Notas iniciais
Mais um novo capítulo, e cara... esse deu trabalho pra fazer. Tive que voltar duas partes pra reescrever por que não estava bom o bastante, e esse tipo de coisa me desanima um pouco com a história, mas acho que nada pode sempre sair legal de primeira né?!
Aproveitem...

Os ataques de Inari continuaram enquanto os minutos se transformaram em horas, e logo o sol já estava alto no céu. Eu poderia ser legal e dizer que durante esse tempo ele tinha aprendido alguma coisa, ou mesmo melhorado um pouco, mas seria uma bobagem completa. Ele era absolutamente ridículo. Por mais que eu mostrasse a forma correta de brandir uma espada, ele insistia em fazer errado, e então gritava de frustração. Por ser jovem e muito fraco, ele tinha que parar pra recuperar o fôlego a cada dez ou quinze minutos, e esse tempo ia diminuindo conforme ele ia chegando até a exaustão. Perdi o número de vezes que ele me ofendeu ou gritou com raiva por todo aquele treinamento ridículo, assim como perdi a conta das vezes que tive que me segurar pra não esgana-lo e de quanto tinha me arrependido de tentar enfiar algum juízo na cabeça vazia daquele garoto mimado.

Mas parte da culpa era minha. Não se pode mudar uma pessoa num único dia, ainda mais com argumentos tão vagos. O fato dele entender as coisas um pouco melhor não queria dizer que ele deixasse de ser um pivete chorão e mimado, aquilo estava enrustido muito fundo dele, e não seria uma única lição de moral que concertaria isso... Talvez uma boa surra...

Por estar exausto, tive que carregar ele nas costas de volta pra casa, ouvindo ele reclamar sobre os músculos doendo, ou sobre como aquilo tudo tinha sido estúpido. Concordei com ele. Podia sentir a presença de Haku muito acima de nós, contornando as nuvens com seu corpo serpentino, e tentei pensar por um segundo no que ele estaria pensando.

Provavelmente ele estaria rindo de mim. Muito.

Muitos metros acima do chão, Kohaku espirrou, espalhando as nuvens longe por um instante, o deixando visível antes dele se apressar a voltar pra cima de sua camuflagem. Por ser todo branco, era muito difícil enxerga-lo do chão, e mesmo que ele fosse todo negro ainda seria difícil, ele estava voando muito alto. O total fiasco que foi o treinamento voltou a mente do dragão dos rios, e ele não pode evitar rir. Muito. Chihiro estava muito além de qualquer definição de “brilhante”, mas toda a genialidade do mundo não significa nada para os tolos.

Ele alçou o céu, procurando um bom lugar pra descer quando uma coisa lhe chamou a atenção. Estava longe ainda, e era tão insignificante que quase passou batido aos olhos dele, mas o som riscado de metal contra rocha era agudo o suficiente pras seus ouvidos poderosos conseguirem detectar.

Focando a visão, ela tomou um tom amarelo e foi aumentada várias vezes, ao ponto que ele conseguia ver com muita clareza as expressões de escárnio dos rostos dos espadachins. Os olhos deles eram fáceis de ler, mostravam crueldade, uma diversão insana, e ele chegou a considerar, um certo nível de retardamento mental.

Ohh... Kyuubi ia se divertir com aquilo.

Apontando a cabeça para o chão, Nigihayami Kohaku Nishi disparou pra baixo, em direção a Chihiro e Inari.

Inari tinha ficado quieto nas minhas costas, depois da décima ou vigésima reclamação sobre como seus braços estavam doendo, ou como a espada de madeira era pesada, ou como ele estava com fome, e sei lá o que mais. As feições dele, no entanto, estavam um pouco tristes, e era fácil ver que ele estava pensando no estado da vila, e no próprio jeito que ele vivia em compensação. Mesmo que muitas pessoas se vissem nessa situação, havia principalmente duas reações possíveis, que poderiam muito bem servir pra definir a pessoa em questão como um bastardo ou não.

Ele poderia se sentir envergonhado – Isso não faria dele um bastardo, ou o faria alguém não tão bastardo quanto a segunda reação.

Ele poderia gostar da situação – Aí sim, ele seria um completo bastardo.

Nunca gostei muito de nobres por causa disso, não tem nada mais irritante que pessoas estúpidas que se acham acima das outras simplesmente por nascer com pais mais ricos, ou sob condições melhores em vários sentidos. Por isso eu odiava coisas como “direito de primogenitura”, ou qualquer coisa do tipo. Que tipo de reação Inari teve, depois daquela confusão leve que era meio igual pra todos, eu nunca fiquei sabendo, por que no instante seguinte Haku despencou como um foguete do céu, e voltando a forma humana, caiu bem atrás de mim.

Um golpe rápido num ponto de pressão do pescoço desmaiou o garoto, antes mesmo dele notar o que tinha acontecido. Poderia ter impedido se quisesse, mas eu sinceramente não me importava. Mesmo se ele o matasse ali, duvido que teria uma reação mais intensa que levantar a sobrancelha.

Haku no entanto não me deu tempo de devanear nada, ele disse o que tinha visto, e também que eles provavelmente estavam indo pra casa de Tsunami. Decidindo tomar uma providência, saltei sobre os galhos e corri rapidamente em direção a costa, com Haku nos calcanhares. Não tinha com o que me preocupar, já que Zabuza ainda estava na casa, mas era sempre melhor prevenir que remediar. Alem do mais, se essas duas pessoas estavam atacando, provavelmente Gathou já tinha feito seu próximo movimento, e Tazuna estava em perigo.

E eu tinha prometido protege-lo.

-Quanto tempo ele vai ficar desacordado, Haku?

