Killer Queen
2 Rainha Colegial
Notas iniciais

— Tá de sacanagem, as melhores coisas só acontecem quando estou de folga? Puta que pariu, cara!— Naruto disse, Sasuke bufou ao telefone, ouvindo ao fundo a gritaria de Hinata com o filho deles, Boruto, de quatro anos, o garoto devia estar comendo terra de novo ou algum brinquedo, e Naruto tentava criar uma nova receita de macarrão instantâneo. — Você tem certeza? É ela mesmo? A Sakura? Caralhoooo! Tenho que ver ela, como ela tá? Ainda tá toda reinante? Hahaha, ela tá gostosa? — Ele disse a última parte mais baixo, obviamente.
Sasuke suspirou, olhando o semáforo antes de entrar na esquina da delegacia.
— É ela sim, reconheci de cara.
— Caramba! Quem iria imaginar, a Rainha do colégio, se tornando uma mera policial mortal, será que as coisas não foram bem na Aeronáutica?
— Eu sei lá, e era a Marinha, idiota.
— Ah, sim era sim, lembreeei, lembrei daquela foto dela de uniforme, uau!
— Humpf. Tenho que desligar, estou chegando, mais detalhes você vai ter amanhã.
— Opa! Amanhã nada! Hoje mesmo, depois do expediente! No bar do Owen, cara sem mais, a não ser que você planeje algo com sua parceira nova, hahaha.
— Vai se foder, Naruto.
— Te vejo lá, amigão!— Naruto desligou e bufando um xingamento, Sasuke guardou o telefone de volta no bolso e procurou estacionar.
O pior fato do dia, era que realmente poderia pensar em algo como uma recepção para sua ex colega de escola, e nova parceira.
Embora adorasse mulheres, muito, ele nunca tivera a grande sorte de trabalhar com elas, ainda mais em parceria, e de fato até achava o melhor, não era o melhor exemplo de quem separava trabalho de vida íntima, tivera e até tem lances com quase todo o mulherio solteiro da unidade atual em que trabalhava. E sim, tivera problemas no trabalho aqui e ali, então entendia que era melhor manter uma separação.
Mas, sabia que tudo isso era besteira, Sakura Haruno e ele eram completos opostos, o ensino médio inteiro foi uma sucessão de provas disso.
Ela era a única filha mulher de uma família apenas de homens, homens da Marinha, Exército, Aeronáutica. Seu pai era um alto Coronel da marinha, intimidante, rigoroso e frio, e criara a garota exatamente à sua versão.
Sakura era perfeita, como uma máquina, e isso irritava Sasuke.
Era um desperdício, um desperdício de esforço, um desperdício de garota, um desperdício de vida.
Ela era a garota mais linda da escola, mas nunca um cara havia visto algo além da linha dos joelhos ou de seus decotes.
Ela se vestia como uma executiva na escola, comandava o grêmio estudantil com mãos de ferro, era a melhor jogadora de vôlei da cidade, e vivia ganhando prêmios de judô, fazia aulas avançadas, ganhava prêmios da feira de ciências, vestia-se bem, falava como uma rainha, e era cruel como um assassino serial killer quando tentavam derruba-la.
Todo mundo queria ser como Sakura Haruno, cercavam Sakura Haruno, se espelhavam em Sakura Haruno.
Mas todo mundo também odiava Sakura Haruno, ela era perfeita demais, excelente demais, intocável demais, e por isso, ela era sozinha, mesmo cercada de serviçais.
E era isso que ele, particularmente, odiava nela, odiava toda aquela disciplina, odiava que se submetesse a ser esse robô, e desperdiçasse sua vida, sua beleza, sua capacidade de ser o melhor de si, para ser o melhor que os outros queriam que fosse.
Que o pai dela queria, exigia, obrigava.
Então ele sempre a provocava, sempre recebia respostas secas, sempre era xingado (ela xingava, e o pior era que xingava com tanta classe que ele não poderia comemorar fazê-la xingá-lo), sempre ignorado, sempre rebaixado, e sempre a desafiava.
Os embates deles aconteciam a qualquer hora, bastava que se encontrassem, na sala, num corredor, no pátio, na quadra, na rua, qualquer lugar. Então eles viravam a maior atração da escola, quando passavam um pelo outro, quando apenas um entrava no caminho do outro, todo mundo parava pra ver, prendia o ar pra assistir, fazia a aposta de quem sairia ganhando a vez.
