Kindan no Chi
2 Proibição 2 – Encontro
Notas iniciais
Eu não estava acreditando no que vi ao adentrar a enfermaria, por um momento pensei que tivesse sido apenas minha imaginação ou o sono, mas não, era totalmente real. Ali, em minha frente, sentada em uma cadeira giratória, havia uma pequena garota de cabelos violetas e olhos no mesmo tom, mas o que estava me deixando nervosa era o gigantesco chapéu negro com a ponta enrolada que ela utilizava. — Arme! Você está doida?! — perguntei quase tendo um ataque.
— Não, por quê? — ela disse como se aquilo tudo fosse a coisa mais normal do mundo, o que me deixou totalmente irritada. Além de não ter dado bola para minha pergunta e desespero, ficou girando a cadeira até ficar tonta. — Você não tem medo de ser jogada na fogueira?! — tentei dizer algo que desse impacto para que a enfermeira da escola se tocasse, mas pelo visto, não houve a reação que esperei.
— Por que eu me preocuparia com algo assim? Não estamos mais na época onde as bruxas são jogadas na fogueira. — ela conseguiu dizer depois de se recuperar da tontura, me observando com suas íris violetas. No momento em que eu ia rebater essa resposta impensada, Arme começou a falar sem parar. — E nem precisa se preocupar tanto assim, o Halloween já está próximo e todos pensam que estou apenas me fantasiando a caráter. Claro que não usarei minha magia em um tempo tão perigoso. — o modo em que ela me encarou enquanto as palavras saíam de sua boca me deixou incomodada, mesmo que pareça estar se fantasiando, nada garante que não descubram sua verdadeira identidade, mas pelo que estou vendo, não adiantava discutir com uma bruxa, você nunca vai conseguir ganhar de uma — principalmente em argumentos...
— Ok, não vou falar mais nada — ergui minhas mãos para o alto no intuito de parecer que eu estava desistindo, o que fez a garota em minha frente sorrir e comemorar, já que ganhou o debate. Dei um leve suspiro e fui em sua direção, sentando na cadeira ao lado da escrivaninha. — Deixando tudo isso de lado, o que você queria me dizer sobre um exame? — levantei minha sobrancelha esquerda, esperando alguma resposta.
Arme me olhou da cabeça aos pés, ela observava todos os meus órgãos, ossos, músculos e qualquer outra coisa que houvesse dentro de meu corpo. Depois dessa revisada rápida pelo meu organismo, a enfermeira girou sua cadeira novamente e parou em frente da escrivaninha onde continha várias fichas, provavelmente de todos os seus pacientes. Ela vasculhou entre os envelopes e encontrou um que continha meu nome, retirando um papel cheio de anotações. — Hum... Exames de sangue, doenças, medicamentos... — murmurava alguns fragmentos enquanto analisava minha ficha.
— E então...? — perguntei meio receosa já que minha “querida” amiga bruxa não era de ficar tão séria assim desde que eu a conheci. Depois de alguns minutos no vácuo, seus olhos violetas voltaram a me observar, pude perceber que ela tinha um assunto importante a me falar só pelo fato de sentir um calafrio devido ao olhar penetrante. — Lin, sobre seus exames... — ela deu uma longa pausa só para me deixar ainda mais curiosa, seu tom de voz sério fez com que eu me preparasse mentalmente para o pior. — Eles... Estão todos em dia e não há nada de errado com você, parabéns! — eu quase caí da cadeira, por um momento pensei que tinha escutado algo errado, mas descartei essa ideia ao ver a garota morrendo de rir da minha cara.
— Hahahaha, você deveria ter visto a sua cara! Foi muito engraçada! — Arme dizia entre risos, a vontade de pegar a cadeira em que estava sentada e jogar sobre ela foi muito grande, mas tentei me controlar, respirei fundo e me lembrei de um fato sobre as bruxas: Elas amam pregar peças para se divertirem. O pior não é ser alvo das brincadeiras sem graças de uma sobrenatural, e sim, não poder fazer nada a respeito disso para manter em segredo sua identidade dos outros. — Arme...
Ela não parava de rir, mesmo que eu tentasse chamar sua atenção não conseguia tirá-la desse ataque de risos. O único jeito era esperar, algo que eu já estava acostumada a fazer toda vez que ia fazer compras com a Amy, era possível até me chamarem de expert em paciência. Contei no relógio situado acima da porta de entrada os minutos que passavam até ela se acalmar, foram exatamente cinco minutos até a sala parar de ser preenchida por risadas.