-Eu acertei um ponto de pressão que normalmente é usado com sembons – ele pareceu pensar – Como foi só um impacto, e bem fraco, acho que só alguns minutos, por quê?

Apenas sorri pra ele, que pareceu entender tudo facilmente. Claro que entenderia.

-Teatral como sempre, você devia largar essa espada e começar a escrever peças...

-Já fiz isso uma vez...

-Ah, é mesmo... Aquela da princesa e do barqueiro é muito boa!

-Não sei... acho que errei o final dela...

-Não, ficou muito boa!

-Arigato...

Inari acordou sozinho sentado na varanda da casa dele, a cabeça doía, e por algum motivo, a espada de madeira que Naruto lhe dera pra treinar estava em suas mãos. Ele tentou lembrar o que tinha acontecido, mas nada lhe vinha à mente, exceto a lembrança de estar treinando com ele na floresta.

Bufando, ele tentou se levantar, mas caiu tonto logo em seguida. Apoiando a espada no chão, ele se içou por ela, como se fosse uma bengala. Tudo estava muito quieto e muito frio, a névoa cobria o topo das árvores de um modo fantasmagórico, e por algum motivo, não dava pra dizer se era dia ou noite. Ele tremeu, era assustador, o vento soprava com força, açoitando sua pele como chicotes gelados.

-Mamãe! – ele chamou, abrindo a porta de casa, estava completamente vazia – Mamãe!

Uma risada baixa reverberou entre as folhagens, e o garoto estremeceu, enquanto dois vultos indistintos se aproximavam através da neblina. Dois homens, e ambos tinham espadas com eles. Espadas de verdade, longas e brilhantes, manchadas de sangue e dentadas.

-Olha o que encontramos aqui...

-Um garotinho...

-Perdido?!

-Sozinho...

-Pobre garotinho...

-Quer vir com a gente?!

-Vamos nos divertir...

Inari quase caiu pra trás, tremendo e sentindo o suor lhe molhar a face. Os dois tinham feições demoníacas, e o modo como se revezavam pra falar era mais sinistro ainda. Eles rasparam as katanas no chão, atirando faíscas ao ar e levantando poeira, enquanto se aproximavam.

-Não se preocupe garoto...

-Não vamos te matar...

-Só queremos sua mãezinha...

-Sabe onde ela esta?! De pra gente...

-Nos entregue...

-Nós vamos embora depois disso...

-Prometemos...

Ambos riram juntos, o menor e mais magro deles jogando a espada sobre o ombro, enquanto avançavam lentamente na sua direção. Todos os instintos de Inari gritavam pra ele correr dali, se esconder, ficar quietinho até que eles fossem embora, e assim ele ia ficar vivo... Sim, só desse jeito ele ficaria vivo...

Mas e a sua mãe?!

Imagens das crianças que tinha visto na vila vieram em um flash na sua mente, uma após a outra. Os samurais continuavam avançando, lentamente, diminuindo a distância centímetro por centímetro, quase como se fossem fantasmas que deslizassem pela neblina. Os cabelos de Inari caíram frente ao seus olhos, que tremiam descontroladamente enquanto ele apertava a katana de madeira tão forte quanto conseguia na mão, até que suas juntas estavam brancas. Aos poucos, trilhos de lágrimas escorriam pelo seu rosto, pingando no assoalho de madeira e desaparecendo.

“Diante do vento, seja como a montanha. Não importa o quanto o vento sopre, a montanha permanece firme, ninguém consegue tira-la do lugar...”.

Permanecer firme, mesmo se o vento soprar com força...” – ele pensou consigo mesmo. Sua mãe estava em algum lugar, e eles queriam leva-la. Ele não podia permitir isso... Mas como?! Ele era pequeno e fraco, não tinha como lutar contra eles...

“No mundo existem pessoas fortes, e pessoas fracas, mas o que define isso?! A verdadeira força de uma pessoa não esta em ter muitos músculos, ou ser rápido, ou não ter medo. Ela esta no que você decide fazer quando pressionado. Mesmo filhotes de cachorros podem matar lobos adultos, quando acuados. Coloque sua vida no fio de uma lamina, e sua verdadeira força irá se revelar...”.

Apesar de estarem em sua cabeça, aquelas palavras pareciam abalar a névoa em volta das árvores, tão poderosas como se fossem uma verdade incontestável do mundo. Ainda tremendo, Inari afastou as pernas, plantando os pés no chão com tanta firmeza quanto conseguia, e afirmando o cabo da espada de madeira nas mãos.

-Vocês não vão passar por aqui! – ele gritou, levantando a cabeça e derramando mais lágrimas. O seu medo atingiu o ápice, mas ele não se moveu. Congelados, seus músculos pareceram se pregar ainda mais no assoalho, como se nada no mundo pudesse tira-lo dali, como uma montanha...

Os samurais riram, avançando contra ele. Seus contornos estavam difusos pelos olhos lacrimejantes do garoto, fazendo com que seus olhos parecessem queimar, como fogo...

“Diante do fogo, seja como a água. Nada é mais suave do que a água, ainda assim, ela derrota a pedra. Ela não luta, ela flui através de seus inimigos...”.

Compreensão atingiu Inari como se fosse uma pancada. Todas aquelas palavras que Naruto tinha dito, que antes pareciam apenas metáforas sem sentido, de repente fizeram todo o sentido do mundo. Eram instruções, instruções que se completavam e traçavam o modo como ele deveria agir, durante aquele tempo todo, durante o dia todo, ele o esteve ensinando, sem que ele percebesse.

Firme como a rocha... suave como a água...

O primeiro ataque dos samurais veio como um raio, alto e em direção ao chão. Inari travou os pés com força, e quando eles estavam quase a ponto de atingi-lo...

