Eu já viajei pra fora dos Estados Unidos antes. Conheci o Canadá e a Inglaterra, ainda pequeno. Porém, estar na carruagem puxada por abraxanos de Ilvermorny rumo à Beauxbatons era outro nível. E acho que eu posso dizer isso em nome da turma, já que todos ficaram tão embasbacados como eu. Bom, todos que não tinham medo de vôo. Betty estava ficando verde, Jughead estava visivelmente tremendo e Toni já engolia o segundo remédio pra sono, tentando apagar.

— Posso me sentar do seu lado? — Archie pediu, me surpreendendo. — Tô vendo a hora que a Betty ou o Jug vão botar os bofes pra fora em cima de mim.

— Fique à vontade. — respondi. — Empolgado?

— Bastante, apesar de tudo. — ele sorriu fraco, enquanto se aproximava.

— Essas com certeza não foram férias felizes, né? — Perguntei, embora já soubesse a resposta.

A vida do Archie tem ficado mais difícil desde os seus dezesseis. Divórcio dos pais, Srta. Grundy, os esquemas do Sr. Lodge e agora esse término com a Veronica. Contudo, nenhum deles foi pior que a morte do seu pai, nem mesmo aquela vez que um urso quebrou a varinha dele e rasgou o seu peito. Archie estava inconsolável nos dois primeiros dias e passou por todas as fases do luto uma vez por dia durante três semanas.

— Nunca tinha passado um Natal sem o meu pai antes. — Andrews confessou. — E não ajudou muito eu ter levado um pé na bunda pouco antes.

— Foi por causa do Reggie? — chutei.

— Também, mas o pai dela foi o motivo principal. — admitiu. — Não quero passar a minha vida tendo o meu sogro como arqui-inimigo. Reggie é só um filé mais apetitoso que eu no momento.

— Apesar de você ter tido um ano de cão, eu discordo dessa última frase. — falei, com sinceridade. Ele me olhou com uma sobrancelha erguida. — Sério mesmo! A Veronica que sai perdendo! Reggie nunca vai ser tão bom no quadribol quanto você! — sorri, contagiando-o por um instante.

— Não vou discordar dessa frase, mas tem uma pessoa nesse avião que dá uma surra em todos nós com feitiços e não é a Betty. — ele lembrou e eu não pude deixar de me sentir lisonjeado com o elogio. — Espero que Beauxbatons possa ser um lugar pra ocupar a mente e me divertir. Você também podia tentar, Kevin.

— Você é mais observador do que indicam as aparências, Archie. — indiquei. — É, Moose e Joaquin deixaram algumas feridas emocionais, mas estão quase curadas. E Beauxbatons é o meu sonho desde pré-adolescente, então eu acho que vou ter muito com o que me ocupar chegando lá.

— Então espero que a gente chegue logo, pra que no final do mês, a gente possa voltar pra casa com um sorriso no rosto!

Com isso, eu me permiti ficar ainda mais otimista em relação ao nosso destino. Depois, Betty e Jughead avisaram que lembraram do feitiço pra passar o medo de vôos e ele voltou pra perto deles. Queria poder conversar com a Josie, mas ela estava discutindo ideias com as outras gatinhas. Então, pra a minha surpresa, Fangs desgrudou de Sweet Pea e Toni e também foi sentar do meu lado.

— Qual é a ocasião, Fogarty? — brinquei.

— Ah, sei lá, a gente não se fala muito desde Carrie. — Fangs lembrou. — Eu sei que eu não dei a melhor primeira impressão, mas... — o interrompi.

— Tudo bem, Fangs. A Midge me contou que tava tentando te ajudar com o seu medo de palco. É que nem eu nem você tivemos chance de conversar muito depois, sabe? Com o pai da Betty bancando o serial killer, a mãe da Midge achando que era você...

— É, foram tempos doidos. — o serpente concordou. — A Midge quase não sobreviveu. Acho que se não fosse esse intercâmbio pra dar uma pausa em Riverdale e Ilvermorny, teríamos um bruxo eremita na floresta Fox hipnotizando as crianças para jogarem RPG. — riu da própria piada e não pude deixar de sorrir.

Fangs era bom nisso de me fazer sorrir. Ele aliviou a minha tensão várias vezes durante os ensaios do musical e, quando o Joaquin foi embora, ele passou a perguntar todo dia por mim, pra saber como eu estava. DeSantos me disse uma vez que Fangs, antes de ser aceito em Ilvermorny, vivia perguntando por mim, dizendo ao Joaquin que ele era sortudo por ter um garoto bonito e talentoso do lado norte como namorado.

— Acha que Riverdale vai ter esfriado nas esquisitices quando voltarmos? — perguntei receoso.

