Kingu Revamp

3 Primeiro Movimento.


Notas iniciais
Wow. Isso demorou muuuuito já que tive vários problemas no meio do caminho. Tive que mapiar a cidade, pensar em histórias de fundo, layout da cidade, a história dela e muito, mas muito mais. Não vou mentir que fiquei com preguiça no meio do caminho, mas consegui terminar. Não acho que seja o melhor capítulo que fiz, disso tenho certeza, porém no minimo estou satisfeito em tê-lo terminado. Enfim, é isso, fique com o capítulo.

Capítulo 3: Primeiro Movimento.

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“Eles eram seus peões, lacaios que tomaram forma para guerrear pelo seu mestre. Eram vazios, sem vontade, sem ego, sem voz.

Frutos do Arauto, eram escravos da vontade de seu senhor.

E então eles entraram em uma longa batalha contra os Primaris, tão longa que gerações se iniciaram e tiverem seu fim nos anos de guerra.

Eles não tinham nome, não tinha identidade, os aventureiros que lutavam contra eles lhe chamavam de Nihillians. Porque eles eram nada nem ninguém. Ocos. Não sentiam nada, não sentiam dor, angústia ou medo.

Porém surgiram traços de algo nestas criações vazias. Egos. Nihillians com vontades, com emoções, mas ainda acorrentados pela regra do Arauto.

Os Reis chamavam esses seletos de Expergiscens. Eles eram melhores. Mais rápidos, mais fortes, mais resistentes. Ameaças muito mais perigosas que um Nihillian comum.

Mas eles não eram uma ameaça por isso. Não era porque eram mais rápidos ou mais fortes.

Mas porque eles tinham algo que o inimigo comum não possuía.

Eles lutavam por algo maior que uma ordem.

Maior que uma obrigação de um mestre cruel.

Eles lutavam para sobreviver.

Lutavam para aprender a viver.

Lutavam para saberem quem eram.

(...)

No final do conflito que durou eras, Kingu, de forma misericordiosa com o restante do exército inimigo, lhe deu um lugar para viver sem os grilhões de seu mestre e o peso de seus atos.

Lhes deu um lar e um novo nome.

A raça Enari.”

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Distrito Sōryū, Unkaichō, tarde da noite.

Ele olhou novamente para o papel em suas e então voltou a atenção para o prédio abandonado que estava a sua frente.

O local em questão era conhecido entre os moradores como “O Esqueleto de Sōryū, um prédio cinzento, brutalista, com doze andares projetados e apenas oito erguidos. A construção fora interrompida há sete anos, quando a empreiteira responsável, Kashiwada Design, entrou em colapso após denúncias de superfaturamento e desaparecimentos de funcionários terceirizados.

Desde então, a obra permaneceu ali, como um monólito inacabado de concreto, envolto em tapumes rasgados e redes de contenção pendendo como pele morta. Os andares superiores não tinham paredes completas, e o vento cortante do mar carregava para dentro da estrutura um uivo constante – sons que ganhavam tons humanos nas madrugadas.

OoOoOOoOoOoOohhhh

Diziam os boatos que eram os sons dos espíritos dos desaparecidos do caso Kawashida que assombravam o local por causa que nunca acharam seus corpos, isso criava um ótimo motivo para a população sequer pensar em aventurar-se perto dali, contudo também fazia com que o prédio inacabado fosse um refúgio para gangues locais que o usavam para esconder produtos roubados, reuniões de delinquentes ou até a pior hipótese possível, cadáveres.

Naquela noite, foi o guarda Inoue Tetsuro quem recebeu o chamado.

Três testemunhos distintos, todos de comerciantes locais, diziam ter ouvido sons vindos do prédio por volta das 2h da manhã. Não gritos, exatamente – mas ruídos de algo se arrastando e debatendo-se pelo caminho, e um eco grave, quase vocal, vindo do oitavo andar.

Tetsuro era um guarda experiente, já lidara com invasores, moradores de rua, até adolescentes testando coragem, mas acima de tudo, ele era um pai solteiro que deveria -que tinha – que voltar para casa, para sua única e última família, sua filha. Nada motivava mais para voltar vivo todo dia do que essa.

Mas o tom dos relatos... havia algo de diferente neles.

Medo sincero.

Ele cruzou o perímetro com sua lanterna em punho. A entrada de serviço estava entreaberta. Correntes cortadas. Nada fora muito do normal.

Adentrou o prédio, mas se apontasse sua lanterna para baixo veria rastros rubros no chão escondidos pela poeira.

Dentro, o cheiro era de concreto cru, umidade e oxidação. Mas também havia algo inexplicável – um odor mineral, amargo, como ferro fervido.

Conforme subia, o eco de seus passos se multiplicava pelas paredes inacabadas. Cada andar mais alto revelava partes exposta da estrutura, ferragens retorcidas, placas de isopor esmigalhadas, loas esquecidas e provava a sua habitação ocasional por causa de latas de cervejas jogadas no chão, rabiscos nas paredes, sofás velhos que com certeza não deveriam estar ali, até mesmo velhos equipamentos como uma TV velha e um aparelho de rádio.

Mas o que realmente o fez para foi o sétimo andar.

Havia algo desenhado nas colunas – não pichações comuns, mas símbolos circulares precisos, alinhados como um padrão repetido, e dentro destes círculos estavam algo que se assemelhavam a letras, mas não que não pareciam letras. Aproximando-se das estranhas pichações, percebeu tarde de mais do que eram feitas.

Não eram de tintas.

Era sangue.

Tetsuro deu um passo para trás assustando, mas tropeçou em algo que resultou em sua queda, a lanterna em sua mão escorregou pelo chão e parou momentaneamente apontando para a origem de sua queda.

O guarda jurou que não deveria ter visto.

Porque ali ao seu lado, estava um cadáver de um adolescente, seco como se algo tivesse sugado todo o seu sangue para fora de seu corpo e deixado somente uma casca vazia. Porém o que piorava ainda mais era que Inoue Tetsuro lembrava-se daquele jovem, um delinquente local que frequentemente andava pelo distrito com seus comparsas, mas que misteriosamente tinha sumido dias atrás.

Ele levantou-se rapidamente, pegando a lanterna do chão e olhou para o resto do andar inacabado. Havia mais corpos jogados no chão, todos apresentavam o mesmo tipo de morte que o jovem delinquente.

Estavam secos.

Antes que o guarda pudesse sequer pensar em voltar pelo local que entrou e distanciar-se o máximo daquele lugar, uma voz chamou sua atenção.

“Tããnãnãã… tanãnã~ tanãnã~ tã tããnãããnããã~~”

Era um cantarolar que vinham do oitavo e último andar.

Tetsuo não sabia o que o levou a seguir a voz, entretanto quando se deu por conta, viu-se subindo a rampa de acesso para o último andar, o chão abaixo de seus pés continha um rastro de sangue fresco, ele até mesmo podia sentir o gosto.

“Hmm hmm hmm… RÁÁÁÁÁÁÁ!!”

O andar não tinha paredes ou um teto, a obra não havia chegado muito longe quando foi cancelada. Mas a cena que o guarda Inoue Tetsuo testemunhou ficaria marcado para sempre em sua memória.

“Hmm-hmm-hmm-hmm hmm hmm hmm~~

Hmmmm-hmm hmm hmm hmm~~”

No chão estava um gigantesco círculo feito de sangue e no seu epicentro estava um homem envolto em um sobretudo com capuz escuro esfarrapado com alguns traços de vermelho sobre ela, provavelmente por causa do sangue.

“TÃÃ TÃÃ TÃÃ TÃN TÃN~~ TÃN TÃÃN TÃN!!”

E Deus, o sangue. O sangue parecia flutuar no ar em um formato de esfera sobrenatural e pequenas goticualas saiam dela ao comando do homem que cantarolava consigo mesmo, seus dedos hábeis pareciam escrever algo e a tinta rubra orgânica respondia formando palavras que não pareciam palavras.

A lua no céu deixava tudo ainda mais aterrorizante, como se ela iluminasse aquele show de horrores e aproveita-se de suas reações, deleitando-se como uma deusa cruel.

“HMMM HMMM HMMM~~ OH YEAAAH!!”

O grito repentino fez o guarda arrastar o pé esquerda para trás, mas parecia o suficiente para fazer o homem parar de cantarolar.

“Sabe, não me importo com vocês, Enari, mas tenho que admitir que fazem ótimas músicas.” A figura girou e Inoue pode sentir seu olhar sobre ele, mesmo não podendo observar seus olhos. “Bom, pelo menos não tenho que procurar outros sacos de carne para terminar, você vai servir.”

Antes que o guarda Inoue Tetsuo pudesse sequer reagir, seu campo de visão estranhamente subiu, ele pode ver as estrelas no céu e a lua brilhante ao longe, os arranha-céus dos outros distritos e até mesmo o Monte Osore. Mas nada disso importava.

Com as últimas forças que ele ainda tinha... Ele as usou em apenas uma linha de pensamento.

“Ah... Papai não vai conseguir voltar para casa... Kaoru-chan... Desculpe.”

O corpo sem cabeça de Inoue Tetsuo caiu no chão.

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Jamais curvar a alma a corrupção,

Não averta seu olhar do sofrimento,

Nunca se ajoelhar diante a tormenta,

Seja a luz que guia não a que cega,

Jamais traia a Ordem.

Ele já sabia recitar essas palavras antes mesmo de aprender a andar ou até mesmo saber o que eram palavras. Um credo tão antigo quanto importante que era ensinado para todos os membros da família não importasse quem.

Eram os pilares da sua família, os fundamentos da sua vida, as correntes que os mantinha unidos por bem... e por mal.

Desde que lembrará, sua família sempre foi rígida com ensinamentos e educação, talvez fosse pelo fato de serem uma prestigiosa casa desde o início da Inglaterra, até mesmo, segundo os registros, participado de sua unificação e criação na Idade Média.

Para os olhos do público eram uma família renomada e nobre, um dos alicerces que até hoje sustentava o Reino Unido durante suas crises.

Contudo a verdadeira face da Casa Cendric Vane era muito mais profunda, onde seus feitos eram conhecidos para aqueles que conheciam a verdade do mundo e seu passado conturbado.

Claro, Kaminari carregaria o peso desse segredo com orgulho, pois ali assim como sua família eram protetores e lutariam até o amargo fim.

Mas primeiro ele deveria voltar sua atenção para problemas mais imediatos, como por exemplo, saber se locomover na cidade que ficaria por alguns anos.

Ele permanecia imóvel na calçada enquanto a multidão ao seu redor fluía como um rio impaciente, desviando dele com pressa e indiferença. Seus olhos verdes tentavam absorver tudo ao mesmo tempo: os painéis de LED com propagandas animadas, alguns jovens rindo alto enquanto caminhavam com fones pendurados no pescoço – alguns até mesmo da Wings Academy -, os letreiros em neon piscando palavras que ele não reconhecia enquanto estudava a linha japonesa, e aquele som – aquele constante zumbido urbano – de motores, buzinas, músicas vazando de lojas, vozes sobrepostas.

Kaminari Nakajima Cendric Vane era muitas coisas. Um defensor, um cavaleiro em treinamento, um nobre, “a criança abençoada pelo raio”, o filho “dele” e muitas outras coisas. Mas naquele momento ele se identificava mais como um jovem perdido vindo do interior de outro país.