Ele desviou. Se jogando de lado, passando entre ambas as katanas, ele contorceu o corpo ao redor dos samurais, como a água que flui através das rochas, e se virando, atacou. Ambos ainda estavam se recuperando do golpe, e não tiveram como impedir que a espada de madeira lhes acertasse com força nas costas. Os dois cambalearam pra frente, e Inari sentiu a mão formigar, mas se forçou a não largar a espada.

“Uma katana é uma extensão do seu braço, você largaria um braço no chão?! Por que largar sua katana?!”

Recuperados do golpe, os espadachins se viraram, e atacaram novamente, dessa vez, empunhando as espadas com intenção de apunhalar o pescoço do garoto...

“Veja o bambu, ele não reage ao vento, ele se curva a sua passagem, e dessa forma, por mais fraco que seja, o vento não consegue derruba-lo...”.

Inari imediatamente se abaixou, as espadas passando inofensivamente acima de sua cabeça. Com todos os sentidos ligados a mil pela adrenalina, ele torceu o corpo de lado, e acertou um golpe potente nas mãos de ambos os espadachins, ao mesmo tempo. Ainda na inércia do golpe, eles não tiveram chance de desviar, e com um grito, caíram pra trás, enquanto as katanas voavam de suas mãos, parando enfincadas no chão longe deles.

-Vocês não vão tocar na minha mãe – o garoto disse, apontando a katana de madeira pros dois, que tremeram com raiva clara nos olhos – Ou eu vou matar vocês!

Inari sentiu o peito inflar. Ele tinha conseguido, ele tinha protegido as pessoas que eram importantes pra ele, e a felicidade que ele sentiu logo em seguida lhe tirou lágrimas dos olhos. Sua mente nublou, e ele se sentiu cair pra frente, sua vista escurecendo por algum motivo que lhe fugia a compreensão, mas que por algum motivo insondável, não importava. Ele se permitiu um sorriso enquanto caía sobre braços invisíveis, e a última coisa que viu antes de ficar inconsciente foram os sorrisos dos dois espadachins.

Tirando a mão da testa do garoto, Naruto abriu um sorriso enorme e orgulhoso. Yugao e Anko também sorriram, agitando um pouco a cabeça pra livrar a mente dos restos daquela ilusão, em que elas fingiram serem espadachins. Num canto qualquer, amarrado em uma árvore, os verdadeiros estavam inconscientes, postos pra dormir por dois golpes rápidos do ruivo.

-Naruto-chan, quem diria – Anko disse, enquanto o garoto deitava Inari na varanda da casa – Você é muito bom com genjutsu!

-Arigato...

-Mais importante que isso – Yugao interrompeu – Como você treinou esse garoto?! Ele estava bem mole e hesitante no começo, mas depois ficou firme como uma rocha...

-Uma montanha...

-Como?

-Firme como uma montanha... – Naruto repetiu – Não importa quanto o vento sopre, ele não consegue derrubar a montanha.

Vendo o olhar confuso de Yugao, o garoto riu baixinho.

-Eu te explico quando voltarmos pra vila...

-Pra mim também?!

-Hai, hai... – Ele puxou o cachecol sobre o rosto, era um hábito que havia criado enquanto shinobi, tantos anos atrás. Voltando os olhos pras garotas, ele sentiu uma gota lhe escorrer pela cabeça, ambas olhavam pra ele com estrelas brilhantes nos olhos – Nani...

-Naru-chan... – elas disseram juntas, pulando encima dele – Tão legal!

No meio do processo de puxarem ele de um lado pro outro, e o apertarem com força, Anko pareceu se lembrar de algo. Ela soltou o braço que segurava, e por isso Naruto acabou caindo encima de Yugao, que corou por ter a cabeça dele entre seus seios.

-Naru-chan, eu pensei que você não tinha aprendido sobre chakra na academia... Como conseguiu usar um genjutsu?

-Ahh, isso – Yugao respondeu alegremente – Ele me explicou quando eu perguntei, a verdade é que...

-Não importa – Naruto respondeu – Temos que ir ver como Tazuna esta na ponte, e se ele precisa de ajuda...

Se voltando pra Haku e Zabuza, que ainda estavam sentados em galhos das árvores observando tudo, ele disse:

-Vocês podem ficar cuidando de Inari e Tsunami-dono?! Pro caso de mais bandidos aparecerem...

-Claro, vamos esperar aqui – Zabuza respondeu – Não se esqueça do combinado garoto...

-Hai, hai – ele assentiu – Se Inari acordar, não digam que foi tudo um genjutsu, deixem ele acreditar que venceu os dois espadachins.

-Entendido! – Haku o saudou de brincadeira – Taichou!

-Muito bem, vamos.

Anko e Yugao pularam logo atrás dele, se perguntando exatamente quando ele tinha se tornado o líder não oficial da equipe, e também por que elas não diziam nada contra isso. Por algum motivo, segui-lo era tão confortável e seguro que elas acabaram deixando por isso mesmo, nenhum movimento dele parecia impensado, e o modo como ele decidia tudo rapidamente fazia parecer que ele tinha experiência em missões daquele tipo, mesmo elas sabendo que essa era sua primeira missão.

“Que incógnita... – Anko pensou – Quem realmente é você, Naru-chan...?”

Kenshin adorava o cheiro de ameixas brancas. Isso é uma coisa que eu me lembro muito bem, uma das muitas que esta guardada na minha mente. Mesmo antes de conhecer aquela mulher, ele gostava de se sentar na sombra das árvores e apreciar esse aroma, olhando pro céu como se estivesse imaginando como o amanhã seria. Eu gostava de observa-lo fazer isso, por que me trazia um sentimento que eu quase nunca poderia experimentar.