— Essa foi boa... — Arme comentou enquanto limpava os últimos resquícios de lágrimas em seus olhos. Aos poucos sua compostura voltava ao normal, pegou novamente minha ficha e a olhou atentamente entre algumas risadas baixas. — Minha querida deusa, não vi nenhum problema em seu organismo. Suas hemácias estão saudáveis e não há nenhum antígeno que possa causar problemas muito graves — ela dizia passando o olhar em alguns gráficos e números contidos no papel.
— E você me chamou apenas para dizer isso? — perguntei um pouco desinteressada, se não tinha nada de errado comigo, por que raios eu fui chamada? Eu queria uma explicação e rápido antes que eu fizesse picadinho de bruxa...
— Na verdade, eu queria apenas saber de uma coisa... Aquela sua amiga, já descobriu que você não é uma humana? — pude ver um brilho no olhar da enfermeira, então essa era a razão por trás da solicitação de minha presença, apenas para jogar conversa fora. Pelo visto eu não tinha escolhas, tinha que responder ou seria zoada novamente. — A Amy? Não, ela não faz a mínima ideia de eu ser uma sobrenatural. O único problema é que ela acredita em nós e quer ficar com um vampiro por causa de alguns boatos — comentei lembrando da conversa que tivemos minutos antes dentro da sala de aula.
— Nossa, esse é um caso raro. Uma humana que quer ficar com um sobrenatural? Isso é pedir para morrer, não dá para duas raças tão diferentes ter uma relação tão forte como o amor. Se tentarem ficar juntos, muitos perigos assolarão o casal e um deles será sacrificado, ou seja, não há final feliz para esse tipo de união. — a garota explicou enquanto me olhava com uma expressão assustada, eu entendia muito bem como ela deveria estar se sentindo nesse exato momento. — Sim, eu sei. Por isso tento ao máximo tirar a ideia de que nós existimos da cabeça dela, assim ela não correrá perigo e nem terá uma vida infernal como nós temos nos dias próximos do Halloween — complementei um pouco emburrada por lembrar que eu era a reencarnação de uma deusa.
— Vida infernal? Eu não acho, pelo contrário! É super divertido viver entre os humanos, pregar peças e fingir que nada de misterioso ou sobrenatural aconteceu é algo interessante de se fazer com essa raça desprovida de magia ou qualquer coisa do gênero, principalmente nos dias próximos do Halloween! — ela dizia animada, divertido só se for para as bruxas, pois para uma reencarnação isso não é nada legal. Ficar fugindo ou se isolando nos dias mais obscuros do ano não é algo nem um pouco interessante. — Ah! É verdade! Te chamei também para que eu ganhe a recompensa por ter analisado os seus exames e não ter contado para todos o seu segredo!
Eu sabia que tinha algo relacionado ao meu sangue dourado, todos os seres sobrenaturais estão em busca dele para conseguirem ficar mais fortes e imortais. Mas como eu sabia que Arme cumpria direitinho a promessa que fizera comigo no começo do ano letivo, sempre ofereci algumas gotas de meu precioso sangue como recompensa por me ajudar nas horas em que necessitava. Dei um leve suspiro e estiquei minha mão direita em sua direção, não precisei dizer nada para que ela pegasse um estilete e fizesse um corte de leve no meu dedo indicador.
Algumas gotas douradas começaram a sair do pequeno corte, a enfermeira colocou um pequeno vidrinho para que conseguisse recolher todo o sangue sem ser desperdiçado. Depois de aproximadamente cinco gotas caírem de minha ferida, ela colocou um pequeno curativo em meu dedo, colocando o recipiente sobre sua escrivaninha fechando-o com uma tampa. — Pronto! Desse modo serei a bruxa mais poderosa do mundo! — e começou a dar risadas malignas, nem tentei avisá-la de que demoraria anos até ela conseguir uma grande quantia de poder por beber algumas gotinhas de meu sangue.
— Então eu já estou livre, “enfermeira”? — destaquei com certa ironia a última palavra, pois para mim ela não parecia nem um pouco uma enfermeira já que eu conhecia sua verdadeira identidade. No momento em que ela concordava com a cabeça e ia dizer algo, a porta do local foi aberta com um grande estrondo fazendo nós duas pularmos de susto da cadeira onde estávamos situadas.
