Kilian
1 Prefácio
Notas iniciais
— Podemos começar com você nos contando o que realmente aconteceu, não? — Encarava o garoto com curiosidade.
Uma criança, na verdade, se comparado a sua idade.
E ele parecia morto para si mesmo.
Emir reconhecia aquele olhar. A expressão já não demonstrava apego à vida e nem motivos para continuar. Apático, vulnerável, inexistente. Ele sabia que passar os últimos dias trancafiado não fora fácil, mas ele não conseguia acreditar que fora tão torturado quanto parecia.
Porque ele sabia que o garoto não fora.
Suspirou, sentando-se na cadeira em frente ao outro. Os olhos bicolores se focavam na mesa, os dedos cruzados em cima da estrutura de vidro que formava o móvel. A boca estava levemente aberta, e vez ou outra o garoto fazia movimentos para lamber os lábios rachados. Podia ver as marcas roxas que já ganhavam um brilho amarelado ao redor do olho esquerdo e do queixo, também no canto esquerdo. A pessoa que batera nele era canhota, provavelmente.
Em nenhum momento o outro levantara o olhar. As mãos vez ou outra se contraiam, assim como ele piscava, molhava os lábios, respirava mais fundo. Nada além desse movimento foi observado durante cinco minutos, que para ele pareceram eras.
Não era só enterrar-se em si mesmo.
Era mais.
Abriu o sistema dos arquivos do garoto em sua tela transparente. Ela era ativada de um pequeno suporte de metal que estava sobre a mesa, achatado e redondo, que mandava a imagem para cima como uma tela real e plenamente interativa. Lia o histórico do garoto com calma, sabendo que ele não lhe daria nenhuma atenção.
E, devia afirmar, estava surpreso com cada linha escrita sobre o passado do garoto.
Conhecia a família dele. Kilian Luren era filho de Orlando Luren, um cientista famoso em nanotecnologia. Tivera um caso, há anos atrás, em que tivera a ajuda do cientista. Era um homem centrado e cheio de piadas sarcásticas, com um amor incondicional a mulher. Uma feliz sobrevivente de um planeta distante, em que Kara tivera a sorte de parar na Terra. E conhecer seu marido. Além de se tornar uma terráquea de consideração, Kara ajudara o marido em todas as suas descobertas futuras, usando conhecimentos prévios de seu próprio planeta natal.
E conhecia o irmão mais velho. Dilian era inteligente, como os pais, mas seguira numa carreira completamente oposta. Era um Explorador. Vira-o diversas vezes em anúncios, onde trazia suas aventuras interespaciais.
A Terra já não era a mesma, e, em seus oitenta anos, sabia que ela ia mudar muito, ainda. Lembrava-se de seu avô lhe contando sobre os primeiros contatos “extraterrestes”, como eles chamavam. Do avanço da tecnologia, do planeta se tornar um espaço de tecnologia avançada que intercalava a natureza com os novos designes industriais. Os prédios ridiculamente altos, as pontes em túneis de vidros inquebráveis, o verde retomando as ruas.
A Terra mudara para melhor com o avanço da biotecnologia e, futuramente, da nanotecnologia. E não podia ser diferente com as pessoas. Agora, com chips, microchips e nanochips instalados em seus corpos, as pessoas eram mais resistentes a doenças, a ferimentos, a própria morte. Já não eram um povo populoso e também não eram um povo de classes extremamente injustas. O mundo mudara.
E ele sabia o porquê.
Mas, aquele garoto a sua frente, mudara tudo que o planeta conhecia. Ele divulgara a existência de guerras entre raças, já existente entre as galáxias, mas até agora ignoradas pelos humanos. Explorara planetas inabitados e aprendera mais que muitos deles jamais saberiam.
E isso tudo fora divulgado pouco antes dele ser anunciado como um traidor de algo grau e preso.
E seu sistema nanodigital era completamente inacessível. O Condutor de Pulso Elétrico do garoto era de uma tecnologia desconhecida que danificou seriamente o estado de saúde dele, assim que tentaram estudá-lo. Fazia parte de seu corpo, como qualquer Condutor de Pulso Elétrico humano, mas tinha uma proteção inacessível, não existente nas outras pessoas.
Um menino inacessível, o que até agora era novidade.
As tecnologias não somente foram inventadas para melhorar a situação da Terra. Elas foram criadas para monitorar a vida humana. Para reinventá-la. Para estruturar a sociedade perfeita e modificar uma geração para a paz.
E funcionara.
Mas aquele garoto não estava nos parâmetros da sociedade, apesar de ter se comportado dentro das regras por todos aqueles anos. Ele tivera pais excepcionalmente inteligentes e tinha certeza que estavam por trás disso.