Esperança. Sabendo que chegaria um amanhã em que ele não estaria mais ali, eu só poderia observar o passar das nuvens no céu. Registrar tudo na memória pra, um dia, contar tudo pra ele. Contar como as montanhas se tornaram muralhas, e as árvores morreram e foram substituídas, e as estrelas e as pessoas eram diferentes. Como shinobis substituíram os samurais, e como toda vontade dele de proteger o que era importante tinha mudado o rumo do mundo. Quem sabe um dia, eu poderia morrer, quem sabe houvesse um amanhã, um tão distante, que mesmo eu não conseguisse alcançar...

Havia muitas árvores de ameixas brancas na vila da onda, muitas árvores de Sakura e muitas amoreiras. O perfume delas misturado parecia dançar como ondas de fumaça entre a névoa, e nos fazia pensar que mulheres estavam nos esperando, escondidas em algum lugar. Esse era um sonho bem erótico para alguns homens, pra outros seria triste e saudoso. Depois de tantos anos, tantas décadas, tantos milênios que eu vi passar, não havia ninguém que me esperaria tanto tempo... havia?! Ou talvez fosse eu, que ainda estava esperando, através de todas as eras, por uma pessoa que tinha se atrasado em voltar.

Senti a mão de Anko no meu ombro, e por algum motivo, quase não a reconheci quando olhei pra ela. Milhares de rostos e milhares de olhos se sobrepuseram aos seus, e por um momento, eu fiquei realmente muito confuso sobre onde, ou quando, eu estava. Tudo voltou a minha mente depois, e apenas sorri o mais gentilmente que pude.

-Esse cheiro é muito bom.

-Cheiro... – ela farejou o ar – O de ameixas brancas?

-Sim, é o cheiro da saudade que sentimos de pessoas que ainda não conhecemos...

Ela sorriu de volta pra mim, rindo baixinho. Yugao, por algum motivo, estava anotando tudo isso num bloco de notas.

-Você diz coisas tão lindas as vezes, Naru-chan...

Kurenai observou os barcos que chegavam lentamente ao cais, os bandidos gritando e agitando suas armas incomuns. Seus alunos estavam sérios, Hinata tentando segurar o tremor de medo, Kiba tentando segurar o tremor de excitação. Shino permanecia completamente neutro, um ponto de equilíbrio entre aqueles dois. Todos os trabalhadores tentaram correr, e nenhum deles fez sequer um movimento pra impedir, as toras largadas no chão e ferramentas espalhadas de qualquer jeito no chão. Tazuna estava congelado ao lado de Kurenai, poucos outros moradores que não tiveram tempo de fugir, ou confiavam que estariam mais seguros com shinobis por perto.

-Não se preocupe Tazuna-san, nós vamos proteger o senhor – Kurenai disse num tom reconfortante, mas sua atenção estava pregada nos barcos. Trinta, quarenta... mais de cinquenta bandidos, todos eles enormes e usando armaduras improvisadas, ataduras nas pernas e braços e soqueiras de metal, outros carregando espadas estranhas, e outros ainda levando enormes maças de metal, com pontas. Gathou não estava em lugar nenhum, mas isso já era esperado, não tinha por que ele vir pessoalmente num ataque desse tipo.

-Mas... eles são tantos, vocês três sozinhos...

-Eles não estão sozinhos – uma voz soou através da névoa, limpa como o som de uma flauta.

Naruto.

Anko e Yugao vinham logo atrás dele, caminhando tranquilamente com sorrisos nos rostos. Por um momento, com o quimono e o rabo de cavalo agitando ao vento, a katana na cintura e as duas às suas costas, ele pareceu um nobre da capital, mas durou apenas um segundo. Nobres geralmente traziam feições sérias ou arrogantes, e as de Naruto, como sempre, estavam gentis. Apesar de tudo, ver um gennin ser flanqueado por duas kunoiche de elite era muito estranho, mas como tudo o que o cercava era estranho e inusitado, acabava apenas sendo apropriado.

-Oe, Naruto! – Kiba gritou, agitando os braços pra chamar a atenção enquanto Hinata corou levemente, acenando também – Você veio! Eu pensei que nunca ia chegar!

O ruivo sorriu de volta, a manga larga do quimono caindo até o antebraço quando ele acenou. Os bandidos a esse ponto estavam a ponto de desembarcar, todos eles lançando sorrisos lascivos a quantidade de garotas bonitas naquela ponte. Kurenai só franziu o cenho de nojo.

-Eu percebi que Gathou ia atacar a ponte quando mandou sequestrarem Tsunami-dono – Naruto disse – depois da derrota de Zabuza, pensei que ele fosse contratar um número maior de shinobis, mas ele decidiu usar bandidos comuns...

-Isso foi muito idiota da parte dele.

-Hai... – Naruto observou como os barcos se aproximavam, os bandidos já gritando animados pela pilhagem a sua frente – Ne, Kiba... podemos acabar isso de uma vez só, você ainda lembra daquele movimento?

-Claro, levamos meses pra dominar aquilo!

-Então vamos!

Sem dizer mais nada, Kiba correu antes que Kurenai pudesse impedi-lo. No meio do percurso, sua feição mudou pra uma mais feral, a coluna se deslocando e arqueando, e ele passou a correr de quatro. As garras compridas deixaram marcas no concreto dos blocos recém colocados, quando ele saltou para o ar e começou a girar sozinho, num Tsuga pequeno e todo branco.

-Dabaru Gatsuga!

Naruto foi logo atrás, disparando pra frente como um borrão, e saltando para o ar, ao lado de Kiba. Surpreendentemente, ele próprio formou um tsuga, todo vermelho e azul que disparou ao lado do de Kiba pra baixo, em direção aos bandidos.