Viramos rapidamente nossas cabeças em direção à entrada e saída da enfermaria, para minha surpresa, uma pessoa que eu conhecia muito bem estava parada e com um grande sorriso no rosto bem na frente de uma porta destroçada pela força que foi utilizada. — Lin! Vamos agora para o shopping! — minha reação? Fiquei de boca aberta e sem comentários para a Amy, olhei para o lado e percebi que até mesmo a Arme não sabia o que dizer depois daquela invasão nada convencional.
— E a aula já acabou para sairmos assim do nada? — tentei perguntar mesmo tendo uma grande ideia de como seria a resposta. Ela nem precisou falar nada, apenas o sorriso sapeca e a caminhada até minha direção já explicaram tudo, quando havia uma promoção que interessasse minha amiga, não há nada que impedisse ela de conseguir as coisas mais baratas, principalmente as roupas e calçados. — Vamos logo antes que tudo acabe! — foram as únicas palavras que disse antes de pegar meu braço direito e me puxar para onde estava parada segundos atrás.
— Ah! Enfermeira Arme, muito legal o chapéu! Parece até uma bruxa de verdade! — Amy gritou assim que me arrastou para fora da enfermaria, me levando para o pátio da escola sem que os inspetores e outros alunos percebessem nossa saída repentina. Saímos como se fossemos ladras, andando sorrateiramente até sairmos totalmente da área escolar. Não preciso nem dizer que eu me sentia uma criminosa de verdade fugindo da polícia...
Como sempre, não discordei de nada do que minha amiga dizia enquanto íamos de loja em loja comprando quase tudo que encontrávamos pela frente. O tempo que passou? Só levou o dia inteiro para ir na maior parte das lojas em promoções que Amy havia encontrado na internet com seu novo celular de última geração. Depois de tanta correria e sacolas, saímos de uma loja que já começava a fechar, o relógio central da cidade marcava oito horas, a lua cheia já estava no céu com seu intenso brilho.
— Amy, preciso ir logo para casa. Tenho que ahn... Estudar para as próximas provas. — eu não podia dizer para ela que necessitava ficar em casa já que eu seria alvo fácil de seres perigosos atrás de meu sangue divino nos dias próximos do Halloween, seria muita besteira de minha parte revelar um segredo tão grande desses no meio da cidade onde várias pessoas e provavelmente seres sobrenaturais estariam.
— Verdade! Tem prova semana que vem, valeu por lembrar Lin! Tenho que estudar também antes que meus pais me matem por tirar nota baixa, seria terrível se isso acontecer! — ela começou o seu escândalo, colocando com dificuldade suas mãos cheias de sacolas perto do rosto para mostrar ainda mais seu desespero e aflição se tirasse alguma nota abaixo da média. Bem, para mim não tinha muito problema ir mal na prova já que não tenho pais nem parentes próximos... — Já vou indo e tentarei encontrar o vampiro, me deseje sorte e até amanhã! — nem tive chances de responder, ela saiu correndo um pouco desengonçada com o tanto de compras que ela tinha feito, suspirei profundamente e percebi que não consegui tirar a ideia de encontrar o vampiro da cabeça de minha amiga.
— Amy... Você não sabe no que está se metendo... — sussurrei para mim mesma começando a andar na direção contrária a que ela tinha pegado, segurei minhas sacolas com um pouco de força, era como se alguém me observasse e isso me deixava ainda mais nervosa. Estávamos perto do Halloween, as noites ficam muito perigosas e sombrias quando não há mais pedestres andando pelas ruas por causa do comércio fechado. Eu tinha que me apressar antes que algo de ruim acontecesse comigo...
Comecei a correr, passei rapidamente por algumas ruas e no momento em que entrei em um beco que cortava dois quarteirões, eu vi em minha frente a pessoa dos boatos, aquele que Amy procurava e desejava, um dos seres que eu mais temia em encontrar, o vampiro da cidade... Ele aterrissava com uma leveza a poucos metros de mim, eu não tinha condições de fugir, como estava correndo e com várias sacolas na mão, não consegui parar e voltar pelo caminho que vim, trombando sem querer no ser.
Logo eu, aquela que não queria encontrar o tão falado vampiro acabou por atropelá-lo, seria isso uma praga? Ou apenas uma coincidência? Eu só sabia que esse encontro seria o mais perigoso de todos...
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