Kenyako: Amor Inocente
4 A veterana
Notas iniciais
Mesmo sendo o primeiro dia de aula, a manhã continuava sendo a mesma como qualquer outra para Inoue Miyako, que acordava com Poromon pulando em cima de suas costas e com os gritos dos irmãos, que esperavam seu café da manhã.
–Miyako-san! Miyako-san! Acorde, você tem que ir para.... Para...- O digimon tentava se lembrar do nome do local onde a parceira ia todos os dias.
–Escola.- Ela completou com a voz abafada pelo travesseiro.
–É nisso que dá ficar tão tarde no computador.
–A culpa não é minha. Eu estava fazendo um trabalho para o professor de...- A frase foi interrompida por um bocejo, mas antes que terminasse, foi acertada por uma mochila na qual seu irmão jogou da porta.
–MANTAROU! VÁ PERTURBAR OUTRA PESSOA!- Gritou já se levantando da cama.
–Anda logo se não vai se atrasar!- Ele sorriu fechando a porta.
Depois de se arrumar, a garota saiu de sua casa dando leves tropeços, mal conseguia apertar os botões do elevador, e quando conseguiu e a porta se abriu, caiu como se ainda estivesse dormindo, mas por sorte duas pessoas a seguraram.
–Miyako-san, você está bem?- Iori tentava levantar a garota com a ajuda de Takeru.
–Mais ou menos.- Ela bocejou novamente.
–O que houve?- O loiro perguntou finalmente a levantando.
–Nada, só um...- Foi novamente interrompida, dessa vez por Chizuru, que jogou uma pequena caixa que acertou a nuca da irmã caçula, a fazendo cair no chão de novo.
–Miyako! Não esqueça seu almoço! E quando voltar você vai cuidar da loja ouviu?!- Ela gritou e voltou para casa.
–M-MIYAKO-SAN?!- Os dois perguntaram assustados.
Depois de saírem do prédio, a garota já andava mais acordada, segurava um caderno na mão esquerda enquanto na outra uma caneta e um livro apoiado no braço, folheava as páginas várias vezes enquanto não tirava os olhos das anotações, e de repente deu um grito frustrada.
–Era só isso que me faltava! Iori, dá pra você abrir a minha bolsa e pegar o corretivo?- Ela falou com a atenção no caderno.
–Miyako-san, tem certeza que está tudo bem?- O mais novo dos digiescolhidos falou dando um pequeno corretivo para a amiga.
–Tá, tá sim... Ah, quem eu tô querendo enganar? Eu fiquei de recuperação em História, só consegui passar porque o professor Seiji deu um pequena ajuda, e para agradecer, eu disse a ele que faria um trabalho completo sobre...- Voltou algumas páginas do livro onde estava o nome do assunto -...A política imperialista no final do século XIX, e entregaria hoje. O problema é que eu esqueci disso e só fui lembrar ontem de noite.- Ela suspirou.
–É muito difícil?- Perguntou Takeru.
–Nem tanto, eu só não prestei atenção nas aulas dele.- Ela deu uma pequena risada.
–Mas você sabe que a culpa é sua não é?- Iori questionou e a garota assentiu com a cabeça. -Enfim, o que fizeram nas férias?
–Minha mãe me levou ao trabalho dela, ser jornalista é bem legal. Acho que quando eu crescer vou ser escritor!- O loiro deu seu leve sorriso.
–Meu avô e eu fomos à uma fonte termal particular, então não teve problema algum em levar o Armadimon.- Ele também sorriu e os dois viraram seus olhares para a garota. -Mas e você Miyako-san? O que fez nas férias?
–O-O que eu fiz nas férias?...
''O que eu fiz nas férias?'', Inoue Miyako esteve bastante ocupada durante esses dias, viajou com sua família no natal, brincou com Poromon, foi a várias festas do pijama, e claro, foi ao Digital World e ficou presa em uma caverna com Ichijouji Ken por quase duas horas, ''Bem, as duas melhores horas da minha vida... Espera... O QUE FOI QUE EU ACABEI DE FALAR?!'' ela gritou em pensamento. Além de todas essas coisas, Inoue Miyako também passou boa parte de suas férias pensando no garoto, não o gênio Ichijouji Ken, e sim o verdadeiro Ichijouji Ken, aquele que trouxe ela de volta a realidade quando estava sendo influenciada pelas trevas, aquele que tentou acalmá-la, aquele que ajudou ela a andar quando estava com o pé ferido, e principalmente, aquele na qual ela não tinha certeza do que sentia, ''Idiota. É inútil pensar nisso, porque ele gostaria de você tendo tantas por ai? É melhor esquecer...'', mas não tinha como, toda vez que pensava nele e uma dor enorme perfurava seu peito, ela...
