Kira
3 Capítulo 2
O dia estava nublado e chuvoso, as gotas de chuva escorriam pela janela do trem e a paisagem do lado de fora corria em frente aos olhos de Kira. Estava indo rumo à Tsukaba, cidade que ficava á nordeste de Tóquio onde tinha a Escola de treinamento mais próxima, já que não havia nenhuma em Tóquio. Kira voltou seus olhos para o interior do trem, era cinza, todo metálico e a maioria das pessoas estava dormindo, isso incluía o rapaz que estava sentado ao seu lado. Era domingo, de manhã e com chuva, Kira conseguia compreender o estado das pessoas. Os outros passageiros que não estavam dormindo estavam com suas telas digitais para ver notícias, jogar um jogo ou até mesmo acompanhar o Ranking. Todas as telas digitais emitiam uma luz de cor azul celeste, o que se tornava quase uma missão impossível não se distrair com ela. Kira tateou os bolsos até a encontrar a sua que estava no bolso esquerdo, parecia com dois hashis juntos só que de metal; ao serem separados por Kira, foi como o desenrolar de um papiro, mas nos tempos de hoje. A pálida luz azul cobriu os olhos de Kira fazendo com que toda sua atenção fosse concentrada no pequeno objeto em suas mãos.
O garoto acessou o canal dos jogadores carreiristas para analisar o Ranking, os dez primeiros colocados continuavam os mesmos, não havia nenhuma mudança desde a última vez em que havia checado. De uma maneira geral, as mudanças de colocação mais notórias eram dos que estavam entre os vinte primeiros; Kira clicou na tela para analisar melhor o artigo e viu que uma rapaz havia mantido a posição de décimo quinto lugar por três meses desde o havia conquistado há três meses. A atenção de Kira não permaneceu muito tempo no garoto ruivo do décimo quinto, pois outra pessoa havia lhe chamado a atenção. Era uma garota que parecia ser metade humana, metade androide; os cabelos negros presos em duas marias chiquinhas e os olhos atrás de óculos digital de lente transparente laranja. A garota tinha quatro braços e na foto seus dois braços direitos carregavam uma arma de fogo. Na visão de Kira, ela devia ter muitos patrocinadores, pois as duas armas que ela possuía eram muito boas – e Kira reconhecia isso -, e seu cinto de munição estava cheio. Estava em décimo segundo lugar no Ranking e o que mais impressionava era o fato de ela ter conquistado esse lugar em uma semana tendo partido do décimo sétimo lugar. Não deu tempo de Kira ver o nome da garota, o trem já havia chegado na estação.
Ao sair do trem, Kira teve de ir em direção ao terminal de ônibus para pegar aquele que o levaria até a Escola de Treinamento que ficava mais ou menos uma hora dali. Quando chegou no terminal, apenas deu seu nome na bilheteria e o robô que estava atendendo deu a direção para Kira; e então ele viu o ônibus. Era com estampa de camuflagem, mais ou menos no tamanho de um ônibus escolar; havia uma placa que na verdade era uma pedaço de papel – coisa que há muito não se via – com os dizeres: “Futuros jogadores carreiristas, podem subir.” Kira ficou parado por pelo menos uns cinco minutos na frente da porta do ônibus, hesitendo na hora de subir.
-- Sabe, você está atrapalhando a passagem. – disse uma voz atrás dele.
Kira se virou e deu de cara com um garoto de cabelos prateados e olhos de um verde elétrico. O garoto tinha fones de ouvido verdes pendurados no pescoço; com certeza era mais velho do que Kira e mais alto também.
-- Se não se importa, poderia decidir logo se vai subir ou não? – disse o garoto apertando o casaco contra o corpo. – Está caindo uma chuva leve e não quero me molhar, está frio.
A chuva estava tão sutil que Kira nem percebeu que ela estava caindo, tampouco que estava fria. Deu um passo para o lado liberando a passagem; o garoto de cabelos prateados subiu no ônibus. Ao ver a ação do outro, a realidade começou a bater para Kira. Ele realmente havia saído de casa e deixado tudo pra trás para tentar a sorte sendo um jogador carreirista. Subiu no ônibus e logo ao entrar, viu que não havia tantas pessoas, apenas ele mesmo, o garoto do cabelo prateado e duas garotas, uma de cabelos negros e outra de cabeça raspada. Todos estavam coma feição dura, inclusive o próprio Kira; saindo de um devaneio, o garoto caminhou até o fundo do ônibus e sentou-se em um lugar vazio. Passou pela sua cabeça se sentar com o garoto de cabelos prateados, mas este fora um pouco frio com Kira fazendo o garoto pensar que não queria sua presença ali. Depois de colocar sua mochila no chão entre suas pernas, Kira recostou a cabeça no banco e fechou os olhos por pelo menos dez segundos, quando os abriu novamente, olhou para a janela e viu seu rosto refletido levemente e pensou se aquilo que decidira em uma hora de arrogância e orgulho ferido era o certo a se fazer; ele nem havia começado o treinamento, nem sabia ou imaginava como seria e já estava uma tanto quanto arrependido. Entretanto, não poderia desistir, não agora e também nem se quisesse seu orgulho o deixaria desistir por medo do que viria pela frente.
