“Mate-o” Dizia-lhe uma voz. “Mate o de olhos azuis”


–Quem está ai? Apareça!” — Arthur olhava para os lados, aprocura de alguém.


“Mate-o” Continuava a voz.


–Matar a quem? Apareça! — Ele já estava irritado com a situação.


Ele andava silenciosamente pela casa. Na trajetória para o quarto da pequena colônia, ele se desfazia da farda pesada, ficando apenas com a calça e uma blusa leve. Tinha dificuldade para andar, e mexer um dos braços, e havia ferimentos por todo o corpo. Mas, não ligava, agora, precisava ver o garoto o quanto antes.


Chegou à frente do quarto da Colônia, devagar girou a maçaneta colocou a cabeça dentro do quarto. Forçou um pouco a visão para poder enxergar no escuro. Entrou no aposento e seguiu para a cama onde a pequena Colônia dormia. Hesitante, estendeu a mão para tirar o cabelo do rosto da criança a sua frente.


–Hey dude. – Agachou-se com dificuldade, ficando na altura do rosto do garoto. – I’m in home. – Beijou-lhe a testa e o cobriu direito. – Até mais tarde.


Saiu com passos leves do quarto e seguiu para a sala, afim de, finalmente, tratar seus ferimentos.


Quando estava terminando de enfaixar o braço esquerdo, uma voz o chamou em um tom misto de sono e surpresa.


–England? – O loiro de olhos azuis coçou os olhos e estreitou os olhos para ter certeza que não era uma alucinação.


–Hey, Jones. O que faz acordado há essa hora?


–England! – O garoto correu ao encontro do maior, com um sorriso no rosto.


–Ei, ei, calma – Falou risonho. – É bom ver você também. – Beijou-lhe o topo da cabeça. – Você não me respondeu.


–What? – Disse o mais novo sem se desgrudar do mais velho.


–O que faz acordado?


–Eu acordei com sede. E com vontade de fazer xixi. – Disse se distanciando e coçando a cabeça, corado.


–Hm. Então vamos pegar sua água e ir pra cama.


–Certo! – Pegou a mão oferecida pelo mais velho.


Minutos depois, o pequeno já estava na cama, dormindo. O Inglês, encostado na porta, olhava-o cansado. Havia tido outra briga com aquele bebedor de vinho e quase quebrara o braço se não tivesse desviado no ultimo segundo do ataque francês. Sorriu ao ver o menor, com o pé, tirar o lençol. Aproximou-se e o cobriu direito, girou os calcanhares e saiu do quarto silenciosamente.



–-x--



“Mate-o, mate-o agora.”


Arthur acordou assustado. Fazia dias que não escutava aquela voz. Passou a mão no rosto para tirar o suor e levantou. Andava escorando-se na parede em rumo à cozinha. Mas que merda era aquela?! Quem ele tinha que matar? E por quê? Ou melhor, quem ou o que era aquela voz?


Chegando à cozinha, pegou um copo e o encheu de água. Virou-se pegou uma vela no armário, acendeu-a, tomou a água e colocou o copo na pia e, em seguida, apoiou-se na mesma respirando fundo.


“Mate-o”


–MATAR A QUEM? RESPONDA-ME! – Gritou apertando os olhos – Que droga é você?


“Mate-o, mate o de olhos azuis!” A voz parecia ignorar o Inglês.


“Olhos azuis...? Existem tantas pessoas de olhos azuis.” Pensava Arthur desesperado.


E então, o barulho de passos ecoou pela casa, o que fez o de olhos verdes em um ato desesperado pegar a faca perto de si e virar com tudo para a entrada da cozinha, preparando-se. Com a vista embaçada pelo desespero, não conseguiu ver quem era na sua frente e acertou um golpe de raspão no que parecia ser o braço do dono dos passos.


A pessoa começou a soluçar, parecendo prender o choro. Um choro bastante infantil, e que parecia muito com o de... Alfred. Sua vista começara a recuperar o foco a medida quem que ganhava um novo desespero: Alfred estava ferido. E foi ele quem o feriu.


–Puta que um pariu — Seus joelhos encontraram o chão e automaticamente abraçou a criança a sua frente. -Alfred, Alfred... Desculpe-me – Abraçava-o mais forte apoiando a cabeça no ombro do menor. Alfred começava a chorar fraquinho, apertando o braço ferido.


Arthur levantou a cabeça e segurou a cabeça americana nas mãos. Os olhos estavam marejados, o que, com a ajuda da vela em cima da pia, realçava o azul intenso desses. Com os polegares, limpou as lágrimas e acariciou as bochechas úmidas do outro loiro.


–Desculpe-me, tá? – Sorriu fraquinho e o menor balançou a cabeça assentindo. – Obrigado. – Abraçou-o logo sendo retribuído, fazendo que sujasse a camisa do maior de sangue. – Vamos cuidar disso.


–Certo.


Alfred afastou-se e o Inglês se levantou e pegou um pano limpo em um dos armários em seguida molhando-o com água. Andou até Alfred e tirou a parte de cima de seu pijama revelando o braço quase todo cheio de sangue. Com o pano limpou o braço do menor e viu que a ferida não era tão funda, mas ainda assim não parava de sangrar.


–Segure-o pressionado – Disse colocando a outra pequena mão no pano. – Vamos – Pegou a vela e saíram da cozinha.


Alguns minutos depois, Arthur terminava de enfaixar o braço de Alfred. Já passava das duas e quinze da manhã e a Colônia já bocejava de sono. O que fez o inglês lembrar e verbalizar sua lembrança:


–O que faz zanzando pela casa uma hora dessas?