Quem diria que faltar de ter contato com o exterior durante maior parte da sua vida o faria ter um senso zero de direção?

Em Unkaichō havia 7 distritos que formavam a cidade.

Distrito Sōryū, uma área comercial que também focava no entretenimento com vários shoppings, arcades, karaokês e centros culturais, também era um ponto de reunião entre estudantes das várias escolas de Unkaichō. Também havia outros setores dentro de Sōryū como a área industrial e uma área pouco usada e populada, parecia ter sido uma ideia que não havia dado certo e deixaram várias estruturas inacabadas e abandonadas.

Distrito Kizaki, um bairro residencial que também abrigava outras escolas junto de parques e lojas locais.

Distrito Tensho, a área rica e com maior avanço tecnológico entre os outros distritos da cidade, também era o local onde ficava a sede da Veritas Quantum Enterprise.

Distrito Mido, área mais tradicional de Unkaichō onde se abraçava suas raízes e tradições religiosas, um local intocado pela modernização. Havia vários templos, cemitérios e santuários antigos.

Distrito Kotobuki, um parque natural da cidade e um dos lugares apontados como cartão postal para visitantes.

Distrito Gensei, a zona mais “estranha” de Unkaichō pelas pesquisas de Kaminari. O local era lar de artistas, espiritualistas, ocultistas e jovens crentes em teorias. Era o coração boêmio, excêntrico e alternativo da cidade.

E por fim havia o Distrito Reika, um subdistrito afastado, frio e montanhoso, era conhecido por seu nevoeiro constante, vegetação rarefeito, rios silenciosos e estradas estreitas, é próximo do Monto Osore e, segundos os boatos, era onde a residência de um clã inteiro de praticantes de onmyoji.

Olhou para o local que estava que seguindo o aplicativo no seu celular era chamado da Avenida Hikari, no distrito Sōryū, que era próximo do dormitório da Wings Academy onde ele estava hospedado atualmente, portanto era o primeiro local que conheceu ao chegar na cidade.

“Perdoe-me a intromissão, mas ousaria solicitar a graça de alguns instantes de vossa atenção?” Kaminari perguntou para uma das pessoas que passavam, uma senhora idosa que respondeu ao seu chamado.

“Oh, mas que japonês mais polido é esse o que você tem meu jovem.” Comentou a senhora de idade com um sorriso terno, como se estivesse falando com seu neto. “Claro, no que posso ajudar?”

“Poderia me dizer onde fica a localização deste estabelecimento?” Ele então amostrou a ela um pedaço de papel que continha apenas um nome.

The Dark Angel's Arcane Shop/Kuroki Tenshi no Hijutsu-ten

Os olhos cheios de calor terno da idosa fitaram o pequeno pedaço de papel com curiosidade, o sorriso acalorado que somente uma avó tinha em seu rosto, simplesmente desapareceu quando focou naquelas palavras. Não. Não palavras, pareciam coisas que se assemelhavam a palavras. Aqueles olhos que antes eram cheios de vida tornaram-se opacos e mortos enquanto olhava para aquele pedaço de papel. Porém tão rápido quanto sumiram, a vida retornou a aquela senhora que olhou para Kaminari com o sorriso caloroso novamente em seu rosto.

“Ora meu rapaz, não sei que tipo de brincadeira vocês jovens fazem hoje em dia.” Apontou a idosa em um tom de repreensão. “Mas parar uma pessoa e enganar elas com um papel em branco é muito rude, com licença, tenho coisas para fazer.”

O garoto não sabia o que havia acontecido para uma mudança tão brusca de comportamento daquela senhora, mas por algum motivo assim que seus olhos viram as palavras no papel toda a vontade de ajudar tinha desaparecido em instantes.

Ele tentou com várias outras pessoas, pedir ajudar e instruções, mas todas elas voltaram para o mesmo resultado.

“Não conheço.”

“Não sei.”

“Tenho coisas melhores para fazer.”

“Nunca ouvi falar.”

Isso durou três horas de pergunta e respostas que não levavam a nada.

Ele se sentou em um banco próximo, resignado pelo tempo perdido e pela falta de progresso. O que deveria fazer agora? Tentar a sorte e andar sem rumo pela cidade esperando por um milagre divino o apontar na direção certa? Ou fazer uma retirada estratégica e tentar outro dia?

Kaminari esperava aproveitar o dia livre para poder achar esse suposto local já que normalmente havia muito pouco tempo após a academia por causa de seu currículo extremamente avançado. Ele se achava bastante versado nos campos científicos até ter uma aula com a professora Akane.

Suspirou.

“Ao que parece, os ventos deste dia não sopram ao meu favor.”

“Não se aflija, pois a roda da fortuna há de girar novamente a seu favor.”

Kaminari Nakajima Cendric Vane nunca diria que ele havia dado um pulo em seu assento quando uma voz repentina se fez conhecida sentada ao seu lado. Virando rapidamente, o cavaleiro em treinamento deparou-se com uma garota de cabelo rosado claro e olhos castanho apáticos, vestindo o uniforme da Wings Academy e segurando uma bolsa transversal.

Não, não era isso no que devia se focar, mas sim no fato de que essa pessoa tinha chegado perto dele sem ele ter percebido. Nenhum distúrbio de energia, sons de passos próximos ao seu espaço pessoal ou presença. Era como se aquela garota não existisse até ela se fazer presente.

“Prazer em conhecê-lo, eu sou Kazeyama Barami, sua colega de classe.” Apresentou-se a garota de cabelo rosa, o tom em sua voz sequer havia mudado, continuado em seu estoicismo.

“Ah... Sim, claro, mil perdões pela minha falta de decoro.” Respondeu Kaminari após uma rápida checagem mental. “Confesso que ainda não tive a devida oportunidade de memorizar os nomes de todos da sala de aula.”

Ainda bem que sua memória era muito boa para recordar das coisas.

“Umu, de fato, tentar lembrar vários nomes apenas um dia depois que foi chegou deve ser difícil.” Barami comentou com um leve aceno de cabeça e voltou sua visão para as pessoas que transitavam pela avenida. “E o que você veio fazer aqui?”

Kaminari contemplou suas respostas. Poderia tentar pedir ajudar a garota a sua frente, mesmo que provavelmente tivesse o mesmo resultado ou simplesmente dizer uma meia verdade e encerrar seu dia.

Ele sempre foi uma pessoa otimista, então por que não tentar, não?

“Em verdade vos digo, procuro por um certo lugar; contudo, até o momento, não tive a ventura de cruzar com alguém que detenha saber de sua exata localização.” Disse o garoto japonês-britânico, percebendo que a garota de cabelo rosa carregava consigo uma sacola. “E vossa pessoa?”

Kazeyama ergueu a sacola mostrando a logo de uma loja de livros.

“Vim pegar novos livros para ler no meu tempo livre, umu, tem uma ótima livraria que venho sempre nesta avenida.” Barami então apontou para o pedaço de papel na mão de Kaminari. “Se quiser posso dar uma olhada, talvez eu possa ajudar.”

Tikie olhou para o papel e de volta para Barami, não custava nada tentar.

“Pois bem.”

No momento antes que Barami pudesse pegar o pedaço de pape para ler seu conteúdo uma comoção se formou no meio da multidão de pessoas que andavam pela avenida.

“POR QUE ESSAS COISAS SÓ ACONTECEM COMIGO?! ME DA UM TEMPO!”

Uma voz gritou, as pessoas voltaram sua atenção para descobrir o que era que estava acontecendo, assim como Kaminari e Barami. Então foi que puderam ver, não muito longe deles, um garoto correndo com todas as forças enquanto esquivava-se das pessoas ao redor e logo atrás dele um grupo de aparentes delinquentes, garotas e até mesmo dois cachorros o perseguiam com obstinação.

“VOLTE AQUI SEU MALDITO!”

“VOCÊ VAI PAGAR PELO QUE FEZ!”

“PEGUEM AQUELE PERVETIDO!”

“AU! AU!”

“EU JÁ DISSE QUE TUDO ISSO FOI UM ACIDENTE! POR QUE VOCÊS NÃO ME OUVEM?!”

Ele podia estar longe deles, mas para o estrangeiro de cabelo loiro e a garota apática de cabelo rosa era evidente que o garoto de cabelo espetado que corria como se sua vida dependesse disso era de fato Mukyokai Van. O que havia acontecido para ele ser perseguido por uma multidão enfurecida?

“Umu.” A rosada levantou-se do banco, puxando do seu bolso o celular e começou a andar na mesma direção que Van estava indo. “Me ajude, Cendric Vane-san.”

O garoto mal teve tempo de guardar suas coisas e seguiu a garota. Bem, alguém estava em apuros, provavelmente um dos dogmas da família poderia servir como desculpa para ajudar aquele pobre coitado.

O pobre coitado em questão, Mukyokai Van, ainda corria pela praça da Avenida Hikari enquanto tentava pensar em como sairia de toda aquela bagunça. Serpenteava seu caminho diante a multidão em uma vã tentativa de perder seus perseguidores, mas infelizmente eles pareciam bastante determinados a alcançá-lo de todo jeito possível.

Bip Bip Bip

“Ei, aqueles não são robôs de limpeza?”

E de fato eram robôs de limpeza comprados pela prefeitura das empresas Veritas para a cidade. Eram pequenos robôs de limpeza de formato cilíndrico de design simples e funcional de cor bege clara, quase marfim, na base uma serie de tiras amarelas semelhantes a esfregões giram em contato com o solo, varrendo e esfregando ao mesmo tempo. Sua parte superior e lisa e ligeiramente abaulada, enquanto uma ranhura vertical era usada como display. É um dos produtos mais populares da empresa no ramo de limpeza automatizada.

Mas para Van, que olhou para trás naquele instante e viu um grande grupo de robôs de limpeza ficando na frente do grupo de pessoas que o perseguia e os impedindo-os de prosseguir. Os robôs soltavam vários bipes enquanto rodeavam aquelas pessoas dizendo coisas como “agradecemos sua cooperação” ou “Por favor permanecer parado enquanto realizamos o procedimento de limpeza”, era uma cena muito cômica e, para Van, um milagre fortuito vindo em sua ajuda.

...

...

...

Espera, fortuito? Ah não...

Antes que ele pudesse fazer qualquer outra coisa sentiu-se sendo puxado pelo pulso esquerdo enquanto era empurrado pelo ombro direito para longe da comoção da avenida. Olhando rapidamente para os seus supostos captores, Van conseguiu discernir a cabeleira rosada de Barami e o rosto muito reconhecível de Kaminari, seus colegas de classe. Ele não conseguiu dizer qualquer coisa enquanto era empurrado/puxado para longe da praça em direção a uma escada que levava ao subterrâneo e somente parando quando passaram estavam a uma boa distancia da comoção na superfície.

Quando finalmente pararam para respirar Van olhou para o local. Ele lembrava-se de ter visto esse lugar no mapa da cidade na primeira semana que chegou, era a Estação Hikari-Chūō, um grande ponto entre as linhas de trem que conectavam os distritos entre si sendo a de Sōryū uma das mais importantes por estar perto de Kizaki e Tenshō.

Até mesmo Kaminari observava o fluxo quase que interminável de pessoas que iam e viam pelos corredores, maravilhado. Se o barulho da superfície parecia ensurdecedor para alguém não acostumado, então a estação era talvez cinco vezes mais barulhenta com a mistura de vários sons no ar como sapatos contra o piso polido, risadas abafadas, alertas digitais, ruídos pesados dos trens entrando na plataforma e o som agudo da porta automática abrindo e fechando com precisão.

