FLASHBACK

(música – Tema melancólico de Daiya)

— Não adianta. Eu não consigo, não me acostumo com esses controles... se fosse um Mobile Suit mais antigo, eu até conseguiria ter um desempenho melhor.

— Pois é, Daiya, eu já estava quase arrancando você daí e tomando os controles da sua mão.

— Acho que é só uma questão de se acostumar, Karma, se ela treinar bastante, vai dar uma surra em todos nós – comentou Keisha. — Deviam fazer mais simuladores com painéis de controle mais antigos, principalmente para termos a experiência de como eram as guerras mais antigas. Um Mobile Suit sem Psyco-Frame, sem Funnels, sem Zero System...

— Na verdade, acho que você foi bastante bem para seu primeiro contato com o cockpit do simulador. Conseguiu derrotar três inimigos fortes antes de ser destruída... na minha primeira vez, só consegui derrotar um e danificar outro dos Ace Pilots da simulação. Você é boa no elemento surpresa. Fora que esse negócio é feito principalmente pra Newtypes, e tem várias coisas que são inúteis ou incômodas para nós.

— Obrigada, Estel, mas... não sei. Novamente tenho a sensação de que eu não devia estar aqui, eu não pertenço a esse lugar e ao grupo de vocês. Talvez... eu não pertença a lugar nenhum.

FIM DO FLASHBACK

— Pensando em nada, Estel? Não consigo detectar nenhum pensamento seu...

— Estava pensando na Daiya, Nix. Pensando se não poderíamos ter feito nada a mais por ela. Pensando onde ela está, se ela está bem...

— Acredito que esteja, nunca senti nada de errado com ela.

— Depois de tudo o que ela passou antes de nos conhecer, deve ter desenvolvido uma resistência emocional bem alta, ficando tranquila em praticamente todas as situações – comentou Kouga. — Ei, não é hoje que a Rainha da Lua, Yaci Soreil vem para Arcadia?

— Você e sua falta de tato – ralhou Estel. — Estamos aqui falando da Daiya e você muda de assunto assim, do nada, seu insensível? Não sei o que a Albertina viu em você, sinceramente.

— Ué, ele pode ter lembrado da Rainha Yaci porque a Daiya é da Lua também – retrucou Keisha, calmamente. — Não seja tão obstinado.

— Mesmo assim... às vezes parece que ele nem é um Vigilante, não se importa de verdade com nenhum de nós. Só está conosco por ser um “grupinho legal de amigos”.

— Ué, eu também estou aqui por isso – comentou Ilya – e não vejo nada de errado.

O garoto da Terra suspirou fundo e afundou no sofá.

— Olha, não torrem minha paciência hoje, não quero brigar com vocês. Não estou com energia para isso.

— Sobre a Daiya – falou Kouga – eu acho que ela ter ido embora foi o melhor que aconteceu... tanto para ela quanto para nós. Foi só o fim de um ciclo que estava ruim para ela.

— Claro, seu psicopata, o afastamento dela não significa nada para você.

— A questão não é essa – continuou o outro, impassível. — A questão é que... não se deve fugir da Morte. Deve-se deixar as coisas fluírem; se estiver tudo desabando, deixe desabar. Se você foge da Morte, ela te acha, te captura e te destrói. Mas se você se entrega a ela... você a vence. Talvez o que hoje está indo embora voltará um dia mais forte, com um novo significado. E se você não deixa ir o que precisa ir na hora certa... apodrecerá em suas mãos e nunca retornará à Terra para poder viver de novo. O velho ciclo permanecerá em uma eterna agonia, como se estivesse em coma, em um estado vegetativo, letárgico, pútrido, que nunca acaba.

— Isso é algo vindo das lendas da terra da Albertina, não é?

— É sim, Nix, o modo como eles falam da Morte é muito interessante.

— Pois pra mim – exclamou Estel, levantando bruscamente – tudo isso é só uma maneira de dizer “não estou nem aí para o sumiço da Daiya”. E cuidado com as suas palavras, se você dizer esse tipo de coisa para alguém com tendências suicidas, pode fazer a pessoa achar que você está dizendo para ela se matar.

