Kenyard Street
4 Capitulo 4 - Bem-vinda a nova escola!
Notas iniciais

Acordei com o despertador tocando, 6h e 50 min, a partir de hoje esse será o horário que eu vou acordar todos os dias de segunda a sexta, e pelo que parece alguns sábados também. Creio eu que não sou a única a – quase- sempre acordar de mau humor, com ódio de não poder ficar na cama e dormir mais e tal, mas hoje foi diferente acho que é porque estou com altas esperanças que minha vida aqui vai ser melhor que minha vida na minha antiga cidade e isso é muito bom. Ao invés de acordar com rancor de sempre eu acordei descansada e com, como posso dizer, vibrações positivas –Eu queria falar outra coisa porque eu maliciei isso, acho que tenho merda na cabeça-.
Sai da cama com muita energia, estava mais feliz que o normal realmente bem mais feliz que o normal, principalmente porque hoje é o primeiro dia de aula, devia ser hoje que todo mundo acorda com ódio no coração, mas comigo foi ao contrario acho que não me sentia tão bem como agora desde que minha mãe nos deu a noticia sobre a mudança de cidade. Fui saltitando até a minha mesa e peguei o uniforme da escola. Não era nada de mais, pra falar a verdade era parecido com o do meu antigo colégio acho que em todos os colégios tem uma parte da roupa que é azul ou branca. Vesti-o e fui em direção a escada com passos rápidos, estava ansiosa, mais que o normal.
Desci as escadas e não vi movimento nenhum, eu tinha sido a primeira a acordar. Peguei a chaleira que estava no armário de baixo enquanto assoviava o mais alto que conseguira para uma tentativa frustrada de acordar alguém da casa. É tão desconfortável tomar o café da manhã sozinha, me sinto solitária, creio eu que o motivo é porque eu gosto de conversar sobre algum assunto aleatório enquanto como um pão com margarina, mortadela e tomando um Nescau. Quando estava terminando o Nescau vi minha mãe descendo as escadas lentamente enquanto dava um longo bocejo clichê de café da manhã cedo.
–Bom dia Mãe- disse dando um sorriso que mostrara todos os meus dentes.
–Nossa, espero que sua felicidade seja contagiosa. Necessito ficar de bom humor hoje. – dei uma gargalhada assim que ela terminou. Ela sorriu de volta enquanto dava uma pausa em balançar a chaleira para ver se tinha água.
–Que horas são mesmo?- continuou ela depois de um breve silêncio que tomou conta de nós duas — Nossa 7h05m, desde quando você tá acordada Luana?
–Acordei as 6h50m.
Olhei para o relógio e subi as escadas com pressa e fui em direção ao banheiro. Fiquei me olhando no espelho enquanto escovava os dentes, além de achar que era parente de ogros por ser tão feia com a boca cheia de pasta de dente fiquei com duvida se passava ou não maquiagem, bem, mas aquilo tão pouco importava.
Cuspi tudo assim que terminei e passei a língua nos dentes, tão boa era à sensação de não estar com o aparelho cortando a ponta da língua cada vez que fazia aquele movimento. -Sim já usei aparelho, fiquei dois anos com aquela porcaria, o dia que eu tirei foi um dos melhores dias da minha vida-.
Eram 7h20m e já estava mais que pronta. Estava atirada no sofá da sala com o cabelo penteado, dentes escovados, com o uniforme e a mochila só com o estojo e o caderno.
Assim que Rodolfo, meu padrasto e eu saímos da garagem eu tinha de prestar atenção no caminho que iriamos fazer, minha casa é consideravelmente perto da escola, umas três ou quatro quadras por aí, ele vai me levar nesses primeiros três dias daí vou ir a pé até o final do ano, mesmo com chuva. Nós chegamos à frente da escola, era uma escola bem velha, no estilo da minha casa, antes de sair Rodolfo segurou o meu braço.
–Luana, eu já me mudei quatro vezes, já fui para mais de quatro escolas, se você quiser se dar bem é só não ser esquisitona. – essa ultima parte ele falou com sarcasmo e deu uma piscadinha, nem respondi apenas fiz que sim com a cabeça e pisquei de volta. Rodolfo é um ótimo padrasto, ele é o melhor que eu podia imaginar, sabe é bom ter alguém que faça minha mãe e a família dela feliz coisa que o meu pai não conseguiu e ainda fez ao contrario, mas mesmo assim às vezes ele consegue ser muito chato em questão de responsabilidade e tal.