Telões exibiam anúncios coloridos de bebidas energéticas, shows escolares, promoções de karaokês e – discretamente entre tudo isso – avisos da Veritas Quantum Entreprise, falando sobre “conexões inteligentes” e “harmonia urbana”, sempre em tons suaves e quase hipnóticos.

“Acho que os despistamos.” Comentou Barami soltando o pulso de Van. “Agora você pode nos contar como você conseguiu que uma multidão de pessoas quisesse sua cabeça?” Ela perguntou voltando sua atenção total para o garoto.

“Sinceramente, é admirável... Como foi que lograste enfurecer tantas pessoas a tal ponto que todas decidiram persegui-lo?” Apontou Kaminari também curioso e levemente divertido.

Mas Van não achou nenhum pouco engraçado.

“Em primeiro lugar, eu quase não consigo entender o que você fala, ô grande Oji-sama, fale em um japonês normal.” Retrucou o garoto de cabelo espetado com um olhar seco para o loiro. “Em segundo lugar, isso tudo foi um grande acidente, mas ninguém queria me ouvir ou mesmo acreditar em mim!”

Sua resposta foi uma sobrancelha delicadamente arqueada de Barami e um olhar confuso e curioso de Kaminari.

O garoto suspirou e começou a contar como tudo começou...

Era para ser apenas mais um dia de descanso. Só isso. Um dia para ele poder relaxar depois de uma semana infernal que era a Wings Academy. Van sabia que era uma academia prestigiada mundialmente, mas parecia que havia subestimado um pouco o material didático que aquele lugar lecionava.

Além das disciplinas básicas como Língua Japonesa Avançada, Matemática II, Língua Inglesa, Ciências Naturais, História e Sociedade – que por si só não pareciam nada básicas do seu ponto de vista, pois, quem precisaria aprender álgebra polinomial, funções trigonométricas e matrizes? -, também havia as avançadas.

E coloque avançadas nisso....

Ciências da Realidade Aplicada: estudo de paradoxos, leis físicas instáveis e realidade projetada.

Estrutura da Imaginação Cognitiva: desenvolvimento da percepção criativa.

Engenharia Físico-Informacional: introdução á comunicação entre sistemas e corpo humano.

E várias, várias outras matérias que levariam tempo demais para citar e ainda mais tempo para explicar de forma básica.

Por um momento Van se perguntou como alguém como ele conseguiu uma vaga na Wings Academy...?

Não. Não era hora para pensar nisso, tudo o que ele queria era relaxar e esquecer dos problemas por pelo menos um dia. Isso e a estranha sensação de estar sendo observado. Ele jurava que vinha visto com frequência um pássaro estranho o seguindo, porém deveria ser coisas da sua mente paranoica.

Então, ele saiu de casa, só querendo andar um pouco, respirar, talvez comer algo gorduroso enquanto se familiarizava com a cidade.

Mas é claro que o universo tinha plano diferentes.

Começando pela esquina dos delinquentes.

Logo na primeira curva do distrito Kizaki, Van dobrou por uma ruela sem saída sem perceber, quando notou o erro já tinha dado de cara com três delinquentes locais, sentados em caixotes, rindo alto e jogando cartas em cima de um tambor de metal.

Seus instintos diziam para se mover lentamente para longe antes que qualquer coisa pudesse dar errado, contudo assim que virou-se e tentou disparar para fora da ruela, Van tropeçou em um cilindro de metal fazendo-o quase cair e lançando o objeto com força em direção uma telha encostada na parede, a telha recebendo o choque contra o cilindro caiu para o lado acertando vários caixotes mal empilhados que estavam praticamente do lados dos delinquentes – provavelmente eles somente juntaram tudo em um canto para poder achar um local para jogar -. O resultado foi como esperado, várias caixas de madeiras caíram sobre eles, destruindo sua mesa de jogos improvisada e derramando sobre eles vários objetos obviamente colocados para descarte.

“Que porra foi essa?!” Rugiu um deles, o maior, com cabelo tingido de vermelho e um curativo no nariz.

Seus olhos se voltaram para o início da ruela e fitou a figura ainda paralisada de Van, que permaneceu lá como testemunha daquele acidente, e franziu a testa em um acesso de raiva.

“Foi tu, não é seu zé ruela, tá tirando com a nossa cara?! Tu vai morrer, hein!”

Foi como um grito de guerra. Os três delinquentes começaram a correr em sua direção com sangue nos olhos.

E assim começou a perseguição.

Van correu como se a vida dependesse disso – e de fato dependia.

Desviou por um parque, atravessou uma cerca, pulou um portão baixo e... caiu em cima de alguém.

Literalmente.

Uma garota, de uniforme rosa pálido, estava agachada pegando algo no chão – provavelmente um colar – quando Van veio do céu e despencou sobre ela como um míssil humano.

“KYAAA!! PERVETIDO!!” Ela gritou com força o suficiente para fazer os pombos fugirem da praça.

Van se levantou aos tropeços, as mãos para o alto.

“Não foi de proposito! Eu juro! Eles estão atrás de mim e-“

TAP!

Um tapa cruzou o rosto dele com a fúria ancestral de todas as jovens enganadas por situações ambíguas em romances escolares.

Ainda atordoado, Van se virou para continuar a fuga e... encarou dois cães gigantescos presos por coleiras longas. Um buldogue e um Akita.

Os cachorros olharam para Van. Depois para a menina. Depois de volta para Van.

E então correram atrás dele.

“POR QUEEEEEEEEEE?!” Gritou ele, já chutando areia e correndo sem olhar para trás.

Pois se olhasse veria que os delinquentes o acharam, provavelmente por causa de seu grito, agora junto deles uma garota muita irritada que provavelmente não estava satisfeita somente com um tapa, e dois cachorros que decidiram participar da perseguição por motivos desconhecidos. Jurava também que havia aquele pássaro estranho no meio daquilo tudo, mas não estava com coragem de olhar para trás e confirmar.

Após cortar cinco vielas, passar por um bicicletário, rolar por uma ladeira, e se pendurar brevemente num varal de roupas – quase perdendo um dos sapatos no processo -, Van finalmente emergiu numa das grandes avenidas de Unkaicho, a reluzente e movimentada Avenida Hikari.

Ainda com um grupo de pessoas e animais atrás de sua pessoa.

“E então aconteceu as coisas com os robôs e chegamos até aqui.”

Ninguém falou nada durante alguns segundos deixando somente o som da vida rotineira das pessoas passando pela estação encher o local.

Barami continuava olhando-o com uma cara impassível, mas Van podia jurar que ela estava se segurando com todas as forças para rir do ridículo que era a sua história.

O garoto podia ver o corpo dela tremendo! Ela realmente estava tentando não rir!

Enquanto com Kaminari Nakajima Cendric Vane, ele não sabia o que pensar na verdade. Tudo aquilo parecia muito ridículo para ser verdade, porém a multidão de pessoas que perseguiam seu colega de classe pouco tempo atrás era uma grande prova contra seu senso comum. Se aquilo tudo aconteceu realmente, então a existência de Mukyokai Van era algo fora do mundo normal. As chances desses desastres acontecerem com ele de forma simultânea era astronomicamente pequena.

"Permita-me dizer, com toda a sinceridade que me é possível: tu és uma existência singular — e, ouso acrescentar, de um fascínio incomparável."

“Puff...!”

Um olhar aborrecido apareceu no rosto de Van quando viu Barami não conseguir controlar o riso e ter deixado uma risada sucinta escapar pelos lábios. Talvez fosse a primeira vez que os dois garotos viram alguma outra emoção no rosto da garota do que o normalmente sério.

“É muito bom saber que a desgraça deste Mukyokai-san lhe proporciona entretinimento.” Comentou o garoto azarado fitando a garota.

Por fim Van ajeitou a roupa, alisando e tirando qualquer poeira que pudesse ter caído sobre ele ao decorrer de sua perseguição e respirou fundo, aproveitando a paz momentânea.

“Enfim, deixando a minha má sorte habitual de lado, o que vocês estão fazendo aqui? Um en-“

“Eu vim comprar livros novos.” Respondeu Barami o cortando antes mesmo que qualquer outra palavra pudesse sair de sua boca. “E quando voltava para casa me deparei com um Cendric Vane-san muito desolado e perdido.”

A pessoa em questão foi fingir uma tosse de forma elegante, como se tentasse disfarçar o motivo de estar naquele lugar por mais tempo que o normal.

"É verdade que encontrei certos percalços em meu caminho, mas creio, firmemente, que não há infortúnio que a perseverança, bem aplicada, não possa sanar."

Apesar de ele não esperar que o papel contendo o endereço que seu responsável lhe dera tivesse algum tipo de técnica ou encantamento que fazia as pessoas não reconhecer o seu conteúdo. O jovem cavaleiro não sabia do motivo disso ou o que o seu responsável achava que iria descobrir onde ficava o local se nem ele próprio conseguia ler o endereço.

Será que Kaminari estava tão atrás no quesito de técnicas de ilusão? Ele não era uma pessoa arrogante, mas achava que era bem versátil em todos os campos que lhe foram ensinados, até melhor que cavaleiros mais veteranos e com mais experiencia que ele.

“Por isso eu estava preste a ajudá-lo quando você e sua comitiva bem jovial apareceram.” Apontou a Kazeyama.

O Mukyokai coçou a nunca com a lembrança ainda fresca.

“Bem, se quiser, posso dar uma olhada também, provavelmente não vou ser de muita ajuda, mas ao menos sei usar um aplicativo de mapa.” Disse Van voltando sua atenção para o loiro.

Kaminari deu de ombros mental e ergueu o pedaço de papel para Van que antes de poder pegá-lo, o som de um toque de celular muito próximo chamou a atenção do trio. Barami olhou a bolsa e percebeu que era seu dispositivo tocando. Assim que viu o que era a chamada, os olhos apáticos se afiaram ligeiramente quase de forma imperceptível.

“Com licença, é a minha mãe, já volto.” Recebendo um aceno dos dois garotos ela se afastou.

“Aqui.” Entregou Kaminari para Van o pedaço de papel, o referido garoto o pegou com a mão direita.

O efeito foi instantâneo.

O som de vidro se partindo ecoou discretamente pelo ar, o barulho engolido pela cacofonia da correria da estação subterrânea. Contudo o que chamou a atenção do meio inglês e do japonês foi que o pedaço de papel que antes somente existia uma palavra – nos olhos de Kaminari – transformou-se como se o conteúdo sempre estivesse lá, pois debaixo do nome que antes já estava lá, apareceram novas palavras, um endereço completo. Distrito, rua e numeração.

Os olhos azuis do Cendric Vane piscaram com espanto. O que antes somente tinha o nome de algo agora continha todas as informações que precisava e não só o nome de algum lugar. Ele olhou rapidamente para o garoto de cabelo preto com leve desconfiança e curiosidade.

O que tinha acabado de acontecer?

“Ei, não sabia que vocês estrangeiros também tinham um desses.” Comentou Van ao olhar o papel mais perto. “Um papel inteligente feito de uma fusão de polímeros flexíveis condutores e celulose sintética.” Olhou mais de perto. “Revestido com uma malha de memória não-volátil de baixa densidade.” Voltou a atenção para o inglês. “Eu ouvi falar desse tipo de papel, bem avançado, a pessoa que escreveu nisso devia ter dito para você antes de passar horas perguntando por aí.”

