Kira

2 Capítulo 1


A tela do computador era um enigma para os olhos de Kira. O jogo que aparecia na tela já estava perto de ser vencido; não era tão difícil assim, um FPS que tinha alguns objetivos em cada partida. A cabeça do garoto estava a mil pensamentos, olhando para a tela e tentando armar uma estratégia para vencer o jogo online. Nessa partida o objetivo era pegar um cristal transparente; Kira já sabia onde estava o cristal, mas não queria ir logo de cara para não levantar suspeitas e outros jogadores não irem atrás. O tempo de jogo já estava acabando, faltava cinco minutos para acabar. Então pronto, o jogo havia acabado; um dos vários oponentes de Kira havia pego o cristal. O garoto desligou o computador em sinal de decepção; Kira não era um mau jogador, mas ultimamente estava perdendo por ficar tempo demais pensando em estratégias perfeitas. As pertidas que eram perdidas de um certo modo, feriam seu orgulho.

Deu um leve suspiro virando sua cadeira de costas para a mesa do computador e fitando o quarto pequeno e vazio. Só ele morava ali, os pais morreram há dois anos e deixaram para ele uma pequena fortuna, que foi suficiente para alugar o cubículo onde morava. Era um quarto bem pequeno, que possuía apenas uma cama, uma escrivaninha e uma banheiro; não tinha nem cozinha, o que obrigava o garoto a ter de se alimentar na rua. Acima da cama havia uma janela que tinha vista para a cidade e para os diversos prédios e outdoors que preenchiam a cidade de Tóquio.

Espantando o sentimento de solidão, Kira se levantou e foi para sua cama ficando de joelhos na mesma de frente para a janela. Devia ser aproximadamente onze horas da noite, mas estava tudo tão iluminado nas ruas que passava a impressão de ainda estar cedo; os prédios mais altos eram os que possuíam mais anúncios, todos vibrantes e coloridos. A maior parte deles era sobre os jogadores carreiristas e notícias de quem subiu no Ranking na última semana. Os olhos de Kira pousaram em um específico; estava no prédio mais alto e também era o maior anúncio. Nele estava um garoto em pé, com uma arma de fogo por cima do ombro direito segurada também pela mão direita; Kira não sabia dizer quantos anos o garoto tinha, mas arriscava pensar vinte anos. O cabelo era negro e raspado nas laterais, fazendo com que fosse acumulado na parte de cima da cabeça; o que mais chamava a atenção eram os olhos, vermelhos como duas pedras de rubi em seu rosto. O olhar era tão penetrante que mesmo sendo só um anúncio, Kira sentiu-se intimidado. O nariz e a boca eram cobertos por uma lenço que tnha o desenho do nariz e da boca de uma caveira, como se aquela parte do corpo do garoto fosse assim. Kira correu os olhos por todo o anúncio parando nos pés do rapaz, onde estava seu nome. Subaru Matsukami. Estava em nono lugar no Ranking e nunca havia perdido sua colocação, Kira sabia disso pois prestava atenção nos jogadores carreiristas; sempre fora muito ligado aos jogos por causa de sues pais que eram jogadores carreiristas antes de ele nascer. Kira já havia sonhado muito em se tornar um jogador, para ele pareci ser muito bom jogar, vencer e se desse sorte, seria patrocinado e ganharia dinheiro, mas o sonho havia sido deixado de lado após a morte de seus pais.

Kira afastou sua vista da janela e sentou-se de costas para a mesma. Olhar aquele menino no anúncio o fez pensar como seria participar daquilo, como seria estar em um anúncio no meio de Tóquio. Todos aqueles pensamentos pareciam ser bons, mas havia algo de macabro neles, algo que mantinha Kira afastado da ideia de se tornar um jogador era como uma sensação ruim, como se algo ruim fosse acontecer se ele virasse um jogador. Não era a primeira vez que ele pensava naquilo, então afastou a ideia da cabeça antes que ficasse maior. O garoto ainda não estava com sono, ainda queria fazer algo antes de dormir; então pegou algumas moedas vestiu seu casaco e saiu de seu pequeno cubículo.