— Se fosse a própria Albertina dizendo tudo isso que eu acabei de dizer, exatamente da mesma forma, aposto que você iria achar bonito, profundo e filosófico – provocou Kouga. A resposta de Estel foi um tapa na cara do colega.

— Tenho que admitir que você às vezes é parcial quando julga certas coisas – complementou Keisha – seu julgamento é completamente diferente conforme a ligação emocional que você tem com a pessoa, mesmo em casos de atitudes iguais de pessoas diferentes.

— E agora eu estou pensando – falou Nix – será que a Daiya iria achar o Kouga insensível, se ouvisse ele dizer o que falou agora?

— Com certeza não – respondeu o rapaz da Terra – ela é uma das pessoas mais bondosas que eu já conheci, seria incapaz de fazer mal a qualquer criatura. Mas... vou dar uma volta antes que eu perca mais a cabeça. Já tivemos brigas demais nas últimas semanas. Não sei se vou voltar tão cedo. Não sei nem se volto hoje.

Foi para a biblioteca Nea Alexandria, tentar procurar uma leitura para se distrair. Logo viu, em cima de uma mesa, como se tivesse acabado de ser devolvido, o livro de tarot que Rebecca havia emprestado semanas atrás. Não sentiu-se bem vendo o livro ali; deu um chute na mesa e saiu da biblioteca. Algumas cartas, que estavam em cima do livro, caíram; virada para cima, estava a carta da Torre, o desenho de uma construção desabando por conta de um raio.

(Música — Incerteza)

“Nee-san... Não venha... Por favor, não venha para Arcadia” pensava a Princesa Yan Soreil, prevendo algo ruim quando pressentiu a visita da irmã. Ouvia a mensagem de maneira distorcida, como se fosse um rádio com interferências.

Uma figura feminina desconhecida, escondida nas sombras, dava remédios para uma garota Cyber-Newtype de cabelos alaranjados.

— Mamãe... eu tenho mesmo que fazer isso?

— Sim, Puru XIII. Você é uma boa menina, então vai me obedecer. Bons filhos obedecem os pais. A família é sagrada e deve ser respeitada. Honrar Pai e Mãe, 4º mandamento.

— Eu sou... uma boa menina... não quero deixar... a mamãe triste – respondeu a garota, sem emoção, pegando as pílulas.

— Ué, não quiseram ir para a recepção da Princesa Yaci, na Praça Ágora?

— Não, Ilya, tanto eu como a Zaina sentimos que não seria bom ir. Não sei porquê.

— E como desta vez eu e Nix sentimos a mesma coisa – completou a garota – achamos melhor ficar na Watchtower, para ver o que de fato vai acontecer. Será que minha intuição está começando a ficar normal?

— A Princesa Yan não está ali... que estranho – comentou Kouga. — Será que ela realmente tem problemas com a irmã mais nova por conta da sucessão ao trono da Lua?

Na TV, a Rainha era entrevistada pela TV Orwell.

— O que tem a dizer sobre a não aparição da sua irmã na sua chegada, Majestade, sendo que ela se encontra aqui em Arcadia?

— Ouvi ela me dizendo para não vir – respondeu Yaci – mas foi o Conselho Ancião da Lua que me orientou a vir a este local, já que tantas lideranças importantes se encontram aqui, como a Princesa Arturia Nero Zabi, Solomon Gato e Louis Anaheim, então não pude recusar. Apesar da One-Sama já estar aqui representando o apreço do Reino da Lua para com os estudantes de Arcadia, o Conselho julgou necessária a minha presença também. One-Sama está aqui como pesquisadora em Pedagogia, não como membro oficial do Reino da Lua.

— Compreendo... e já ocorreram tensões entre você e ela no que toca à sucessão ao trono?

