Kintsugi
1 Capítulo Único
Notas iniciais
tap tap tap tap
Os dedos da mão direita tamborilam pela mesa de centro; o vidro temperado agora com várias visíveis marcas engorduradas.
tap tap tap tap
A luminosidade entrando pela porta balcão da sacada quase não é suficiente para clarear toda a sala de estar; o céu de um fim de tarde quente – muito quente –, com poucas nuvens e um tom alaranjado no horizonte, adornado por pequenos traços rosados em diferentes tons – uma “aurora boreal” parisiense.
tap tap tap
Ele suspira profundamente; os braços, antes apoiados sobre os joelhos das pernas afastadas, esticam-se sobre o encosto do sofá. Sua forma se afunda um pouco mais nas almofadas há muito gastas enquanto a cabeça é jogada para trás e os olhos se encontram com o teto. Por breves segundos eles vagueiam pela cor levemente amarelada de uma pintura antes branca, até que logo se fixam em uma ondulação quase imperceptível próximo ao lustre de luz apagada no centro – aquela ondulação hoje faz aniversário ele pensa. Oito anos, na verdade. Uma rolha de espumante que, com muito mais intensidade do que se era esperado, voou como um foguete sem rumo e fez sua marca no teto até em tão imaculado do nosso novo lar.
A sombra de um sorriso se desenha na sua bochecha esquerda; apenas uma sombra, uma vez que ele não se forma realmente. O que naquele momento ele percebe, com conformada tristeza, ter acontecido com certa frequência – não há oito anos, não; também não desde o início do isolamento; não desde o falecimento de um dos amigos do casal em decorrência dos sintomas da COVID, não; não desde a intensa discussão da última terça-feira Pera. Era mesmo terça-feira? Que dia é hoje memo? Sábado? É, sábado.
Ele não consegue pontuar com clareza quando começou. Droga, no momento ele não sabe pontuar com clareza nem o dia da semana! O trabalho é uma porcaria; ele está trancado dentro desse apartamento desbotado há meses; já perdeu a conta dos velórios que não pode comparecer; está calor para um cacete; a televisão quebrou e a relação mais importante de sua vida parece completamente falida! Foda-se que dia é hoje, eu sinto nossa falta!
Os olhos castanhos se fecham e por um segundo ele acredita que o choro virá. Ele consegue sentir aquele nó familiar que se esgueira lentamente pelo seu estômago, contorce-se e sobe como se fosse um punho inteiro pela sua garganta; e quando ele pensa que vai sentir os dedos saindo por seus lábios e as lágrimas escorrendo pelo desconforto excruciante ele sente o cheiro de queimado e o alarme do detector de fumaça explode pela sala.
Entre o movimento de levantar-se do sofá e correr até a cozinha o cômodo já parece completamente empesteado pela fumaça acinzentada – sua fonte facilmente detectável. Com o punho voltando para o nó de onde veio e a súbita tensão em decorrência do susto ele quase se esquece das luvas de proteção, parando a meros milímetros da forma enegrecida. Com certo desespero nos movimentos ele se lança sobre a luva depositada na bancada, veste-a, retira o que era para ser uma fornada de madelaines e a lança com tanta, tanta força contra a pia que ela ricocheteia e o acerta no braço esquerdo com a borda escaldante. O grito que se desloca pelo cômodo e se mistura com o som do alarme de fumaça é mais um lamento doído; um cão chutado na costela repetidas vezes. E é exatamente como ele se sente. Ao menos se esse cão fosse um homem de 37 anos passando por um evidente quadro depressivo é o que ele diz que recorreu as aulas online de culinária para tentar obter o mínimo de alento e manejar seus rompantes agressivos de impaciência.
A porta do que ele sabe ser a suíte se choca contra a parede no fim do corredor do outro lado do apartamento; ele sente em suas pernas a vibração dos passos pesados, apreçados vindo em sua direção. Por um breve momento ele pensa em simplesmente ignorá-los ignorá-lo, mas não consegue mais uma das muitas coisas que eu não consigo. Os olhos castanhos se chocam com os pés descalços no assoalho, deslizam pelas pernas desnudas e levemente arqueadas para os lados; sobe pela bermuda; passa pelo tronco magro coberto por uma regata branca; se arrastam pelo pescoço de linhas elegantes; desvia da boca de lábios que ele sabe serem sedosos mesmo após 35 anos de uso; e finalmente se fixam nos orbes amarelos sempre tão lindos; agora assustados e sobre ele de onde se encontram na entrada da cozinha.