Ao atravessar a porta do prédio onde morava, uma leve brisa passou por seu rosto deixando a ponte de seu nariz um pouco mais fria do que o resto de seu rosto. Ainda não era inverno, mas como este estava chegando, o clima estava começando a mudar. Kira andava a passos largos pelas ruas de Tóquio, com uma certa ansiedade de chagar no local desejado. As ruas ainda estavam cheias mesmo que o horário fosse tarde; todas as lojas estavam abertas com seus letreiros neon acesos, os restaurantes estavam servindo pratos e os fliperamas ainda estavam sendo alimentados por moedas de seus jogadores. Ao virar uma rua, Kira viu um grupo de adolescentes falando alto e fazendo apostas sobre quem venceria o Challenge dessa noite dos jogadores carreiristas. Um garoto ruivo de piercing no nariz apostou uma nota de cinquenta, e Kira julgou que ele estava sendo confiante demais.

Kira entrou em uma rua que estava um pouco mais deserta, havia apenas portas fechadas e pessoas cuidando das portas. O garoto fechou o casaco em volta de seu corpo como que para se proteger dos olhares de estranhos. A porta que precisava entrar era perto do fim da rua, uma porta vermelha de número 101. Após mais alguns minutos de caminhada, Kira chegou na porta e na frente da mesma havia uma mulher de cabelos curtos e lisos com lentes implantadas nos olhos, provavelmente estaria guardando a porta.

-- Senha. – disse a mulher.

-- O bolo é uma mentira*. – disse Kira

A mulher nada disse, apenas se afastou e deixou que o garoto entrasse. Já do lado de dentro, Kira se viu num pequeno corredor com uma porta no fundo e ao lado dessa porta dois homens de pelo menos vinte e cinco anos que eram uma espécie de segurança. Kira andou até eles e foi revistado pelos mesmos que o deixaram entrar após a revista.

(* “O bolo é uma mentira” – frase do jogo Portal)

Quando Kira passou pela porta, foi como se sentisse em casa; conhecia tudo ali, todas as máquinas, todos os operadores até os androides que faziam a manutenção. Naquela noite a lan house estava particularmente cheia, praticamente todas as cabines de fliperamas estavam lotadas. Kira andou calmamente em busca de uma cabine que estivesse vazia, até que achou uma, estava bem no canto. Chegando lá, pegou o capacete de realidade virtual e escolheu um jogo de FPS e começou a jogar. Pelo jogo ser online, Kira acabara competindo com algumas pessoas que estavam dentro da própria lan house, e pela sua habilidade e o fato de estar ganhando, pessoas começaram a se aproximar da cabine de Kira que tinha uma tela, assim como todas as outras, para mostrar o que estava sendo jogado. Ao final do jogo, Kira já havia ganhado e foi aplaudido pelas pessoas que estavam em volta. Quando tirou o capacete, alugas pessoas foram apertar sua mão, deixando o garoto surpreso. Kira já havia ganhado várias partidas naquela mesma lan house, mas aparentemente só hoje as pessoas resolveram prestar atenção nele e em como ele joga.

Depois de receber alguns cumprimentos, Kira se dirigiu ao bar que havia ali se sentou-se no balcão pedindo uma copo d’água.

-- Você jogou bem hoje. – disse o barman, cujo nome era Carlos, um espanhol que veio tentar a vida no Japão.

-- Eu sempre jogo bem – disse Kira com uma certa arrogância. – Só que hoje as pessoas perceberam.

-- Escuta, se tem toda essa vontade de ser reconhecido pelo o que faz, por que não vira carreirista?

Kira contraiu os lábios e deu um gole de sua água antes de responder.

-- Se fosse pra eu virar carreirista, não seria apenas para ser reconhecido, e sim porque gosto de jogar.

-- Sabe, você é ambicioso, Kira. Não parece, mas é. Então duvido muito que queira ser carreirista apenas porque gosta de jogar. – Carlos disse passando o pano em um copo de vidro que havia acabado de sair da máquina de lavar louças.

Kira encarou o homem a sua frente por um tempo, seu orgulho havia sido um pouco ferido, mesmo que Kira detestasse ter de admitir isso.

-- Não sou ambicioso, não do jeito que está pensando. Se eu virar carreirista será por prazer em jogar, e não pra provar isso pra alguém.

E dizendo isso, Kira se levantou, pagou a água e foi embora. Durante todo o caminho até chegar em casa ficou pensando no que Carlos dissera-lhe. Sempre quis ser um jogador carreirista, mas será que era mesmo porque apenas gostava de jogar? Ou para provar algo a alguém? Em seu âmago Kira não sabia, pensava que sabia, mas não sabia. E ao chegar em seu cubículo, movido pela raiva se inscreveu na Escola de Treinamento, decidido que ia provar para Carlos ou até para si mesmo o porquê de querer tanto ser um jogador carreirista.