— Ela diz que, sendo rainha ou não, deseja cumprir o seu papel da melhor maneira possível, me protegendo e me aconselhando. Como Newtype, ela é bem mais poderosa do que eu, é uma pessoa muito sensível... e é por isso que o Conselho Ancião me nomeou sucessora. Estando em contato com as sensações emocionais dos nossos súditos de maneira constante, ela poderia enlouquecer, pelo seu alto nível de empatia, de capacidade de sentir o sofrimento dos outros.

— Pelo que você diz, confia totalmente nela...

— Sim... eu amo minha irmã. Às vezes eu desejava que tivéssemos nascido em uma família comum, para não termos esses problemas. Inclusive, quando eu digo isso a ela, ela responde “não, Yaci-chan. Não se lamente por sermos parte de algo importante. Foi uma missão importante que nos deram... para que levemos nosso Amor para todas as pessoas da Lua”.

Estel caminhava em uma área remota de Arcadia, longe dos campi. Não fazia ideia de para onde estava indo, e não sabia como voltar. Parte da raiva havia passado, e ele havia começado a se preocupar com isso. Teve esperanças de que um dos seus colegas Newtypes pressentisse que ele estava perdido, e viria buscá-lo de alguma maneira.

Ouviu então um barulho no céu, e viu que começou a ventar forte. Olhando para cima, viu que havia um buraco no céu artificial da colônia. Correu para longe dali, tentando ficar longe do vento; rachaduras no teto da colônia causavam problemas de fuga de oxigênio, o que seria extremamente perigoso para todos ali.

— Vazamento! Vazamento! Todos para os abrigos! — berrou um grupo de Cyber-Guards, correndo para a Praça Ágora, onde ocorreu a recepção da Rainha Yaci.

— Vou observar a área e resgatar as pessoas que estejam com problemas – bradou Arturia. — Esquadrão Round Table, em missão! Ativar Modo Resgate!

Com um comando de intuição Newtype, a princesa de Neo Zeon avisou seu Esquadrão de Cyber-Newtypes; cada um entrou no seu Core Fighter, comandando a transformação da nave para o Modo Resgate, que deixava o caça mais lento, porém com mais espaço para abrigar pessoas.

— Patrulhe a Área Leste, Majestade – exclamou Louis Anaheim – Eu vou para o lado oeste.

— Entendido – respondeu a princesa. — Solomon, proteja a Rainha Yaci.

— Como desejar, Alteza.

(Música – Black History)

O medo tomou conta dos estudantes de Arcadia. Afinal, poucos dos Newtypes do local conseguiram pressentir algo – no máximo, foi algo vago como o pressentimento de Nix e Zaina. Correram para os abrigos, organizados por suas repúblicas. Os que ainda estavam em suas casas foram abordados e escoltados ou pelos Cyber-Guards, ou por Arturia, ou por Louis.

Na Watchtower, os Vigilantes receberam instruções de Louis Anaheim, via comunicador.

— Atenção, todos vocês. Não saiam de onde estão. Não vão para os abrigos. Acionem as máscaras de segurança do apartamento, e aguardem a minha chegada.

— Ué, que estranho... parece que ele quer matar todos nós – comentou Kouga.

— Ele deve ter previsto que ficaríamos mais seguros aqui – respondeu Nix. — Louis é um dos mais poderosos Newtypes vivos, e consegue prestar atenção em várias coisas ao mesmo tempo, tendo bom controle de tudo ao seu redor.

— Devemos ter algum valor para ele – falou Zaina, pegando sua máscara de oxigênio, para colocá-la quando fosse a hora certa – já que ele nos deu instruções pessoalmente. Inclusive, pessoal... o mau pressentimento deu certo... dessa vez, a minha intuição e a do Nix coincidiram, e realmente está acontecendo algo ruim. Será que, aos poucos, estou me tornando uma Newtype comum? Será que... a princesa Yan tem algo a ver com esse acidente, já que eu pressenti que não seria uma boa ideia continuar no grupo de estudos?

Estel começou a ver os contornos dos prédios; foi rapidamente em direção a eles para pedir informações. Onde estava, não havia ninguém. De repente, o chão rachou logo atrás dele; se estivesse andando em velocidade normal, teria caído.

