Kilian
15 Kilian
Acordar não foi exatamente um processo fácil. Seu corpo, além de exausto, parecia anestesiado. Não o sentia completamente e sempre com uma camada incomoda de torpor. Ouvia sussurros, assim como o barulho de alguns equipamentos que seu cérebro não assimilava.
Inicialmente, sua ideia não era realmente abrir os olhos. Mas, então, imagens começaram a vibrar através de seus olhos e ele lembrou-se da dor que sentira, tendo um ataque de pânico. Seu medo era a morte. Sentiu algo lhe fazer cócegas no que deveria ser seu braço, e uma voz calma. Os barulhos daquela maquina aumentaram, causando desconforto.
E então ele abriu os olhos.
Inicialmente, nada lhe pareceu visível. Tinha uma camada sobre os olhos que deixava tudo distorcido e branco demais. Piscar os olhos foi o primeiro processo, acompanhado com sua respiração rápida. Ele até tentou se mover, mas estava fraco demais e algo parecia segurá-lo.
Então sua visão focou em um rosto conhecido. Os cabelos vermelhos e os olhos dourados o fizeram diminuir os batimentos, assim como a respiração acalmar. Ele fechou os olhos novamente, deixando a cabeça repousar sobre o travesseiro.
A imagem de sua mãe estava viva em sua memória, e ele tinha certeza que aqueles traços eram dela.
Não soube, mas ele pronunciou: “— Mãe”, quase de forma imperceptível. Mais tarde lhe contariam que alucinara. Uma música calmante atingiu seus ouvidos novamente, uma música em uma língua desconhecida para si, mas que sua mãe, uma e outra, tinha a tendência de retomar.
Ele adormeceu novamente, de forma calma, acompanhado pela sensação de estar sendo vigiado pela mãe e a música. Kilian também não sabia que estava sendo induzido ao sono, por diversas vezes, toda vez que tentava acordar. Era um processo seguro para que seu corpo se recuperasse ao seu ritmo normal do baque que fora aquele distúrbio em seu Condutor de Pulso Elétrico e as descargas de energia que afetaram todo seu organismo. Algo que, de tão intenso, modificara diversas coisas em seu corpo.
Abrir os olhos novamente fora um processo mais calmo. Ele não tinha certeza de quantas vezes o tentara fazer, mas havia um registro que mais tarde iria dar uma olhada. Havia sido treze até aquele momento, em que definitivamente acordara, são de suas próprias mentalidades e de seu corpo. Assim que seus olhos se acostumaram ao branco, ele virou o rosto lentamente, sentindo a dor do movimento. Estava atrofiado. Quanto tempo permanecera na mesma posição?
Encarar o rosto de Sumir lhe deu certa calma. Ela dormia com a cabeça apoiada em sua cama, com um casaco sobre os ombros, em uma posição sentada que a deixaria com dores, além de parecer desagradável. Virar o rosto para o outro lado fez com que olhasse para a parede completamente em vidro, de onde podia ser observado, e observar Ana e Pierail conversarem.
Voltou a encarar o teto, e tentando reconhecer todas as partes de seu corpo. O movimento dos dedos da mão, sensíveis e sem força, mas ainda assim movimentando-se, o girar dos pés, que pareciam doloridos demais, de uma forma diferente, igualmente desagradável a qualquer dor. O movimento dos ombros e um leve tremor nos braços, ao tentar levantá-los.
Ele estava completamente em funcionamento. Fraco, mas em funcionamento. Parou de tentar movimentar-se, encarando o teto com uma reflexão profunda. O que acontecera a si?
E as memórias invadiram sua mente, e tentou controlá-las. A visão da árvore parecia ainda mais encantadora sob aquela perspectiva, assim como o próprio Ras’Shire. A mata a sua frente que brilhava sobre a luz das luas, o verde escuro que se misturava com um negror agradável. Os olhos de gato de Ras’Shire, com um verde intenso. O pronunciamento de Dilian na conversa.
E a invasão.
Kilian lembrava-se de começar a ser escoltado, e somente até aí. Ele não tinha certeza do que acontecera depois, somente da dor. Uma dor lancinante, nunca sentida antes.
Moveu novamente a mão, passando-a pelos olhos cansados. Eles estavam doloridos demais em toda aquela luz branca. Passou-a pelos cabelos, e sentiu algo estranho. Não estavam do tamanho que se lembrava. Praticamente não existiam.
Então sua mão foi tocada por outra, afastando-a.
— Kilian, consegue me ouvir? — Não era a voz de Sumir. Abriu os olhos novamente, para dar de cara com os dourados de Pierail. A tentativa de abrir a boca foi um ato dolorido, os lábios pareciam grudados. Pensando bem, secos e rachados também era uma definição. A boca estava ressecada e ele quase não conseguia pronunciar sons, sua garganta irritada. Ele não sentira isso antes. — Pegue um copo de água, Ana.
Pierail desviou o olhar de si para outro lugar, mas Kilian não tinha vontade de tentar levantar a cabeça. Ajudaram-no a sentar-se, e então a água molhou seus lábios.
