Kidou Senshi VP Gundam - Os Vigilantes
12 Shall we dance?
— Siren, tem certeza disso? Você tem noção do quanto sua vida vai mudar? Do quanto de sofrimento físico e psicológico você vai ter? Não faça isso.
— Qualquer coisa é melhor do que o estado atual das coisas, Christine.
— A Princesa Yan está aqui em Arcadia – lembrou Daiya. — É bem provável que ela te ajude com algo, se você pedir. Sonhou com ela esses dias, não sonhou? Pode ser que ela tenha detectado suas necessidades, e tenha te oferecido ajuda dessa forma.
— Ah, claro, a Princesa Yan, que me disse no sonho que era pra eu “não me considerar inferior”, ou seja, continuar o mesmo inútil que sou agora. Não quero isso. Se eu posso me tornar um Cyber-Newtype, e ainda salvar minha família com isso, é o que eu farei.
— Meu conselho seria “não aceite nada que venha de Louis” — comentou Kaori – mas como eu sinto que você não vai mudar de ideia, fique pelo menos até a minha festa de despedida. Assim, acaba sendo a sua festa de despedida também. Arranjo uma fantasia legal para você, se não tiver nenhuma.
— Obrigada, mas… eu me viro, pode deixar.
— Que tal ir vestido de Inspetor Bugiganga? — sugeriu Kouga. — É uma fantasia que você pode perfeitamente criar com suas peças e ferramentas, e a roupa em si é bem simples. Se você conseguir fazer as garras retráteis do meu Wolverine, vejo se consigo te ajudar.
— É, pode ser… vai ser uma boa maneira de me despedir da minha garagem.
Louis Anaheim havia sugerido a Siren Atma que, em troca do perdão das dívidas da sua família, entrasse na corporação dos Cyber-Guards, proposta que foi aceita, principalmente por conta da sede do rapaz por poder. Pagaria qualquer preço para deixar de ser um Oldtype, inclusive abandonar seus estudos e seus amigos, para tentar honrar o potencial do seu ancestral, Amuro Ray. Kaori faria uma festa de despedida para toda a colônia, pois seu curso artístico havia terminado. Louis concordou em esperar até a festa para concluir o negócio com o diretor do banco, Lucius Lynx.
A festa foi à fantasia, na Wonderland. Todos os membros da Watchtower e amigos foram; até Albertina viajou para a festa para encontrar Kouga, usando no dia uma fantasia de Valquíria. Kaori usou uma roupa sensual de vampira, com uma máscara; Karma foi como Homem de Ferro, Estel como Capitão América, Daiya usou um vestido da Rainha Elsa feito por Christine, que foi vestida de Madoka; Nix usou uma armadura do Cavaleiro de Dragão, Edward improvisou uma fantasia de Han Solo, Zaina usou uma roupa de Maga Branca de Final Fantasy, Rebecca foi como Coringa Enfermeira, Keisha como o Blue Knight de um antigo desenho chamado Tokyo Mew Mew, Ilya usou um “kigurumi” de panda. “Phillip” também apareceu, surpreendendo a todos com uma bela fantasia de fada de cabelos azuis. Daiya sugeriu a ela que dissesse para os seus colegas da corporação dos Cyber-Guards que era um meio de disfarçar melhor a vigilância do evento, e eles concordaram.
— Tudo isso está bom demais para ser verdade – comentou ela – eu aqui, me rebelando contra a corporação na cara de todo mundo, e até agora ninguém notou nada. Estou até com medo… talvez, quando descobrirem, se é que já não descobriram, a punição será severa. Mas eu não me importo. Quero ser feliz, quero ser eu mesma, mesmo que eu morra por isso.
Na festa, ela era a própria imagem da felicidade, dançando com várias pessoas, colocando os brilhos das asas da sua fantasia contra a luz, para fazer reflexos contra a parede. Isso fez Ilya recordar-se de suas brincadeiras com sua irmã mais nova, quando ambos eram crianças; ele gostava de brincar de dizer que era um monstro para começar a persegui-la imitando rugidos.