Então, o colegial acabou, Sasuke foi para a faculdade de direito, e até onde soube dos antigos colegas e por meio deles, sobre ela, ela havia ido para a Marinha, continuado em sua sina de ser o que seu pai queria, e alguns anos depois, ele soube também que havia se casado com algum grande empresário do ramo imobiliário que talvez fosse até dono do bairro em que Sasuke morava.
Então ela havia se tornado apenas uma das muitas lembranças das mulheres que passaram em sua vida, e de certa forma, havia se destacado, pois, além da mãe dele, professoras feias e legais, parentas velhas e chatas, garotas que ele já sabia serem roubada e mulheres compromissadas e casadas, ela fora a única mulher com quem não transara.
E na época nem fazia tanta questão, tinha muita raiva dela, de ela se desperdiçar tanto por migalhas para deseja-la, mas nunca negara sua beleza, ou como mexia com a cabeça dos caras com complexo de cachorrinho.
Ela era uma rainha, uma rainha impiedosa, e Sasuke era apenas um súdito abusadinho que ela só mantinha por perto para se entreter e talvez, ter como um desafio a altura vez ou outra.
Agora, ele tinha fodendos quarenta anos, e ela era sua parceira de trabalho.
Que voltas loucas o mundo dava.
֍
— Porra do caralho... – Sakura comentou, enquanto esticava os braços e jogava a cabeça para trás em movimentos circulares, esticando-se e estalando o pescoço.
Sasuke se manteve calado, recostado na parede da sala de interrogatório, ela voltou-se para frente, mas não se sentou como ele se lembrava de vê-la sentar sempre: as costas eretas, os ombros erguidos, o queixo altivo, e o olhar afiado. Como uma lady, uma rainha de gelo.
Permaneceu largada na cadeira como se quisesse se deitar, e o olhar entediado ainda era gelado, só que cheio de um desfoque estranho.
Kakashi suspirou, sentando do outro lado da mesa, largou a pasta com o relatório atual do assalto e se voltou para ela.
— Major Haruno, é uma honra conhece-la.
— Corta essa babação, não estamos no exército, cara. – Ela devolveu, aborrecida e enfada. — O que é o problema? Não resolveram a coisa do banco?
— Bom, resolver é uma palavra bem... Complicada de se usar, quando se tem um banco explodido, três bandidos mortos, um baleado...
— Trinta reféns vivos. – Ela completou, num bocejo, esticando os braços para cima, as mãos juntas estralaram.
Kakashi se endireitou na cadeira.
— Sakura, a questão...
— A questão não eram os reféns vivos? A questão não eram os reféns? – Ela o cortou, Sasuke estreitou os olhos, banhando-se em nostalgia, até a velha irritação de lidar com esta criatura reavivou, lá estava ela, olhando diretamente, procurando um resquício de desafio num subalterno para lhe cortar a cabeça.
Mas ela não era alguém acima ali, afinal.
— A questão foi sua ação, completamente fora de aceitação, simplesmente adentrou um banco cheio reféns, e ainda por cima incentivou os caras a matarem uma das pessoas? Se pôs em risco e pôs os reféns? – Ele se intrometeu, não medindo nenhum pouco o tom.
Kakashi inspirou, preparando-se para corta-lo, mas Sakura ergueu a mão para ele, o indicador e girou um pouco na cadeira, encarando Sasuke.
— Você, você é o superior? É o delegado?
— Não sou, e nem faço questão.
— Então não faça o trabalho do cara.
— Sua grande filha da mãe, continua uma grande filha da mãe, não é? – Sasuke descruzou os braços e se afastou da parede, a velha vontade de pega-la pelo pescoço e fazer uma bagunça com ela fez seus dedos coçarem.
— Sasuke. – Kakashi avisou. — Vamos parar, certo? Você dois, agora.
Sakura se voltou para ele novamente, sem se importar.
— Qual é a grande questão, senhor? – Disse, o ar impaciente e enfadado.
— Isso não é a marinha, cacete. – Sasuke rosnou, Kakashi mal teve tempo de manda-lo sair da sala, Sakura se levantou num rompante, empurrando cadeira de metal ao chão, com violência, o choque reverberou pela sala abafada e chegava a doer os ouvidos, mas não abafara o seu tom imperioso, gritado, berrado, mas grave o bastante para ser como um rugido.