Uma garota entrou no ônibus fazendo com que Kira despertasse de seus pensamentos. Estava vindo em sua direção e Kira percebeu que ela fazia um pouco de barulho ao andar, um barulho metálico. O garoto se esticou um pouco no banco e viu que ela também mancava, seus olhos correram pela garota e pararam no rosto, ela tinha os lábios contraídos e a testa um pouco franzida, provavelmente pelo esforço de estar andando; os cabelos eram roxos presos em duas maria chiquinhas altamente simétricas. Kira queria ver a perna dela, mas não deu tempo pois ela estava bem próxima, fazendo com que o garoto desviasse a visão corando levemente em seguida.
-- Poso me sentar aqui? – perguntou a garota. – É que na frente eu sinto enjoo.
-- Claro. – respondeu Kira.
A garota se curvou levemente como forma de agradecimento e se sentou no banco ao lado de Kira.
-- Me chamo Mia – disse a garota.
-- Sou Kira – disse ele com um leve sorriso tímido.
Kira voltou seu olhar para os próprios pés e foi focando rapidamente nos pés de Mia, ela pareceu notar, pois logo disse:
-- Eu sofri um acidente há um mês, é por isso que estou aqui, para pagar a prótese.
-- Sabe, há meios mais fáceis e mais seguros de se pagar uma prótese do que virar uma jogadora carreirista.
Mia deu um sorriso fraco enquanto olhava para a prótese e depois olhava para Kira.
-- Você parece ser legal, então vou lhe contar o que aconteceu. – começou Mia – Essa não é a primeira vez que subo nesse ônibus e talvez nem seja a última; eu era da equipe do Subaru Matsukami, já deve ter ouvido falar dele, e em uma partida que não era em realidade virtual eu perdi a perna esquerda. Subaru disse que pagava minha prótese e na verdade ele pagou, mas disse que agora eu tinha uma dívida com ele e que devia pagar logo.
-- Se ele te ajudou, por que queria algo em troca? – perguntou Kira.
-- Kira, há pessoas que realmente se importam com as outras e por isso fazem o bem sem esperar nada em troca. Subaru não faz parte desse grupo.
Kira abriu a boca pra falar algo mas foi interrompido por um homem de aparentemente quarenta anos, com cabelo desarrumado, roupas surradas e um band-aid na bochecha esquerda.
-- Bem, estamos partindo para a Escola, espero que todos estejam conscientes do que estão escolhendo. – a voz do homem era rouca, mas era firme.
Kira virou-se para Mia, que parecia estar muito entretida com o interior de sua mochila.
-- Quer um sanduíche? – perguntou ela.
-- Não obrigado; sabe, essa história do Subaru te obrigar a pagar ele ainda não faz muito sentido pra mim. Digo, não pensei que ele fosse assim...
Mia soltou um suspiro e olhou Kira nos olhos.
-- Olha, eu vou te avisar agora pra não ter nenhuma desilusão no futuro. A maior parte das pessoas que vem pra cá não as mesmas pessoas que lutam pelos direitos dos animais, pelo fim da desigualdade social ou pelo governo corrupto. As pessoas que vem pra cá são apenas jogadores, e em sua maioria ambiciosos; a maioria só pensa em si mesmo e em como poderia mostrar pro Japão inteiro que joga bem. Subaru é uma dessas pessoas, ele é do tipo que atropela os limites de todos pra vencer, e foi o que ele fez comigo. – ela fez uma pausa e soltou a última frase quase como um sussurro – Shinya estava certo em deixa-lo sozinho.
-- Quem é Shinya? – perguntou Kira.
-- Você provavelmente já deve ter ouvido falar dele, mas ele e Subaru eram amigos, amigos de infância; mas a ambição de Subaru separou os dois, pelo menos é o que se diz por aí.
Kira pousou os olhos nas próprias mãos que estavam em seu colo. Ambição. Será que poderia cegá-lo assim como cegou Subaru? Kira tinha medo de seus pensamentos, medo do que poderia se tornar e medo do que poderia já ser e ainda não soubesse.
A “viagem” não foi muito longa, mas silenciosa. Mia ficara durante todo o caminho entretida por sua tela digital enquanto Kira se contentara com a paisagem. Conforme o tempo passava o garoto começava a ficar ansioso, queria saber como seria o treinamento, já que os jogos ele já tinha uma breve noção de como funcionava.
Foi então quando ele viu, a Escola de Treinamento estava bem ali, um prédio de cinco andares altamente tecnológico. Kira sabia que apesar de ter só cinco andares na superfície, o prédio tinha muitos andares de subsolo. O ônibus começou a ir em direção a uma espécie de garagem e logo que o veículo se aproximou, o portão abriu. A garagem estava cheia de ônibus iguais ao que Kira estava embarcado, alguns estavam se preparando para sair e tinha alguns outros que estavam chegando; as outras pessoas que estavam desembarcando de outros ônibus provavelmente eram de outras partes do Japão. O ônibus de Kira por fim parou em uma vaga; o motorista, que era o mesmo que falara antes de o ônibus partir, disse:
-- Chegamos, usuários – disse o motorista já em pé e de frente para os passageiros – Não esqueçam nada, o que estiver no ônibus fica para mim.
As outras pessoas que estavam sentadas mais a frente já estavam se levantando; Kira era o último da fila para descer e quando o fez, Mia estava na frente da porta o esperando.
-- Eu não ia te deixar sozinho em um lugar com pessoas que nunca viu na vida. – disse ela.
Kira deu um pequeno sorriso de lado, a agradeceu com uma leve reverência e foram juntos para a saída da garagem em direção ao prédio.
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