Os dois casais do grupo, Kouga e Albertina, e Estel e Rebecca, dançavam juntos. Siren divertia-se usando a mão mecânica do seu casaco de “gadgets” para puxar a cadeira para garotas sentarem (o que elas acharam um tanto estranho), e pegar comida e pebida para os amigos das bandejas dos garçons, conseguindo entrar no clima da festa, apesar do grande estado de melancolia em que se encontrava por estar se despedindo de Arcadia. Possuía também um ventilador, para refrescar quem precisasse (Rebecca apelidou-o de “O Maníaco do Ventilador”). Daiya geralmente circulava sozinha pelo lugar, observando as pessoas se divertirem. Às vezes, conversava rapidamente com uma ou outra pessoa da Watchtower, mas ficou a maior parte do tempo sozinha.
Kaori subiu ao palco, tocando algumas músicas, sendo ovacionada pela plateia. Ao final da apresentação, começou a tocar uma balada romântica; ela olhou para Nix, e perguntou, telepaticamente: “Shall we dance”?
(Música – Tema de Kaori)
O rapaz de cabelos longos já pressentia que algo assim iria acontecer naquele dia, só não sabia que seria dessa forma. Subiu ao palco para dançar com Kaori, como se nada, nem as pessoas, nem a Wonderland, nem a própria música, existissem além dela. A moça parecia divertir-se com o estado de tensão do seu parceiro. Os dois então tiveram uma conversa telepática.
“Acho que você já deve ter percebido, Kaori. Eu… quero você para mim. Como nunca quis nem nunca vou querer ninguém”.
“É, eu percebi. Foi um pouco… óbvio demais. Apesar de sentir que você é uma pessoa interessante, sinto que não é o meu caminho. Mas eu quis, ao menos, conceder a você uma última dança. E o estranho é que eu sinto que, no futuro, dançaremos novamente”.
O resto da “conversa” não foi com palavras, mas com sensações, sem espaço para explicações verbais sobre o motivo da resposta de Kaori. Simplesmente sentia-se que seria daquela forma. Nix estava ao mesmo tempo em epifania e em desespero; estava feliz por estar dançando com Kaori, mas ao mesmo tempo, além de saber que ela iria embora, sentia que seria a última vez que ele iria tocá-la. “Mas, se eu sinto isso”, pensava ele, “por que ela diz que dançaremos novamente um dia?”.
Muitos quiseram tirar fotos com a violinista, e ela fez questão de que o grupo da Watchtower fosse um dos primeiros privilegiados. Todos, reuniram-se, lado a lado, com suas fantasias, para tirar a foto. Siren havia trazido sua câmera especial no seu uniforme de Inspetor Bugiganga. Karma se prontificou a acionar o obturador quando chegasse a hora.
— Digam “broa” — disse o rapaz loiro, prestes a acionar a câmera.
— Em primeiro lugar, “broa” não termina com “is”, que é como terminam palavras que se diz quando se vai tirar uma foto – retrucou Estel. — Em segundo lugar: é PÃO!
— BROA!
— PÃO!
— BROA!
— PÃO!
— BROA!
— PÃO!
— BROA!
— PÃO!
— BROA!
— PÃO!
— BROA!
— PÃO!
— DÁ PRA VOCÊS DOIS CALAREM A BOCA E TIRAREM A FOTO DE UMA VEZ? — berrou Siren, usando um megafone que também era um dos “gadgets” da sua fantasia. — Querem confundir minha câmera e estragá-la? Bem que você disse que seria uma boa ideia colocar um megafone na fantasia, Kouga, obrigada.
— Eu aciono o obturador – prontificou-se Christine, também parecendo impaciente com a “discussão”. Quando sentiu que a foto estaria esteticamente boa o suficiente, acionou a câmera.