-Sagasu no buraindo akuriõ oni!

Ambas as brocas dispararam juntas pra baixo, se circundando em torno de um eixo comum, cada vez mais próximas até se unirem numa só. O vermelho e o azul da de Naruto foi diluído pelo branco, e no momento que acertou a imensa quantidade de barcos que se aproximavam, e bandidos que gritavam surpresos, a água foi lançada pra cima e refletida pelo sol, formando um prisma gigante de mil cores que girava de forma furiosa, como se mil arco irís tivessem se formado no mesmo lugar.

Hinata e Shino não expressaram reação, alem de um sorriso discreto, e um rubor leve no rosto de Hinata. Aquele era um jutsu muito bonito. Yugao tampouco disse qualquer coisa, sentada na grade lateral da ponte, ela apenas balançou as pernas no ar alegremente, tentando não rir da cara estupefata de Anko e Kurenai.

-Nani... O que foi isso?!

A broca contiuou perfurando freneticamente o oceano, formando um redemoinho violento que tragou todos os barcos para o fundo. Os bandidos foram lançados de um lado para o outro, muitos desacordados, mas nenhum morto. Quando a força de rotação terminou, ambos os gennins saltaram novamente para a ponte, espalhando água enquanto caíam lado a lado, sorrindo e tocando os punhos um do outro.

-Naruto-kun e Kiba-kun foram amigos durante a academia – Hinata começou a explicar, a voz baixinha como sempre, meio envergonhada, mas sem gaguejar. Ela parecia animada – Mas mais do que isso, eles são quase como irmãos, tanto que criaram até seus próprios jutsus de cooperação.

-Um jutsu de cooperação? –Anko perguntou surpresa – Mas jutsus como esse são tremendamente difíceis de se fazer, mesmo jounnin não costumam se aventurar nesse campo...

-Apesar disso, é isso o que é. O Duplo presa sobre presa, caçada dos demônios gêmeos cegos é um jutsu classificado como A nos pergaminhos Inuzuka, o primeiro a ser criado com alguém de fora do clã... – Hinata disse, se sentindo orgulhosa pelo seu companheiro de time ter feito algo tão importante, mal tendo saído da academia – Apesar dessa ser, provavelmente, a primeira vez que é usado em batalha, Naruto-kun e Kiba-kun treinaram por quase um ano pra dominar completamente.

-É isso aí! Vocês deviam ter visto a cara da mamãe, ela ficou impressionada! – Kiba rugiu animado, mas depois a feição dele ficou curiosa – Eu só não entendi o que ela disse sobre o Naruto, que agora ele tinha se tornado um homem mesmo, depois daquela...

Naruto corou num vermelho profundo, e puxou a cabeça do Inuzuka pra baixo, tentando calar a sua boca. Ele sufocou e engasgou enquanto o ruivo gaguejava pra explicar algo que ninguém estava prestando atenção. Yugao apenas riu ainda mais, tão alegre quanto uma garotinha, e apesar da surpresa da técnica, Kurenai e Anko se limitaram a sorrir.

-Esses garotos de hoje em dia...

-Então... acabou – Tazuna perguntou, ainda sem entender muita coisa – Todos aqueles bandidos, já...

Ele foi interrompido pelo grito do primeiro aldeão, que foi logo seguido pelos outros. Antes que pudessem dizer como tinha acontecido, todos os trabalhadores que tinham permanecido na ponte se reuniram em torno de Naruto e Kiba e o levantaram nos ombros. Hinata riu enquanto os garotos eram atirados pra cima com um coro de “Vivas”, mas depois sua expressão murchou um pouco.

-Eles são bastantes fortes, não é sensei?

Kurenai, que ainda estava um pouco pasma, concordou. Se era pra coisas assim acontecerem, Yugao devia ao menos ter contado pra ela, não?!

-Sim, eles são bastante fortes, com certeza vão se tornar chunnins logo logo...

-Entendo...

-...Então, você tem que treinar muito mais duro, pra poder ficar tão forte quanto eles.

-Será que eu...

-Claro! Você pode ficar tão forte quanto quiser, só tem que trabalhar duro pra isso – Yugao disse, abraçando a garota por trás e puxando sua bochecha comicamente, enquanto ela fazia uma careta – Se tiver o desejo de proteger aqueles que são preciosos pra você, vai ficar forte o bastante pra não perder pra ninguém!

A expressão chorosa dela se desfez numa determinada, os olhos queimando tanto que deixariam Gai orgulhoso.

-Andem, vamos comemorar – a ANBU empurrou a garota pra frente – A noite teremos trabalho pra fazer.

-Hai! – Hinata começou a correr pra onde todos já estavam, deixando pra trás Kurenai, Yugao e Tazuna, que ainda parecia perplexo com o que tinha acontecido – Espere... O que vamos fazer de noite?

-A noite, nós vamos ter a nossa primeira missão de invasão e assassinato. Não se preocupe, vai ser apenas uma prática.

Ela pareceu um pouco apreensiva, mas assentiu e correu atrás dos outros. Kurenai, no entanto, olhou confusa para Yugao.

-Invasão yu-chan?

-Hai – a expressão dela ficou séria – Como você sabe, Tazuna nunca pagou pela missão, mas combinamos que ele pode pagar posteriormente, caso livremos o país da Onda da opressão de Gathou.

-Nos livrar... então...

-Sim. Essa noite, vamos invadir a mansão de Gathou, e assassina-lo.

A expressão dela ficou grave por um segundo, mas por fim, a jounnin deu de ombros.