Kaminari apenas piscou com as palavras que saiam da boca do colega. Ele com certeza não achava que seu tutor sabia o que era um papel inteligente e muito menos que tal coisa existisse quando lhe entregou essa tarefa.

Ele realmente queria comentar sobre isso, mas sabia que a existência do seu mundo, das coisas que faziam, não eram de conhecimento comum ou público, por isso decidiu ir com a teoria de Van. Era mais fácil deste jeito.

“Presumo que tal detalhe lhe tenha escapado ao informar-me…” Sussurrou o Cendric Vane fingindo um leve constrangimento. “Mas, com isto em mãos, posso enfim cumprir aquilo que meu tutor me confiou. Sou-lhe sinceramente grato."

Fitando o conteúdo do papel, os dois jovens viram as novas palavras que surgiram.

The Dark Angel's Arcane Shop/Kuroki Tenshi no Hijutsu-ten

KT-HJ.1087 / Gensei-04

“KT-HJ deve ser o nome da loja, 1087 talvez seja o número da rua?” Murmurou Van para si mesmo enquanto tentava dar sentido á aquele conjunto de palavras e números. “Gensei-04 então deve ser o distrito e o setor?” Ele tirou do bolso da calça seu celular flip preto e abriu um aplicativo de mapa, inserindo os dados do papel no aplicativo.

O resulto voltou com algo estranho. O aplicativo conseguia encontrar o distrito em Gensei, contudo não achou a rua com numeração 1087, havia uma serialização normal como 1086 e 1808, porém que pulava o número que procurava, contendo apenas uma rua vazia sem nome.

Era estranho, talvez fosse uma rua nova ou um erro no aplicativo? Van deu ombros levemente. Olhando para o lado, ele viu Barami voltar de sua chamada.

“Ei, Kazeyama-sam, achamos o endereço- “

“Desculpe, Mukyokai-san, Cendric Vane-san, mas parece que a minha mãe está me chamando agora, então terei que me despedir.” Barami cortou Van antes mesmo que ele pudesse terminar de falar, inclinando-se levemente como sinal de desculpa.

“Ah, tudo bem.”

“Tenha uma boa viagem, Kazeyama-san.”

E com essa troca de palavras, Kezayama Barami sumiu diante a multidão de pessoas que transitavam no lugar como se nunca estivesse existido.

...

...

...

Sinistro.

“Entããão, quer que eu te mande o endereço por Line?”

x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x

No fim das contas Van decidiu acompanhar Kaminari em sua ida para a misteriosa loja, tanto porque o garoto britânico inesperadamente era muito ruim com direções – sendo a prova quando ele quase entrou no trem errado que levava para a direção oposto que deveriam ir – e por ele mal usar seu celular. Na verdade, parecia que era um milagre Kaminari ter conseguido chegar a Avenida Hikari por conta própria do jeito que ele falava.

Mas o Mukyokai poderia dar uma pequena trégua para o colega já que a viagem duraria um tempo considerável, ambos decidiram criar uma conversa casual, por isso o garoto de cabelo espetado descobriu que de onde Kaminari era o uso de aparelhos eletrônicos era raro e que por cima disso tudo ele morava em um gigantesco castelo que foi construído pelo fundador da família Cendric Vane.

O choque de mundos foi um baque terrível para o garoto comum comparado ao sujeito loiro que se sentava ao seu lado no trem. Ele já podia sentir que a amizade com aquele jovem estrangeiro seria marcada por garotas o usando para chegar mais perto de Kaminari. Jurava que já até mesmo tinha visto um anime de relance com essa mesma premissa. Esperava que sua autoestima sobrevivesse.

Oh, vida cruel e miserável.

Mas no fim das contas, naquele momento, eles eram apenas dois adolescentes conversando sobre coisas banais.

E então eles continuaram a dialogar sobre vários assuntos, até que o trem que os levava para o distrito Gensei começou a parar a voz robotizada do vagão informava a chegada. As pessoas de dentro começavam a sair quando as portas eletrônicas se abriam, agora que havia parado para ver os outros passageiros perceberá que eram mais voltados aos mais velhos, alguns deles até mesmo vestiam capuzes ou adornos budistas.

A estação de Gensei revelou-se diante dos seus olhos como um santuário moderno enterrado sob a cidade – uma fusão entre arquitetura japonesa tradicional e brutalismo urbano. As luzes do teto imitavam lanternas de papel, mas eram do vidro opaco e sustentada por estruturas de aço retorcido. Era estranho e fascinante como o velho e o novo poderia coexistir naquele lugar, se isso fosse apenas o interior da estação de trem do distrito, tanto Van quanto Kaminari se perguntavam como seria o resto de Gensei.

“Bem, eu acho que não chamam esse distrito de Fronteiriço por nada.” Lembrou de quando estava pesquisando pela cidade e um dos títulos deste distrito em particular, nunca tinha entendido o do porquê, mas agora tinha sua resposta.

Unkaichō, a cidade onde o real e o irreal se chocam.

“De fato, é surreal.” Comentou Kaminari olhando ao redor, aquele tipo de infraestrutura o lembrava vagamente de casa, onde locais antigos se juntavam aos novos modernos.

“De acordo com o mapa, estamos no setor 2 de Gensei, Shinka.” Van olhou para o celular novamente. “E o lugar que precisamos ir é para o setor 4, Himei, parece que vai ser uma bela de uma caminhada até lá.” Franziu a testa e apertou alguns botões. “Não, a gente pode pegar um ônibus até lá que parece que vai aparecer daqui a pouco.”

“Ao que tudo indica, a fortuna sorriu para nós, não é mesmo?”

“Por favor, não jogue praga para a gente, minha sorte vai ouvir isso e dobrar seus esforços para me ferrar.”

“Haha, mil perdões.”

Quando ambos saírem da estação subterrânea o céu azulado os agraciou e junto dela o lugar místico e moderno de Gensei. Shinka era onde o antigo encontra o moderno. Apartamentos de concreto com jardins suspensos ocupam o lugar das antigas casas demolidas. Prédios baixos, com telhados que misturam cerâmica antiga e placas solares, formam uma paisagem onde o presente respeita o passado sem ser prisioneiro dela. Esculturas ornamentais antigas, às vezes quase imperceptíveis, se escondem em portões, jardins internos e calçadas de pedra polida.

E não muito longe da saída do metrô estava uma parada de ônibus com algumas outras pessoas a sua espera. Não, espera, na verdade elas já estavam embarcando no ônibus que eles precisam pegar!

“Vamos seu loiro oxigenado, senão a gente vai ter que andar o caminho todo!”

“Apenas para constar: sou loiro de nascença… ao contrário de ti, cuja aptidão em atrair o azar parece, deveras, inata!”

“Eu mal entendi o que você disse, mas sinto que você acabou de me xingar!”

Foi por muito pouco que conseguiram pegar o ônibus sendo quase atropelados quando passavam pela rua, mas no fim tinha embarcado numa linha que levava direito para o setor 4.

Kiminari sentou-se ao lado da janela enquanto observava as casas, lojas e pessoas que passavam. Realmente era algo que nunca tinha imaginado acontecer, que ele, ele de todas as pessoas teria viajado para um país estrangeiro de todas as coisas para poder presenciar as grandes diferenças comparado a Inglaterra. Infraestrutura moderna que se fundia ao tradicional, máquinas futurísticas saídas diretamente de um filme de sci-fi que tomavam conta da manutenção pública e ajudavam em propagar ordem nas ruas ao auxiliar a polícia, uma educação que provavelmente e possivelmente passava das instituições de ensino mais prestigiadas internacionalmente e pelo que pode ouvir, até mesmo um sistema de saúde incomparável. Unkaichō parecia ser algo surreal que saiu de um livro, onde o velho e o novo se harmonizavam, criando algo completamente fora do normal.

Sequer era algo deste mundo.

Na verdade, era como se aquela cidade fosse uma dimensão completamente diferente do que se passava pelo resto do planeta.

Olhou para o céu pela janela, ela já começava a mostrar sinais de ganhar uma coloração alaranjada sinalizando o fim da tarde e começo do anoitecer. Tikie ainda estava acostumando-se ao novo fuso-horário – o que tornou sua primeira semana uma grande dor de se adaptar -, por isso ficou surpreso de o tempo ter passado tão rápido.

“Ei, chegamos.”

A voz de Van chamou Kaminari de volta para a terra do consciente quando ambos desceram do ônibus – graças aos céus por transporte público gratuito! – e depararam-se com o setor 4 de Gensei: Himei, o setor mais antigo do distrito. Comparado ao setor 2 a movimentação de Himei era muito menor, não havia centenas de pessoas passando de um lado para outro e o som da urgência moderna de sempre estar em movimento, contudo não era menos impressionante. Suas ruas foram adaptadas para um modelo de espaço compartilhado, onde pedestres, ciclistas e veículos se misturam num mesmo pavimento de pedra clara, sem meio-fio, obrigando o tráfego a ser lento e cuidadoso.

As fachadas preservam as linhas elegantes das machiya e construções ocidentais no final do século XIX – madeira escura polida, janelas de vidro leitoso, varandas com grades de ferro trabalhado. Entre essas estruturas, surgem discretos toques modernos: portas automáticas camufladas, iluminação LED oculta nas beiradas das marquises e letreiros minimalistas.

Ele podia até ver do outro lado da rua que estavam uma pequena praça de encontro – bancos de madeira, lanternas de ferro fundido no estilo Meiji e cerejeiras cultivadas em jardineiras de pedra. Ali, provavelmente moradores conversavam, turistas tiravam fotos e artistas de rua se apresentavam.

Por toda extensão da rua podia ver um comercio variado, mas contido: cafés artesanais, livrarias independentes, lojas de chá e antiguidades, além de ateliês de cerâmica e papel artesanal.

Então, aquela era a famosa Himei de Gensei, o coração histórico de Unkaichō.

"É curioso pensar que ainda nos encontramos na cidade proclamada como a mais avançada do mundo… e, no entanto, tudo ao nosso redor preserva tal ar tradicional, como se o próprio tempo aqui tivesse escolhido repousar."

A Cidade da Dualidade, como a chamam.”

Van deu de ombros e voltou sua atenção para o celular.

“Vamos, ainda temos que andar um pouco.”

E então ambos começaram a adentrar as ruas estreitas de Himei com o objetivo de achar o local misterioso que estava no papel. Levou um pouco de tempo até chegarem na numeração da rua que procuravam, indo ainda mais fundo em vielas, até pararem no local onde supostamente ficava entre a rua 1086 e 1088.

Ao invés de uma nova rua, o que estava em seu lugar era uma loja com uma fachada que misturava madeira escura polida com um letreiro de neon branco escrito em kanji estilizado, Kuroi Tenshin no Hijutsu-ten, uma cortina preta noren com símbolos angelicais minimalistas em cinza prateado cobriam parcialmente a entrada, na vitrine havia cristais, cartas de tarot e alguns livros.

“É este o correto?” Perguntou Kaminari observando os detalhes, ele colocou a mão sobre o bolso do colete social que usava, onde estava guardada a carta de seu responsável.

