Notas iniciais
Eu escrevi isso que seria o começo do capítulo sete, mas acabei percebendo que ele em si tem o caráter de um capítulo solo, então decidi postar dessa forma mesmo, mas como era pequeno demais pra ser um capítulo, resolvi fazer dele uma ponte de ligação entre o capítulo seis e o sete. Isso vai ser bom, por que - alem de vocês poderem ler antes - Vai me dar uma área de trabalho maior pra fazer o capítulo sete, sem ter que interromper em algum momento crucial, ou acabar fazendo um capítulo gigantesco demais.
É isso aí, aproveitem.

Segui pra sacada onde sabia que Inari estava sem dar um segundo olhar por onde passava, exceto um sorriso retribuído pra Tsunami que estava trabalhando na cozinha. Subi as escadas, e passei pelos quartos, parando por um segundo pra pensar no que diabos estava fazendo assim que cheguei a porta do quarto de Inari. Não seria mais simples simplesmente deixar aquele pivete em paz?! Voltar e tirar um cochilo na sala, como Zabuza provavelmente estava fazendo a uma hora dessas, ou ir voar com Kohaku?!

Seria bem mais legal, mas alguma coisa naquele garoto... Não tinha realmente como explicar, tanto quanto ele me irritava, eu não conseguia evitar de gostar dele. Imaginar o que ele poderia se tornar se eu desse um mero empurrão, só algumas palavras, e poderia mudar completamente o rumo da vida dele. Era delicioso e excitante saber que eu podia mudar a vida de uma pessoa se eu quisesse, tanto pra melhor quanto pra pior, ver as pessoas crescerem e surpreenderem a mim e a mim mesmos. Eu já tinha treinado inúmeras pessoas, inúmeros samurais, alguns shinobis em menor número, e a alegria de vê-los crescer era algo que eu não conseguia me cansar de sentir.

Abri a porta, entrando em silêncio no quarto, e caminhei até a varanda. Ele estava abraçado com o retrato do pai dele meio rasgado da foto que Tsunami tinha na cozinha, as lágrimas rolavam pelas bochechas enquanto o chapéu lhe caía sobre os olhos. Pensei em algumas palavras gentis que poderia dizer naquele momento, mas...

Palavras gentis não funcionariam bem com ele, então apenas caminhei até onde ele estava, sob seu olhar curioso e meio amedrontado, e o ergui do chão pela gola da camisa. Como se fosse um saco de batatas, o joguei as costas e comecei a descer as escadas, ignorando seus gritos de protesto.

Tsunami apareceu na porta apreensiva ao ouvir os berros do filho, mas piscou surpresa ao me ver carregando ele pra fora. Antes que pudesse dizer alguma coisa, apenas sorri o mais tranquilizador que pude pra ela:

-Não se preocupe, Tsunami-dono, nós só vamos ter uma conversa de homem pra homem.

E sem esperar respostas, saí da casa.


Dez minutos depois, ainda parada estupefata no mesmo lugar, Tsunami pensou: “De homem pra homem... mas ele não é uma garota?!”.


Repeti a mesma coisa que tinha dito a mãe do pivete pra Kurenai e Yugao, que pareciam muito distraídas abraçadas uma a outra discutindo alegres fatos constrangedores da minha infância. Acabei andando mais rápido pra tentar ouvir o menos possível, mas por desgraça, eu tinha sentidos muito aumentados, e apesar de estar uns bons cem metros longe, ainda pude ouvir elas rindo enquanto lembravam a minha primeira e involuntária ereção.

Bem...

Os gritos de Inari morreram após alguns minutos, e ele ficou calado e emburrado, enquanto eu continuei o carregando. Esperei que ele parasse de me mandar pô-lo no chão, e só depois da décima vez que ele pediu educadamente que eu o colocasse de pé, é que eu o soltei. Até o momento ele estava resignado a me acompanhar em silêncio emburrado.

Isso é, até que a irritação dele se tornou grande demais e ele soltou uma pergunta num tom grosseiro:

-Onde é que você esta indo?

-Pra vila...

Ele fez uma careta.

-Pra que?!

-Pra você ver o quão sortudo você é.