Ao final da festa, todos se encaminharam para o espaçoporto, de onde Kaori tomaria sua nave, o que foi como uma caminhada fúnebre para Nix. Zaina teve um vislumbre dele muito feliz, como se estivesse sentindo-se pleno e não precisasse de mais nada na vida para ficar satisfeito.
(Música – Tema de Kaori)
— Como não existe despedida sem discurso afrescalhado… obrigada a todos os que acompanharam minha estadia em Arcadia – disse a artista, quando estava prestes a subir a escada da nave. — Agradeço inclusive aos desafetos, e a pessoas que não gostam de mim mas ficavam me rodeando como mariposas por pura falta do que fazer. A BOATE (frisou bem esta palavra, olhando para Karma) Wonderland sempre ocupará um lugar especial em minha memória. Obrigada, sobretudo, aos Vigilantes, que me acolheram, e fizeram com que eu me sentisse alguém mais “normal”, mais mundana, para variar. Eu estava realmente precisando disso. Sinto, inclusive que encontrarei alguns de vocês de novo daqui a alguns anos.
Quando disse isso, seu olhar cruzou-se com o de “Phillip”, causando um enorme lampejo de tensão sem nenhum motivo aparente.
Nix, orgulhoso, manteve-se firme até o final. Mas assim que a nave desapareceu no horizonte, e a multidão se dispersou, atirou-se ao chão, tendo um ataque; a visão em sua mente de que nunca mais teria contato com Kaori o fulminava emocionalmente de maneira avassaladora. Rebecca e Zaina levaram-no às pressas até o hospital, tendo que sedá-lo e dar a ele dose elevada de endorfina, hormônio do bem-estar, que em dose concentrada “isola” o indivíduo do mundo emocionalmente, tratamento muito utilizado em Cyber-Newtypes quando perdem o controle da sua energia emocional. Por conta disso, Nix, em estado quase apático por conta do medicamento, e não pôde comparecer à despedida de Siren, que foi no dia seguinte.
— A Princesa Yan tem razão – murmurou Zaina – este é de fato um padrão que se repete. Eu sempre prevejo o contrário do que vai acontecer; ela me disse isso no nosso grupo de estudos. Vi Nix em estado de êxtase… e o que aconteceu de fato foi o desespero, como se ele sentisse que toda a vida dele perdeu o sentido.
Edward suspirou; lembrou-se da previsão de Zaina sobre a princesa Arturia de Neo Zeon. Seria essa também uma previsão reversa, que acabou estragando seu relacionamento na época?
— E é por isso – resmungou ele – que eu não tenho nenhuma inveja de vocês Newtypes. Não quero pagar o preço da minha sanidade mental para revelar o que os outros sentem e pensam.
— Já havia pensado no meu novo tema de TCC ser “prejuízos da estimulação precoce e massiva das habilidades Newtype”, mas tenho a sensação de que vão recusar meu projeto de novo.
(Música – Melancolia)
— Siren… por favor, por favor, desista disso, ainda dá tempo – implorava Estel – você viu o que aconteceu com o coitado do Nix ontem à noite, tornar-se um Cyber-Guard pode expor você a coisas que não está acostumado, e pode ter um efeito pior, por ser ativado na vida adulta. Não quero ver você caindo em insanidade permanente, como acontece com muitos Cyber-Newtypes.
— Não adianta – retrucou Karma – ele não vai desistir, não importa o que você diga. A convicção dele é forte demais.
— Eu vou cair em insanidade se continuar do jeito que estou, isso sim – falou Siren. — E você não vai me ver caindo em insanidade, eu vou estar bem longe.
— Se fosse uma situação normal, eu daria um soco na sua cara. Mas como você está mesmo indo embora… espero que dê tudo certo para você neste caminho que você escolheu. Estamos sangrando com você agora… mas tudo vai ficar bem, se não for agora, um dia vai.
