Bem, os meus livros já estão numa caixa enorme, assim como o meu material de desenho e o meu cavalete. Não tenho muitos quadros e decido não levar fotos comigo. Acabo de arrumar as pequenas coisinhas que tenho espalhadas pelo meu quarto a decorá-lo, a minha coleção de moscas mortas e de canetas sem tinta. Coloco os meus novelos e agulhas de tricô juntas com toda a minha roupa e, por fim, arrumo a minha caixa de música. Decido deixar cá a minha guitarra e levar só o meu baixo e o amplificador.

Agora vou passar a ultima noite no meu quarto, que não deve ser meu por muito mais tempo.

Pergunto-me o que será que vão fazer dele.

Alugá-lo?

Destruí-lo e aumentar ao do meu irmão?

Transformá-lo em qualquer coisa com mais utilidade?

Não quero pensar nisso…

O dia de amanhã assusta-me.

Tenho medo da escola nova.

Como vai ser a pessoa com quem vou partilhar o quarto? Isto se o partilhar.

Como será a escola?

Onde será a escola?

Não sei…

Não sei nada…

Detesto não saber as coisas.

Tenho medo da ignorância.

Finalmente adormeço, não sei como mas adormeço.

Fui acordada por volta das seis da manhã para me preparar, carregar o carro e sair de casa às seis e meia.

A viagem de carro demorou menos de duas horas. Ou talvez mais.

Voltamos à mesma pequena cidade onde vim fazer o exame. Descobri agora que fica entre Aveiro e Espinho.

Desta vez, não nos dirigimos às casas tradicionais mas sim ao centro da vila, onde apanhamos uma estrada secundária que, após um quilómetro, nos leva para fora do aglomerado de casas.

Agora temos, de um lado, o mar e, do outro, campos outrora verdejantes.

Estamos a cinco minutos da cidade quando a começo a distinguir ao longe. O que à primeira vista parecia uma casa numa duna é, na verdade, um castelo. Não uma coisa enorme como os do século XIII ou requintados como os do século XVII. De facto, parece uma junção dos dois, mas com um grande toque de arquitetura contemporânea. Quem quer que o tivesse mandado construir ou estava muito indeciso ou tinha uns gostos muito, mas mesmo muito esquisitos.

Pensava que aquilo era a escola, mas os meus pais passaram por este estranho edifício ignorando-o completamente.

Andamos mais cinco minutos quando eles finalmente abrandam.

Estamos em frente a uns portões de ferro forjado onde eles têm de mostrar uns papéis.

À primeira vista parece que o colégio é constituído por vários edifícios de estilo vitoriano.

Os meus pais estacionam o carro e enquanto saímos e nos dirigimos ao hall sinto uns poucos olhares colados em mim que me fazem sentir mal, como se não pertencesse aqui, como se o meu lugar não fosse entre eles.

Será pelos meus cabelos soltos e um pouco revoltos em vez dos metódicos penteados das outras raparigas?

Ou por ter vestidos uns calções pretos rasgados e uma túnica branca um pouco decotada e com umas gotas de sangue em vez daquela roupa adorável que algumas têm?

Ou por as minhas All Star estarem gastas e rotas do uso e não novas ou de não estar com algo mais formal calçado ou vestido?

Ou simplesmente por ter ar de maluca?

Mal passamos as portas de cedro do edifício principal e, claro, as portas de vidro interiores, entramos numa enorme e hexagonal receção, com o chão de madeira de vários tons, formando um gigantesco tabuleiro de xadrez e um teto alto e cor creme com um lustre descomunal, as paredes da mesma cor do teto adornadas com arcos e janelas, quadros, diplomas e um grande armário cheio de trofeus e medalhas. Mesmo em frente à porta, no outro extremo do hall há uma secretária, de mogno, acho eu, onde estão sentadas três rececionistas.

Uma delas levanta-se mal nos vê entrar. Tem o porte muito direito e o cabelo apanhado num poupo. Fazendo um grande sorriso (grande demais) pergunta:

– São o Senhor e a Senhora Canelas?

– Sim – responde a minha mãe.

– Estávamos à vossa espera. A diretora quer receber-vos pessoalmente – ao ouvir isto eles ficam muito surpreendidos. – Sigam-me, por favor.