Ele moeu os dentes irritado, provavelmente começando um novo discurso irritante sobre como a vida dele era triste, e como ele era uma pobre vítima inocente das circunstâncias, a mesma lengalenga de sempre. No entanto, as palavras morreram na sua garganta quando chegamos a periferia da vila da Onda, as primeiras casas meio destruídas aparecendo logo a nossa frente, na estrada.

Como não tinha saído de casa por um bom tempo, era meio óbvio que ele não sabia bem a situação atual da vila, notadamente bem pior do que da última vez que ele estivera nela.

Mal nos aproximamos, algumas crianças nos cercaram, puxando minha manga e rindo. Uma delas era uma garotinha pequena, que ergueu os bracinhos pra mim. Seu rosto estava sujo e ralado, os cabelos cortados meio tortos e um hematoma embaixo do olho esquerdo. Ela tinha algumas sardas na ponte do nariz, que fazia parecer que ela estava permanentemente corada, e alguns dentes de leite faltavam na sua boca.

Enquanto a erguia nos braços, não pude deixar de pensar que ela era muito mais bela que muitas princesas que passavam a vida nos castelos, cultivando sua beleza pra servir nas negociações dos seus pais. Havia uma coisa nos olhos, um brilho que ultrapassava e muito qualquer efeito que qualquer maquiagem ou perfume pudesse sequer sonhar em ter a mais vaga chance de rivalizar. Ela riu e corou – dessa vez de verdade – Enquanto tocava minha testa na dela, e afagava com a outra mão a cabeça de um garotinho da mesma idade dela. A pus no chão logo depois, tirando alguns doces de dentro do quimono e dividindo entre eles.

Eles fizeram uma festa, correndo em círculos em torno de nós e logo depois voltando pra uma das casas abandonadas, onde se agruparam pra contabilizar o novo tesouro. A cara estupefata deles enquanto provavam os doces, como se fosse uma sétima maravilha de um mundo desconhecido me fez rir, tapando a boca com a manga do quimono, num gesto que, se Yugao ou Kurenai estivessem ali, tinha certeza que me ganharia um abraço e um grito feliz de “Kawaii”.

Inari ficou quieto o tempo todo. Não foi preciso dizer nada a ele, como ele era sortudo por ter a mãe viva, como ele era sortudo por ter um teto acima dele, um avô que o amava o bastante pra arriscar a vida indo contra Gathou, ou por ter comida na mesa sempre que estivesse com fome. Só de andar pela vila pobre e semidestruída, observando as crianças que fuçavam no lixo e as mulheres que pediam esmola nas ruas foi o bastante pra ele abaixar a cabeça de vergonha. A mera sombra que o chapéu de pescador proporcionava ao seu rosto não sendo o bastante pra esconder a trilha de lágrimas que ele deixou jorrar.

Passamos a vila de ponta a ponta, mas ele não deu um pio durante o trajeto todo. O velho da ferraria acenou pra mim com a marreta na mão, e eu sorri de volta, agitando a manga do quimono no processo de acenar. Quanto chegamos a outra ponta do vilarejo, adentrando uma mata de bambus que crescia às margens de um rio que cortava um pedaço da ilha fora da sua extensão total, nós paramos.

O lugar era uma clareira, o capim baixo e cercado de floresta de um lado, bambus de outro e o rio que corria rente a ele, visível através das folhas finas que não faziam muito pra tampar a visão da água corrente. Além disso tudo, ainda era possível ver algumas colinas baixas que, na falta de coisa melhor, podiam ser chamadas de montanhas, acompanhando o contorno norte da ilha, como se virasse suas costas para o grande Oceano.

Sem dizer nada, tirei as espadas da cintura. Conservei Rurouni no seishin pra mim, enquanto atirei a de madeira pra ele. Inari me deu um olhar confuso.

