Kiryuu. pra Você, Eu Sou apenas Kiryuu
1 Requiem I
Notas iniciais
Requiem I
"Existem dores tão doídas
Que deveriam latejar
Uma única vez."
"Kiryuu. Para você, eu sou apenas Kiryuu."
...e desde então o peso dessas palavras sepultou o meu coração. E enfim, a parte do meu peito que queria chorar e gritar, esta parte chorou e gritou...
O meu coração não parecia hesitar naquela ocasião. A consciência do papel que eu assumi foi gradualmente se tornando mais clara. A participação na reunião entre vampiros e caçadores me fez perceber o personagem que eu incorporei: a noiva do puro sangue. Eu fui ao encontro com a convicção de ser Yuuki Kuran, uma puro-sangue capaz de proteger aqueles a quem amava e de manter a paz. Eu pensei que não era mais fraca. Eu pensei que não mais havia Yuuki Cross. Mas aquelas palavras revelaram a face outrora obscurecida.
A reunião estava prevista há algum tempo. O desaparecimento de Kaname foi um fato que se espalhou amplamente. Vampiros que mantiveram suas presas longe de pescoços humanos perceberam que este era o momento ideal para obterem sangue fresco. O caos era iminente. A necessidade de abandonar o medo e a desconfiança se apresentava de forma crucial. Os vampiros e caçadores teriam que alinhar os seus espíritos junto a um mesmo fim. Era preciso rasgar o véu da discórdia. O frágil elo no qual a coexistência entre essas duas raças foi construído estava próximo de ser rompido. Por esta razão, eu reuni determinados alunos da classe noturna. Isso servia como uma mensagem aos vampiros oportunistase e ao mesmo tempo, era um sinal de cooperação com os caçadores. Mas quando eu entrei na sala, senti uma atmosfera densa. Vampiros e caçadores se posicionaram de modo polarizado. Isso demonstrava claramente que havia dois lados distintos, algo bem longe de representar uma unidade.
"Acho que isso não era o que mamãe queria."
- Já podemos começar. Kiryuu-kun virá em breve.
Medo. Tristeza. Saudade. Vontade. Sede.
Todos estes sentimentos ganharam vida ao som desse nome. Todas essas sensações se devem apenas a uma razão de ser. Tudo isso clama por um só nome.
- É um pouco delicado, Presidente. É difícil construir confiança enquanto você tiver aquele caçador, Kiryuu. Poucos vampiros têm aquela sede de sangue. A voracidade dele impressiona ao mais sanguinário entre nós. A reputação do Kiryuu é desconfortante.
- Sim, ouvimos um boato de que ele não deixa sobrar nada. Vocês compreendem o que eu quero dizer...
"... ele não deixa sobrar nada ..."
Uma silhueta imersa em um denso manto rubro se erguendo sobre um dilacerado cadáver. Corpo. Carne. Sangue.
Zero devorando alguém até o pó do osso.
À essa divagação, uma sensação de terror foi criando consistência no meu estômago. Um homem que desprezava o próprio desejo por sangue. Um homem que se tornou aquilo que ele mais odiava.
Zero, que sempre odiou os vampiros.
Zero, que nunca quis machucar ninguém.
Zero deve ter nojo de si mesmo.
Foi o que pensei.
- De fato, uma aberração. Se ele fosse um de nós, iríamos matá-lo antes que ele se tornasse um Level-E. Mas, ele é um cão da Associação.
Um antigo vampiro disse essas palavras e elas pareciam tratar de algo tão distante, tão escondido, tão surreal.
Uma aberração.
Matar.
Level-E.
- Senhores, nós sabemos que ele não viverá para sempre, uma vez que está fadado ao perecimento. Assim, não devemos apressar as coisas. Evitemos animosidades.
Eu não sei quem disse isso. Eu não lembro, pois àquela altura, os meus medos já se faziam senhores de mim.
Para sempre. Ele não vai viver para sempre.
Não.
Uma densa e amarga lágrima percorreu o meu rosto, anunciando que a tormenta tantas vezes reprimida, finalmente, havia se anunciado.
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