— Eu sei que isso não é a marinha.— Trovejou. — Eu sei, não venha me falar do que você não sabe, seu filho da puta. Você lá sabe de nada, seu cuzão, vai dar meia hora de rabo na esquina, Uchiha.
— Pessoal, por favor. – Kakashi reclamou, Sasuke não se opôs ou quis rebater, apenas a encarando, nem mesmo sabendo como conseguiu manter a cara cínica ainda, apenas manteve. Assim, permaneceu observando sua expressão animalesca. — Sasuke, saia da sala, agora.
Sasuke encarou o chefe com raiva, mas saiu.
— Sakura, por favor. – Kakashi pediu, ela levantava a cadeira quando Sasuke.
— Se esse bostinha acha que vai se criar pra cima de mim, ele vai ter meia hora de tiro no rabo antes do almoço. – Sakura disse, sem se importar se Sasuke ainda ouvia.
Ele saiu da sala, e seguiu para a própria mesa, tinha um relatório para fazer, mas, sentia-se nas nuvens.
Conhecia Sakura Haruno há mais de vinte anos, digladiara com ela no colegial inteiro, três anos provocando-a, xingando-a, zuando-a, discutindo, sendo xingado de todo tipo de nome, rebaixado, desprezado, até boicotado, mas, o mais incrível de tudo, era que ela nunca gritara com ele.
Até agora a pouco.
Sempre ouvira dizer que nunca era tarde para conquistar algumas coisas.
Quem diria que era tão verdade.
֍
— Já está saindo? – Kakashi disse, Sasuke assentiu, recolhendo as coisas de mau humor, o bastardo resolvera fazer a primeira atividade dele e de Sakura juntos, os deixando de castigo o resto do dia, fazendo relatório e até tendo que dar uma mão na parte burocrática.
Como eram parceiros, eles tinham uma mesa dupla, antes Sasuke odiava passar ao menos minutos sentando ali olhando para Sai do outro lado da mesa, então o diabo resolveu ensiná-lo coisa pior, e o fez passar o dia encarando a careta assassina de Sakura, e assistindo seus trejeitos estranhos, reconhecendo e não reconhecendo pontos em seu rosto comparados ao da jovem Sakura.
O tempo parecia ter sido bom com ela, continuava alta e perigosa para a mente de um desavisado, agora usava o cabelo curto, roçando os ombros, franja e olhar obscuro.
Seu olhar era sombrio, mesmo quando não estava prometendo mata-lo, ela passou o dia trocando de posição na cadeira, girando, amassando papeis, falando curto com quem se aproximava pra conhece-la, soltando palavrão, indo até a máquina de lanches (que agora tinha uma marca sua, de um chute quando não funcionou direito), pegando café.
Mas ela parecia, sobretudo, desgastada, parecia necessitar de sono, orgasmos, vida.
Isso ele até reconhecia, era o robozinho do papai, afinal.
Só que parecia mais profundo, latente, até depressivo.
E ela estava usando botas que não combinavam com a roupa, sequer chegava perto, algo estava muito estranho.
Quando deu o horário, ela se levantou, e saiu. Ele marcou com uma conhecida que já tinha na agenda, afinal, não estava mais ligando para as birras de Karin e definitivamente queria evitar Naruto.
Estava saturado de Sakura Haruno, por hoje.
— To sim. – Respondeu, por fim, Kakashi não disse nada, até ele se levantar e contornar a mesa, aí o parou, segurando seu ombro e falando perto.
— Eu não quero saber daquilo se repetindo, sim? – Seu tom foi cortante, e duro. Sasuke sabia que estava lidando inteiramente com seu chefe, um que o suspenderia ou demitiria agora, mas ainda era difícil controlar o próprio gênio, ele era expert em ir contra qualquer autoridade, até hoje as pessoas não entendiam como não se tornara o pior vagabundo, confessava que as vezes, nem ele entedia, inspirou.
— Okay.
— Estou falando sério, aquilo foi fora dos limites e foi sorte ninguém mais ter presenciado, eu não vou admitir isso em âmbito nenhum, entendeu?
Sasuke soltou o ar, rindo um pouco.
— Qual é, fica tranquilo, deveria estar aliviado, eu conheço a dona rainha ali, okay?