-No mundo existem pessoas fortes, e pessoas fracas Inari, cabe a nós escolhermos quais somos – ele ia protestar, provavelmente com um berro, mas o calei antes disso – Ninguém nasce forte ou fraco. Nós nascemos da mesma forma, independente de onde ou quando. O que conta é a maneira que vivemos. Uma pessoa não nasce sabendo andar, ou falar, ou pensar, mas nós aprendemos isso conforme crescemos. Trabalhamos pra isso. Da mesma forma que uma pessoa pode aprender a andar e correr, ou aprender a pensar de forma lógica e criativa, qualquer pessoa pode aprender a ser forte. Tudo o que você tem a fazer é trabalhar pra isso.

Sorri quando ele ainda parecia em dúvida.

-Pegue a espada – ordenei, e ele a segurou com receio, a ponta pendendo pra baixo molemente nas suas mãos – Com firmeza, ela não vai te machucar.

Ele a empunhou com um pouco mais de segurança.

-Venha, me ataque.

Ele não se moveu um milímetro, tremendo enquanto olhava pra mim.

-Vamos Inari, me ataque. Bata em mim.

Sem se empenhar muito, ele levantou a espada, andando na minha direção a passos meio bambos e a deixou cair com um pouco de força. Com Rurouni no Seishin ainda embainhada, desviei a katana de madeira para o lado, com um movimento leve e sem nenhum esforço. Ele deixou a katana cair, quase caindo ele mesmo pra trás.

-Não, nunca deixe sua espada cair – disse sério, apanhando a espada e lançando novamente pra ele – Uma espada não é como uma faca, que você pode soltar a agarrar novamente quando quiser, ou uma kunai, que você arremessa nos inimigos quando eles não estão olhando. Uma espada é uma parte de você, uma extensão do seu braço. Você largaria seu braço no chão?! Por que largar sua espada?!

Como era de praxe, ele me olhou irritado.

-Eu não entendo o que você esta dizendo, não sou um espadachim!

-Eu tampouco o era na sua idade – mentira... – Mas todos nós começamos do zero. Pegue a espada.

Ele não se moveu, continuou me fuzilando com os olhos.

Suspirei. Isso ia dar muito trabalho...


Haku riu baixinho enquanto observava Chihiro tentando treinar o garoto chorão filho de Tsunami. Por quase uma hora, tudo o que ele tinha feito era levantar a espada sem nenhuma vontade e tentar atacar, só pra katana de madeira ser desviada facilmente pela espada embainhada da sua antiga amante. Ela – agora ele – daria uma bronca no garoto, e o obrigaria a tentar de novo, e tudo se repetia.

Mas num certo momento, o garoto começou a ficar com raiva, e os ataques se tornaram carregados de vontade de acertar o alvo – o que faltava em extremo antes. Não foi nenhuma melhora em relação a antes, mas já era alguma coisa. Agora, a cada vez que Inari brandia a espada contra Chihiro, e era desviado, ele se lançava com mais vontade, uma carranca trancada no rosto e os dentes cerrados. Após muitas tentativas, frustrado, ele gritou e atirou a espada de madeira no chão.

Conhecendo Kyuubi como ele conhecia, Haku se preparou pra impedi-la caso ela tentasse matar o garoto. Tratar mal de uma espada, ou tolamente atira-la ao chão por algo tão inútil quanto frustração era algo que a irritava de verdade. No entanto, ela – “Ele” – Haku se lembrou pela centésima vez que devia se referir a ele no masculino, mas era muito estranho, já que a cada vez que pensava nisso a imagem da garotinha de olhos cor de caramelo lhe vinha a mente – apenas suspirou, resignado. Matar aprendizes não era algo que ele fizesse facilmente, por mais irritantes que fossem.

Kohaku perdeu alguns momentos observando a interação entre eles, até notar que estavam conversando. Ele se aproximou pra poder ouvir.

“...Olhe para o chão Inari – ele disse, cutucando com a ponta da bainha a terra – Veja o chão por exemplo. Ele é sempre duro e imóvel, e sustenta todas as coisas acima dele, e o céu, é o extremo oposto a ele, ele é intangível e vago, e abrange todas as coisas acima do solo. Apesar deles serem diferentes, ambos só coexistem em harmonia por que dependem um do outro, são equilibrados.

Ou então a montanha, sempre firme e rígida, não importa o que aconteça, ela permanece parada. Ou então o bambu, que se curva graciosamente quando o vento sopra através dele.

