Killer
48 Epílogo
Notas iniciais
[Loren P.O.V.]
Abi havia acabado de por a mesa. Ela sempre se prontificava para essa tarefa enquanto eu terminava o jantar e eu sempre me encantava com a forma cuidadosa como ela dispunha os talheres e os pratos em seus devidos lugares e ajeitava a toalha de mesa até que tudo estivesse perfeito. Cada refeição era como um jantar de gala para ela.
— Vá chamar seu pai e seu irmão. – Pedi e ela saiu da cozinha saltitante, agitando o vestido rosa florido que Pietro, seu padrinho, havia comprado para ela no Natal anterior.
Abi era uma linda garotinha. No auge de seus cinco anos de idade, ela ostentava um par de grandes olhos azuis como os do pai, um longo cabelo castanho como o meu e o sorriso mais lindo que eu já tinha visto nos lábios de alguém.
— Papai disse que vai me levar para acampar no feriado. – Seth comentou, sentando-se em seu lugar a mesa e eu lhe dei um leve tapinha no braço, obrigando-o a se levantar.
— Lave as mãos primeiro.
Bryan entrou na cozinha e se aproximou de mim, enroscando os braços em minha cintura e depositando um beijo rápido e suave em meus lábios. Segurei a panela que estava em minhas mãos com um pouco mais de força e a afastei dele.
— Um dia você vai acabar se queimando. – Alertei, mas ele apenas sorriu. Poucas eram as coisas que tiravam sua paz de espírito.
Ele tirou a panela de minhas mãos e a colocou em seu lugar sobre a mesa, enquanto eu ia até a geladeira buscar a jarra de suco de tangerina que Abi tinha me ajudado a preparar mais cedo.
— Papai, eu posso ir acampar também? – Abi puxou a barra da camiseta social azul que Bryan usava e ele a pegou no colo, estalando um beijo em suas bochechas coradas.
— Claro que pode.
— Oba! – Ela comemorou, escorregando do colo dele para se sentar à mesa diante de Seth, que revirou os olhos para a empolgação desmedida da irmã.
Com todos em seus devidos lugares, servi nosso jantar e todos demos as mãos para agradecer pela refeição. Nós nos revezávamos para fazer a oração e, naquela noite, a honra era toda de Abi, que fechou seus olhinhos e agradeceu ao Papai do Céu pela comida e pela benção que era a nossa família.
E, de fato, nossa família era uma benção.
Eu não tinha como não agradecer todos os dias por ter Bryan ao meu lado e por tudo o que ele significava. Poucas pessoas acreditam que um dia vão encontrar alguém que irá se tornar, não apenas seu melhor amigo, mas também o amor de sua vida, mas comigo isso aconteceu cedo.
Eu conheci Bryan aos doze anos, quando seus pais se mudaram para a casa ao lado da minha e ele passou a frequentar a minha turma na escola. Eu sempre achei estranha a forma como ele parecia estar sempre olhando para mim, mas quando finalmente tomei coragem para conversar com ele, percebi que ele não era o esquisitão que eu supunha. Na verdade, Bryan se mostrou um garoto muito legal e, não demorou muito para que eu me apegasse a ele.
Passávamos a maior parte do tempo juntos e mesmo quando meus pais se separaram e a minha mãe adoeceu e os poucos amigos que eu tinha começaram a se afastar, eu sabia que ele continuaria comigo e ele continuou. Quando a minha avó, que ficara responsável por mim após o falecimento da minha mãe, também faleceu e eu tive que me mudar para um nova cidade, achei que toda a relação que Bryan e eu tínhamos construído se perderia com a distância, mas qual não foi a minha surpresa quando ele convenceu seus pais a se mudarem também só para que continuássemos juntos?
Nós nos encontrávamos às escondidas após as aulas e bem às claras quando estávamos na escola. Apesar dos problemas que eu tinha com o meu pai, o período que fiquei em Trevolts foi um dos mais felizes da minha vida porque eu tinha três grandes amigos – Jess, Norah e Pietro – e um grande amor ao meu lado, pessoas com quem eu sentia que poderia contar em todos os momentos da minha vida.
E não foi nenhuma surpresa quando anunciei para todos que Bryan havia me pedido em casamento, logo após a nossa formatura do colegial. Jess – que sempre foi uma militante contra casamentos –, disse que, para qualquer um, a decisão de se casar tão jovem seria uma loucura, mas que quando se tratava de Bryan e eu, ela não conseguia imaginar algo melhor e Norah – que sempre foi uma romântica incurável – quase surtou de tanta emoção. Até mesmo Pietro concordou que não havia um destino mais certo para Bryan e eu que ficarmos juntos e, quando nos casamos, eu achei que não haveria um dia em que eu me sentiria mais feliz que naquele, mas a chegada de Seth elevou o significado da palavra felicidade a outro nível.