“De acordo com o nome e o endereço, esse é o lugar certo.” Respondeu o Mukyokai. “Que lugar estranho que o seu responsável te mandou, uma loja de ocultismo numa cidade tecnológica que fica no distrito mais antigo.”

Os dois garotos entraram no estabelecimento, o chacoalhar da cortina na entrada balançou o sino que ficava em cima da porta, alertando qualquer pessoa que estivesse lá dentro sobre a chegada de novos clientes.

O interior era claro, com iluminação quente e minimalista. Estante metal preto e madeira clara exibiam o que poderia ser descrito como grimórios, arte esotérica moderna, joias com runas e decks de tarot. Havia até mesmo algumas mesas para clientes se sentarem e lerem ao som de uma música ambiente.

“Olá, meu nome é Matheus, bem-vindos a Kuroi Tenshin no Hijutsu-ten, onde o normal é superestimado, no que posso ajudá-los?” Um homem de cabelo negro curto e olhos azuis levemente prateados disse no balcão da loja abaixando um livro que parecia estar lendo.

“Bem, o resto é contigo, vou dar uma olhada por aqui.” Van disse ao andar pela loja enquanto olhava os itens aparentemente sobrenaturais.

Quem diria que algo assim estava em Unkaichō? Nunca em um milhão de anos, com certeza. Além do mais o atende não parecia ser alguém japonês de acordo com seus atributos físicos, além de que o nome “Matheus” realmente era mais algo vindo de fora do país.

Unkaichō tinha tantos estrangeiros assim? Bom, Van não se intrometeria nesses assuntos, ele só estava ali para ajudar com as direções de toda forma.

" Meu nome é Kamina... Perdoe-me, por gentileza… ainda me ajusto à apresentação adequada.” Tossiu de forma educada, recompondo a compostura. “Sou Cendric Vane Nakajima Kaminari, da ilustre família Cendric Vane, oriunda da Inglaterra. Venho, em nome de meu responsável e chefe de nossa casa, Lorde Ambrósio Cendric Vane, para entregar-lhe uma carta de máxima importância."

O garoto então tirou do bolso do colete o envelope branco lacrado com cera, o lacre continha o brasão da família Cendric Vane: um dragão coroado com uma espada horizontal de fundo e embaixo do leão escrito em latim “Tonitrui Domitor”.

Matheus subiu ligeiramente uma sobrancelha ao pegar o envelope, podia sentir uma sutil manipulação ao redor do material, praticamente imperceptível para qualquer outra pessoa, mas não para ele, já que foi o próprio Matheus que havia ensinado Ambrósio.

Rompeu lacre e começou a ler seu conteúdo. Seus olhos voltavam para o conteúdo da carta e de volta para Kaminari, deixando o garoto levemente nervoso.

“E como está Ambrosio, se me permite perguntar? Faz um bom tempo que não falo com ele.” Começou Matheus ainda em sua leitura.

O jovem loiro piscou com o modo casual daquela pessoa falar de alguém prestigiado na Inglaterra onde até mesmo o próprio rei fala com respeito. Como aquela pessoa, dona de uma loja de ocultismo no Japão sabia sobre o chefe da família Cendric Vane?

"Segundo os conselheiros, ele ainda se entrega demasiadamente ao trabalho e reserva pouco tempo a si próprio; contudo, persiste em instruir os demais escudeiros e em prestar auxílio quando certos problemas se manifestam." Ele tremeu ligeiramente com a lembrança das horas árduas de treinamento de Ambrósio.

O que não passou despercebido por Matheus.

“Vejo que ele continua uma pessoa séria e rigorosa como sempre, até mesmo com seu próprio sobrinho.” Riu com o pensamento de um jovem cavaleiro que conheceu na Inglaterra anos atrás, nem parecia que tanto tempo havia passado para ele.

“Co-Como o senhor...?”

“Você tem o mesmo formato bem angular e olhos azuis e cabelo loiro bem profundo, não posso ser tão bom quanto meu irmão quanto a ver assinaturas, mas o seu tem uma certa frequência bem específica, somente existiam duas pessoas e uma delas não tem cabelo loiro.” Matheus apontou os detalhes enquanto deixava a carta em cima da mesa e começou a vasculhar alguns objetos por debaixo do balcão. “O que deixa então, o irmão de Ambrósio, U..”

“Por favor, não diga mais uma palavra.”

O tom de voz de Kaminari subiu quando percebeu para onde o dono da loja estava indo. Ele não queria ouvir, não mais, não queria ter de lembrar ou mesmo pensar no dono daquele nome. Olhou para trás e viu Van ainda observando os vários itens a mostra, aprecia que ele não tinha ouvido.

Matheus olhou para cima enquanto erguia-se, achando o objeto que estava procurado.

“Claro, me desculpe por passar dos limites.” Estendeu a mão que segurava um pedaço de papel retangular com algumas escritas desconhecidas para o jovem loiro.

Ao tocar o objeto Kaminari sentiu algo, porém a sensação foi tão passageira que ele não pode determinar o que era de fato. Mas sem dúvidas era algo sobrenatural.

“O que é...” Começou o garoto até ser interrompido.

“Acho melhor vocês irem para casa, já está ficando tarde.”

Kaminari abriu a boca para dizer algo quando sentiu. Uma pressão avassaladora sobre seu corpo como se cada tentativa de mexer qualquer musculo pelo menor que seja fizesse com que seus membros retorcessem. Sua mente tentava força qualquer movimento, mas seu próprio corpo rejeitava suas ordens, agindo contra sua vontade determinada pelo simples fato de que a origem de toda aquela pressão era perigosa.

Foi então que os pontos de encaixaram.

Aqueles olhos azuis prateados o fitando com intensidade. Todo aquele sentimento vinha do homem a sua frente. A mesma pessoa que falava de seu tio, o líder atual da família Cendric Vane, como se fosse um velho amigo que não via há anos, mas ainda parecia tão jovem. A mesma pessoa que de alguma forma fez a conexão de seu parentesco com Ambrósio e daquela outra pessoa. A mesma pessoa que somente com um olhar fez seu corpo paralisar.

Aquele homem não era alguém normal. Kaminari agora tinha certeza disso.

Com pura força de vontade, o garoto inglês forçou um aceno de cabeça.

A pressão sufocante que sentia sumiu no mesmo momento.

“Bom.”

“Ei, Nakajima-san, já terminou o que veio fazer?” A voz de Van se fez presente ao aproximar-se do balcão. “Bela loja por sinal, nunca achei que tivesse algo assim nessa cidade.”

Matheus fitou o outro garoto que estava com o sobrinho de Ambrósio, francamente quase havia esquecido que ele estava ali. Na realidade, agora que o homem de cabelos pretos estava focado no estudante, perceberá que quase não podia sentir sua presença em geral. Não era pelo simples fato de o garoto ter uma constituição tão comum e banal, como se ele apenas fosse uma pessoa qualquer que você veria de relance no meio da rua, mas de fato era que quase não podia sentir nada vindo dele.

Como se ele não existisse.

“Deixa-me ver se entendi, você saiu pra comprar comida e quando eu liguei, você trombou em alguém e quando você apertou a mão dele, perdeu toda a sua energia e poder der repente.”

“Sim.”

“E depois que você o soltou tudo voltou ao normal.”

“Exatamente.”

“Quando você tentou localizar ele pela sua assinatura de energia, não conseguiu senti-lo nem mesmo quando ainda estava praticamente na mesma rua.”

“De fato.”

Não poderia ser, poderia? Quais eram as chances dessa mesma pessoa adentrar sua loja?

Mas antes que pudesse dizer qualquer outra palavra o seu celular começou a tocar.

“Acho que agora é uma boa hora para gente ir, já está ficando realmente bem tarde.” Van sugeriu, ele sabia muito bem as coisas que aconteciam na penumbra da cidade e não queria ter que lidar com essas coisas hoje.

"De-De fato.” Kaminari se recompôs rapidamente e curvou-se ligeiramente em sinal de agradecimento. “Agradeço-vos por conceder-nos vosso precioso tempo e por aceitar a missiva de meu responsável. Que nossos caminhos venham a cruzar-se em outro dia."

E tão repentinamente quanto apareceram os dois também sumirão sendo a única prova de sua presença o som do sino acima da porta quando ela se fechou.

O Rei suspirou ao perceber a chance perdida de fazer perguntas. Ele realmente não achava que o testemunho de seu irmão fosse algo real ou preciso já que alguém conseguir apagar totalmente sua energia com apenas um toque era surreal até mesmo para entidades como eles.

Apesar de que Matheus jurava que já tinha ouvido falar de algo assim, mas o simples pensamento sempre lhe escapava como vento. Era algo ilusivo e isso era frustrante.

“O que você tem pra mim?” Disse Matheus ao atender o celular.

“Nada como “Olá, como vai?” ou “Como você está querido irmão?”” A voz do outro lado da linha respondeu com um tom de voz certamente fingido.

“Wagner...” Suspirou com irritação, ele amava o irmão, mas sinceramente as vezes não aguentava seu senso de humor.

“Tá bom, tá bom, fica frio mano.” Wagner retrucou. “Então, aquilo que você me pediu para ver, eu tenho notícias ruins, péssimas e horríveis, qual quer ouvir primeiro?”

Franziu a testa com as palavras. Algo em seu amago lhe dizia que não gostaria de ouvir qualquer uma dessas três notícias.

“Vamos começar pela ruim e seguir adiante.”

“Tudo bem, a notícia ruim então.” O Rei das sombras parou por um momento reorganizando os pensamentos. “Sabe, uma semana atrás recebemos provas de que Primaris usando uma Porta dos Fundos em alguns lugares do mundo? Parece que uma dessas portas se abriu perto de Unkaicho, segundo os nossos amigos locais do templo.” Suspirou levemente, o frio de parecia mais insistente que o normal. “E pelo que conseguiram descobrir, duas pessoas passaram por ele, mas perderam seus rastros quando entrara na cidade.”

Os dedos do Rei da luz batiam na madeira do balcão de forma rítmica. Aquela notícia era minimante preocupante. Se duas pessoas de Primis conseguiram fazer um portal perto da cidade não era algo puramente acidental, não, eles sabiam exatamente aonde iam e escolherem Unkaichō. E o pior de tudo era que seus rastros haviam sido perdidos o que dificultavam a localização e nem mesmo Wagner podia rastrear uma assinatura de energia de uma semana atrás, ainda mais quando essas duas pessoas desconhecidas estivessem mantendo sob o radar de qualquer rastreador.

“Qual é a péssima?”

“Há quatro dias atrás várias pessoas começaram a desaparecer misteriosamente, nada muito fora do comum até que o número meio que duplicou dois dias atrás.” Inspirou profundamente, a próxima parte realmente não seria muito agradável. “O último desaparecido conhecido era um policial que foi despachado para Sōryū, sua última localização foi para o Esqueleto, e bem, quando chegaram lá encontraram vários corpos e muito, mas muito sangue e escritas desconhecidas no chão formando um círculo.”

Ah, merda.

“Não me diga que...”

“Foi bem difícil dar uma olhada de perto, mas dei meus pulos. E sim, é o que você está pensando, era um ritual de invocação de sangue e pelo que vi, foi bem-sucedido, muito bem para ser honesto, a pessoa que o fez sabia o que estava fazendo o suficiente para que nem eu, você ou os guardiões sentissem qualquer distúrbio.”

Merda. Merda.

Isso não era um bom sinal.

