Kepler's Farm
3 A casa de meus avós.
Notas iniciais
Você realmente se sente seguro? As vezes temos a falsa noção de que estamos vivendo numa caixa blindada, seguros de que o chão não cairá sobre nossos próprios pés. E é verdade, acreditamos que alguma coisa nunca acontecerá com a gente. "Nossos pais morrerão de velhice, nossos irmãos vão se casar e ter uma bela vida, nossos filhos não serão violentados, não usarão drogas. Nossos primos nunca fugirão de casa." E quando algo acontece, nós não sabemos de onde prosseguir. Não por sermos inexperientes, mas por termos uma falsa base de vida. Quando se começa a viver, e se desenvolve um pensamento sobre a vida, você descobre que não é tudo um conto de fadas, mas não é necessário que se aprenda isso apanhando. É inevitável que você tenha más experiências na vida, que você vá apanhar e cair feio. Você só tem que ter a noção de que isso vai acontecer. Você nunca vai estar realmente seguro, nem aqueles que você ama. O que você precisa, é perdoar. É dizer aqueles que você ama, o quanto ama. É valorizar cada momento bom, como se fossem únicos, é guardá-los não na memória de um celular ou de um computador, mas na sua...
Quando cheguei na fazenda dos meus avós, de primeira eu notei; A casa estava acabada. Talvez o tempo tenha feito isso, ou talvez seja o próprio homem. Quase levei a sério aquilo que Théo disse sobre a cidade, mas ao ver Bel correr em direção ao campo aberto daquela fazenda, percebi que, aos olhos de uma criança, nem tudo é tão ruim assim. Tentei levar esse pensamento para dentro de casa, mesmo sabendo que quanto mais velho você é, maiores são suas necessidades. Exemplo, quando se é criança, uma cama não tão confortável, um lugar espaçoso e qualquer material que possa ser usado para brincar somado a criatividade, já é suficiente. Para adolescentes, como eu e Théo, a comunicação com aqueles que são seus amigos, são prioridades. A gente pode até dormir numa cadeira, não vamos ligar muito. No caso dos jovens adultos, como Jennifer, existe o conforto, a alimentação, a vontade de aprender mais coisas... E por aí vai.
Jennifer pegou as suas malas e as de Bel, deu um tapa de leve na nuca do Théo e disse: "Larga esse celular e pegue suas coisas no ônibus, ou vai ficar sem elas." Ele pegou rapidinho e já foi indo para a porta de entrada. Coloquei minha mala no chão e fui indo em direção à árvore que eu costumava a colocar um balanço e ficar por lá. Ela estava velha, com sua casca bem desgastada. Olhei para a grama e lembrei de quando chovia e ela ficava encharcada sendo necessário usar botas de cano alto. Respirei fundo e o cheiro dos animais, das flores e do verde já não era mais o mesmo, parecia faltar alguma coisa naquele lugar, alguma coisa na qual era muito importante. Faltava vida. A parede forrada de madeira branca, estava velha, gasta e manchada. As janelas tinham o vidro quebrado. Olhei em volta e não tinha nada além de gramado, arbustos mal cuidados e árvores velhas. Não era a mesma coisa de quando eu tinha a idade de Bel, não era.
Quando Jennifer, eu e Théo entramos na varanda, perto de tocar a campainha, um rapaz abriu a porta, era Ruy. Ele tinha mais ou menos um metro e noventa, tinha cabelos loiros, bem curtos e olhos castanhos. Uma barba por fazer e sua blusa xadrez estava rasgada. Usava um jeans manchado de graxa e botas de couro, no seu braço esquerdo tinha uma cicatriz e no direito uma marca estranha que não consegui identificar. Ok, eu assumo que ele é um cara bonito. Típico da fazenda, com corpo musculoso e um olhar chamativo e misterioso, exceto sua maneira caipira de falar, que é um porre e a mania de ter um ramo de trigo na boca. Ele nos olhou por cerca de três segundos, abriu a porta, pegou as malas e perguntou:
— Vocês devem ser os Kepler, certo? — Enquanto olhava Jennifer.