Segurá-lo no colo, passar noites em claro com ele, ouvir sua risada de bebê e acompanhar seus primeiros passos e primeiras palavras... Tudo aquilo me deixava nas nuvens e Bryan, sem dúvida, poderia ganhar o título de pai mais babão que já andou sobre esta Terra. Seth cresceu saudável e cercado de amor e carinho e, quando Abi entrou para nossa família, toda a felicidade que sentíamos foi duplicada.
Agora, nossa família era bem grande, composta por Bryan e eu, nossos dois filhos, um cachorro, um gato, um casal de passarinhos e, muito em breve, teríamos também um peixe colorido entre nós, pois esse havia sido o pedido de aniversário de Abi.
Seth, já com nove anos, estava mais interessado em coisas como patins e skates e assombrava-me ver o quão rápido as crianças cresciam. Não demoraria muito e eu teria um adolescente em casa e, do jeito que Seth se parecia com o pai, com seu rosto bem feito e seus olhos azuis profundos, eu sentia que haveria muitas garotas rondando a minha casa à procura dele no futuro. Podia dizer o mesmo sobre Abi, mas Bryan entrava em pânico só de pensar na possibilidade de ter garotos ali procurando por sua princesa.
— Deixa que eu cuido das louças. – Ele se ofereceu após eu recolher os pratos do jantar. As crianças haviam ido brincar lá fora e eu podia vê-los correndo para lá e para cá pelo jardim. – Eles crescem tão rápido, não é?
Apenas assenti, com minha garganta obstruída por alguma emoção de mãe que era impossível de controlar. Bryan se aproximou e segurou minhas mãos, trazendo-me para junto de si até que minha cabeça estivesse colada em seu peito.
– Você me deu uma família linda, Loren. Jamais poderei ser grato o suficiente. – Ele disse com os lábios colados em minha testa. As vezes, a forma como ele falava me fazia sentir que ele queria dizer muito mais do que dizia. Como se ele conhecesse fatos sobre nós e sobre a história que construímos juntos que eu desconhecia.
Eu sorri, tentando conter as lágrimas que ameaçavam escapar de meus olhos sempre que Bryan se declarava abertamente para mim. Na verdade, não havia um único dia em minha vida em que aquele homem não enchesse o meu coração de uma quantidade absurda de amor e alegria.
— Você também me deu uma família linda. – Retruquei. – Me deu uma vida linda, Bryan.
Pude sentir um sorriso se abrir em seus lábios colados contra a minha pele.
— Eu te amo. – Ele sussurrou, me abraçando um pouco mais forte e levando sua boca à minha.
O beijo que trocamos foi intenso e apaixonado e eu me perguntava se algum dia aquilo mudaria. Já estávamos casados há tantos anos e juntos há mais tempo ainda e, mesmo assim, eu não conseguia me acostumar a sensação de ter os lábios dele nos meus e suas mãos passeando pelo meu corpo. As borboletas no meu estômago nunca morriam.
— Eu também te amo. – Respondi quando encerramos aquele beijo cálido. Eu tinha certeza de que estava ruborizada e mais sem fôlego do que deveria. Bryan me fazia sentir como uma adolescente todas as vezes que nos beijávamos assim.
E, de certa forma, eu sentia que nós sempre seríamos os adolescentes cujos olhares se cruzaram, naquele primeiro dia de aula, há mais de vinte anos. Era como se Bryan e eu estivéssemos destinados a nos encontrarmos e a ficarmos juntos. Eu não conseguia me imaginar sem ele e tinha certeza, pela forma como ele me olhava – como se eu fosse o centro de seu mundo – que ele também não conseguia imaginar um mundo onde nós não estivéssemos juntos. Bryan era a minha âncora e eu era a dele.
E, ali na cozinha, agarrada a ele e olhando para a paisagem que se estendia do lado de fora da janela, senti meu coração se aquecer. Seth e Abi ainda brincavam em meio as flores de nosso jardim, mas, agora, suas silhuetas estavam emolduradas pelo céu e pelo arco-íris que havia surgido, como se num passe de mágica, logo mais adiante.
O arco íris era um símbolo de esperança, era a beleza após a tempestade. Era o início de um novo tempo.
FIM
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