É nesse instante, que pareceu prolongar-se por muitos minutos, que ele se dá conta do que os olhos amarelos veem. O cômodo embasado pela fumaça; o que deveriam ser madelaines, espalhadas pelo chão ao entorno de uma figura acanhada, que um dia pareceu ter mais de um metro e oitenta de altura, mas que agora se encontrava sentada sobre os tornozelos de forma derrotada; usando apenas uma cueca boxer preta – que se enrolava sob o excesso de gordura que ele passou a acumular em seu abdômen nos últimos dois anos – e uma luva térmica de flamingos na mão direita – essa que se agarrava com mais força do que deveria ao braço esquerdo, logo, ocupando, então, o par de mãos que poderia tentar secar e disfarçar as lágrimas que escorriam com ferocidade silenciosa pelas bochechas rosadas.
Ele se sentiu patético. Pode sentir na língua o pedido de desculpas que não teria condições de formular Eu sinto muito. Sinto muito que você tenha de ver algo tão patético. Você merece mais. Sempre mereceu. Em sua pequenez e completamente rendido pela sensação de derrota, ele nem mesmo conseguiu desviar o olhar envergonhado, podendo assistir o exato momento em que os olhos amarelos suavizaram, as ruguinhas nos cantos se desenhando da mesma forma gentil que sempre se desenharam – desde a adolescência, quando tirava sarro delas na roda de amigos, mas beijava-as com reverencia quando se encontravam escondidos atrás da quadra da escola.
Ele os perdeu eu te perdi de vista quando a figura atravessou a cozinha para fora do seu campo de visão. Rapidamente o barulho do alarme cessou e uma brisa tímida entrou pela janela agora aberta. A figura passou com velocidade ao seu lado; os pés descalços desviando das madelaines; o calor vindo do forno diminuiu com o fogo desligado e a porta fechada. Ele deu mais alguns passos apreçados até a geladeira, com o que parecia ser uma toalha nas mãos – sua figura encurvada sendo encoberta pela porta branca. Quando os pés pararam em sua frente só conseguia pensar que aquilo tinha de acabar você merece mais. Hoje. Agora. Contudo, não conseguia encará-lo – seus olhos vermelhos, as bochechas molhadas, os lábios pressionados com força para tentar disfarçar os soluços que antes o som do alarme encobrira patético.
Quando sentiu o toque leve, hesitante, quente muito quente sobre a pele do seu ombro esquerdo o primeiro pensamento que teve foi de afastar-se – realmente acreditou que seu corpo se lançaria para trás e se afastaria Isso tem que acabar agora!... não. Nenhum movimento foi feito – e como se não pesasse nada, como se o outro tivesse pleno controle sobre seus membros –; ele se deixou ser posto sobre seus pés novamente e de forma delicada e gentil as vezes eu me esqueço do quão gentil você pode ser quando quer se viu sendo levado até o mesmo sofá do qual havia se levantado em um rompante há poucos minutos. Agora, com a luz acessa, poderia facilmente percorrer com os olhos e com falsa paciência o ambiente até pouco tão lúgubre. Porém, não conseguia levantá-los da mancha deixada no assoalho pelo cigarro esquecido alguns anos atrás Eu te amei tanto aquela noite. Eu me senti tão amado aquela noite. Te quis com tanta afobação. Te quis...
Ele se sentou ao seu lado no sofá. Com aquela mesma “distância segura” dos últimos tempos; no limite do alcance do cão feroz encoleirado encoleirado, chutado. Mas o toque em sua mão direita, agora sem a luva Quando ele tirou?, fora tudo menos temeroso. Tão delicado que quase voltou a chorar Quando parei? Inclinou-se no assento almofadado, posicionando o rosto de forma a capturar os olhos castanhos com os seus amarelos e, como sempre, foi bem-sucedido.
Tão, tão gentis ele pensou e tanta melancolia escorrendo pelas beiradas. Eles faziam uma pergunta, que logo fora respondida por um aceno de cabeça quase imperceptível. Enquanto a pressão leve permanecia em sua mão direita, outra, gelada e dolorida se posicionou sobre a queimadura – onde ficou por alguns minutos, até que um movimento involuntário de desconforto enviou o recado para que o pano com gelo fosse afastado. Essa sequência de ações se repetiu por diversas vezes, em profundo silencio emoldurado pelo som do trânsito de Paris, que invadia a sala pela porta ainda aberta.
