Kin-Shannay

1 Capítulo 1 - Kai


Um forte vento batia naquela casa tentando derrubar a mesma, que resistia com heroísmo, deixando escapar de vez em quando um ruído. Os animais eram quase os únicos que não estavam dormindo, como se estivessem preocupados que algo estivesse errado aquela noite, e estavam certos.

Um grito feminino rompeu o silencio aterrador. O bebé já estava pronto para nascer, dois meses antes do normal.

David, o filho maior, já tinha ido buscar a médica daquela aldeia, e meia hora depois ambos já estavam na casa, onde sua mãe ia começar a dar a luz.

Já fazia quase duas horas que a médica havia se fechado naquele pequeno quarto com a mulher em parto e a filha mais velho. O pai havia estado no quarto vizinho todo aquele tempo, andando de um lado para o outro de tanta preocupação pela vida de sua mulher e de mais um descendente seu.

O silêncio voltou a dominar. Não se ouviram mais gritos. Cerca de um minuto depois se ouviu um fraco choro. Já estava ali. Já havia nascido. Era uma menina, de pele clara, quase albina, com apenas uma mecha de cabelo negro cobrindo grande parte da cabeça, possuía também um belo par de olhos azuis claros, severos e profundos. A menina olhou pela primeira vez em sua vida para o mundo e para sua mãe.

[...]

A menina recebeu o nome de Cecília e cresceu como uma mais. A garota aprendia rapidamente e realizava todas as suas obrigações com responsabilidade e sem protestar. Os invernos eram duros e a sobrevivência da família dependia do trabalho de cada membro, fazendo com que a garota soubesse seu lugar e seu papel de maneira rápida.

Cecília nunca foi tratada como especial, mas todo mundo sabia que ela era diferente, através de seu olhar severo e pensativo, e por seu caracter retraído. Preferia estar sozinha que estar brincando com outras crianças e apenas falava.

Mas tudo mudou quando ela conheceu Kai.

Cecília apenas tinha seis anos, mas mesmo assim ela já sabia sua função e seu lugar na granja. Aquele dia acordou mais cedo, para assim poder começar mais rápido seu trabalho e terminar mais cedo, depois passaria as horas de maior calor à sombra de alguma árvore.

Aquele dia ela tinha ido recolher framboesas para fazer compota.

De repente sentiu alguém atrás de si, e a garota girou-se.

— Olá – disse a criança.

O garoto estava sentado em cima do murro, mas Cecília não tinha ouvido como ele chegou.

Ele aparentava ter a sua idade, mas a ela não se lembrava de tê-lo visto por aquela zona. Estava muito magro e seu cabelo loiro caía sobre seus ombros em mechas desordenadas. Seus olhos verdes brilhavam amistosos e em seu sorriso havia algo que inspirava confiança.

Cecília não respondeu ao saludo e seguiu seu trabalho.

— Meu nome é Kai – o garoto disse atrás dela.

A garota voltou a girar-se e garoto voltou a sorrir-lhe. Mas quem era ele? Por quê se dirigia a ela como se a conhecesse desde sempre? O que procurava ali? Depois de uma pequena análise, não viu nada mais que sinceridade. Os olhos verdes do garoto seguiam fixos na garota e havia algo neles... Um convite? Aqueles olhos davam a impressão de que estavam carregados de promessas. Por uma vez Cecília deixou levar-se pela intuição e partiu a barreira que se encontrava entre ela e o resto do mundo.

— Sou Cecília – se presentou finalmente e sorriu também.

Assim começou uma nova amizade.

De início não se viam muitas vezes. Kai sempre vinha à granja e Cecília nunca lhe havía perguntado onde ele vivia ou quem eram seus pais. A única coisa que lhe importava era que ele estivesse ali, ao seu lado.

Ela sempre lhe falava de seus sonhos de viajar e conhecer terras novas e viver grandes aventuras. Kai costumava contar-lhe histórias sobre as terras remotas, de quando os dragões abundavam na terra, de como as terras élficas que se estendiam ao outro lado do oceano, de feiticeiros sábios e bondosos e sobre hérois que lutavam armados com espadas mágicas lendárias... Ela apenas ouvia seus relatos de olhos bem abertos, já que lhe permitiam sonhar com mundos que apenas poderia ter imaginado.