— Sim, sou Jennifer, esse é meu irmão Théo. Esse é Enzo e aquele lá no campo, é o Bel. — Disse minha irmã meio receosa.
— Seus pais me avisaram que vocês viriam, mas cadê eles? — Perguntou enquanto olhava em volta.
— Eles precisaram ir direto, mas mandaram um olá. — Disse Théo, para quebrar o gelo.
— Certo, podem entrar, a casa é basicamente de vocês. — Disse enquanto pegava as malas da Jennifer. — O quarto é logo ali em cima, tem três banheiros mas um deles tá sendo reformado. Vou colocar a mala da senhorita num quarto e já desço pra mostrar as mudanças na casa.
— Ok, obrigada... — Respondeu Jennifer enquanto sentava no sofá.
Aquele lugar estava mesmo diferente, não tinha mais o rack de madeira que ficava no corredor junto com o espelho e algumas fotos de minha mãe e seus irmãos, agora era uma cômoda baixa vazia. Os antigos sofás enormes e confortáveis foram trocados por sofás pequenos e a estante com a foto do casamento de todos da família também não estava lá, era uma estante com uma TV grande. Fui subindo as escadas e vi que as fotos minhas e dos meus irmãos estavam ali, mas os vidros estavam trincados. O tapete vermelho que ficava ao longo das escadas também não estava mais lá, e o corrimão de madeira não parece ser cuidado, está arranhado. ao abrir a porta do quarto que eu costumava dormir, tive uma surpresa, pelo menos ali permanecia a mesma coisa. Abri o guarda-roupas e coloquei minhas coisas dentro. Sentei um pouco na cama onde me lembrei das várias vezes que acordei ali, com a minha vó me dando bom dia e me chamando para jogar buraco, seu jogo favorito. Ninguém ganhava dela, até o dia em que o pai passou o feriado lá com a gente e mostrou que um jogo poderia ser muito divertido quando quem joga são dois rivais. Eu adorava aquele lugar.
Desci as escadas e fui em direção a Jennifer que estava sentada com o Bel do lado. Sentei ali e logo depois apareceu o Théo. Ruy entrou na sala e disse: "A cozinha, como vocês lembram é pra cá. Devem ter percebido que as coisas mudaram um pouco, depois que seus avós faleceram, restaram algumas dívidas e alguns móveis foram vendidos para pagar. A mãe de vocês mantém isso aqui, junto a irmã dela. Então como sua tia veio aqui e me disse para colocar algumas coisas no lugar que ficou vazio. Eu cuido da manutenção, e do jardim da casa, na verdade sou basicamente um faz tudo aqui, se precisarem de mim é só chamar ou ligar para o número que coloquei no quarto da moça. Comprei algumas coisas para vocês comerem com o dinheiro que a mãe de vocês enviou, tá tudo na cozinha. Eu fico aqui de segunda a quinta, o resto eu fico em casa que é a vinte quilômetros daqui, não tentem ir a pé pois é bem longe. Vou estar no celeiro, parece que lá tem uma família de ratos e eu preciso tirá-los de lá, qualquer coisa já sabem." Então ele se levantou e saiu.
Théo olhou pra mim e disse: "Será que aqui pega sinal de celular?"
— Por que não perguntou pra ele? — Disse Bel.
— E ele tem cara de que vai saber isso? — Respondeu.
— Ah para Théo, até que ele não deve ser tão burrinho assim. — Disse Jennifer.