Um ritual de sangue foi e é proibido por várias razões. Primeiro que os materiais necessários tinham de ser obviamente sangue, mas não qualquer, um de uma criatura viva e pensante, alguém que tivesse Anima. Tivesse alma. Que tivesse vontade. Eles seriam os sacrifícios para abrir, estabelecer e vincular um portal de sangue há alguém, concedendo-lhe acesso a uma ponte entre seu mundo e o da dimensão proibida.

A dimensão proibida de Noxphoros.

A prisão de Pollux.

Por isso era proibido fazer qualquer tipo de contato com tal lugar, eles não queriam que o trabalho de seu Pai, Kingu, fosse em vão, não depois de tantos sacrifícios, tantas vidas e tempo perdidos na guerra. Mas alguém o fez de qualquer jeito e agora tinha uma conexão com Noxphoros, mas isso também apontava que quem quer que fosse tinha uma alta tolerância ao éter corrompido que vazava daquela dimensão e que também tinha o conhecimento de como fazer o ritual – algo que foi erradico de todos os lugares possíveis em Primis -.

“Agora quer que eu conte a notícia horrível?”

Matheus quase havia esquecido que estava em chamada com o irmão. O conhecimento de alguém usando um ritual para Noxphoros o havia feito perder a noção de tempo.

“Depois de saber que alguém está brincando com algo tão absurdo quanto Noxphoros? Tente o seu melhor.” Ele brincou involuntariamente, a noite mal havia começado e já estava sendo exaustiva.

“Bem...”

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Van observava a paisagem urbana passando pela janela do trem, vários prédios brilhavam ao horizonte em contraste com a escuridão do céu, uma noite sem lua pelo visto. Voltou sua atenção para o amigo que permaneceu em silencio durante todo o caminho até a estação, até mesmo aquele ar pomposo tinha desaparecido.

Ele não estava prestando muito atenção na conversa deles na verdade, mas focado na loja em particular que ia contra tudo que tinha visto de Unkaichō até aquele dia. Uma loja de ocultismo na cidade do futuro? Era até mesmo engraçado de pensar nisso, porém o simples fato de ainda existir era uma raridade, o lembrete de uma era muito antes dos avanços da cidade que sobreviveu as mudanças do tempo e da civilização mesmo quando o sobrenatural deixou de ser lendas e histórias.

Uma prova de que resistiu a tudo.

O garoto gostava disso. De conseguir se ater a algo que até mesmo o mundo não poderia mudar não importa quanto tempo levasse.

Olhou de relance pelo vagão, estranhamente os dois eram os únicos ocupantes do lugar – na verdade, de todo o trem -, Van esperava que ainda tivesse pessoas a esta hora, porém não havia e isso deixava o silencio entres eles um tanto desconfortável.

“Então... Deu tudo bem?” Perguntou Van ganhando somente o silencio como resposta. “Nakajima-san? Nakajima-saaan?”

Sentado no outro extremo do assento estava Nakajima Cendric Vane Kaminari, perdido em pensamentos enquanto fitava o chão como se nela estivesse todas as respostas de suas perguntas. Os olhos azuis piscaram quando sua mente finalmente percebeu a voz o chamando.

"Ah, perdoe-me, Mukyokai-san. Creio que meus pensamentos vagaram longe demais… Qual era mesmo a tua pergunta? Desta vez, ouvir-te-ei com toda a atenção." Kaminari respondeu com um sorriso apologético e leve constrangimento, ele não sabia quanto tempo estava preso em seus pensamentos.

Um grave erro para um cavaleiro dos Cendric Vane.

“Perguntei se deu tudo certo lá na loja? Você saiu de lá em silêncio até agora.” Perguntou novamente.

"Sim, perdoai-me pelo silêncio… Fui tomado de surpresa ao descobrir que o dono da loja conhecia meu tio, meu responsável, visto que ele é alguém que raramente se permite qualquer convivência social."

“Parece uma família complicada.”

Kaminari riu com a observação do amigo.

“Pode não transparecer à primeira vista, mas meu tio ainda encontrava tempo, mesmo entre tantos deveres, para dedicar-se a meu cuidado.” O semblante em seu rosto suavizou-se ao lembrar das memorias de sua juventude. “Mesmo sob o peso das árduas responsabilidades de liderar uma família como a nossa, ao mesmo tempo em que zelava por meu crescimento, ele ainda lograva ser uma presença constante em minha vida — e por tal devo-lhe minha mais profunda gratidão.”

O garoto de cabelo espetado somente pode acenar levemente com as palavras de Kaminari, porém em seu peito uma dor aguda quase imperceptível foi sentida.

Devia ser bom ter alguém ao seu lado enquanto crescia. De toda a sua infância até sua adolescência, Van sempre esteve por si só e até mesmo o seu suposto responsável nunca sequer fez alguma aparição em todos esses dezessete anos, ela somente o providenciava os meios para viver consideravelmente bem, contudo essa falta de contato familiar nunca lhe foi provido.

Ele não tinha muitos amigos por causa de sua sorte bizarra que o colocava em situações inconvenientes e as únicas pessoas que conversava eram mais conhecidos do que qualquer outra coisa. Na verdade, Van não conseguia se lembrar de qualquer momento em sua vida em que tivesse alguém para cuidar dele pessoalmente.

Deveria ser bom ter família.

“Deve ser bom...!”

Van não conseguira terminar sua frase quando algo aconteceu com o vagão, como se tivesse sido atingindo por algo em alta velocidade. Em um momento estava olhando para o loiro estrangeiro e no segundo adiante algo irrompeu entre eles. O impacto foi tão violento que o vagão inteiro estremeceu, as janelas estouraram em um coro de vidros estilhaçados, e a estrutura metálica gemeu com um animal ferido. Em um instante, o chão se partiu, abrindo-se em um rasgo grotesco que dividiu o vagão em dois.

O trem descarrilhou. O choque percorreu toda a composição, fazendo os vagões se contorcerem sobre os trilhos. O engate do vagão que estavam não suportou a força repentina que acabara de receber e sua estrutura sucumbiu os liberando das outras estruturas restantes que tombaram como resposta, fazendo com que o vagão partido em dois voasse para rua abaixo deles, uma queda de doze metros e uma rua que começou a se encher de estilhaços metálicos e faíscas elétricas que choviam como chuva de fogo.

Van foi lançado contra a lateral do vagão.

E última coisa que sentiu foi a dor e em seguida a escuridão.

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Kaminari piscou os olhos quando sua consciência voltou da terra dos sonhos. Sentia uma leve dor pelo corpo – talvez alguns músculos doloridos -, nada preocupante para ele já que era condicionando desde tenra idade a usar uma leve camada de éter ao redor do corpo. Era uma técnica básica que todos os cavaleiros aprendiam quando começavam seu treinamento e era a responsável por salvar inúmeras vidas em caçadas.

Se ele fosse alguém normal aquele acidente poderia ter sido fatal.

Alguém normal.

Alguém normal como Mukyokai Van.

“Mukyokai-san!” Gritou Kaminari, a voz saindo com um grasnido pela falta de ar.

A camada de éter havia desviado os estilhaços, mas não a violência do impacto: seus ouvidos zumbiam, a cabeça latejava e o equilíbrio lhe escapava por segundo. Mesmo assim ele estava de pé – a roupa marcada, o olhar firme – enquanto olhava o local do acidente.

Ele percebeu que ainda estava no vagão – ou no que restava dele já que faltava a sua outra metade -, a estrutura do local estava retorcida e decadente, com cacos de vidros e faíscas elétricas rugindo de suas fiações soltas. Andando com dificuldade, Kaminari caminhou para fora do vagão, o zumbido em sua orelha melhorava aos poucos, o suficiente para ouvir o som de alarmes de carros ressoando no ar frio da noite.

Assim que o garoto de cabelos loiros colocou os pés para fora do vagão destruído, ele viu o caos que se resultou daquele choque. A rua estava devastada, carros virados, partidos e amassados estravam espalhados pelo local, pedaços de concretos dos trilhos estavam jogados ao relento e um buraco se encontrava na lateral da ponte elevada, mesmo lá debaixo podia ver o brilho do fogo que vinha dos trilhos provavelmente alguma explosão havia ocorrido enquanto estava inconsciente. Também havia sulcos no asfalto resultado das partes do vagão que estavam se arrastando pela superfície, e logo a frente Kaminari podia ver o restante dele, faíscas saiam da sua parte elétrica e o som de pedaços de metal caindo ainda podiam ser ouvidos.

Contudo não era isso que chamou sua atenção. Não. Era que mesmo depois de todo aquele caos que havia acontecido, não havia sequer um barulho de vozes de outras pessoas ou de carros passando por perto.

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Não havia ninguém. Uma alma sequer.

E isso enviou sinais alarmantes na mente do jovem cavaleiro.

Será que ele estava tão preso em seus pensamentos que não percebeu falta de pessoas ao seu redor o caminho todo, até mesmo no embarque no trem?

Não havia ninguém porque alguém fez com que ninguém aparecesse.

Alguém tinha levantado uma barreira de dispersão.

Alguém tinha os isolado do resto do mundo.

“Sabe, demorou um pouco para você se dar conta.” Disse alguém, sua voz ecoando pelo local entre faíscas elétricas e alarmes de carro. “Mas bem, parece que eu não devia ter tido todo aquele trabalho de separar vocês e descarrilhar isso que vocês chamam de trem.”

O loiro olhou ao redor tentando procurar a origem da voz, porém ele somente via escombros e metal retorcido a sua volta.

“Eu queria testar uma coisa, mas parece que no final das contas não vou conseguir, que chato.”

Ainda olhando ao seu redor a procurar do dono da voz, Kaminari não percebeu algo se formando na sua sombra. Ela ondulou como se estivesse tornando-se liquida e der repente algo se ejetou dela, a sombra tomou a forma de uma lança, projetando-se em direção a nuca do cavaleiro em alta velocidade.

Fshhh!

Kaminari inclinou a cabeça o suficiente para que a ponta da lança feita de sombras passasse bem perto do seu rosto, podia sentir até mesmo a corrente de ar resultante do objeto. Virando-se rapidamente, o loiro ergueu o braço direito, onde correntes de eletricidade começaram a se formar na palma de sua mão.

Sceot!

A eletricidade voou de sua mão pelo ar em direção ao local que veio o ataque em sua retaguarda, o impacto do elemento contra o asfalto ecoou pela rua vazia, escombros voaram e caíram no chão chamuscados e com fumaça.

Não havia ninguém ali, somente um buraco esfumaçado.

“Tudo bem, você tem alguma habilidade. Isso é bom, quer dizer que posso testar essas coisas no fim.”

Virando a cabeça em direção ao outro pedaço do vagão caído mais a frente, Kaminari viu uma poça negra se formando no chão e dela emergiu aos poucos a silhueta de uma pessoa obscurecida por uma camada macabra de sombras. Quando emergiu completamente o manto de escuridão dissipou-se revelando a figura de uma pessoa vestindo um sobretudo com capuz esfarrapado com alguns pontos em vermelho, o jovem loiro não conseguia ver seus traços, mas no fundo de sua mente sabia que aquela pessoa era perigosa.

“Tente não morrer muito rápido.”