— Obrigada por tudo – sorriu Daiya. — Sou muito grata à companhia que você me fez, e ao amparo que você me deu em alguns momentos.
— Não fiz mais do que minha obrigação de amigo.
— Vou sentir falta das nossas conversas sobre mecânica, aquela garagem não vai ser a mesma coisa sem você – falou Keisha. — Mas… quem sabe, no futuro, tenha uma garagem bem maior te esperando, e você volte a mexer com engenharia?
— Ah… a garagem. Melhor não pensar nisso, Keisha. Usarei este conhecimento apenas se isso for permitido, ou se eu receber ordens. Quero pensar no futuro, não no passado.
“Ele fala isso, mas está triste por abandonar a garagem”, sentiu Ilya, “melhor não ficarmos tocando nesse assunto, vou tentar abstrair”.
— Ter a intuição Newtype não é tão ruim assim – disse ele a Siren – é só não esquecer quem você é, não se “perder” nas sensações à sua volta, que você consegue se adaptar.
— Quem sabe eu possa ficar tão bom em fazer piadas ruins quanto você… só não vai ser legal prever as reações.
— Mas a diversão está aí… ver o quanto você consegue surpreender com a sua “criatividade”. Aliás, é uma excelente maneira de treinar “elemento surpresa” para batalhas.
A nave de Siren chegou naquele instante.
— Bom, pessoal, acho que… eu já vou indo. Obrigada por… por aguentarem um zero à esquerda como eu. Só por isso, já fizeram sua boa ação do dia.
— Não fique triste – sorriu Karma – sinto que isso não é um adeus. Sinto que nós nos encontraremos de novo. Talvez, quando você desenvolver a intuição, consiga ver isso. E não se esqueça de algo muito, muito importante: coma muita broa.
— Não senhor, broa vai te fazer passar mal – retrucou Estel – pão é muito mais prazeroso, vai te deixar feliz, broa vai te deixar deprimido.
— Como a vil República do Pão ousa se aproveitar deste instante solene? A honra do meu Reino não permitirá isso! Broa!
— Pão!
— Broa!
— Pão!
— Broa!
— Pão!
— Broa!
— Pão!
— Broa!
— Pão!
(música – Tema de Roxanne)
Subitamente, Karma parou a “disputa”; ao cruzar seu olhar com o de Siren, sentiu algo forte. Viu uma menina, ainda bebê, com os mesmos olhos negros como o Abismo, e com cabelos lilases. Ela dava risadas, e estendia seus bracinhos, sacudindo-os, como se estivesse muito feliz em vê-lo. Conforme ela corria, uma enorme onda do mar se formava, crescendo. Karma se sentiu estranho; era como se sua alma tivesse algum tipo de ligação forte com a menina, apesar de não ter conseguido descobrir quem era, e de sentir que não a conhecia de lugar nenhum.
— Quem era aquela menina na sua visão? — perguntou Kouga, depois que Siren havia ido embora. — Devia ser alguém importante, pra fazer você parar com a Guerra da Broa e do Pão.
— Não faço a mínima ideia de quem seja – respondeu o rapaz loiro – talvez alguém importante que aparecerá no futuro. E sim, o que eu senti quando a vi foi muito forte. Eu a vi nos olhos do Siren… seria alguém que ele irá encontrar em sua nova vida em Júpiter?
(Música – Corte de Neo Zeon – Arturia)
— Mande o Reverendo Felix entrar, por favor.
— Estou a caminho, Majestade – respondeu um dos Cyber-Guards reais.
