Kilian

3 Kilian e Ana


Kilian sempre soubera que seu caminho dentro da tropa não seria fácil. O primeiro ano, porém, fora o pior de todos. Ele olhava para todo veterano de forma desconfiada, recebendo os elogios sempre de forma considerada suspeita. Ele odiava ser comparado ao seu irmão, acima de tudo.

Os seis primeiros meses os recrutas passaram por um intenso treinamento. Kilian finalmente entendera o que o irmão lhe falara, assim que entrara para a tropa, da intensidade que era entrar em sincronia com seus colegas. Ele entendeu porque o irmão confiara em todos os seus parceiros.

Mas ele simplesmente não conseguiu entregar-se aos trabalhos de equipe.

A desconfiança, mesmo que lançada aos veteranos, era repassada para seus colegas novatos. Ele tinha medo de, no futuro, eles se corromperem e realizarem o mesmo ato. Eles tinham medo de que alguém fosse morto como Dilian fora. Essa era a merda de os Exploradores terem mais liberdade em seus sistemas. A ética poderia ser simplesmente abandonada por um “motivo maior”.

Kilian só tinha que descobrir qual era esse motivo.

No sétimo mês, a equipe fora mandada precocemente para o campo de batalha. Saurwo se rebelara contra o planeta que o dominava, Terra, e a guerra tomara níveis preocupantes. A ponto de a tropa de Exploração ser requisitada.

O princípio da tropa era descobrir planetas, respeitar a vida e pregar a paz. No momento em que pousaram em Saurwo, Kilian teve a certeza da farsa que aquele lema representava. Ele sabia que aquele cenário de caos nunca sairia da sua mente.

Existia uma regra oculta. Uma pequena regrinha que era desconhecida para o resto da população do planeta Terra. Os Exploradores tinham a missão de promover a paz perante os outros planetas, antes de os próprios embaixadores humanos o fizessem. Podiam atuar, vez ou outra, como protetores de humanos subjugados em planetas hostis. Mas eles nunca participavam de guerras. Seu ideal de paz os impedia disso.

Ou era essa a verdade que os humanos conheciam.

A verdade deles é que os Exploradores eram guerreiros de primeiro nível. A necessidade de sobreviver nos mais diversos planetas, com as mais diversas diferenças geográficas lhes permitia serem os melhores de todo o exército.

Quando a guerra apertava, quando a Terra estava perdendo, os Exploradores eram enviados em campo de batalha. Eles eram os heróis para os humanos, mas os vilões para os planetas subjugados.

E eles exterminavam vidas, indo completamente contra seu lema.

Kilian fora jogado no meio desse inferno, com somente seis meses de treino. Nada que seu irmão lhe falara o preparara para aquilo. Sua força vinha do desejo de conhecer a verdade, do desejo de vingança. Como eles se submetiam a isso? Como eles tinham a capacidade de matar? Como ele próprio aceitava estar ali?

Foi no meio daquele caos que Kilian soube do “motivo maior”. Ele também era capaz de ser um Explorador corrupto. Ele o estava sendo naquele momento.

Durante a guerra, Kilian preferia somente proteger a bunda de seus colegas. Ele nunca mirara nenhum sauríano para matar. Nenhum. Ele simplesmente negava-se a ser como seus colegas e deixar-se corromper em “nome do planeta Terra”.

Ele conheceu a verdade na índole humana naquele campo de batalha. Ele soube que os humanos eram naturalmente cruéis. Eles gostavam de tragédia. De morte. E por isso seus sistemas eram contidos. Ele finalmente entendeu toda aquela história das gerações passadas, de guerra entre os próprios terráqueos. Olhando para os rostos dos seus colegas, que sorriam em meio ao caos, que conseguiam comer e dormir, ele soube que eles estavam habituados à guerra, que eles gostavam disso.

Era isso que significava ser um Explorador. Deixar o pior lado humano aflorar.

Aquilo fez com que Kilian se retraísse ainda mais perante seus colegas Exploradores. Ele não queria compartilhar aquele sentimento de felicidade de um trabalho bem feito. Então vieram as ordens do superior. Eles deviam invadir a cidade central de Saurwo e matar a todos.

Pode ver que não fora o único a ficar espantado com a ordem. Pelo menos isso ele compartilhava com os mais diversos colegas. Para a missão, alguns soldados foram escolhidos, e ele estava entre eles.

Seu ódio queimou quando passou pelo capitão daquela pequena tropa. Existia uma forte energia correndo dentro dele, e ele sabia que precisava explodi-la.

Kilian matou aquele dia, mas também salvou vidas. Lembrava-se até hoje do agradecimento que brotou naqueles poucos sobreviventes. Ele os tirara da cidade. Mulheres e crianças, principalmente. Senhores mais velhos, que não foram lutar pelo seu planeta.

Ele soube verdadeiramente o que significava ser um Explorador.