— Sendo sincero, é pouco provável. — Fangs respondeu honestamente. — Com as crianças fora, os adultos talvez até peguem mais pesado. E é exatamente por isso que eu vou passar esse mês me ocupando bastante! — sorriu. — Jogar quadribol, ajudar os amigos, ir bem nas matérias, flertar com alguns estudantes, viver! — continuou, tão empolgado que era quase possível ver um brilho nos seus olhos. — E, se quiser minha opinião, acho que deveria fazer o mesmo. Vamos aproveitar o tempo na Europa pra esquecer de Riverdale, Keller!

— Você tem ênfase no que fala, Fogarty! — elogiei. — Tem razão, eu devo aproveitar. Se tiver alguma sugestão do que fazer depois das aulas, me fala!

— Bom, na verdade... — Fogarty foi interrompido pela voz da condutora da carruagem, avisando que havíamos chegado. — Depois eu falo com você, Sweet Pea está quase incendiando a minha nuca com o olhar. — brincou, enquanto voltava pra perto dos colegas.

...

Dizer que a escola era linda seria um eufemismo deselegante. Quando chegamos, fomos graciosamente recebidos, não apenas pelo corpo estudantil naquelas lindas vestes azul celeste, como por aquele palácio branco de telhado azul escuro. Como eu sei que vou gastar bastante tinta descrevendo o castelo por dentro, vou deixar uma foto do castelo anexada nessa página, só pra vocês terem uma noção de como ele é pelo lado de fora.

A diretora, que infelizmente não era mais a famosíssima Madame Maxime, estava à frente dos alunos. Acho que o seu nome era Srta. Beauregard. Ela usava um vestido de gala num tom de roxo real e tinha feições que lhe davam um ar reservado e frio. Ela nos recebeu cordialmente e os alunos mais velhos nos deram o tour pelo castelo. Eu fiquei tão maravilhado pela estrutura daquele lugar que nem percebi os garotos que me olhavam até Ronnie me falar. E nossa, eles eram bem bonitos!

No final do tour, tivemos liberdade para explorar os corredores, a área externa e os nossos aposentos. Não me surpreendendo, os jogadores foram para a quadra de quadribol e os serpentes foram para as masmorras. Ronnie me acompanhou pelos corredores, à fim de visitar a biblioteca (ela disse que os franceses tinham um arsenal de feitiços que ela queria conhecer), e a gente foi colocando a conversa em dia.

— Você passou as férias estudando? — Ronnie perguntou, incrédula. — Nada contra, eu também enfio a cara nos livros, mas durante a pausa pro Natal?

— Eu tava à fim de impressionar um pouco com magia francesa. — respondi. — Fora que magia de combate era uma matéria que não estava aliviando pro meu lado ano passado e eu não queria chegar aqui pra tirar nota baixa.

— Garoto esperto. — ela sorriu. — Mudando de assunto, o Archie foi falar com você mais cedo, né?

Fingi não notar o tom de ciúme na sua postura. Veronica esteve nesse namoro com o Archie desde que Jughead entrou pra a gangue do pai, então é claro que ela continuaria de olho vivo nas companhias do ex.

— Sim, porque a Betty e o Jughead estavam passando mal. — respondi. — Incrível como ele consegue se manter otimista em meio a todo o caos de Riverdale.

— Pelo menos até chegar em casa. — ela acrescentou. — Kevin, foram tantas noites de choro...

— E não dá pra culpá-lo. — continuei. — Todos temos noites difíceis naquela cidade. Ele só teve com mais frequência.

O papo não fluiu muito depois disso, então nos concentramos em preparar uma lista de leitura para os próximos dias, porque seria impossível ler qualquer coisa hoje, além de um desperdício de liberdade pra perambular pelo castelo.

Logo depois, Ronnie foi assistir o namorado se exibir no quadribol. Não falo com malícia, todos nós estamos acostumados com a necessidade de autoafirmação do Reggie, mas ele tem se contido bastante desde que começou a namorar a morena.

Sai da biblioteca logo depois, indo explorar o lado de fora do castelo. Queria poder apreciar melhor aquela estrutura e cores maravilhosas. Posso não ser um nerd de arquitetura, mas adoraria viver num castelo assim.

Chegando na base da torre mais alta do castelo, um brilho vermelho tirou meu foco da construção. Olhei pra baixo e vi um anel de ouro com um rubi incrustado. Cogitei que alguém tivesse deixado cair, mas acredito que essa pessoa já teria buscado. Instintivamente, peguei o anel com a mão e quase o deixei cair com o susto que levei. Estava quente. E esse era o inverno francês, então esse objeto definitivamente era encantado.

— Achou alguma coisa? — fui surpreendido pela voz de Fangs.