Entrei no hall da escola, ele era bem grande e espaçoso, as paredes tinham ladrilhos até a metade pintada de amarelo claro e o piso era de madeira recém enseirada, tinha uns bancos daquele estilo de parque, um quadro de avisos bem grande e uma estátua de uns 1,30 de altura da Virgem Maria. É eu tinha me esquecido que esse colégio era cristão. Eu estava me sentido perdida naquele lugar até porque eu estava mesmo perdida, eu não tinha visitado aquela escola nas férias, se eu for ao banheiro nesse momento eu vou me perder. Uma mulher cutucara meu ombro, virei e consegui vê-la, tinha uns 30 anos era mais baixa que eu e gordinha, parecia que ela tinha visto que eu estava perdida.
–Guria, sabe onde fica a tua turma?
–Não tenho a menor ideia.
–Sabe qual é o numero dela?
–Não lembro. – corei, tinha me esquecido da turma que eu ia fazer parte, eu tenho problemas mentais?
–Ainda bem que tu chegou cedo, ia ficar impossível na hora do rush. - disse ela fazendo sinal para que eu a acompanhasse.
Ela me levou até uma sala, era pequena, mas organizada e aconchegante. Ela pegou um livro grosso e o deixou cair sobre a mesa.
–Que peso. –exclamou ela. –Bem como é o teu nome?
–Luana Müller, mas quem é você?
–Tu não é daqui né? Veio do sudeste?
Assenti as duas perguntas. Como ela sabia?
–Bem... – continuou – Eu me chamo Márcia, eu sou a conselheira daqui, prazer Luana.
–Bem, como você sabe que eu sou do sudeste? — perguntei sem hesitar.
–Ah, a maneira que tu fala e tu falou ‘’você’’ então ficou fácil. — Ela sorriu e eu sorri timidamente de volta.
–Tu é da turma 192, fica lá em baixo no pátio é só descer as escadas e seguir o corredor reto, não tem erro.
–Obrigada. — respondi sem jeito.
Fiz o que ela tinha dito e como ela disse não tem erro, foi mais fácil que eu pensava. Turma 192, agora uma nova etapa da minha vida, onde eu provavelmente vou ficar até os meus últimos dias de vida escolar, aí vou eu.
Adentrei a sala com a cabeça baixa, parece que a minha autoestima tinha se esgotado, isso era ruim, muito ruim! Coloquei minhas mãos nos bolsos da calça moletom que estava usando e levantei um pouco a cabeça para ver onde tinha lugar, eu queria um lugar na frente e consegui, no canto da parede da minha esquerda. Engraçado as mochilas só estavam no fundo na sala, parecia que na turma onde eu estava só queriam saber de conversar, mas bem eu não podia tirar ideias erradas, não agora. Pus minha mochila em cima da mesa e me sentei na cadeira, o silencio que estava no meu lado foi quebrado assim que uma menina começou a gritar em minha direção.
–Joana! JOANA! TU ME DISSE QUE IA EMBORA SUA... — ela viu o meu rosto e ficou extremamente corada. –Ah, tu não é a Joana...
–É... Não sou.
–Bem, quem é tu?
Confesso que acho muito estranho falarem tu, bem eu estou no sul agora, mas eu não sabia que eles não usavam ‘você’ por nada.
–Luana
–E ai Luana! Tu não perguntaste, mas bem eu sou a Milena e eu sou muito chata. Sabia que tu parece uma ex-colega nossa? Tipo MUITO iguais, sabe o nome dela era Joana, acho que tu sabe porque eu fiquei gritando feito uma louca e quase te chamei de vaca...
Milena é bem tagarela, isso dá muito bem pra notar, mas ela me lembra da Ana, uma das minhas amigas da minha cidade antiga. Fala mais que devia, fala o que não devia, faz todo mundo passar vergonha, mas ninguém consegue odiar. Mas as duas têm diferenças gritantes em relação à aparência, Ana era baixinha, um pouco acima do peso, com cabelo castanho claro e mechas nas pontas do cabelo e Milena era mais baixa que eu, mas não baixinha — até porque eu tenho 1,76 de altura-, o cabelo dela era preto e a sua pele parda.
Tenho certeza que hoje será o dia mais longo da minha vida pois o tempo simplesmente não passa.
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