–Erh... eu acordei de repente e fui ver se você não tava tendo algum pesadelo e te salvar desse, ‘Cuz I’m a Hero! Mas você não estava no quarto e foi quando eu ouvi você gritar e desci as escadas e vi a uma luz na cozinha e corri até lá.


Inicialmente Arthur sorriu ao ver que a versão da criança era na verdade que Alfred teve pesadelos e queria achar abrigo em seu quarto, mas, logo se desfez, pois se lembrara do que o fizera gritar: Aquela Voz.


Sua atenção voltou para Alfred que o olhava curioso. O que fez Arthur arregalar os seus por deixar passar um grande detalhe. Alfred tinha olhos azuis. Mas não, não, não devia ser ele quem a voz falava. Não devia. Não podia ser Alfred. Tentou se lembrar de mais alguém que conhecia tinha olhos azuis.


Francis tinha olhos azuis. Ludwig também. Alguns dos Nórdicos tinham também. Podia ser Francis, afinal começou a ouvir essa Voz depois da batalha de alguns dias atrás. Mas Alfred... o seu Alfred, não.


–Artie...? Você está bem? – Tocou a mão do de olhos esverdeados.


–Hã? Oh sim, estou, estou. – Disse nervoso e Alfred percebeu, porem deixou passar.


–Eu estou com sono – Esfregou os olhos e encostou a cabeça no peito do maior.


–Vamos pra cama. – Tomou o pequeno nos braços e apagou as velas ao seu redor. Subiu calmamente as escadas em direção ao quarto de Alfred.


–Arthur...


–Diga.


–Posso dormir com você? – Perguntou manhoso ainda com a cabeça no ombro do inglês que deu como resposta uma risada fraca e seguiu para o seu próprio quarto.


–Medroso. – Disse ao deitar-se


–Vá pro inferno, Inglaterra.



–-x--



–Eu declaro a minha Independência.


Parecia que a chuva havia parado. Os soldados pararam de falar. Tudo parecia ter parado para Arthur. As palavras fortes e ameaçadoras de Alfred ecoaram na sua cabeça. Quem aquele idiota pensa que é?


–Como se eu fosse permitir! –Avançou e com sua arma jogou a do americano pra longe. – Você não tem força para viver sozinho!


“Mate-o, mate o garoto de olhos azuis. Vamos, ele está desarmado na sua frente. Ele pretende te trair. MATE-O AGORA!”


Arthur se assustou. Era a primeira vez que a voz parecia estar com raiva. Hesitante apontou a arma para Alfred.


“Vamos, aperte o gatilho!”


Colocou o dedo no gatilho e olhou para Alfred. Estava ali, assustado por ter uma arma apontada pra si. Olhando os olhos esverdeados do outro temendo o que poderia acontecer.


“Atire!”


–Não posso – Puxou a arma pra si e em seguida jogando-a no chão. – Droga. Por quê? — Caiu de joelhos no chão contendo a droga das lágrimas que teimavam em sair e misturarem-se com a chuva.


–Eu não sou mais criança, Inglaterra.


–Seu... idiota.


Algum tempo depois, pode ouvir os passos de sua Colônia se distanciar. Arriscou olhar, ele seguia sem olhar pra trás. Aquele miserável, idiota, ingrato, maldito americano.


“Você é um inútil mesmo. Teve sua chance e não a usou.”


O loiro riu. A mão direita no peito, apertando o tecido. Doía. Doía por ter sido traído. Doía por, mesmo com toda sua força, não ter vencido. Doía por que Alfred se fora. Mas, mesmo doendo, ainda ria. Ria por tão estúpida ser a frase que aquela voz dizia. Chance de matar Alfred?


–Como se eu pudesse matá-lo.


“Tolo.”


–Você... o que é você? – Ergueu seu rosto, de olhos ainda fechados, sentindo chuva contra sua pele. A voz riu.


“O que sou eu?”


Arthur abriu os olhos assombrado. Como nunca notara aquilo antes? Aquela voz... aquela voz era...


“Sou você. Mas não sou você”


...a sua própria.


E, aos poucos na sua frente apareceu um homem de terno preto e cartola. Loiro dos olhos verdes e sorria de um jeito macabro.


“Sou Britannia, seu pequeno demônio interior.”


–Mas como... o que quer de mim, então?


“Poder. E aquela criança vai tirá-lo de você. Aproveite os poucos anos de ‘Maior Potencia’ que lhe restam”


E assim, Britannia chegou perto de Arthur e tocou-lhe o ombro e desapareceu.



–-x--



E ele estava certo. Alguns séculos depois, Alfred tirara-lhe seu título. Anda sentia-se triste pela perda de sua ex-colônia, mas, ficaria bem se esta ficasse bem. E, desde a Independência Americana, não ouvira Britannia.


E então, em certo dia de conferência mundial, seus olhos pousaram em Alfred. Ele conversava com Kiku algo que realmente não o importava. De repente, atrás do americano, surgiu uma figura idêntica a este. Que, ao perceber que estava sendo observado por Arthur, virou-se e sorriu. Aquele sorriso macabro.


O inglês levantou-se em um pulo da cadeira. Fazendo que todos olhassem para ele. Britannia gargalhou, sendo ouvido apenas por Arthur e Alfred. Chegou perto do primeiro e tocou-lhe o ombro, dizendo:


“Afinal, o que eu quero é poder.”

Notas finais
Obrigada a você que leu até aqui!
E Britânia/Britannia é na verdade uma deusa. Vá a Wikipédia para mais informações.
Para quem não percebeu, Britannia toma a forma de quem está atormentando. Agora, por exemplo, ele tem a forma de Alfred. (E num futuro não tão distante, a do China -q).
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