— Que susto, Fogarty! — reclamei, me virando para vê-lo. — E sim, eu achei um anel. Encantado, por sinal. — me levantei pra mostrá-lo.

— Vai usar? — Fangs perguntou. — Ia ficar legal com essa sua roupa azul.

— Lição número um que eu aprendi quando se trata de objetos encantados: detecte o feitiço antes de usar. — revelei, pegando a minha varinha. — Revelio!

Eu esperava qualquer coisa, menos que o anel fizesse um upload de memórias em mim.

Vi fogo, em dezenas de cenários. Velas acesas, incêndios florestais, fogueiras de acampamento, tochas olímpicas, até erupções vulcânicas. Parecia que o anel queria contar a sua jornada até vir parar na minha mão. Eu já havia visto objetos com memórias antes — as famosas sete horcruxes de Lorde Voldemort eram conhecidas por serem conectadas à personalidade do seu criador —, mas esse anel parecia só querer se apresentar à mim, omitindo seus usuários anteriores.

Quando voltei a mim, o anel estava no meu indicador esquerdo, que apontando pra cima. Uma pequena chama saía da ponta do meu dedo. Fangs me olhava como se fosse a coisa mais impressionante do mundo. Até mesmo eu estava surpreso. Era bem legal ver um objeto encantado que não fosse banal ou amaldiçoado.

— Mano, um anel de fogo! — Ele comemorou, com um sorriso largo. — Testa ele!

— Não acha que a gente devia procurar um professor pra ver se não é dele? — sugeri, fazendo Fangs revirar os olhos.

— Kevin, isso é um lança-chamas mágico. — ele explicou. — Mesmo que não seja do professor, ele não vai nos deixar manter. Aproveita que não tem ninguém nessa parte do castelo e vai com tudo!

Nada como o conselho de um membro de gangue pra te colocar na direção certa.

Me concentrei e abri a mão, invocando uma chama maior da minha palma. Apontei essa chama pra frente, num gesto de Pare e ela se expandiu numa labareda, dançando até seis metros de distância de onde ela começou. Fangs está certo — isso é um lança-chamas mágico.

— Tenta conjurar um feitiço de fogo com a sua varinha! — ele sugeriu, depois de gritar com animação.

— Você quer usar o anel? — ofereci.

— Eu sou um desastre com feitiços, Kevin. — Fangs negou com a cabeça. — Você sabe disso.

— Ok então. — continuei. — Incendio!

Talvez eu devesse ter pensado melhor antes de fazer isso. Um mar de fogo avançou na região, sujando todo o chão branco de fuligem. Se houvesse um objeto inflamável perto da gente, teríamos um problema ainda maior.

— Tergeo! — tentei, mas o feitiço só limpou um pedaço do terreno. — Fangs, eu vou precisar de uma ajuda aqui!

...

Eu estava exausto. Fogo podia ser divertido, mas além de perigoso, podia fazer uma senhora bagunça. Fangs e eu já estávamos exaustos quando terminamos. Ao chegarmos nos aposentos da nossa turma, já fomos recebidos com o olhar analítico de Betty e o desconfiado de Sweet Pea.

— O que vocês ficaram fazendo que demoraram tanto pra voltarem? — Archie perguntou.

— Discreto como a torre Eiffel... — Jughead comentou, revirando os olhos.

— Eles não estão com os lábios vermelhos e inchados, então a gente já sabe qual alternativa descartar! — Cheryl notou, com seu habitual sorriso convencido.

— Vocês precisam se familiarizar com uma coisa chamada privacidade, sabiam? — Fangs os cortou.

Agradeci mentalmente o gesto. Pra a nossa turma, objetos encantados assim são como brinquedos pra crianças. Se eu falasse sobre o anel, choveriam pedidos para usá-lo. E não querendo ser egoísta, mas eu achei primeiro.

O que dizer do resto do dia? Conversamos, fomos perambular mais um pouco pelo castelo antes do jantar (e eu posso ter ateado fogo num guardanapo à distância sem que me descobrissem), Fangs ficou procurando desculpas pra deixar os amigos serpentes e ficar do meu lado e, quando fomos dormir, ele ficou contando as possibilidades até eu cair no sono. Não vou mentir, ter a companhia dele foi mais legal que o anel em si.

O problema foi o pesadelo que eu tive.

Castelos, prédios e pessoas queimando vivas, todos por uma mão branca que usava outros nove anéis muito similares ao que eu havia achado. Eu não podia ver o rosto do dono, mas sentia que ele estava gostando de fazer aquilo. Destruir tudo e todos com o poder desse anel. Ele teria feito mais, mas alguma coisa o interrompeu. E no mesmo instante eu acordei, suando frio, com o anel me encarando de volta na cômoda.

Talvez esse objeto não seja tão livre de maldições como eu pensava.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.