Há cerca de duzentos anos atrás, existia um boato sobre uma dama de pele vermelha como uma pétala de rosa, e cabelos tão negros quanto a noite, presa dentro de cristal mágico. Diziam que ela era tão bela, que os homens enlouqueciam de olhar pra ela, e se afogavam em dívidas pra lhe dar presentes caros, e tentar conquistar o seu amor. Contavam que ela era uma bruxa que prometeu se libertar e destruir todos aqueles que a prenderam, mas isso nunca aconteceu e a lenda foi esquecida com o passar das gerações. Eu também nunca tinha dado bola pra ela.

Até encontrar dentro da mansão de Gathou, fechado num quarto, um cristal puro como uma lágrima, contendo a imagem de uma dama adormecida dentro dele. Os cabelos negros eram longos, caíam até a dobra do joelho, e sua pele era como uma rosa, no mais intenso tom de carmesim. Do lado de fora da mansão, percorrendo todos os corredores, Kurenai e Anko estavam pondo todos os guardas pra dormir. Não havia nenhum ninja no enorme exercito dele, e diante de duas kunoiche de elite, todo esse vasto número caiu como formigas pisoteadas.

Aproximei o meu nariz do cristal e cheirei, aspirando profundamente o perfume quase imperceptível que passava através do cristal. Era delicioso. Não era o cheiro que uma bruxa deveria ter, era mais como o cheiro de uma virgem, tão pura e imaculada quanto uma rosa que ainda não desabrochou.

-O que eu deveria fazer com você... Talvez te retalhar em pedaços...

Minha mão se moveu lentamente até a sakabatou, que se aqueceu ao meu toque, quase tremendo por si própria quando virei a lamina ao contrário. A afastando um pouco, eu pude contar com precisão a quantidade de golpes, e onde eles acertaram, no tempo de um segundo. Quinze cortes que passaram através do cristal sólido como se fosse feito de papel.

Perfeita, como eu me lembrava. Rurouni no seishin é uma espada que nunca conheceu o sangue, tão inocente quanto a donzela de pele vermelha, mas sua lamina inversa poderia cortar qualquer coisa com muito mais eficácia que qualquer outro fio no mundo poderia.

Os riscos apareceram no cristal somente depois que eu estava embainhando a sakabatou, e no exato instante que a guarda de mão tocou a bainha, com um “click” familiar, o cristal se partiu. Todos os pedaços caíram, mas a donzela lá dentro permaneceu imaculada, sem nem um mínimo arranhão na sua pele.

Eu a peguei no colo antes que caísse no chão, e a nuvem dos seus cabelos quase me deixou tonto, de tão maravilhosamente perfumados que eram. Sem o cristal pra nublar suas feições, era quase impossível não olhar pra ela. Sua pele vermelha era extremamente atraente, como se convidasse as pessoas a toca-la, e todos os seus traços, desde os mais mínimos e imperceptíveis traziam uma perfeição que mortais não tinham o direito de ostentar. O contorno dos seus lábios era sensual, e parecia convidar as pessoas a prova-los, levemente entreabertos enquanto ela respirava, os seios subindo e descendo num ritmo lento e suave.

Limpei esses pensamentos da minha cabeça, e tirei o quimono azul, ficando apenas com o branco. Apesar de eu ser uma criança, e ela claramente uma adulta, ela não era muito mais alta do que eu, de forma que o quimono lhe cobriu até pouco abaixo da cintura, deixando as coxas de fora pra serem apreciadas. Pensei em tirar minhas calças pra cobri-la, mas aí seria exagero.

-Eu volto... – murmurei inutilmente, ela não dava nenhum sinal que poderia acordar daquele sono mágico, apesar de parecer tão pacífica dormindo que era fácil acreditar que poderia, a qualquer momento, abrir os olhos.

Gathou, como o rato que era, estava escondido dentro do seu escritório, atrás de sua escrivaninha e implorando por misericórdia de Yugao e Anko, que o fuzilavam com os olhos. Elas pareciam prontas pra mata-lo quando eu abri a porta, e ele imediatamente choveu propostas de trabalho e riquezas pra mim.

-Gathou, você foi um verme a vida toda... – eu comecei a falar numa voz grave, e Anko e yu pegaram logo o rumo da coisa – Você roubou, e extorquiu, e oprimiu todos a sua volta...

-Você roubou o que faltava aos outros pra acumular sua própria riqueza, enchendo seus cofres com o ouro que não lhe era necessário... – Yugao continuou, a voz etérea como se viesse de algum lugar além dela.

-Por ganância, você destruiu, matou, e trouxe a desgraça pra muitas pessoas, você consegue sentir a dor delas...?

-Elas choram, implorando por vingança...

-Nós Gathou – terminei, abrindo os braços enquanto fixava seus olhos, as pupilas do tamanho mínimo de um buraco de agulha, tremendo incontrolavelmente – Somos quem levaremos a vingança a essas pessoas...

-Espere! – ele gritou, se pondo de joelhos e se arrastando – Me poupem! Por favor, eu faço qualquer coisa, qualquer coisa! Eu juro, faço o que quiserem!

Yu revirou os olhos, enquanto Anko parecia excitada com a representação toda. Gathou não viu essa troca de olhares, por que estava ocupado mirando o chão com lágrimas lhe escorrendo pelo queixo.

-Muito bem então, você tem uma chance Gathou – ele ergueu a cabeça contente, tentando agarrar a barra da minha calça, mas acertei um chute na sua cabeça, o mandando pro chão, deu pra ouvir o “clack” do nariz quebrando – Você pode escolher... Nós matamos você agora, nesse instante, da forma mais dolorosa possível, ou você entrega toda a sua riqueza pra nós, tudo o que você possui, incluindo a diretoria da sua empresa de fachada. Nós queremos tudo. O preço da sua vida, Gathou, é o que você fez dela.