O Reverendo Felix Samsara, um proeminente líder religioso, havia pedido uma audiência com a princesa de Neo Zeon. Ela o recebeu na sala do trono, na enorme mesa para audiências, jantares importantes e reuniões. A mesa era de madeira avermelhada de pau-brasil, com um retângulo de granito preto no tampo da mesa, e o emblema de Neo Zeon ao centro, em tinta de ouro. Ele era um homem já quase em seus cinquenta anos, usando terno e sobretudo cinza-grafite, cabelos castanho-claros levemente grisalhos, e um par de óculos de aros grandes e arredondados. Usava um crucifixo de ouro que tinha por trás dele uma roda de dez raios, em prata e obsidiana negra. A princesa já sabia qual era o objetivo da visita, mas uma conversa próxima esclareceria melhor os detalhes. Criados trouxeram algumas torradas com patês variados, biscoitos finos e Coca-Cola de garrafas de vidro (o religioso não bebia álcool).
— Fico feliz com sua visita, Reverendo.
— É sempre uma honra apoiar a família real de Neo Zeon, Majestade… já que Deus concebe a monarquia como único governo legítimo, escolhido por Ele. E é em nome deste apreço que temos pela família Zabi que venho aqui hoje.
— Você… quer que eu vá para Arcadia? — questionou a moça, sentindo a ideia na mente do homem. — Por que eu iria para lá?
— Diversos líderes estão se reunindo lá. Louis Anaheim, apoiador de uma das candidaturas à presidência de Axis, está nesta colônia. A Princesa Yan, do reino da Lua, também se encontra lá, coordenando um grupo de estudos de comportamento humano. Seria prudente que Vossa Majestade também fosse até lá e mostrasse as glórias de nosso Reino aos estudantes, que são considerados por muitos a futura elite do mundo. Se o pior acontecer no futuro… temos que ter pessoas que nos conheçam bem e nos apoiem, principalmente pessoas jovens, que venham acrescentar e ajudar a construir nosso futuro.
— Então você acha que haverá uma guerra daqui a pouco tempo, Reverendo? Se a intenção é recrutar futuros guerreiros, eu não irei.
— Não me leve a mal, Majestade, não desejo que haja guerra; em minhas orações, sempre peço pela paz. Se elas forem ouvidas e a guerra não ocorrer, você ainda pode se colocar-se como um exemplo para outras pessoas, ou até mesmo outras nações. Espalhar bons valores, que são o que torna nosso reino próspero… pode inclusive prevenir que aconteça a guerra que tanto teme.
— Dê-me um minuto, Reverendo; vou refletir.
— Reflita o quanto achar necessário, Majestade. Tenho certeza de que sua decisão será a melhor para Neo Zeon.
( Música – Char's Counterattack Track 13 – Destiny)
Ela fechou os olhos e começou a analisar as possibilidades, ativando sua intuição Newtype. Não sentia malícia ou segundas intenções nas palavras do Reverendo. O futuro a longo prazo parecia ainda um tanto nebuloso. Mas, ao pensar na colônia em si, sentiu uma sensação muito agradável, como se algo muito bom fosse acontecer com ela se acatasse o conselho de Felix.
— Eu vou – disse Arturia, decidida, abrindo os olhos. — Dizem que Arcadia é belíssima; sempre quis conhecer. Partirei amanhã; prepararei um discurso hoje.
— Sábia decisão, Princesa. Que a paz e a sabedoria de Deus estejam sempre convosco.
(música continua)
Arturia decidiu não anunciar sua chegada imediatamente, apesar de alguns jornais falarem sobre rumores. Resolveu passear pela colônia como uma cidadã comum, querendo inicialmente passar despercebida, para conseguir “curtir” um pouco o lugar sem que houvesse dezenas de pessoas em volta. Deixou a tradicional cor vermelha do Reino de lado e usou um vestido azul índigo, tomara-que-caia, com saia rodada que ia até a altura do joelho, com detalhes em renda branca. Nos pés, um simples tênis de lona azul-marinho. Não ficava muito tempo em um lugar enquanto passeava, para não haver tempo suficiente para que as pessoas ao redor a detectassem. Passou pelo lago das borboletas, pela biblioteca Nea Alexandria, pela galeria de lojas onde Karma conheceu Daiya, em frente à Wonderland, pelos jardins dos “campi”, achando a colônia tão bela e agradável quanto era dito. Passou em frente a um café no campus de Artes, onde havia música ao vivo tocada pelos alunos; parou para ouvir, encostando-se na parece e balançando a cabeça ao ritmo da música.
