O sol invadia meu quarto, parecia forte, mas a sensação térmica dentro desse lugar sempre é fria. Cansei das batidas embaixo da cama, só isso foi um bom motivo para levantar naquele horário. Os seres de outro mundo (os chamo de fantasmas) que me perseguem costumam ficar agitados durante a noite, nunca me deixam dormir o suficiente; apesar disso, esses que habitam meu quarto são bons o suficiente, não interrompem minhas ações ou me tocam, não parecem tão assustadores depois que pega o costume de estar sempre rodeado por eles.

É, parece estranho, mas não sou esquizofrênico. Isso realmente acontece, posso ver três desses fantasmas dentro do meu quarto. Há um que é caolho, ele fica sentado na ponta da minha cama, sempre observando o tapete. O outro fica embaixo da cama, é uma menina, ela bate a cabeça da madeira no ritmo da musica “Young, Wild & Free” do Wiz Khalifa (o único problema é que ela nunca para). E, por último, existe o cara que tem um graaande corte na cabeça, ele fica dentro do armário, sempre abraçando os joelhos e com os olhos arregalados. Esses três nunca me incomodam.

O segundo maior problema que enfrento é o fato de não lembrar muita coisa do meu passado. Infância? Eu não sei exatamente o que é isso. Quando busco no mais profundo que minha mente vai, só consigo lembrar de um acidente: o acidente onde ganhei meu cachorro, o Bowie. Lembro de acordar em uma maca, meus pais contaram que salvei um cachorro (o Bowie) na rodoviária Albanir e fui vítima de um carro desgovernado. O estranho de tudo é que não lembro dos meus pais ou dos meus irmãos antes desse acidente, mas sei que os conheço, sinto que os conheço e que somos meio “próximos”.

...



Já conseguindo ter coragem para ir tomar banho, coloquei uma playlist de musicas antigas pra embalar aquela manhã gélida. Minha mãe vive me chamando de velho, ela odeia que eu levante ouvindo Frank Sinatra ou Queen, sempre as mesmas musicas, elas sempre animam minha manhã; até meus amigos fantasmas ficam mais animados ao ouvir Crazy Little Thing Called Love. Josie, minha mãe, sempre diz que garotos de dezesseis anos devem ouvir músicas atuais, músicas eletrônicas ou trap. E... Falando nela, ouvi seus passos invadindo meu cafofo:

— Não quero que continue saindo do quarto sem avisar durante a madrugada, okay? –Ela disse batendo na porta do banheiro, na esperança de conseguir me apressar.

Isso aí, meus pais são estranhos a ponto de não permitirem que eu ou meus irmãos estejamos fora do quarto depois das 22h. Eles não deixam. Em hipótese alguma. Quando precisamos de algo, devemos mandar mensagem pedindo e meu pai leva aquilo que precisamos até o quarto. Além disso, não devemos fazer barulho algum durante a noite. Nosso horário de voltar para casa não passa das 18h.

— Relaxa, mulher! Eu não saí do quarto ontem. Mesmo; dormi muito bem na noite passada. – Abri a porta e abracei o corpo atlético de Josie.
— Entenda que isso é pro seu bem, okay? Eu e seu pai desejamos que você e seus irmãos um bom futuro, Dário. Não quero ter que dizer a mesma coisa pra vocês todas as manhãs.
— Eu sei, por isso faço o que mandam. Mas você precisa confiar em mim! – Comentei rindo, Josie nunca aguenta quando solto uma risada com gosto.

Ela afagou meu cabelo enquanto soprava em retenção e cerrou o cenho, como se dissesse algo como “beleza, vou acreditar dessa vez”. Minha mãe sempre é mais fácil de levar, ela é mais compreensível que meu pai. Sem enrolar mais, tomei banho assim que ela se retirou.

Não comentei com ninguém, não queria preocupar meus pais, mas algo estava me incomodando muito naquela manhã. As cortinas amanheceram já guardadas, dando espaço pro sol abundante entrar, iluminar todo o quarto e atacar meus olhos. Pessoas normais assumiriam que alguém entrou lá e resolveu enrolar as cortinas, mas disso nunca acontece aqui em casa. Quer dizer, às vezes meus pais abrem as cortinas do quarto da Giulia ou do Júnior, mas nunca fazem o mesmo no meu quarto. Fora isso, no banheiro, a corrente de água desceu muito quente e rapidamente gelou, mesmo que eu estivesse usando o chuveiro elétrico.

Espero que nada me leve até um trágico desfecho.

Notas finais
Perdão pela decepção, não me abandonem. Prometo que vai melhorar depois, tô com preguiça de escrever agora ♥