Tirando a espada da bainha, eu a apontei pra sua garganta. Não tinha nenhuma intenção de mata-lo, mesmo se ele se negasse, eu tinha prometido que não o faria. Embora, nesse caso, basta-se apenas dar as costas e ir pegar todo o ouro, e antes que eu passasse pela porta, Yu e Anko já teriam acabado com ele.

-Escolha... – acendi meus olhos de vermelho pra dar ênfase as palavras, e nas sombras do seu escritório, a noite, deve ter dado uma baita ênfase – Ele tremeu descontroladamente, como se o demônio estivesse na sua frente – sem brincadeiras... – e acenou que sim múltiplas vezes.

Guardei a espada com um sorriso, dando as costas e voltando o caminho que tinham feito. Muito mais tarde, no outro dia, todas as pessoas na vila da ponte se reuniriam pra ver a partida de Gathou, usando apenas um quimono barato e um chapéu de palha. Nenhuma delas disse nada, nem jogaram pedras ou qualquer coisa do tipo. Com o passar do tempo soube que ele se tornou um pedinte e percorreu todo o caminho até o país do demônio a pé, sendo adotado num monastério. Poderia dizer que lá ele encontrou o que faltava em sua vida, seja sua felicidade ou sua redenção, e não nego que tenha uma chance disso ter acontecido. No entanto, acho muito mais provável ele ter passado o resto dos seus dias amaldiçoando meu nome e de todos os shinobis, por perder sua fortuna e seu lugar. Nunca descobri o que ele realmente sentiu, não me interessei por isso. No momento, eu só sabia que ele devia estar passando apertado nas mãos de Yugao e Anko, talvez assinando papéis que comprovassem sua rejeição a presidências das indústrias, ou a doação de todo seu tesouro pra qualquer lugar. Talvez uma carta, em vez de documentos, mas eu realmente nunca perguntei pra nenhuma das duas, e se elas me contaram, eu não sei dizer. Tudo na minha mente no momento era a misteriosa mulher de pele vermelha.

Como eu a deixei, ela estava, calmamente deitada no chão com meu quimono lhe cobrindo o corpo. O cristal tinha se cortado em muitas partes, e eu peguei uma delas, do tamanho o meu punho, o colocando dentro da manga do quimono, antes de sair de lá com ela nos braços.

Não voltei pra casa a noite, e tampouco no dia seguinte, e só na noite do segundo dia após a invasão a mansão de Gathou, eu retornei para a vila da Onda. Todos estavam desesperados com o meu sumisso, mas o pior realmente foram Anko e Yugao, que sentiram o perfume no meu quimono e exigiram que eu contasse onde – e com quem – eu estava. Pela primeira vez vi Shino corar, e isso realmente era alguma coisa, sendo dele que estávamos falando. Hinata teve uma hemorragia nasal e desmaiou com um sorriso bobo no rosto, e Kiba apenas sorriu de orelha a orelha, me dando os polegares como se estivesse extremamente orgulhoso.

Kurenai apenas sorriu, e disse que sempre soube que eu faria sucesso com as mulheres.

O que aconteceu naqueles dois dias, eu nunca contei a ninguém. Apenas uma pedra memorial, escondida o mais fundo dentro da floresta da vila da Onda, retratava quem era a mulher com pele vermelha, e sua história. Com poucas palavras gravadas a cinzel, a inscrição:

“Mesmo os demônios podem chorar. As almas daqueles que um dia viveram hão de retornar a terra, enquanto existirem pessoas que se lembram deles. A vida é um preço alto demais a ser pago, mas não é menor que a felicidade. Malditos sejam os sábios, por que nunca choraram nem provaram o gosto que é ser manchado pelo pecado e pelo amor, nunca foram tolos pra se permitir viver, como humanos deveriam”

Vários dias depois a libertação da Onda, como todos começaram a chamar, um garotinho pequeno de cabelos azuis claros sujos estava olhando a cena toda do telhado, e apesar de seus olhos passarem as vezes por todos os shinobis poderosos que tinham salvado tantas vidas naquele país, ele não conseguia se focar em mais nenhum que não ele.

Com cabelos ruivos longos, presos num rabo de cavalo, e um quimono azul que lhe caí quase abaixo das mãos, uma hakama branca simples e uma katana na cintura, ele não parecia ser nem metade tão forte quanto ele era. As suas feições eram gentis demais, e ainda traziam um traço infantil quase feminino, que parecia sumir mais e mais com o passar dos dias. Fora ele que lhe dera aquele pergaminho com marmitas seladas dentro dele. Levou um dia todo pra entender como realmente abrir, e quando ele conseguiu, ficou fascinado. Comeu duas delas inteiras e estava pra ir pra terceira quando se lembrou das outras crianças, e meio hesitante, acabou distribuindo com elas.

Ao lado dele, uma criança jovem com cabelos marrons pulava extremamente animado, agitando os braços no ar com uma katana de madeira presa por um laço nas costas. O garoto disse alguma coisa, e o ruivo respondeu colocando a mão sobre sua cabeça, o afagando como um irmão mais velho faria... como seu irmão mais velho costumava fazer...

Como se ouvisse seus pensamentos, Naruto levantou os olhos e mirou diretamente dentro dos seus, aqueles olhos tão profundamente azuis, que fizeram um arrepio percorrer sua espinha. Dizem que os olhos são a janela da alma, e se isso for verdade, a alma daquele garoto seria enorme, seus olhos eram tão poderosos que foram capazes de congela-lo ali, sem reação. Apesar de tudo, Naruto apenas sorriu amigavelmente, acenando um último Adeus e dando a costa para a vila que, a partir daquele dia, cresceria mais e mais próspera. Todos os aldeões ainda comemoravam, observando a faixa vermelho sangue que estava amarrado nas vigas principais da ponte, dizendo pra corta-la logo e nomeá-la. Uma pessoa qualquer brincou que eles deveriam quebrar uma garrafa de vinho nela pra dar boa sorte, mas seria uma sorte muito melhor beber a garrafa toda.