Como agradecimento, uma criança lhe entregara um amuleto que sempre utilizava. Segundo ela, era para entregar ao seu futuro marido, mas que podia ser repassado ao seu salvador. Kilian lembrava-se de sorrir, e abraçar a menina longamente.

E então ele os mandou correr. Para longe de tudo, até que as coisas melhorassem.

Kilian retornou pelo mesmo caminho em que viera. Ouvia o barulho dos berros, das armas, da morte ao seu redor. Ele lembrava-se do momento em que fora, como se ainda o estivesse fazendo. Apoiar-se em paredes, esgueirar-se entre becos. As casas rudimentares de barro eram bons esconderijos. A arma estava sempre pronta para atirar. Mas não em um sauríano, e sim em um dos seus.

A sensação de voltar sozinho foi mais intensa que a de ir. Para ir, ele tinha um objetivo fortemente impregnado em sua mente. Para voltar, com o objetivo completo, Kilian estava com as emoções deixando suas pernas moles.

Seu SIAA apitou, despertando-o. Ele teve tempo somente de ativar seu escudo, liberando a energia acumulada em seu Condutor de Pulso Elétrico. Uma fina camada, mas extremamente resistente, espalhou-se por todo o seu corpo. Além de proteger seu exterior, a camada protegia seu interior, também. Era algo difícil de manter, que necessitava de extrema concentração e de muita energia. Que Kilian já estava habituado a fazer.

A explosão jogou-o no chão. Ele sentiu o impacto, mas não a dor. Então passos se aproximaram. Seu SIAA retratava, através da visão de calor, a aproximação. Também reconheceu quem era a pessoa, um dos veteranos. Um parceiro de seu irmão que estava com ele aquele dia.

De olhos fechados, Kilian esperou a pessoa. Pacientemente. O ódio ardendo em suas veias.

E, assim que ele se ajoelhou ao seu lado, explodiu seu campo protetor, jogando-o para trás. Subiu sobre seu copo, materializando, ainda com a energia de seu Condutor de Pulso Elétrico, uma adaga, forçando-a contra o pescoço do suposto colega.

— Era para você estar morto. — Conseguiu ouvir a dor na voz do outro. Podia ver seus olhos, azuis, brilhando em medo. Kilian sentiu o poder que todo Explorador sentia ao ter uma vida em mãos. Ser a pessoa que ia decidir o futuro do outro ser.

— Foi assim que mataram meu irmão? — A risada aconteceu sufocada por sangue. Kilian entendeu que o impacto de sua energia perfurara alguns órgãos internos do outro. Já estava acabado.

Nem mesmo dignou-se a matá-lo, realmente. Concentrou a energia de seu Condutor de Pulso Elétrico, materializando-a em uma espécie de bola. O homem tinha os olhos arregalados, olhando o controle que aquele garoto tinha sobre sua própria energia interna.

Então ele jogou-a contra o corpo do outro, terminando o serviço que já iniciara.

Mas, além de tudo, Kilian ainda teve a paciência de invadir o sistema do veterano e alterar as últimas imagens de sua vida. Uma explosão próxima ao homem explicaria os ferimentos internos que o levaram a morte. Esse era o problema de as pessoas serem acessadas exteriormente.

Elas eram tão... acessíveis.

Kilian jogou o corpo morto sobre o seu próprio, arrastando-o para a base. Eram os últimos a retornar e ele fora recebido com aplausos por não deixar um colega para trás.

Nunca sentiu remorso pelo que fizera. Nunca sorrira, em compensação.

A partir daquele momento era um assassino, como todos da tropa de Exploração. Era esse o preço de se deixar corromper. Também aprendeu que não era vingança o que buscava. Ele não queria a sensação de matar outra pessoa da forma que matara.

A verdade nunca foi descoberta. Foram exatos dois meses no inferno que era a guerra de Saurwo. O inferno lhe trouxera novos objetivos, novas respostas e novas perguntas. Depois daquele caso, permitiu-se aproximar-se de alguns novatos. Um de seus novos objetivos agora era impedir que os novos integrantes da sua vida tivessem o mesmo fim que seu irmão.

Sua desconfiança perante os veteranos se tornara ainda mais terrível.

Até aquele dia.

Estavam comemorando a vitória, de volta para o centro da tropa, e Kilian bebera além da conta. Ele fizera, principalmente, para aguentar aquela bagunça toda. Ele odiava ter de comemorar as diversas mortes. Houve um momento em homenagem aos Exploradores que perderam sua vida em Saurwo e, não se sabe porque diabos, seu irmão foi lembrado.

Aquilo encheu o peito de Kilian com um ódio perceptível. A energia fluía por seu corpo de forma animalesca. E ele teve que aguentar todos os apertos de mãos, todos os abraços e as palavras falsas de condolência.

E ele aceitara bem.