— Ufa, que sorte – suspirou ele. — Mas... o que está acontecendo aqui? O problema não foi o teto quebrado? Por que estão ocorrendo problemas no subso... LOOOOOOOO!

O chão inteiro começou a rachar e desabar, como se estivesse havendo um terremoto. Era como se o que sustentasse o solo artificial tivesse se dissolvido. Usando toda a agilidade de que era capaz, Estel continuou correndo rumo aos prédios, desviando das rachaduras e buracos que apareciam, bem como de pedregulhos e nuvens de poeira que voavam para cima dele. Via ao longe que algumas construções estavam caindo; começou a ouvir vários gritos. Ao saltar por cima de uma rachadura, usando como impulso um pedaço de solo que ficara inclinado, viu algo que parecia um cabelo alaranjado e comprido. “Tem alguém ali embaixo”, pensou ele. “Vou ver se eu posso ajudar... nasci na Terra e quero morrer na Terra, mas não abandonaria alguém em apuros só para ter certeza de que eu salvaria minha pele. Que a minha sorte me ajude”.

— Ei, tem alguém aí embaixo? Ei! Eu vou tentar te tirar daí!

O rapaz da Terra, quando se abaixou e estendeu a mão, notou que o que havia visto eram realmente cabelos ruivos, que pertenciam a uma garota de olhos azuis, que tinha uma mochila nas costas acoplada a uma mangueira. Da mangueira saía um gás colorido; quando viu Estel, a menina desligou a mangueira, e encarou-o, assustada. Os dois ficaram olhando um para o outro, por alguns segundos. Houve um novo rompimento no chão, que jogou Estel para trás; quando ele olhou de novo para a rachadura, a menina havia sumido, como se estivesse fugindo. Uma suspeita terrível passou por sua mente: seria aquela menina a executora do atentado, provavelmente a mando de alguém? Seria ela uma Cyber-Newtype controlada por Psycommu e medicamentos? Aquele gás da mangueira seria algum tipo de substância corrosiva que estava abalando as estruturas da colônia?

O olhar da menina parecia estar repleto de pânico, apatia, e... carência, como se nunca houvesse recebido amor em sua vida. Após alguns segundos, ela saiu correndo; Estel tentou ir atrás, mas um novo deslocamento de solo atirou-o longe.

— Droga... nunca me imaginei dizendo isso, mas bem que eu gostaria de ter poderes Newtypes agora para encontrá-la de novo. Mas... por que os Cyber-Guards não vieram atrás dela ainda? Será que não detectaram? Pensando bem, a intuição Newtype não serve pra nada mesmo, retiro o que eu disse. Tomara que não a encontrem... provavelmente vai levar a culpa injustamente...

A reflexão foi interrompida por novos acidentes no solo, que agora pareciam persegui-lo, quase como se alguém estivesse manipulando o ambiente para acertá-lo de alguma forma. Mas a sorte continuou do lado do rapaz da Terra; ele conseguiu evitar todos os perigos, escapando milagrosamente ileso, apenas com alguns arranhões devido a quedas leves. Depois de um tempo, começou a sentir exaustão devido à falta de oxigênio, mas um desabamento de construção fez com que uma máscara de oxigênio com cilindro praticamente caísse a seus pés, intacta.

— Estel, está me ouvindo? Estel!

— Nix, é você? Está falando pela intuição Newtype?

— Sim... com toda essa confusão, só agora eu pressenti que você estava perdido. Escute, não vá para os abrigos, venha para a Watchtower. Entendeu? Venha para a Watchtower, Louis Anaheim está vindo nos buscar.

— Mas qual é o caminho? Não faço a mínima ideia de onde estou!

— Como sempre – era a voz de Keisha. — Deixe que eu e Ilya guiamos você, já que o Playboy de Axis tem memória ruim e também não sabe o caminho. Nix, como você tem um alcance maior, tente pelo menos descobrir onde ele está agora, para podermos orientá-lo.