— Se tivéssemos retornado a base, ele estaria melhor. — A reprimenda partiu de Ana. Ela parecia estar mais louca que o normal, assim como a lucidez brilhava estranhamente em seu corpo. Agora Kilian reparava, todos brilhavam fracamente, mas de uma forma intensa ao redor.
Não soube, mas franzira o cenho e isso atraíra a atenção dos outros.
Calmamente, terminou de tomar a água, mas ainda sentia cede. Tentou pronunciar algo, mas a voz ainda arranhava a garganta. Um granar, com a voz rouca e fraca, foi o que conseguiu sair de sua garganta, com a palavra:
— Água.
E ele prontamente recebeu mais dela. Sumir acordara naquele momento, e ele pode ver as poucas lágrimas que se formaram em seus olhos, antes dela limpar eles. Era como sua mãe. Ergueu uma mão, ainda tomando água, para bagunçar os cabelos vermelhos e curtos, que agora quase chegavam a altura de seu pescoço. Tinha nós nele e estava todo bagunçado, mas ela não parecia se importar com isso.
Jora entrou. Ele vestia um jaleco, que quase fizera Kilian rir. Quase. Se ele ainda não estivesse com água na boca. Começou a dizer diversas coisas para que os outros saíssem e, meio a contragosto, eles se mandaram da sala, deixando-os sozinhos.
Então o maior suspirou, e Kilian viu-o fechar a mão em punho. Ele estava irritado consigo. Reparou que seu cérebro já conseguia analisar aquelas coisas com sobriedade, o que era um bom sinal.
— Todos ficamos malucos com seu sumiço, tem ciência disso, não tem? — Assentiu. Conseguiu esticar o braço, mesmo com as dores que sentia, e deixou o copo sobre a mesa ao lado da cama. Ele sentou-se no canto da cama e, assim, de perto, Kilian reparou em como o amigo estava cansado. — Não sei como consegui, mas com a ajuda de Pierail estabilizamos seu Condutor de Pulso Elétrico. Ele ainda não é o mesmo e creio que somente seu pai vai poder reestruturá-lo, mas assim, como está, não existe mais chances de se machucar.
Com toda aquela frase, franziu o cenho, encarando o amigo com curiosidade. Não entendia nada disso que ele estava comentando. O que seu Condutor de Pulso Elétrico tinha a ver com estar naquela cama, sendo observado? E, parando para pensar, onde estava Ras’Shire?
— O que, aconteceu? — Com dificuldade, conseguiu articular as palavras. Sua língua parecia menos amortecida, mas a dor de garganta ainda estava ali, assim como a voz chiada e rouca. Ele não se importou. Jora não demonstrou surpresa por ele não lembrar-se.
— De alguma forma, conseguiram afetar seu Condutor de Pulso Elétrico. — Jora abriu a tela transparente do laboratório, e mostrou imagens da pequena perfuração no Sistema Central de seu Condutor. Kilian balançou a cabeça, sabendo da sensibilidade que aquela parte possuía. Nunca, porém, imaginou que alguém iria conseguir aquela façanha. Era para ser indestrutível. — Isso desestabilizou toda sua energia, e você jorrava ela antes mesmo de ela se formar. A dor que sentia criava mais energia até que seu corpo apagou completamente, como se estivesse morrendo. — A frase deixou-se a ser entendida. Ele sabia que estava morrendo. Isso explicava todo o cansaço de seu corpo, a dor, a exaustão e a fraqueza que sentia.
— Ras’Shire...? — Ele não conseguiu formular a frase. Jora suspirou, levantando-se.
— Você precisa descansar. Falamos disso mais tarde. — A expressão de seu amigo alertou que algo estava errado. Como ainda estava sentado, forçou seu corpo pra cima, ignorando tudo que sentia, prestes a tirar seu corpo da cama. — Kilian, não seja precipitado. — Jora já estava sobre si, segurando-o, e Kilian não tinha como ir contra aquele ser enorme.
— O que aconteceu? — Kilian tinha um tom mais determinado, que mesmo com a rouquidão, era perceptível. Jora não o encarava, apesar de estar claramente em um conflito consigo mesmo. — Jora, eu ordeno que me diga.
Jora odiava ser ordenado.
— Antes de ser meu superior é meu amigo, Kilian. Essa informação lhe é irrelevante no momento. Deite-se, e descanse. Isso, é uma ordem. —O ênfase no “isso” logo deu a entender que Kilian fora longe demais. Ele assentiu, retraindo-se, antes de deixar o amigo lhe ajudar a deitar.
Ele sabia que estava tudo bem entre eles.
Mas durante seu “descanso”, só conseguia pensar no que estava oculto naquelas frases e em como estaria Ras’Shire.
...
— Demorei em torno de uma semana para estar recuperado a ponto de conseguir fazer as coisas por mim mesmo. Nesse meio tempo nenhum deles me respondia.
— O que aconteceu com Ras’Shire? — Kilian suspirou, jogando seu corpo para trás e caindo sobre a estrutura de madeira que eles estavam, olhando para o céu com os lábios franzidos.
— Ele teve que lidar com a loucura de Ana.
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