A figura desconhecida ergueu a mão direita, Kaminari pode ver que marcações rubras que brilhavam levemente, e com um movimento rápido no ar, aquela mão fez algo que o jovem cavaleiro não pode entender. Ele cortou ar e desse movimento um rasgo parecia ter se formando ao lado dele, seu brilho era de um roxo escuro e suas bordas eram estranhamente quadradas, a largura daquele rasgo se expandiu e dela saiu algo que certamente não era daquele mundo.

Parecia um construto, algo feito de rocha, pedra e escombros. Tinha um corpo musculoso e bestial, revestido por uma pele de tom negro e rochas quebradiças que parecem estar em erosão. No lugar de sua cabeça, havia uma massa cristalina de éter verde-vivo pulsante semelhante a um buraco negro em miniatura. Aquela criatura tinha somente um braço e algo invés de uma mão, havia uma lâmina alongada, como um osso extrudado de puro éter solidificado de aparência bastante afiada. Fendas brilhantes em verde radioativo se espalhavam pelo corpo que lembrava veias incandescentes.

O Cendric Vane não fazia ideia do que aquela coisa, porém aquilo fazia todos os alarmes em sua mente piscarem. Ele podia sentir a energia que aquela criatura emanava, um arrepio subiu pela espinha por causa do sentimento. Era errado de todas as formas possíveis. Sabia que era éter, nunca se esqueceria da sensação dela, mas aquela criatura emitia um tipo errado de éter, era distorcido, maligno, sobrenatural.

A criatura mesmo não tendo uma boca soltou um rugido, o som se assemelhava ao arrastar de algo afiado em um quadro negro, e então disparou na direção do jovem Cendric Vane brandindo a lâmina em seu braço esquerdo com total intenção em despedaçá-lo.

Kaminari em resposta agarrou o colar que continha um pingente de uma miniatura de espada de seu pescoço e o arrancou com força, o objeto brilhou em uma luz azulada.

Weax!

O pequeno pingente se iluminou, contorcendo-se em linhas de luz que se expandiam para fora, como se o espaço fosse forçado a ceder. Em um piscar de olhos, a miniatura cresceu, alongando-se, transmutando-se em aço real. O som metálico do crescimento – como ferro sendo forjado em pleno ar – ecoou pela rua.

Na mão de Kaminari surgiu a espada em sua forma verdadeira: uma lâmina longa e reta, dupla, brilhando sob a poeira, equilibrada por uma guarda simples e um punho envolto em couro. Não havia nela ornamentos, pois era uma espada que todos os cavaleiros deveriam sempre ter perto de si.

A aparição do aço parecia tornar a criatura ainda mais feroz a ponto de aumentar a velocidade em que corria. Tikie ergueu a lâmina e a segurou firme com ambas as mãos no cabo, a ponta da espada apontada em direção a criatura feita de pedra, flexionou os joelhos ligeiramente e firmou os pés no concreto.

O choque entre eles foi eminente.

O garoto ergue a lâmina apenas o suficiente para que a o apêndice espada da criatura deslizasse pela extensão da sua arma com fluidez, faíscas voavam com o choque entre os dois, Kaminari recuou ligeiramente a sua postura desestabilizando o inimigo e o fazendo perder o equilíbrio, cambaleando, e então reajustando sua postura e o aperto firme na sua espada, efetuou um corte vertical com precisão nas costas da criatura, partindo-a em dois sem dificuldades.

Voltou sua atenção para o invocador da criatura e disparou com velocidade com a espada preparada para um corte ascendente vertical, aproveitaria o momentum para derrotar aquele desconhecido antes que tentasse outro movimento.

Todavia sentiu os pelos da nuca arrepiarem-se, instintivamente ergueu a espada rapidamente, a tempo da lâmina da criatura feita de detritos se chocar vinda das suas costas, o golpe detinha uma força maior que a demostrada momentos atrás, o suficiente para Kaminari ser lançado para trás e chocar-se contra um dos poucos postes de luz que ainda mantinham-se de pé.

Tikie sequer pode assimilar a dor de suas costas baterem contra o poste quando percebeu a criatura já na sua frente com a lâmina pronta para um corte horizontal visando desmembrá-lo em dois. Rapidamente flexionou os joelhos, agachando-se o suficiente para que o ataque o perde-se por centímetros, porém o poste que estava atrás de si não teve a mesma sorte quando ela se dividiu em dois. Percebendo a abertura, Kaminari reajustou sua posição ainda agachada e então com um golpe de fincada perfurando o peito do oponente.

“Se cortá-lo não surtiu efeito.” Kaminari grunhiu enquanto estendia éter elemental através da lâmina. “Então que seja despedaçado! Berst!”

O que veio a seguir poderia ser descrito como um trovão tivesse descido dos céus, mas que ao invés de vim de cima veio da espada fincada na criatura. A lâmina brilhou em um azul profundo e no segundo seguinte aquela luz expandiu-se em uma grande explosão de descarga elétrica, tentáculos de energia voaram ao redor como se estivessem vivas que se estendiam pela rua, criando sulcos no asfalto e nas paredes, um verdadeiro show de luzes. O poder por detrás da explosão fora tanta que resultou na obliteração de toda parte de cima do construto, restando apenas as pernas que tremulas andara para trás até caírem no chão, com fumaça ainda saindo da cintura.

Kaminari ofegou ao exalar o ar que estava segurando nos pulmões. Dispersar aquele tanto de energia elétrica através da sua espada tinha sido um feito consideravelmente difícil. Ele não tinha tempo para pensar em qualquer outra solução, por isso apostou que aquela bola de energia condensada na cabeça da criatura era algum tipo de ponto fraco. Tentar acertá-lo com a lâmina demandaria tempo já que mesmo com o estilo feral da criatura de atacar, ela apresentava um grau de combate no mesmo nível que um de seus professores cavaleiros de volta a Inglaterra. O jeito mais fácil seria apostar em uma explosão de curto alcance com poder o suficiente para levar o núcleo junto.

E provavelmente sua aposta gerou frutos, a criatura não tinha se levantado.

“Uau, você realmente conseguiu vencer, deve ser um tipo de gênio.” Comentou o desconhecido com a mão no queixo, ponderando. “Sabe, um desses já foi responsável em dizimar muitos guerreiros antigamente, mas aqui você, um garoto que mal saiu da puberdade, o derrotou.” Ele riu como se lembrasse de uma piada muito boa.

O jovem cavaleiro franziu o cenho com a casualidade do estranho, como se tudo aquilo que ele tivesse feito sequer passasse pela sua mente. Era revoltante. Cerrando os dentes e com força de vontade, Kaminari ergueu-se empunhando sua espada, que em retrospecto não estava em um bom estado depois de ter sido usada como catalisadora para uma explosão de éter elemental elétrico – elas realmente não foram criadas para aguentar toda aquele descargar de energia passando pelo metal -.

Ele precisava subjugar o estranho, desfazer a barreira e encontrar Van o mais rápido possível. As suas esperanças dele ainda estar vivo pareciam diminuir rapidamente.

“Quem sois vós? Por que ergueis vossa mão contra nós?” Exigiu Tikie, seus olhos azuis fixos na figura desconhecida.

“Desculpe garoto, não é nada pessoal.” A figura respondeu depois de recuperar o folego, a levidade de antes desapareceu. “Nessa cidade tem muitos monstros, não queria chamar a atenção deles ainda, por isso decidi pegar o menos ameaçador para fazer um pequeno teste.”

Teste? Aquilo era somente um teste? E quem ele estava chamando de monstros?

Havia muitas perguntas e poucas respostas.

“Se você quiser se apressar e se juntar ao seu amigo na morte, eu vou lhe dar uma mão.”

Morte? Van havia morrido? Não. Claro que não, ele não podia se deixar levar pelas palavras daquele estranho.

Certamente Kaminari não conseguia sentir éter de Van, porque ele era um humano normal e seres assim raramente tinha éter o suficiente para outra pessoa sentir. O loiro podia admitir que não era um dos melhores rastreadores dos Cendric Vane, porém até mesmo ele podia sentir Anima, a fagulha primordial da alma de qualquer outra pessoa se tentasse o suficiente, ele podia até mesmo sentir o daquele estranho na sua frente apesar de estar muito distorcida por algo além de sua compreensão.

Mas ele não conseguia sentir o Anima de Van.

Isso era preocupante.

“Vamos terminar isso, garoto do raio, tenho coisas para fazer, pessoas para matar.” O desconhecido ergueu a mão esquerda e com um movimento de corte, outro portal se abriu. “Um último teste.”

O portal diferente do seu antecessor cresceu em largura e altura, a sensação de distorção parecia estar em uma escala completamente distinto da última criatura que tinha saído. Pois diante de seus olhos, outra coisa surgiu.

Ela erguia-se muito além da altura de Kaminari, ostentando um tamanho intimidante e a pele negra como se fosse rocha queimada. O corpo é esguio, humanoide apenas na silhueta, mas tomado por linhas de luz verde-neon que pulsavam como veias de um organismo feito de pura energia corrompida, era éter, mas completamente errada. Essa luminescência não era constante, mas irregular, como uma chama preste a se apagar e reacender.

Do lado esquerdo projetava-se um escudo cristalino gigantesco, como se a matéria ao redor tivesse se solidificado em fragmentos angulares e afiados, irradiando tons azulados profundos, entremeados por rachaduras que deixavam escapar clarões amarelados. Era como se aquele braço fosse menos uma defesa e mais um fragmento arrancado de algum mundo mineral distorcido, fundido ao corpo do monstro.

No braço oposto, alongava-se uma lâmina como uma espada vida de energia compactada, com a ponta se estendendo em vibrações finas e ameaçadoras, como se cada oscilação fosse capaz de perfurar tanto carne quanto aço.

A cabeça era encoberta por uma coroa irregular de espinhos etéreos, e em meio ao vazio do seu rosto ardia uma esfera negra circundada por uma aureola purpura, como um eclipse eterno que se abria no lugar onde deveria existir olhos.

Aquilo parecia a imagem distorcida de um cavaleiro ostentado espada e escudo.

Ele mal teve tempo de reagir quando a figura alta e esguia da criatura desapareceu da sua vista apenas para surgir bem na sua frente, com seu escudo feito de escombros pronto para acertá-lo. Kaminari em um movimento rápido ergueu sua espada para usar como um protetor improvisado, o garoto só não esperava que a força exercida pela criatura fosse exponencialmente maior que a sua. Seus pés deixaram o asfalto, o choque entre a pedra e o metal foi tanto que ele sentiu todos os ossos do corpo protestarem contra a pressão que estavam sentindo. O metal da sua espada trincou em resposta ao golpe.

Kaminari fora jogado para longe como uma boneca de pano enquanto quicava no chão até chocar-se contra o metal do vagão que tinha saído, a estrutura atrás de si rangeu e dobrou-se com o contato. Sangue saiu de seus lábios quando o ar escapuliu de seus pulmões. Contudo o loiro não teve tempo de acalentar-se com a dor ao ver a figura esguia do monstro já na sua frente, a ponta da lâmina braço vindo em sua direção com intenção de empalá-lo.

Com dificuldades o Cendric Vane jogou-se para esquerda, forçando o corpo dolorido a responder em prol da sobrevivência, contudo ele não esperava que a criatura torcesse a lâmina horizontalmente e começasse a correr em sua direção ainda com a espada fincada, cortando seu caminho até ele como se fosse uma faca quente passando por manteiga.

Não havia tempo a perder, Kaminari ergueu sua espada e usando a parte plana como um escudo, a dor do choque de antes ainda reverberava em seu corpo e o máximo que conseguiria era rezar para que sua espada aguentasse o golpe.