Enquanto Estel era guiado pelos amigos até a Watchtower através da energia Newtype, o caos e o pânico dominava a colônia estudantil, caos sentido principalmente pelos estudantes Newtypes, que não entendiam como não tinham conseguido prever um desastre daquela magnitude. Alguns abrigos desabaram, matando pessoas. Um dos que desabou foi o que abrigava a rainha Yaci, que foi protegida a tempo por Solomon Gato. Infelizmente, a maioria dos outros ocupantes daquele abrigo não tiveram a mesma sorte. Muitos se feriram, e alguns morreram. Foram chamados reforços médicos das colônias vizinhas para cuidar dos feridos; foram mobilizados também os estudantes de Medicina, Rebecca estando entre eles. Ela cuidou dos feridos do abrigo onde estava a rainha Yaci, sendo elogiada por Solomon Gato, que ofereceu à garota moradia e o término do seu curso em Neo Zeon, o que foi prontamente aceito.

O rapaz da Terra chegou à Watchtower, procurando algumas coisas importantes para levar em sua mala; Louis tinha chegado para resgatar os Vigilantes poucos minutos antes.

— Estel, vem logo! Já arrumamos sua mala, tentamos pressentir as coisas que você iria querer levar... vem, o prédio pode desabar a qualquer momento! Se quiser desabar junto, pelo menos nos avise antes!

— Meu dado da sorte... já vou, Ilya, preciso só achar meu dado da sorte, o Blue Star! Vocês guardaram para mim, já que arrumaram minha mala?

— Não, não guardamos... não pressentimos que você iria querer levar esse dado. Provavelmente você só se lembrou dele agora...

— VOCÊS NEWTYPES SÃO MESMO UNS INÚTEIS!

(Música — Requiem para Arcadia)

O rapaz ficou um tempo olhando para a sala, a mesa redonda de jogo, a cozinha... em poucos minutos, tudo aquilo, que significava tanto para ele, que guardara tantos momentos bons, iria simplesmente se despedaçar. Seu Blue Star, o dado de 20 faces que o acompanhava desde que era amigo de Wario na Terra, iria ficar ali, entre os escombros. Começou a sentir o chão do apartamento tremer. As paredes começavam a rachar. E Estel, naquele momento, queria rachar e desabar junto com o prédio, pois não aceitava que aquele era o fim de toda uma era em sua vida. Com certeza seria também o fim do grande sonho juvenil que era a colônia de Arcadia, um local que transbordava conhecimento, beleza e riqueza cultural.

"Se você foge da Morte, ela te acha, te captura e te destrói. Mas se você se entrega a ela... você a vence".

— Essa era acabou, a Watchtower acabou, os Vigilantes vão deixar de existir — murmurou o rapaz da Terra para si mesmo. — Tenho que aceitar isso, não posso fugir dessa realidade. Tenho que continuar vivendo, abandonar esse ciclo, para, quem sabe, em uma nova era da minha vida... eu consiga reconstruir o que eu perdi... de maneira melhor.

Lembrou-se então da garota ruiva que havia visto entre os escombros. "Eu não a conheci por acaso... foi também um golpe de sorte, como muitas coisas na minha vida. Preciso saber quem ela é, preciso continuar vivendo para encontrá-la... e tirá-la das mãos de quem obrigou-a a destruir Arcadia".

Saiu correndo em disparada em direção à nave, que teve que se afastar da sacada para não haver riscos do prédio desabar em cima do veículo e danificá-lo. Correu, e saltou; achou que não iria conseguir alcançar os outros, mas a mão do enorme Kouga segurou a sua.

— Entendeu agora o que eu quis dizer? — perguntou o grandalhão, puxando o colega para cima com a ajuda de Ilya.

— Eu não esperava que VOCÊ fosse salvar minha vida — exclamou Estel. — Ainda mais depois de nossa discussão. De qualquer forma... obrigado.

