Killua movia os dedos velozmente por baixo da mesa enquanto a professora repetia as frases. Ele provavelmente estava cometendo vários erros de digitação, mas paciência. Gon nunca escrevera muito bem mesmo. Quando recebeu a confirmação do encontro, permitiu-se vibrar um pouco. Erro tolo. O celular escapuliu de suas mãos e deslizou pelo chão até ser chutado pela rasteirinha da Senhorita Camila.

— Killua Zoldyck. — Ela pousou las manos, digo, as mãos na cintura. — ¿Qué dicen las reglas?

O pobrezinho ergueu o rosto com cara de culpado, o braço esticado em uma tentativa inútil de recuperar o aparelho. Lembrou-se do que sempre lhe dizia seu irmão mais velho: quando não souber o que fazer, cante uma música.

Shake, shake, shake, señora! Shake it all the time! — Levantou-se gingando, catou o celular no chão e foi, ainda gingando, até a porta. — Work, work, work, señora! Work your body line!

Mentira, o irmão dele nunca disse isso. Era só um pretexto para o Killua parecer menos idiota cantando a música. (Errado, ainda por cima.) De qualquer modo, a aula de espanhol já estava praticamente no fim, e o garoto desejava muito ir à casa de seu melhor amigo Gon para passar a tarde jogando no mais novo Joystation 8000 (presente do papai ausente de Gon).

Chegando a seu destino, encontrou Kurode, o labrador de estimação de Leorio, cavando o quintal em busca de minhocas. Por algum motivo incompreensível, o cachorro gostava de comê-las. Se bem que ele comia de tudo, menos as gororobas preparadas por Kurapika, o namorado de Leorio.

— Se o Kurode está aqui, então o casal arco-íris também deve estar — murmurou Killua para ninguém em especial.

Abriu a porta como se fosse de casa, cumprimentou a Tia Mito e subiu as escadas. Leorio e Gon acotovelavam-se enquanto jogavam LEGO Batman.

— E aí, pessoal?

— E aí, Killua? — Gon abriu um enorme sorriso. — Senta aí.

— Olha só que gráficos legais! — disse Killua, sentando-se ao lado de Kurapika. — Por que não está jogando também?

— Só há dois controles — explicou o loiro.

— Oh, neste caso...

Killua arrancou o controle das mãos de Leorio. Quando o mais velho tentou protestar, deu-lhe um choque.

— Ora, seu moleque!

— Dá um tempo, tio. Vocês já devem estar jogando há duas horas.

Leorio resmungou algo ininteligível e se juntou ao namorado.

— Isso é chato, Gon. Coloca um RPG aí.

— ‘Tá bem.

Gon fechou o LEGO Batman durante uma cutseen do Coringa e procurou algum jogo que agradasse Killua. Que tarefa árdua! O Zoldyck fez cara feia para o RPG mais famoso do momento. Até cortou o barato do Freecss, que estava felicíssimo descobrindo todos os golpes de seu personagem, um cavaleiro medieval chamado Bob.

— Credo, Killua, você é chato!

— Quem é que fala “credo”? Me dá o controle aqui. Deixa que eu procuro algo melhor.

Acabaram encontrando um RPG de cartas chamado Greed Island. Killua pareceu gostar dele. Graças a Zeus!

— Ei, deixem o Kurapika jogar também — disse Leorio, aparecendo no quarto com quatro fatias de bolo e uma garrafa de refrigerante. — Assim a gente vai ficar triste e ir embora.

— O motel fica a duas quadras — respondeu Killua.

— Killua! — bradou o Kuruta, corando muito.

— Não liguem para ele, pessoal. O Killua é idiota.

— Não sou nada, Gon!

— Ele ‘tá tristinho porque a namorada terminou com ele.

— Mentira! — A voz do Zoldyck saiu fininha. — A Anita só está um pouquinho chateada porque eu derramei achocolatado no vestido branco favorito dela. Daqui a pouquinho esquece.

— Achocolatado, hein? — brincou Leorio, servindo-se do bolo.

— Anita é uma garota esperta. Espero que continue assim — reforçou Kurapika.

— Ei, o que é isso que vocês estão jogando? — perguntou o mais velho.

Greed Island. Um jogo de estratégia. Não serve para gente burra como você.

— Ora, moleque! Saiba que, lá na faculdade, ninguém vence de mim no truco, ouviu?

Killua ignorou o comentário. No final das contas, acabou se entediando do Joystation 8000 e deixou que Kurapika e Leorio voltassem ao LEGO Batman. Deitou-se na cama de Gon e pegou o celular para enviar mensagens para a namorada. Depois de muita insistência, ela aceitou encontrá-lo.

— Pessoal, a Anita vai dar um pulinho aqui, falou?

— Aham.

— Ok.

— Tudo bem.

Uma hora depois, ela apareceu no quintal. Kurode fez sua costumeira festinha e quase sujou o vestido da garota de terra.

— Muito bem, Killua. — O Zoldyck inspirou fundo antes de abrir a porta. — Seja firme. Ou ela vai achar que está no controle e vai pisar o seu coração de novo assim que tiver chance. — Girou a maçaneta, já preparando a expressão indiferente.

— Killu-chan! — exclamou Anita, abrindo o sorriso mais lindo do mundo.

— A-chan! — ele exclamou de volta.

Os dois se abraçaram tão forte que até dava para ver faíscas. (Ou talvez fosse a eletricidade de Killua.)

— Eu senti tantas saudades do meu branquinho.

— E eu senti saudades da minha linda Afrodite. — Ele beijou sua mão.

— Vamos ficar aqui ou ir para outro lugar?

Killua abriu a boca para responder. Mas é claro, é claro que Leorio a essa altura já estaria parado no batente da porta, apenas esperando a chance de se vingar:

— O motel fica a duas quadras!