Karma estava indo até o café; havia dormido mal na última noite por conta de sensações ruins durante o sono, um problema que volta e meia atingia os Newtypes. Precisava de algo que o fizesse acordar. Apesar de saber quem era a princesa de Neo Zeon, não reconheceu Arturia quando a viu (olhou para ela uma segunda, terceira e quarta vez, por tê-la achado espetacularmente bonita). Quando tentou sentir algo sobre ela, pois seus traços lhe eram familiares, veio-lhe uma sensação muito mais forte do que o esperado; era como se a sua aura e a dela estivessem ligadas de alguma forma. Começaram a aparecer várias imagens dos dois juntos em sua mente, em situações diversas. Quando as imagens pararam de aparecer, sua mente voltou ao momento; a música o fez lembrar-se da Wonderland, e de Kaori convidando Nix para dançar. Sentiu vontade de fazer a mesma coisa, mas estava perturbado e envergonhado demais para fazer isso.
— O que você disse? “Shall we dance”? — perguntou Arturia a ele, detectando o pensamento.
— Ah… N… não é nada não, eu só estava lembrando de uma festa a que eu fui esses dias, e… dois amigos meus dançaram um com o outro, e… bom, é isso.
“Não adianta mentir, seu idiota”, pensou o rapaz depois, “se ela conseguiu detectar, provavelmente detectou todo o resto também”.
— Pelo que eu senti, você gostaria de me convidar para dançar. Não negue, sua mente está praticamente gritando isso – riu ela, o que deixou Karma mais constrangido ainda.
— Bom… é. É isso. Mas deixa pra lá, eu não… não quero te incomodar.
— Tem certeza? — sorriu Arturia novamente; também sentiu uma presença forte e agradável perto dele. Estava achando divertida e interessante a situação de embaraço daquele desconhecido.
Algo fez o garoto loiro tomá-la nos braços e dançar, apesar dele não ser bom e não gostar muito desse tipo de coisa (não dançou nenhuma música, nem sozinho, nem com ninguém, na despedida de Kaori). Simplesmente intuiu que era o correto a se fazer, que havia abertura da parte dela para isso. E desta vez, ao contrário do que ocorrera com Daiya, Karma efetivamente sentiu algo, sentiu que havia um futuro ali, apesar de ter conhecido a moça há poucos minutos. Era estranho, mas era forte, e real. Quanto a Arturia, sentiu que poderia encontrar no rapaz um abrigo, alguém que iria de fato acolhê-la e protegê-la, coisa que jamais sentira em sua corte cheia de bajuladores interesseiros, o que deixou a princesa muito feliz.
A empatia mental dos dois aumentava a cada compasso da música, como se realmente aquele encontro fosse predestinado. Aos poucos, todo o receio de Karma desapareceu, dando lugar a uma certeza inabalável de que, agora, tudo iria dar certo. “É disso que eu preciso”, pensava ele. “Preciso de certezas, de um caminho nítido na minha frente. Eu preciso… de um Futuro”.
Quando acabou a música, Karma foi tomar seu café, convidando a moça para ir junto. Arturia, com receio de ter sua identidade revelada e “quebrar o encanto” do momento, disse que já precisava ir, mas prometeu chamá-lo com a vibração Newtype quando os dois pudessem se encontrar de novo. O rapaz sentia que ela estava sendo sincera, que de fato os dois iriam se encontrar novamente, e concordou. Estava em tal estado de euforia que nem se preocupou em saber quem era a garota. Beijaram-se rápida e intensamente na despedida.
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