Na casa dela, esses tipos de relatos não eram muito apreciados, porque se existissem tais seres místicos, estavam muito longe para chegar a afectar a sua família, e, portanto não havia muitos motivos para pensar nisso.

Passado algum tempo, Kai e Cecília começaram a ver-se todos os dias. O garoto aparecia todos os dias de madrugada em frente à granja para ajudar Cecília com os seus trabalhos, para que terminasse antes e tivesse mais tempo livre até a hora de comer.

Então os dois corriam para o bosque rindo e conversando. Ele ensinava-lhe coisas que ela não sabia, juntos assobiavam aos pássaros, espiavam os veados, subiam às árvores mais altas e exploravam os cantos mais escuros e ocultos do bosque.

Um dia qualquer os dois estavam dando de comer aos cavalos no estábulo, quando ficaram surpreendidos com a mãe e a irmã mais velha de Cecília voltando do campo onde haviam estado ajudando a outros adultos.

— Com quem falas? – perguntou a mãe para ela.

— Com o meu amigo Kai – ela respondeu, se virando para onde estava Kai, mas levou um grande susto quando não o viu ali ao seu lado.

— E quem é ele? – retrucou a mãe, intrigada.

Então Cecília percebeu que nunca havia falado de Kai à sua família, e que eles nunca o haviam visto, já que este apenas se presentava quando estava sozinha.

Cecília girou-se chamando por Kai, seu amigo tão escoregadio, mas não houve resposta.

— Estava aqui a um momento atrás! – a pequena garota exclamou vendo a expressão de sua mãe.

Cecília suspirou movendo a cabeça e sua irmã mais velha riu.

Essa foi a primeira vez que ela se zangava com Kai. Passou toda uma manhã buscando-o para perguntar-lhe porque tinha ido embora de tanto imprevisto, mas sem resultado. Não o conseguiu encontrar. A pequena garota esperou até a tarde para que ele se presentasse, mas depois decidiu que, se ele voltasse a aparecer, não iria dirigir-lhe a palavra.

No dia seguinte, com um sorriso alegre em seus lábios, Kai estava sentado sobre o muro, pontual como sempre.

Cecília também saiu muito pontual, depois do café da manha. Esta passou por frente de Kai, sem olhar-lhe, zangada e dirigiu-se à capoeira.

O garoto foi atrás dela.

— O que se passa contigo? – Kai perguntou. — Por acaso estás zangada?

Não houve uma resposta. Cecília, com o cesto baixo o ombro recholhia os ovos, ignorando completamente seu amigo.

Ao princípio Kai não sabia muito bem o que deveria fazer. Depois se pôs a recolher os ovos e a depositá-los na cesta, como todos os dias. Cecília deixou que ele lhe ajudasse. Essa foi a primeira vez em que ela pensou se Kai não tería uma granja em qual ajudar, nem pais que lhe dissessem o que ele devería fazer. Como ainda seguia zangada não formulou a pergunta em voz alta.

— Sinto muito – sussurrou Kai, e sua voz soôu muito perto do ouvido da pequena garota.

— Desaparecestes sem mais! – a garota acusou-o. – Me fizeste ficar em ridículo frente à minha mãe e minha irmã. Pensaram que estava mentindo!

— Sinto muito – ele voltou a repetir. Sua voz era totalmente sincera mas a pequena Cecília precisava saber mais.

— Por quê fizestes isso? – perguntou.

— Era o melhor – o garoto de cabelos loiros respondeu.

— Por quê?

Kai parecía estar incomodado e apavorado por seguir aquela conversa.

— Eles não sabem que és meu amigo – a garota proseguiu. – É que não queres sequer conhecer minha família?

— Não é isso – o pequeno garoto não sabia como explicar-lhe aquilo. – É melhor que não lhes fales de mim. Que não saibam que estou aqui.

— Mas por quê?

Kai não repondeu em seguida,fazendo a imaginação de Cecília se disparar. O que sabia ele em realidade? Nada! E se houvesse fugido? E se fosse um ladrão? Ou algo pior?

Ela rejeitou logo esses pensamentos. Ela sabía que Kai era boa pessoa, e, ela sabia que podia confiar nele.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.