O garoto de cabelos azuis não prestou atenção a nada disso. Seus olhos seguiram fixos no garoto de quimono azul e cabelos vermelhos, no modo como o rabo de cavalo dele parecia ondular enquanto ele andava. Ele parecia importante, parecia... um Rei... seja lá o que isso quisesse dizer.

-Nós ainda temos que decidir o nome da ponte, Tazuna!

-É verdade... mas como deveríamos chama-la?!

-A grande ponte Naruto! A grande ponte Naruto! – Inari gritou, pulando de um lado pra outro.

-Hum... parece bom...

-Que tal... – o garoto disse, escorregando do telhado, mas seu rosto ficou profundamente vermelho quando todos olharam pra ele – A p-ponte R-Rei...

-Nani? – Tazuna chegou mais perto.

-A-A grande ponte... – ele disse num sussurro, morrendo de vergonha por todas as pessoas que agora olhavam pra ele e riam.

-Diga mais alto garoto!

-A-A ponte...

-Alto!

-A GRANDE PONTE DE KAEN NO REI!

O garoto respirou longamente depois de dizer isso, sentindo a cabeça latejar com imagens daquele shinobi. Nessas imagens, ele usava um longo haori branco com isso escrito nas costas, mas não fazia absolutamente nenhum sentido...

-Kaen... no Rei... O que é isso?

-Eu... não sei...

-Ora garoto, não fique dando nomes aleatórios... – Zabuza apertou a ponte do nariz, enquanto todos olhavam a cena com um misto de riso e confusão – Já sei!

Tazuna caminhou até a ponte com um sorriso largo, e agarrando a fita, a arrancou com um grito:

-Esta inaugurada a partir desse momento, a “Grande ponte dos demônios gêmeos cegos!” – ele sorriu aos aplausos eufóricos da multidão – Já que foram esses demônios que garantiram que nosso país seria libertado de Gathou!

Ninguém realmente quebrou nenhuma garrafa de vinho ou sake na ponte, mas todos entornaram a cara com o máximo disso que conseguiram. Naquele dia, mesmo as crianças provaram um gole, e saíram por aí gritando como aquilo era horrível e como adultos eram idiotas. Inari sorriu para a ponte, a tábua lisa e orgulhosa no alto, onde o nome ainda seria esculpido, e tocou a espada de madeira nas costas. Ele tinha ajudado a tornar aquilo concreto, tinha protegido uma pessoa que era importante pra ele, e isso lhe enchia o peito com uma felicidade tão absurda que parecia impossível.

-Eu vou continuar treinando, protegendo as pessoas que são importantes pra mim, e todo o povo da onda. Por eles, vou lutar com os meus dois braços, e nunca vou desistir, não importa o que aconteça – Ele se ajoelhou, e tocou a testa no chão respeitavelmente, ficando por vários minutos naquela posição, as lágrimas não pararam um segundo de escorrer, nem o sorriso sumiu do seu rosto – Obrigado por tudo... Naruto-sensei.

Já muito longe, através das florestas, correndo sobre a superfície do oceano, Naruto abriu um sorriso largo. Alguma coisa lhe dizia que bons ventos soprariam pro povo daquela vila nos tempos vindouros, e ele não conseguia deixar de se sentir orgulhoso por isso. A única coisa que não lhe saía da cabeça era aquele garotinho, de cabelos azuis claros...

“Kaen no Rei” – ele repetiu em sua mente – “O que será que isso quer dizer...”.

Decidindo que não importava, ele se inclinou pra frente e disparou mais rápido através do oceano, Haku imediatamente se pondo ao seu lado direito, correndo tão suavemente que parecia estar voando baixo, rente a água, a enorme loba com a língua pra fora dentro do seu quimono, assim como os filhotinhos que se aconchegaram contra o meu estomago, dormindo no calor confortável que só um outro corpo pode proporcionar. Lá atrás, Zabuza e os outros se esforçaram a continuar, alguns rindo, outros profanando maldições, e alguns simplesmente em silêncio. Em vez de voltar diretamente pra Konoha, nós estávamos indo mais fundo, em direção a uma vila sob o terror da guerra, e todos nós sabíamos que poderíamos morrer lá.

Notas finais
Ta aí. Como esse capítulo foi chatinho de se escrever, eu tenho que pedir, me mandem rewies, e favoritem a história. Isso da uma força monstruosa na hora de escrever, rewies estão pra mim como macon... espinafre para o Popeye.
E sobre a misteriosa dama de vermelho... Quem vocês acham que ela é?! Eu escrevi isso de uma vez, e ela meio que surgiu sozinha na história. Deixei em aberto quem ela é, e o que aconteceu com ela e Naruto, pra vocês poderem criar suas próprias versões. Me mandem em mp's o que deve ser a história dela, e a pessoa que for mais original vai ter o capítulo postado como um extra da história, com os devidos créditos, olha que foda. Só não se esqueçam de ser fiéis a maneira como eu a descrevi na história, e de forma que se encaixe na inscrição da pedra memorial, desafio do tio aqui pra vocês.
E claro, meus agradecimentos pra todos que comentam, em especial meu irmãozinho Lucas e o cara que acabou se tornando meu beta informal, o Matheus. Obrigado galera sem vocês, e todos que comentam e me incentivam, eu com certeza não teria chegado até aqui, e não teria fôlego pra ir adiante. Abração pra todos.