— Do colegial, e vocês não são mais criancinhas.
— Kakashi...
Kakashi se afastou, largando uma pasta sobre a mesa dele, Sasuke conteve a vontade de chutar ou jogar aquilo de volta, odiava esse tipo de coisa, era dito e certo para o fazer agir como um verdadeiro cão. Bater, gritar, apontar o dedo, qualquer tentativa de intimida-lo.
Ficava possesso.
— Você não conhece mais Sakura Haruno, — Kakashi declarou, já vestindo o casaco e lhe mandando um olhar um tanto sinistro de lado. — Eu vou te deixar ficar com isso, só por hoje, sabe que é proibido e espero que mantenha a boca fechada, apesar de tudo, confio em você.
Sasuke jogou o olhar para a pasta de cor parda, e puxou para perto de si.
— Espero que comece a reconsiderar seu comportamento, eu não quero ter que perder você e nem perder Sakura, ela tem muito potencial, e... Ela merece isso.
Sasuke o fitou ainda desconfiado, e o viu partir.
Sem alternativa, pegou a pasta e seguiu para fora.
Entrou no carro, mas acabou desistindo de apenas seguir logo para casa.
Se recostou melhor no banco e abriu-a.
Além do que já havia visto inicialmente e parcamente sobre sua parceira, haviam mais folhas, mas ele preferiu não adiantar-se.
Sakura foi para a Marinha, ainda era casada, e ele se perguntou se só havia ignorado mesmo, ou realmente não havia aliança em suas mãos pálidas, pois lembrava de ter reparado cicatrizes nos dedos dela, e que as unhas estavam sem esmalte algum.
Ele percebeu outra coisa, ela foi para a Marinha, mas ao completar vinte e cinco anos, ela entrou para as forças especiais, se tornou uma Navy SEAL. E isso foi um baque, lhe deu um arrepio estranho.
Ele já ouvia ouvido falar de coisas bem ruins de caras que passaram tempo demais nas guerras, havia até mesmo visto acontecer na própria família, a maioria era sempre do exército, mas “Forças especiais” também não era coisa fácil de ouvir, e que ele soubesse só homens se tornavam SEALs, justamente pela vantagem física, mental e emocional que era exigida. Coçou a sobrancelha e leu mais um pouco.
Ah, ela havia ingressado logo que eles abriram vagas para mulheres, foi uma das primeiras a se inscrever, foi uma das poucas a passar no treinamento, era uma das poucas até hoje.
Missões e mais missões, alguns nem eram explicadas ali, eram provavelmente de um nível de confidencialidade que uma simples delegacia não poderia ter arquivada em seus registros.
Sakura serviu até três meses atrás, meio que pegou uma dispensa, poderia ser chamada a qualquer hora, mas era basicamente, uma aposentada.
Talvez já a considerassem velha demais para a ação. Essa constatação o deixava meio irritado.
Então ela voltou para Los Angeles, e agora, ele estava de cara com um monte de resultados de exames, de perícias de todo tipo. E daí em diante, mesmo tendo lido muito, a mente dele só ficava travando e travando, muitas palavras, muitos termos, ficaram badalando em sua cabeça.
“...Diagnóstico positivo de TEPT – Transtorno de Estresse pós-traumático ”
“...Diagnóstico positivo de TEI — Transtorno explosivo intermitente”
“...Terror noturno”
“...Perdeu o baço em missão na Palestina”
“...Problemas de ressocialização”
“...Depressão reativa”
Sasuke largou a pasta de lado, sentindo náusea a raiva.
Um pouco de impotência, como quando não conseguia impedir um assassinato, ou mandar um bastardo para prisão, para a pena que merecia, dar justiça a uma família.
Sentir que fez justiça.
Sentir que acabou com um crime.
Porque era exatamente isso que sentia, era exatamente o que sentira antigamente, quando provocava Sakura e se tornava seu inimigo.
Sentia que ia acontecer um crime, que ela seria a vítima e tentou fazer algo, tira-la deste caminho, mas como podia? Era mais moleque do que homem, era mais tolo do que ela.
E agora sabia que haviam conseguido, o crime estava feito, ele não podia ver um único raio de justiça.
Sakura seguiu o caminho que o pai queria para ela, que os irmãos queriam, e por isso, Sakura foi destruída.
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