Até surgir aquela garota. Alta, magra e musculosa, Ana era o tipo de mulher que não aceitava se submeter a ninguém além dela mesma. As primeiras palavras que trocaram fora:

— Então você é o pirralho Luren? Dilian falava muito de você.

Não teve um: “— Sinto muito pela morte do seu irmão”, ou um: “— Dilian era incrível”. Aquelas palavras desarmaram Kilian. Ele não soube o que responder e também não existia mais aquele ódio ardente.

A saudade escondida brotara, subitamente, e Kilian teve que pedir licença. Parte era por causa do álcool, parte era por já estar desestruturado. A imagem do irmão morto se misturava a imagem da guerra que recém vivera, ao assassinato sem remorso que cometera e ele se pegou chorando na cabine das armas. Ele sabia que, durante aquela noite, aquele lugar estaria abandonado.

Ele tivera sua primeira transa naquela noite. Ana surgira, do além, com mais bebida, e eles ficaram sentados, um ao lado do outro, conversando sobre Dilian. Kilian não fizera isso nem mesmo com seus pais depois da morte do irmão, há quase três anos. As lágrimas eram constantes e ele sentiu-se uma criança nos braços daquela mulher.

O primeiro beijo fora selvagem. Era uma característica de Ana. Ele descobriu que ele não gostava muito desse, mas que era igualmente excitante. E o sexo fora rápido e desajeitado, somente para aliviar as frustrações de ambos.

Depois disso, seus encontros eram constantes. Ana estava sempre no pé dele, ao mesmo tempo em que passara a se enturmar com Jora, o companheiro mais fiel de Kilian. Ela respeitava a dor deles pela guerra sofrida. Um assunto tabu entre os três.

Nesse meio tempo, Ana ganhara uma missão solo. Por algum motivo desconhecido, aquilo realmente preocupou Kilian. Ele tentou, a todo custo, convencer a veterana de esquecer a ideia, a pedir por uma escolta. Qualquer escolta. Ele não ia se importar se fossem os parceiros do irmão, desde que ela não fosse sozinha.

E ela estourou com ele. Foi naquele momento que Kilian entendera seu próprio medo. Ele tinha medo de perder Ana, como perdera Dilian. As palavras saíram de sua boca como um choque próprio, e, pela primeira vez desde que entrara para a tropa de Exploração, ele contara seus medos para alguém.

E suas suspeitas.

Ana beijou-o de uma forma que nunca fizera. Calmamente. Esse era o beijo dele, não dela. E então ela simplesmente abraçou-o. O abraço fora silencioso, deixando-o agoniado. Uma agonia crescente, que o sufocava e que ela não permitia que fosse interrompido.

Ana acariciou seus cabelos, beijando o lóbulo de sua orelha antes de sussurrar, calmamente, de forma quase inaudível.

— Não se meta nisso, Kili.

A dor que Kilian sentiu no peito era algo que nunca poderia dizer. Ana tinha um olhar duro, uma postura completamente oposta a que adquirira com ele. Ela era aberta com ele, irônica, ao mesmo tempo em que disfarçava seu carinho com troças.

E ali estava ela, o excluindo.

Kilian soube imediatamente que ela sabia o que acontecera com Dilian. Ela estava no meio daquele rolo dos veteranos. É claro que ela estava. Ela era parte da equipe de Dilian, naquela missão.

Ele nunca deveria ter confiado naquela mulher.

Talvez, Kilian nunca tivesse sentido tanto ódio por alguém como sentira por Ana. Nenhum veterano tivera a capacidade de atiçar seu rancor como aquela mulher. Ele empurrou-a para longe de si e por segundos, entre o abismado e o puro ódio, só conseguiu segurar seus cabelos enquanto sentia seu peito doer.

E a dor gera energia e a energia é liberada, mais uma vez, através de seu Condutor de Pulso Elétrico. A onda de energia destruíra seu alojamento e jogara Ana para fora do quarto. Ele ouviu o gemido de dor da garota, assim que ela bateu contra alguma coisa, o que a impediu de ir mais longe e ele não se importou.

...

— Eu só fui me importar com Ana novamente quando ela retornou da missão solo que fora enviada. Gravemente ferida. Eu ainda gostava daquela mulher, indiferente do que ela fizera comigo. Eu a amava, ao mesmo tempo em que nutria aquele ódio primitivo. — Ele não encarava Emir, mas sabia que era analisado firmemente. O homem tinha um olhar analítico perturbador, mas não o interrompera nenhuma vez. Agradecia por isso.

— O que aconteceu a Ana? — A voz de Emir despertou-o de seu transe. Ele encarou o doutor, sorrindo levemente. Um sorriso desprovido de felicidade.

— Tudo dera errado. Ana perdeu a perna esquerda completamente e a direita do joelho para baixo. Ela fora infectada e a perca de sangue e a toxina em seu corpo a mudaram. Ana já não era mais a Ana que eu conhecia. Ana se tornou a minha parceira em uma guerra de amor e ódio.