Suas preces não foram ouvidas.

O choque entre as lâminas criou faíscas e arrastou Kaminari pelo chão como se ele sequer tivesse algum tipo de peso, todavia o garoto percebeu suas baixas chances quando a sua espada – danificada pelo movimento explosivo mais cedo – sucumbiu sobre a pressão da criatura e partiu-se em vários pedaços. Ele pode somente observar quando era atirado para longe e atingisse uma parede de concreto, criando um sulco profundo em sua superfície com rachaduras ao redor e subindo uma nuvem de fumaça.

“Você ainda está vivo? Garoto, você é uma comédia.” A figura desconhecida abriu um sorriso ao ver a silhueta cambaleante de Kaminari surgindo do meio da nevoa de detritos.

O loiro nunca havia sentido tanta dor antes, nem mesmo as árduas horas de treinamento chegavam aos pés do que seu corpo estava passando naquele momento. Tudo nele pedia para permanecer caído, fingir-se de morto e descansar, mas Kaminari sabia que nunca faria isso. Aquela pessoa desconhecida, o invocador dos monstros de pedra, era alguém maligno que criaria caos e desordem assim que acabasse com ele, o loiro nunca em sã consciência deixaria alguém tão nefasto escapar mesmo que tivesse de morrer naquela rua.

Jamais curvar a alma a corrupção,

Não averta seu olhar do sofrimento,

Nunca se ajoelhar diante a tormenta,

Seja a luz que guia não a que cega,

Jamais traia a Ordem.

Ele seguiria esses dogmas até o fim de sua vida, mesmo que ela acabasse agora mesmo.

Tão focado em permanecer em pé que Tikie sequer percebeu o pedaço de papel caindo para fora do seu colete agora surrado. Ao tocar no solo as escritas no papel brilhara um tom dourado e repentinamente dela saiu algo que se assemelhava a uma lança de luz, que atravessou o ar, perfurando a orbe de éter que era a cabeça da criatura. O monstro de alguma forma rugiu de dor, caindo de joelhos enquanto rachaduras apareciam ao redor do corpo e pedaços de rocha que faziam sua estrutura caiam sob seus pés.

Aquele era o papel que o dono daquela loja o havia dado.

“O QUE?!” O grito de descrença do invocador ecoou pela rua deserta, vendo sua criatura ser derrotada por uma lança. “COMO!? Não é possível que uma simples lança de luz possa derrotar um Kaelvrithar?!”

Tão perdido em seus próprios pensamentos, o invocador desconhecido não percebeu a presença de uma pessoa que cambaleava em sua retaguarda. Seus passos eram vacilantes e vagarosos, mas transmitiam uma firmeza que não condizia com o estado do resto do corpo.

“Ei...”

Era uma voz fraca, tão fraca que saia mais como um sussurro ao vento, mas o invocador o ouviu e virou-se.

Ali estava Mukyokai Van ou que se parecia com o garoto sob esse nome. O estudante estava cheio de ferimentos, indo dos pés a cabeça. Cortes e contusões compunham a maior parte de seu corpo, um corte em particular vindo da sua testa escorria pelo rosto passando pelo seu olho direito. O braço esquerdo pendia frouxamente ao lado do corpo, completamente inutilizável, sangue escorria do ombro até a ponta dos dedos marcando o chão destruído com uma trilha macabra de vermelho. A sua camisa antes branca agora estava pintada de carmesim e cinza, uma especialmente ao redor do estomago que parecia crescer a cada passo que dava. Contudo ele ainda tinha mobilidade o suficiente para ergueu o punho direito e cerrá-lo com o restante de suas forças a ponto de sangue sair dos pequenos cortes ao redor do membro.

Ele parecia mais um cadáver ambulante, agarrando-se a vida com todas as forças.

“Você não estava morto?”

Foram as últimas palavras confusas que saíram da boca do invocador quando sentiu o peso do punho de Van acertado o seu rosto com força o suficiente para levantá-lo no ar mesmo que ligeiramente.

TSSHHRAAK!!

O som ecoou como vidro se estilhaçando em mil direções, o invocador naquele momento sentiu todo o seu poder desaparecer momentaneamente e consequentemente todo o sustento da barreira que os separa do mundo exterior. Foi como se um interruptor tivesse sido ativado e os sons do mundo voltaram a ser ouvidos.

Contudo, para o invocador, aquilo era um sinal que as coisas estavam começando a sair do controle. Já não havia mais a barreira, eles agora eram suscetíveis ao rastreamento. O pior ainda era que as runas feitas em seu corpo para ocultá-lo em específico haviam sumido.

Os monstros daquela cidade agora podiam senti-lo.

“Seu desgraçado!” O desconhecido voltou sua atenção para a pessoa que o tinha socado, somente para vê-lo jogado no chão enquanto uma poça de sangue criava-se por debaixo dele.

“Ei! Eu ouvi algo por aqui!”

“Meu Deus! O que aconteceu aqui?!”

“Alguém chamem os bombeiros!”

A figura desconhecida estalou a língua ao ouvir as vozes de outras pessoas se aproximando. Não era hora dele fazer sua aparição, a outra pessoa que tinha vindo com ele pelo portal ainda não tinha dado o sinal para começar a carnificina na cidade. Por isso o invocador decidiu deixar a cena ao afundar sob sua sombra enquanto mais e mais pessoas se aproximavam do desastre.

Enquanto a Kaminari, finalmente percebendo que a barreira havia sumido por algum motivo e com saída do inimigo misterioso, enfim pode desabar no chão de cansaço. Tudo o que ele conseguiu ver e ouvir antes de sua consciência desaparecer para o mundo dos sonhos eram as vozes das pessoas pedindo por uma ambulância.

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Há vários quilômetros de distância do acidente que ocorrera com Van e Kaminari, no terraço de um prédio alto o suficiente para ter uma visão ampla da cidade de Unklaicho, uma poça de sombras se formou e dela saiu o estranho invocador que mesmo com maior parte do rosto coberto, era perceptível ver sua irritação pelos dentes cerrados com força e o machucado em sua bochecha esquerda.

Ele precisava manter a calma e pensar de forma clara. Respirando fundo, o estranho deixou as frustrações de lado naquele momento.

Primeiramente, deveria ver o estrago que aquele garoto havia feito de algum jeito. Ele ainda podia sentir sua conexão com Noxphoros, as runas em seu corpo estavam voltando a crescer lentamente, isto era um problema a menos. Segundamente era a runa de ocultação que havia sido quebrada, então permanecer ao ar livre representava muitos riscos que ele ainda não estava disposto a arriscar.

“Espero que você esteja aproveitando bem esse luar, pois seria sua última caso faça alguma besteira.”

O som do tilintar da espada foi o suficiente para o estranho virar-se rapidamente enquanto formava uma lança feito de sombras que emergia do chão indo em direção a outra pessoa atrás dele.

Tudo parecia ter acontecido em câmera quando ele viu a ponta da lâmina de uma katana passando a meros centímetros do seu rosto, mas o suficiente para cortar uma parte do seu capuz. A lança que deveria ter transpassado o intruso partiu-se em vários pedaços, triturada em tão pequenos pedaços que mal podia ser chamada de lança. O estranho jogou-se para trás, criando uma distância quase segura do seu agressor.

Enfim ele pode ver e ocorreu-lhe o pensamento que era melhor não ter visto.

Porque ali na sua frente, estava um dos Renegados.

Matthaeus, o Rei da Luz.

O antigo Rei permaneceu em sua fachada seria e serena. Ele pode não ter ido com intenção de matar, mas com certeza não estava se segurando para pegar aquele estranho encapuzado com um ataque surpresa em sua retaguarda, porém de ele havia se esquivado do seu corte por pouco.

E isso era um feito que muito poucos poderiam terem feito.

O Rei da Luz observou o outro ocupante daquele terraço com firmeza. Não era necessário sentir a sua assinatura de energia para perceber á sua frente era a mesma que tinha realizado o ritual de sangue, a sensação de corrupção que emanava do corpo dele era inconfundível e dificilmente se esqueceria dela. Como ele conseguiu manter sua presença oculta desde sua chegada ainda era uma incógnita, contudo repentinamente Matheus conseguiu senti-lo momentos atrás. Havia acontecido algo, o renegado apostaria que estava conectado com papel que tinha entregado para o jovem Cendric Vane horas atrás.

Ele teria ido direito para a localização deles, mas a presença distorcida do éter corrompido tinha mudado seus planos. Aquilo era muito importante para deixar de lado.

“Você vai vir comigo, por bem...” Matheus embainhou Inyōzan lentamente, o som agudo da lâmina passando pela bainha ecoou no ar noturno. “... Ou por mal.”

Aquela figura não morreria se perdesse um membro ou dois. Provavelmente.

“Vejo que você também não mudou nada.” A irritação do estranho retornou enquanto sussurrava essas palavras para si mesmo, olhos amarelos doentios brilharam pela fenda feita pelo corte de mais cedo. “Myrk-Geira Hǫft!

Der repente sombras se expandiram ao redor de Matheus vindos dos seus lados, abaixo de si e até mesmo acima, formando uma esfera negra que o prendia no lugar. Dentro desta bola de escuridão nada existia, criando um total falta de visão, como se tivesse sido arrancado do mundo anterior e jogado dentro destra prisão privada de sensações. Podia não ser visto, mas das paredes que cercavam o renegado, lanças feitas de sombras se formavam e lançavam-se em direção ao homem no meio da esfera em rápida velocidade, vinda de todos os lados. Matheus segurou firmemente a bainha de sua katana que exalava uma aura esverdeada, respirou fundo e fechou os olhos.

Shinpan-zan.”

O mundo parecia ter parado do lado de fora da esfera e então em um piscar de olhos a prisão esférica de escuridão se desfez de forma violenta, explodindo enquanto era estilhaçada em pedaços microscópicos, como se tivesse passado por um triturador metódico, restando nada apenas gosmas que se assemelhavam a uma escuridão liquida que se espelhava no terraço.

Matheus embainhou a katana e olhou ao redor, a figura desconhecida havia sumido, provavelmente quando ergueu aquela esfera feita de sombras, e mesmo que tentasse senti-lo ou rastrear a sensação corrupta do éter, não conseguia achá-lo, pois deve ter usado alguma outra técnica para apagar sua presença.

Suspirou em frustração por tê-lo perdido.

Fitou as gosmas de escuridão que desapareciam lentamente ao seu redor e então de volta para a cidade.

Algo entrou em movimento naquele momento e Matheus tinha certeza de que aquilo mudaria o rumo não somente da história humana como também de Primaris.

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Continua....


Notas finais
Enfim, foi isso. Vou tentar não demorar muito nos próximos, mas meh. Também temos lore caindo a torto e direito, como Noxphoros, ritos proibidos e éter, vamos aprendendo conforme a história se segue. Para os nomes das técnicas, deixa eu ver: Weax - Cresça Sceot - Atire Berst - Exploda São vindas do inglês antigo, o famoso inglês anglo saxônico, para apontar que a família Cendric Vane tem raízes bem antigas. Myrk-Geira Hǫft - Prisão de Lanças Negras Vem do nórdico, é uma pista bem importante. Shinpan-zan - Julgamento Cortante Vem do japonês, que também uma pista bem importante futuramente. Enfim, foi isso. Até outro dia.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.