Veja o fogo, que arde e se espalha, consumindo tudo a sua volta e aquecendo as coisas próximas a ele. Ou então a água, que é calma e corre através das rochas, mas como o fogo, pode se tornar furiosa e levar as coisas em seu caminho.

O caminho de um verdadeiro espadachim reflete o verdadeiro equilíbrio, a perfeita coexistência entre ele e sua espada. Um espadachim pode ser calmo e sereno como um rio, fluindo através das coisas, lentamente as levando com ele. Ou então furioso como o fogo, se alastrando rápido e consumindo tudo a seu caminho. Ele deve ser como o solo, uma base sólida e imutável, mas também deve ser como o céu, vago e abrangente. Como a montanha, rígida e orgulhosa, e também como o bambu, que se curva humildemente. Um verdadeiro mestre de espadas entende a natureza e se equilibra com ela. Quando enfrentar o fogo, seja como a água, quando enfrentar o vento, seja como a montanha e o bambu. Você deve saber quando permanecer firme, e quando se curvar. Tudo é uma questão de equilíbrio, tudo se resume a isso”.

Haku se debruçou no galho, sorrindo enquanto observava a raposa discursar sobre filosofia. Apesar de já ter ouvido aquilo centenas de vezes, ele não se cansava, não era como os mestres que ensinavam seus alunos da forma que foram ensinados. Cada palavra que Chihiro dizia vinha recheada com a própria alma dela, era quase tangível. Aquele conceito que ele tinha criado tinha se tornado sua crença pessoal e sua religião, tudo o que ele acreditava e tomava por verdade girava em volta daquilo. Ele vivia por aquilo, e via o mundo através daquilo, era bonito vê-lo passando isso pra seus aprendizes, embora aquele garoto não pudesse realmente contar como um deles.

Kyuubi era, e sempre seria, a epítome do que significada ser um espadachim.

-Qualquer um pode se tornar um espadachim Inari – ele continuou, estendendo a espada de madeira – Desde shinobis, que vivem suas vidas no fio da navalha, acompanhados a cada dia pela sombra da morte, ou os pescadores, que mesmo sem perceber, se tornam calmos como o próprio rio a frente deles, sabendo quando puxar o anzol com a mesma elegância que uma serpente quando da seu bote. Ou os poetas, que pintam quadros com palavras e fazem os imperadores chorarem, ou até os imperadores, que estão acima de todos os homens e são responsáveis por todos eles. Você deve entender que uma espada é como um gato, ela é orgulhosa e preguiçosa, e falhara com você quando mais precisar. Do mesmo modo, ela é como um cão, que seguirá fielmente a quem ganhar sua lealdade – Kyuubi cravou a bainha no chão, graciosamente escorregando a lamina pra fora em toda sua beleza insuperável, e a apontou diretamente para o rosto do garoto, que parecia tão amedrontado quanto maravilhado – Você leva o nome do Deus das colheitas e das Raposas, a pessoa que pela primeira vez brandiu uma espada na terra, e ensinou aos homens como fundir os metais e dar vida a uma lamina. Se prove digno desse nome!

Renovado completamente com confiança, o garoto gritou e correu em direção a Naruto, dessa vez, a espada de madeira não tremeu em suas mãos.


Entenda as formas, mas procure o disforme. Ouça o silêncio. Aprenda tudo, e então esqueça tudo. Aprenda o caminho, depois encontre seu próprio caminho. Entenda o Nada, através do Tudo. Um vaso só é útil pelo espaço vazio dentro dele, uma porta só se tem serventia pelo buraco onde é posta. Não tenha a pretensão de achar que já conhece tudo o que há pra se conhecer, pois uma taça cheia com água não pode conter vinho. Um espadachim só encontra seu verdadeiro Eu quando entende que não se pratica com uma katana, se devota a ela. — Hiko, Morai, Tetsuna, Kiba, Madara, Nanami, Chihiro, Kozato, Sasami, Saisou, Ichigo, Inari, Naruto. Kyuubi no Youko...


Notas finais
É isso aí pessoal, comentem, critiquem e indiquem pros amigos, isso deixa o tio aqui feliz demais.