Me levantei e fui para a cozinha onde também estava um pouco diferente do que era antes. Abri o armário e peguei um pão, passei pasta de amendoim e fui dar uma volta pela casa. Jennifer se levantou, disse precisar de um banho e subiu para o seu quarto pegar uma roupa. Bel abriu a porta e foi brincar lá fora. Théo ficou procurando sinal de celular. Mais a noite, quando tentei ligar a TV, não conseguia trocar de canal, mas não parecia ser que o controle estava sem bateria, pois nem mesmo no botão dela era possível trocar. Ficava num vídeo em preto e branco que mostrava um quarto vazio. Desliguei a TV e fui dar uma explorada na casa, quando comecei a ouvir uns barulhos estranhos vindo do andar de cima. Subi para o segundo andar, onde estava o meu quarto, o de Bel e o de Jennifer. Falei com ela e ela disse também ouvir. O Bel ficou um pouco assustado com os barulhos repetitivos, parecia que havia alguma porta aberta que ficava batendo o tempo todo. Quando subimos para o terceiro andar, o barulho vinha de um quarto fechado... Jennifer pegou Bel pelo braço, fez um sinal com as mãos me chamando para perto. Colocou uma mão na maçaneta e abriu a porta com tudo de uma vez. A cena foi ridícula. Era Théo com a Camilla no notebook, ele estava batendo punheta pra ela durante uma chamada por vídeo, ele se jogou no chão atrás da cama enquanto colocava seu pinto pra dentro da calça, ela cobriu os peitos e colocou a mão na câmera e depois desligou.
— Mas que porra, vocês não sabem bater não? — Disse ele gritando.
— Não bater assim, né seu safadinho! — Zoou dele, Jennifer.
— O que foi isso? O que era aquilo no notebook? Por que ele tava segurando o pinto? — Perguntou pra mim, Bel.
— Coisa de adulto maninho, você não pode ver essas coisas. — Respondi pra ele.
— Mas o Théo também não é adulto. — Ele me disse, com ar de inocência.
— Hahahahaha, olha o tamaninho do bagulhinho dele! — Dizia rindo, Jennifer.
— SAAAAI DAQUI! — Gritou Théo com a mão na frente das suas partes íntimas enquanto pegava o travesseiro pra jogar na gente.
Jennifer fechou a porta correndo e mandou a gente descer com ela. Bel ainda não tinha entendido o que aconteceu e eu não conseguia parar de rir. Fui para meu quarto para colocar meu celular para carregar e pegar umas roupas para ir ao banho enquanto isso. No esquema, tirei os produtos de higiene, coisas do celular e meu bloco de dentro da bolsa, peguei uma blusa, não precisei mexer muito e peguei uma bermuda. Pedi uma toalha pra Jennifer e ela me deu. Depois de ter tomado banho, estava a caminho do meu quarto quando vi Ruy sair do quarto da Jennifer, que estava na sala. Fingi não ligar, entrei no meu quarto e esperei um pouco. Depois, vi que ele já tinha ido para o quarto dele lá embaixo e entrei no quarto dela. Estava tudo arrumado, nada jogado ou fuçado. Achei estranho, mas tentei não levantar hipóteses. Fui para a sala com ela e tentei ligar a TV. "Nem adianta, não sai do canal esquisito." Disse ela procurando um livro pra ler. Mesmo assim eu liguei, e para a surpresa, estava em um outro tipo de cômodo.
— Epa, epa, epa. Quê isso? — Falou ela se interessando pelo que aconteceu.
— Parece que mudou de canal. — Respondi, de forma lenta.
— Não, espera. Ainda está em preto e branco, só que agora é uma espécie de banheiro, que estranho. — Concluiu.
— Tem uns números do lado, olha. 00:54, 00:53... Parece que é um cronometro. — Fiz uma observação.
— Olha ali, voltou para o quarto. Parece que tem alguma coisa se mexendo...
— É uma... Pessoa?
Tinha realmente uma pessoa lá, mas a imagem estava em preto e branco e essa pessoa parecia estar de costas, ela virou de frente pra câmera e a TV desligou.
— Melhor não ligar mais isso, amanhã quando o Ruy acordar eu pergunto o que é isso. Ok? — Aconselhou minha irmã.