De cima da mesa de vidro ele recolheu uma bisnaga De onde isso veio? Quando E com ela em mãos, mais uma vez fez uma pergunta muda. Com uma delicadeza calculada ele espalhou o gel transparente sobre a mancha vermelha, trazendo em poucos segundos a sensação de alivio provavelmente causada por algum analgésico na fórmula. Quando terminou a aplicação, pode ver o par de mãos grandes se afastando com a toalha e bisnaga; sentiu o peso nas almofadas desaparecendo e pelo canto dos olhos viu a figura, tão alta quanto a sua um dia já foi, afastando-se até sumir.
O nó se desatou! Desatou-se em diversas pontas de sisal que açoitaram seu estomago com tamanha violência que pensou que desmaiaria. Uma das pontas subiu pela sua garganta – onde o punho antes esteve –, sentiu-a arranhando seus lábios, lacerando sua bochecha, enlaçando-se como uma cobra peçonhenta a sua garganta e fechando sua passagem de ar quase completamente. As mãos desesperadas voaram em direção ao seu pescoço para dali arrancá-la, e voltaram vazias. Não havia corda, não havia nó e mais uma vez não havia nada que ele pudesse fazer Patético! Eu vou perdê-lo! Eu te perdi! Eu te perdi! Ele vai embora! Acaba hoje! Acabou! Acabou...
Hey! Hey! Eu estou aqui! Olha pra mim. Eu estou aqui! Eu estou aqui com você. Vai ficar tudo bem. Já vai passar. Tenta respirar junto comigo, tudo bem? Você consegue. Eu estou aqui com você. Seu amor, certo? Eu estou aqui com você, amor. Onde nós estamos, amor? Isso mesmo, na nossa sala. Na sala do nosso lar. Em que bairro mesmo? Respira junto comigo. Muito bem! Qual o bairro mesmo? Exatamente. Escolhemos esse bairro por conta das flores, lembra? Hoje é nosso aniversário. Oito anos do nosso lar, amor. Você lembra o total? 22 anos! Que beleza! Uma pena que a gente só transa há 15...
Ele sorriu. Foi leve – entre uma inspiração vacilante e uma expiração tremula –, mas foi mais do que uma sombra. Ele suavizou o aperto de aço nas mãos enlaçadas as suas, e enquanto encarava os olhos amarelos adornados por suas ruguinhas gentis ele sentiu tanto, tanto amor por aquele homem! O desespero foi sumindo; a sensação de pequenez suavizando. Ele sabia que não era patético; seu amor já lhe dissera isso incontáveis vezes – em alguns momentos era difícil de acreditar. Ele estava em sua sala, em seu lar que dividia com o homem mais humano que já conheceu; mais falho e mais perfeito; que tinha o olhar mais deslumbrante e uma boca macia que sempre fez milagres. Ele estava em casa, com seu melhor amigo desde a adolescência; sua grande paixão; com quem construíra uma vida aos trancos e barrancos e com quem, pelo que as vezes parecia um milagre, ainda poderia ter muito a construir.
Naquele momento, quase como se soubesse exatamente o que lhe passava pela mente – provavelmente ele sabia –, seu amor sorriu. Discreto, cansado, mas também com tanto amor! Eles estavam quebrados. Ele se esvaía pelas rachaduras ao ponto de sentir como se já não sobrasse nada. Mas havia tanto amor. Esperança densa e palpável entre eles no sofá – onde já não havia distancia alguma do cão feroz. Manso, acalentado com suas costelas feridas.
Ele se lembrou do fim de tarde daquele dia. Do céu adornado com cores como se por um lapso a natureza houvesse esquecido que não existia tal coisa como “aurora boreal parisiense” e tivesse desenhado seu céu como uma grande obra de arte Kintsugi. Como se suas rachaduras fossem reparadas com ouro rosé e dali nascesse uma nova paisagem – diferente de antes, e tão bela quanto... Com a luz amarela a sua frente, ele decidiu ser Kintsugi. Por mais difícil que fosse; por mais inútil que as vezes parecesse; independente dos processos necessários ou da quantidade de fornadas que precisasse fazer daquelas malditas madelaines; ele juntaria seus pedaços e preencheria as rachaduras com um belo dourado. Por ele mesmo. Porque ele merecia mais. E porque o amor deles merecia mais.
Ele desvencilhou os olhos castanhos dos orbes gentis e direcionou-os ao lado oposto do apartamento – ao chão coberto pelo que pareciam pequenos bloquinhos de carvão. Com um suspiro ainda tremulo pensou Bom, podemos começar arrumando essa bagunça.
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