fores lá em baixo buscar qualquer coisa de beber.

– Chantagista!

– C’est le jeu ma petite Lucette.[1]

– O quê?

– É uma expressão em francês – será que ele não sabe falar francês? Como é possível não se aprender francês na melhor escola do país?

– Eu sei, mas não percebi.

– Então eu explico-te depois de me dizeres que tinhas a dizer e de ires lá em baixo.

– Foda-se – diz ele abrindo ainda mais o sorriso – e eu a pensar que se mudasse de assunto tu te esquecias!

– Sacana! – chamo-lhe no gozo enquanto lhe dou um toque ao de leve na cabeça.

– Ui, doeu tanto!

– Não gozes comigo! – detesto que gozem comigo, nem que seja a brincar, simplesmente faz com que me odeie um POUCO mais.

– Ok, ok, eu digo e vou logo lá em baixo buscar de beber e assim não tens tempo para me bater outra vez, pode ser? – assinto com a cabeça ao mesmo tempo que ele tira as mãos da minha cintura. Não me tinha apercebido que ainda estávamos agarrados. – Mas… até são confortáveis – ronronou-me ao ouvido andes de desaparecer e me deixar ali especada à entrada do quarto.

“São confortáveis”?

Do que é que ele está a falar?

Do que é que estávamos a falar à bocado?

Pois, sim, do meu peito…

Ok… Ok…

– Acho que é melhor nem comentar… No que é que ele foi pensar… A sério que ele foi pensar nisso? É que nem são grandes nem nada para serem confortáveis… — olho para os meus peitos minúsculos, quase inexistentes (vá, não são assim TÃO pequenos…) e interrompo o meu pequeno monólogo, não vá ele entrar e apanhar-me a falar sozinha com as paredes, coisa que eu sei que qualquer dia vai acontecer, mas quero ao máximo adiar.

Acho que tive uma ideia.

Agarro na minha almofada e ponho-me ao lado da porta à espera que ele chegasse apagando as luzes do quarto pelo caminho.

Ok, talvez não seja assim tão boa ideia ataca-lo com uma almofada porque ele ainda pode vir com copos ou canecas e cair e espetar os vidros estilhaçados no pescoço e morrer e é muito mau matar o nosso colega de quarto na primeira noite e seria ainda pior porque como estou a pensar nisto era um homicídio premeditado. É melhor parar de pensar, por isso atiro a almofada para cima da cama e mal ele entra no quarto acendo a luz e fecho e tranco a porta atrás dele.

– O que é que se passa? – pergunta pousando uma garrafa e dois copos em cima de uma secretária.

– Com que então são confortáveis, hein?

– Ah…Hm… Sim – diz meio atrapalhado – tu prometeste que não te chateavas.

Neste momento eu podia saltar para cima dele e íamo-nos divertir a noite toda de certeza, mas eu não sei o que se passaria depois disso, não sei como é que ele poderia reagir, como ele poderia reagir ao meu corpo todo mutilado… eu não o conheço… tal coisa não pode acontecer, eu não ia suportar… por isso digo:

– Sim, é verdade, eu não estou chateada.

– Então para quê tudo isto? Eu até te trouxe chá de limão que estive a fazer, espero que gostes – aceito o copo que ele me estendeu e sorvo um pouco. Está quente. Detesto chá quente, mas não me queixo.

– Era só para te assustar. De início pensei em atacar-te com uma almofada, mas depois desisti porque podias cair e espetar um vidro no pescoço e morrer.

– Tu pensas logo nos piores cenários. A sério que foste pensar nisso? – disse ele rindo-se e fazendo-me uma festa no cabelo já seco despenteando-me.

– Era possível.

– Mas o mais provável era que me acertasses com tanta força que eu nem me mexia.

– Isso é um desafio? – digo, pousando o copo e agarrando numa almofada.

– Podemos dizer que sim, mas digamos que não é boa ideia fazer uma luta de almofadas.

– Porquê? – eu agora queria mesmo ataca-lo com uma almofada, mesmo sabendo que não tenho força para tal.

– Barulho, mas acho que não há mal se me deres uma pancada, mas só uma. Deixamos a luta de almofada para outra altura, pode ser, Ann?

Agora que ele fala em barulho, é verdade que não se ouve barulho nenhum, mas mesmo assim agarrei na almofada com firmeza, rodei um pouco o tronco para ter mais impulso e desferi um golpe no peito dele com a almofada, como se esta se tratasse de uma espada, com toda a força que consegui. Ele sorriu para mim, nem um milímetro se tinha mexido, mas estou certa que se tivesse sido com uma espada ele estava morto.

Já tinha previsto este desfecho, mas mesmo assim fingi-me de surpreendida e aborrecida e agarrei no meu copo e comecei a soprar e a mexer com a colher para arrefecer o chá.

– És tão fraquinha Ann – disse ele em tom trocista, deitando-se na sua cama.

– Não tem piada. Vou dormir! Xau! – deitei-me debaixo dos cobertores e apaguei as luzes.

– Tchau, desmancha-prazeres. – nunca vou saber o porquê de ele me ter chamado isso, porque me virei para um lado e para o outro e não lhe respondi.

Mas eu não tinha sono.

Eu não ia conseguir dormir.

Eu ouvi-o a beber o chá no escuro e mais tarde a deitar-se enquanto fitava o teto negro desejando ver as estrelas.

Mais do que uma hora se passou e eu sem pregar olho.

Hoje vai ser a primeira de muitas noites fora de casa, sem dormir na minha cama entre as minhas coisas. Já sinto falta do meu espaço. Já me sinto presa. De dia pode parecer tudo bem, mas é à noite no escuro que as coisas pioram, que as vozes voltam, que os nossos demónios imploram por ser ouvidos e os meus reclamam o mesmo de sempre. Reclamam sangue. Reclamam liberdade. Mas eu não lhes posso dar isso, não agora, por isso começo, involuntariamente, a chorar.

Tento não fazer barulho, mas não consigo abafar alguns soluços.

Então ouço-o perguntar para vazio:

– Estás acordada?

– Sim – respondo entre soluços, pensava que ele já estava a dormir.

– O que é que se passa Ann? – ele levanta-se e senta-se na beira da minha cama. Eu estou deitada de lado com as costas voltadas para ele.

– Não consigo dormir…

– E estás a chorar porque não consegues dormir?

– Não… — sem dar conta começo a chorar com mais abundancia. Já não consigo abafar os soluços.

– Então Ann? Podes falar comigo.

– Tenho medo…

– Medo do quê? – ele pousa a mão na minha cabeça, afagando-me o cabelo.

– Medo de tudo… isto é uma prisão…

– Eu sei… Mas não tens de ter medo, eu estou aqui para te proteger – e ao mesmo tempo que dizia isto ele abriu os lenções da minha cama e deitou-se ao meu lado e, apesar de todo o calor, abraçou-me pelas costas e continuou a sussurrar-me que me ia proteger até eu parar de chorar e, mais tarde, adormecer nos seus braços.

[1] Expressão francesa que significa literalmente “é o jogo minha pequena lúcia”, muitas vezes utilizada para dizer que a vida é injusta.