Vamos atrás dela por um dos arcos e subimos uma escadaria em mármore.

A meio das escadas a minha mãe agarra-me no braço, puxando-me para trás, e sussurra-me:

– A escola ainda não começou e já foste chamada ao gabinete da diretora. Ela deve ter gostado mesmo muuuuuuuuuito do teu “processo”. E caso não tenhas percebido estou a ser irónica. – E tinha percebido, mas para eles eu sou aquela retardada do pior. – Às tantas arrependeram-se de te ter aceite ou é para te avisar. – continuou ela até chegarmos a outras portas de carvalho.

A rececionista bateu à porta e esta abriu-se para dentro. Ela fez-nos sinal para entrarmos e fechou a porta mal eu a transpus.

O gabinete era extremamente luxuoso, com as paredes laterais repletas de livros e uma lareira do lado direito, um tapete vermelho no chão e uma secretária compacta com uma poltrona de couro de costas para uma enorme janela com vista panorâmica para a escola.

Em frente à secretária estão três cadeiras e atrás dela uma mulher na casa dos sessenta com o cabelo grisalhos e óculos na ponta de um nariz fino a ler umas folhas.

– Sentem-se – disse numa voz doce, embora que um pouco severa e gasta pelo tempo.

Nós obedecemos.

A diretora estudou-nos de alto a baixo.

– Sou a Senhora Milão, Paula Milão e sou diretora deste colégio há treze anos. Normalmente não costumo acolher os novos alunos pessoalmente, mas dadas as circunstâncias resolvi fazer uma exceção – e esboçou-me um leve sorriso.

– Porquê? – pergunta a minha mãe. – que circunstâncias são essas?

– Que circunstâncias? Ainda pergunta? A sua filha ganhou a melhor bolsa de estudo à melhor escola do país com os melhores resultados.

– A senhora está a exagerar – disse o meu pai.

– Não estou nada, esta é mesmo a melhor escola do país.

– Não era em relação a isso – remata a minha mãe.

– Oh! – exclama a diretora, adotando uma postura mais séria. – Há muito tempo que não tínhamos ninguém cá na escola com um QI superior a cento e trinta. Dou-lhe os parabéns minha menina. – sinto a minha face a ficar vermelha. Porque é que esta velha me está a elogiar? – Os senhores devem estar orgulhosos da sua filha.

E pronto, não tenho palavras para descrever a cara dos meus pais, talvez um misto de choque, surpresa e repulsão. Sim, é isso.

Como os meus pais não respondiam a Senhora Milão continua:

– Gostava muito de poder continuar a desfrutar da vossa companhia, mas tenho mais assuntos a tratar. Quando saírem voltem a dirigir-se ao hall e falem com uma das rececionistas que ela vos vai dar informações sobre o quarto e como proceder às mudanças.

Os meus pais agradecem e nós saímos.

Voltamos a descer a escadaria de mármore e a passarmos de novo pelo arco para voltarmos a entrar no hall, os meus pais nem me olham enquanto se dirigem à mesma rececionista que nos interpelou à entrada.

Antes que eles pudessem falar, ela pergunta:

– Como correu com a diretora?

– Bem, menina? – interpelou o meu pai.

– Suzana – e apontou para uma placa com o seu nome presa ao seu peito. Às vezes eles podem ser tão cegos. – Já vou chamar alguém para ir buscar as coisas da sua filha.

Aguardamos cinco minutos, durante os quais Suzana esteve a fazer uns telefonemas e a mexer no seu computador, até que chegaram dois homens que o meu pai acompanhou ao carro.

Virando-se para mim e voltando a vincar o seu sorriso disse:

– O teu quatro fica no edifício Petúnia, terceiro andar, porta sete. Aqui tens a chave. Espero que gostes, vais ter um bom companheiro de quarto – estendeu-me um porta-chaves com o meu nome e uma única chave. – Podes despedir-te dos teus pais, mas ainda vais ter uma semana para te adaptares antes da escola começar.

Agradeço e fico a olhar para os meus pais. Como é suposto despedir-me?

Olho à minha volta e vejo crianças agarradas aos pais, miúdos a darem-lhes beijos. E eu?

Eu?

Eu já sei o que fazer.

– Adeus. – Digo e volto-lhes as costas, saindo da receção e procurando o caminho para o edifício Petúnia.