Porque Dilian funcionava da mesma forma, mesmo que ele trabalhasse pela nação.
Dentro do sistema, algumas pessoas possuíam mais liberdades que outras. Exploradores estavam entre elas. Por viajarem entre galáxias, muitas vezes era impossível repassar dados para a Base, como era conhecido o sistema central de todo o governo terrestre, mesmo que estes ficassem gravados em seu sistema nanodigital. Todos os momentos podiam ser revistos em um aparelho visual chamado pelos Exploradores simplesmente de Capacete. Era muito mais que isso, mas funcionava como um computador visual particular, que abria uma tela transparente para eles não só recuperando dados visuais adquiridos durante a vida, como também analisando ambientes, plantas, visão de calor, juntando e formulando dados.
Um computador pessoal que funcionava perfeitamente como um Sistema de Inteligência Artificial Auxiliar. Ou, simplesmente, SIAA. Pra os Exploradores, esse era acoplado diretamente no capacete, para facilitar o seu uso diário.
Os humanos eram dependentes de suas tecnologias.
Terminou de ler o relatório, entendendo o motivo de tanta apatia. O garoto estava fortemente sedado, para não poder gerar energia, já que seu Condutor de Pulso Elétrico não pudera ser desativado. Desligou seu próprio SIAA, o pequeno suporte de metal achatado e redondo sobre a mesa, e ficou a encarar o menino, com ainda mais curiosidade.
Uma criança que seguira os passos do irmão e, principalmente, da mãe. Um pacificador. Uma incógnita. Algo que a sociedade precisava para fugir da apatia que fora submetida.
Ele não entendia porque o mandaram interrogar um “criminoso” dopado, mas sabia que estava ali para fazer seu trabalho. Não se importava com os relatos médicos da impossibilidade de invadir o sistema do garoto.
Não era isso que pretendia fazer.
Ele tinha outra coisa em mente, algo que ia desgastá-lo completamente e que já não tinha mais idade para fazer. No atual momento, nem mesmo autorização da Base.
Não se importava.
Arregaçou as mangas da roupa que usava. Dobrou-as bem, sabendo que iria suar muito durante o processo. Afastou a cadeira do garoto com dificuldade, sentando-o de lado para a mesa, e puxou a sua própria cadeira em frente ao menino.
Ele tinha privacidade total naquele momento, já que era seu parceiro que estava de guarda. Até ter seu sinal, aquela porta permaneceria fechada, nem que para isso demorasse horas. Era uma confiança mútua.
Sabia, infelizmente, que as câmeras estavam o gravando e que seria requisitado suas memórias depois de descoberta sua inflação.
Não se importava.
Era velho, e tinha um verdadeiro milagre em mãos. Procurou pela Ponte Metalizada que o garoto tinha em seus pulsos, assim como ele próprio. Juntou-as.
E, através do seu sistema interno, fez algo que poucos sabiam ser possível. Fez algo que era proibido veemente, exceto em casos raros. Um procedimento que ele próprio só tivera que realizar seis vezes em toda sua vida naquela carreira deveras pacata em uma sociedade tão bem controlada.
Ele soube quando a ponte entre os dois se interligou.
E ele já não se sentia mais naquela sala e nem mais sozinho. Estava em um local rodeado pela natureza e o menino sentado ao centro era exatamente igual àquele que estivera a sua frente por horas sem transparecer nada. Estava calmo, relaxando com os pés embaixo da água, mesmo que seu semblante fosse de completa preocupação.
— Nunca pensei que alguém fosse ter coragem o suficiente para tentar invadir outra pessoa. — A voz era suave, rouca. Distorcida pela ilusão digital que seus corpos criavam em uma mente dupla, mas ao mesmo tempo unida. — Quem é você? — Ele se sentiu intimidado por aqueles olhos tão únicos, mesmo que ele não transparecesse hostilidade.
— Sou Emir Sariel. Responsável pelo seu caso. Estive contigo até agora, pretendo conhecê-lo melhor antes de julgá-lo.
— Interrogar-me, quis dizer. — Ele não parecia apreensivo, mesmo que a realidade em que se encontravam fosse uma perfeita criação de ambos. Queria dizer, do garoto. Porque ele estava completamente domado naquele ambiente.
— Permissão para permanecer em sua mente, Kilian?
O garoto encarou-o por vários segundos. Era uma formalidade necessária. A qualquer minuto poderia ser expulso, ainda mais de uma mente tão controlada. Ele sentia as amarras. Já conseguira dominar um usuário, mas sabia ser completamente impossível naquele momento.
— Permissão concedida, Emir. Sente-se e ouça minha história, já que é para isso que estás aqui.
Emir nunca iria se arrepender de sua decisão.
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