Disse isso a tempo de ver o prédio desabando. Quando o chão cedeu, a torre quebrou no meio, e a parte de cima caiu no solo quase verticalmente. A parte que não quebrou se desfez em vários pedacinhos. Começou a chorar, sendo abraçado por Nix e pelo próprio Kouga. Keisha, Zaina e Ilya olhavam a colônia ser destruída com um olhar melancólico. A garota murmurou, com medo e tristeza na voz:

— Foi a Princesa Yan... não foi, Louis?

— Minha intuição também afirmou algo semelhante — respondeu Louis Anaheim. — Você percebeu dias antes que havia algo errado, não é, Srta. Addill?

Ela balançou a cabeça tristemente.

— Sim... mas Yan sempre me pareceu ser uma pessoa muito boa... apesar da minha intuição dizer o contrário. Achei que era porque às vezes sinto as coisas ao contrário... mas dessa vez deu certo. Estou tão confusa... e muito triste ao pensar que minha professora tentaria matar sua própria irmã...

— ISSO É MENTIRA! — berrou Estel, socando a parede da nave com a lateral da mão. — Yan Soreil nunca faria uma coisa dessas! Destruir uma colônia inteira só por causa de um trono, ainda mais sabendo que provavelmente seria a principal suspeita? Pode vir até o Papa na minha frente dizendo que foi ela, eu não vou acreditar!

— Mas é exatamente o que a investigação descobriu — respondeu Louis, tranquilo. — Já está passando nas TVs de todo o mundo, inclusive. Foi uma decisão impulsiva em um local com a presença de vários líderes importantes, o que dificultou uma ação preventiva... inclusive agora, segundo me consta, a princesa está foragida. Deve ter saído de Arcadia após a confusão... os Cyber-Guards simplesmente não conseguiram achá-la, não descobriram onde ela está. Mas nós vamos encontrar. Aliás, pretendo instalar todos vocês em Axis, como medida de ressarcimento e recompensa pelo talento de todos vocês. Inclusive você, Sr. Fortuna. Sei que não pretende morar no espaço, mas em Axis poderá juntar dinheiro para construir sua vida na Terra como deseja. Eu providenciarei recursos e oportunidades. Eu vi a sua vinda para cá... é quase um milagre que você esteja vivo. Será, no mínimo, interessante estudar como você consegue atrair circunstâncias favoráveis para a sua vida de maneira bem mais frequente do que outras pessoas, conforme presenciei. Inclusive, Ilya... quando chegarmos, você vai encontrar sua irmã. Ela está viva, nós conseguimos encontrá-la.

— Erzulie? Erzulie está viva?

— Está sim, e estava mais perto de vocês do que vocês pensavam.

"Que estranho", pensou Estel, "ele falou sobre a destruição de Arcadia tranquilamente... ficou com a voz tensa só quando falou do sumiço da Yan Hime-Sama. E se não foi ela quem destruiu Arcadia, uma certeza que eu nunca abandonarei, quem foi? Por que motivo? Mais estranho ainda ninguém ter falado sobre a menina que eu vi, ninguém ter sentido a presença dela... por que será? E a Daiya... meu deus, a Daiya, espero que ela tenha mesmo ido embora daqui, e não tenha presenciado tudo isso... ou não tenha morrido... será que o Karma acabou salvando sua vida quando foi estúpido com você?"

Quando todos já estavam no espaço, puderam ver de longe o que restava das estruturas superficiais de Arcadia ruir, tanto os vidros quanto as estruturas de metal, finalizando o processo de tornar um local de sonhos e talentos em mais uma colônia sem vida flutuando sem rumo pelo espaço.

Notas finais
E assim termina a primeira parte desta história. As perguntas de Estel - e muitas outras que ficaram - serão respondidas? Seria esse só um susto, ou o começo de muitos desastres que se seguirão? Quais serão os desdobramentos políticos desta tentativa de assassinato da Rainha Yaci? Como os ex-Vigilantes começarão suas novas vidas? Daiya ainda estaria viva? Não perca o próximo episódio de Kidou Senshi VP Gundam! A sombra do Caos está à espreita.