Logo pela manhã acordei com Bel correndo perto da escada, abri a porta e disse que era perigoso correr ali, pedi que fosse brincar lá fora. Desci as escadas e encontrei minha irmã conversando com Ruy, ele disse que aquilo devia ser um defeito da TV já que nunca tinha sido ligada antes. Tirou ela de lá e colocou na caminhonete para levar para arrumar. Lembrei que era quinta e que ele estava indo embora. Fui para a cozinha e Théo já estava lá. Me sentei na mesa e tomei café da manhã junto a ele. Fiquei escrevendo algumas coisas no meu bloquinho, e fui escovar meus dentes. Depois dei uma volta no quintal e não havia mais animal algum lá, nem vacas, galinhas, cavalos ou porcos. Os cachorros do meu avô também não estavam lá. Fiquei procurando por ninho de aves mas não tive sucesso. Depois encontrei a porta que dava para o porão. Desci as escadas e estava muito escuro. Liguei a lanterna do celular para tentar achar um interruptor e encontrei, mas parecia não funcionar. Estava bastante bagunçado e tinha um armário na frente de uma porta. Tentei arrastar mas ele era muito pesado. Fiquei mexendo nas coisas mas também não encontrei nada de interessante. Exceto uma caixa de madeira que estava embaixo de uma mesa empoeirada. Tentei tirar ela de lá mas não conseguia puxar, parecia estar presa. Eu comecei a ouvir um barulho parecido com passos, meu celular fez um barulho esquisito e senti uma respiração ofegante perto do meu pescoço. Aquilo me arrepiou e me gelou fundo. Olhei rápido para trás mas não tinha nada, quando fui tentar levantar a caixa algo a puxou, eu acabei soltando e, assustado corri pra escada. Tentava subir mas parecia ouvir um barulho muito forte vindo atrás de mim, abri a porta correndo e saí de lá. "Porraaaa, nunca mais volto aqui." Pensei.
Entrei em casa para contar o que aconteceu para Jennifer, mas ela estava resolvendo um assunto com Théo, parece que em um dos banheiros, a água está suja e enferrujada, saindo barro da torneira e do chuveiro. Não aguentava mais aquele lugar e aquele tédio, para piorar parecia ter algo me espionando, o clima ficava cada vez mais pesado. Jennifer ia ligar para minha mãe mas o celular dela tocou, e era minha mãe.
— Oi mãe, tudo bem? Já ta vindo embora ou é só amanhã mesmo? — Perguntou Jennifer.
— Oi filha, infelizmente não, houve um ataque terrorista aqui na cidade. Uma centena de vítimas. O governo declarou estado de alarme sobre perigo iminente. Ninguém sai ou entra na cidade até que os suspeitos sejam pegos. Vamos passar um bom tempo aqui, vou depositar na sua conta toda semana, ok?
— Nossa, como assim gente? Bom, tudo bem. Se cuide aí tá? Vamos esperar vocês.
— Obrigada filha, você também. Fique bem, a mãe vai ter que desligar, tá? Te amo, manda um beijo pros meninos. Tchau...
— Mando sim, também amamos você, tchau!
— E aí, o que foi? — Perguntei.
— Teve um ataque terrorista em ShadesVille, vamos passar mais tempo aqui. — Respondeu Jennifer.
— O que? Ah fala sério. — Resmungou Théo.
— A mamãe e o papai estão bem? — Perguntou Bel.
— Estão, tá tudo bem. — Respondeu Jennifer.
Bel saiu e foi brincar no quintal, Théo ficou deitado no sofá e Jennifer ligou para Billy pedindo que ele fosse pra lá, e levasse alguns jogos de cartas e de tabuleiros para não ficar muito entediante a nossa estadia lá. Enquanto isso, eu fui procurar meu bloquinho que não lembrava de onde ter deixado ele.
— Então, ele vem? — Perguntou Théo para Jennifer.
— Não, só daqui a quatro dias quando liberarem o pagamento dele. Até lá vamos ter que suportar isso aqui. Enzo, o que ia falar?
— Bom nada não. — Achei melhor não contar, para não deixar as coisas mais tensas. — Alguém viu meu bloquinho? — Perguntei.
Já era pouco mais de 17h14 quando começou a chover bastante, Jennifer foi buscar Bel que ainda estava brincando no quintal e Théo começou a reclamar pelos quatro cantos do mundo que estava sem sinal. Eu fiz um café e me sentei na janela do meu quarto que ficava de frente pra estrada, fiquei olhando a grama se encher de lama, como nos velhos tempos em que meus avós estavam vivos. Quando alguém abriu minha porta...
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