–Alô? Terra para Miyako-san! Terra para Miyako-san!- Takeru balançava a mão na frente do rosto dela. -Você está ai?
A garota corou levemente, com medo de que seus amigos tenham ouvido seus pensamentos. Ela sacudiu a cabeça para tentar esquecer e deu uma tossida.
–O-O que houve?
–Já chegamos e você ficou ai parada com cara de paisagem como se tivesse visto um fantasma. Tem certeza que está tudo bem?- Disse Hida.
–Eu já disse que estou ótima! Vocês não precisam se preocupar comigo!- Ela sorriu fazendo um sinal com o polegar. E de repente eles ouvem um enorme grito.
–Pessoal!- Era Daisuke, que vinha acenando acompanhado de Hikari.
–Finalmente, estava torcendo para que as férias acabassem logo e rever vocês!- A castanha falou com um sorriso gentil.
–Eu tava até com saudades de ir pra escola.- Takeru sorriu igualmente.
–Saudades? Você é doente? Acho que só eu que não senti falta de voltar pra essa prisão.- Daisuke cruzou os braços.
–E eu acho que só você não mudou nada durante esses meses.- Disse Miyako, e todos começaram a rir da cara do ruivo.
–E eu acho que você tá mais alta do que o normal. O tempo tá bom ai em cima giganta?
–Daisuke-kun, você é muito mau com a Miyako-san.- Hikari falou com uma voz chorosa.
–E-Eu tava só brincando! Não é pessoal?- E todos voltaram a rir do desespero de Motomiya.
–Ah! Me lembrei! Daisuke-kun, você acha que ''ele'' virá hoje?- Takeru falou em um tom malicioso.
–É mesmo! Eu tenho certeza que ele vai vir!- O ruivo sorriu orgulhoso.
–Quem vai vir?- A garota de cabelos lilases perguntou com as mãos na cintura.
–Você não sabia Miyako-san? O...- Iori foi impedido pelo loiro que pisou forte em seu pé. -Ai! Porque você fez isso?!- Ele olhou irado para Takeru que apenas sinalizou colocando o indicador nos lábios.
–Vai diz! Eu não vou contar pra ninguém!
–É segredo, mais tarde você saberá quem é.- Daisuke sorriu maliciosamente, mas ela não entendeu.
–Isso não é justo!...- A garota iria continuar, mas sentiu alguém cutucá-la no ombro, e quando percebeu quem era, fechou os cadernos que estava segurando, guardou-os rapidamente e se virou para fitá-lo. -P-P-Professor Seiji?!
–Inoue, você está com aquele trabalho que me prometeu?- Era o professor de história.
–T-T-Trabalho?! Que trabalho?!
–Você sabe muito bem qual é o trabalho.- O homem estendeu a mão para a garota como se estivesse pedindo algo.
–Ah... Aquele trabalho! Mas é claro que eu trouxe! O senhor acha mesmo que eu esqueceria do trabalho do meu professor favorito?- Ela dá uma risada forçada. O professor olha para trás dela, onde os seus amigos balançavam a cabeça negativamente.
–Olha... Eu estou MUITO ocupado agora.- Ele fez questão de usar um tom sarcástico. -Então, não faz mal você entregá-lo para mim depois do almoço não é?
–Claro professor! Sem problemas!- A garota continua sorrindo, mas quando o professor já estava longe, ela suspirou aliviada. -Acho melhor eu ir andando, vejo vocês depois!
–Eu também vou indo, e é melhor não se atrasarem, ok?- Hikari pisca um dos olhos.
–Sim senhora!- Os três falaram no mesmo instante.
Miyako correu para a sala de informática, assim teria mais facilidade para terminar o trabalho. Enquanto caminhava pelo corredor das salas dos clubes, ela viu pela janela uma roda com vários alunos e uma pessoa no meio, uma pessoa bastante parecida com... ''ESPERA! SERÁ QUE...'', mas quando ela olhou de volta, todos voltaram ao normal como se nada tivesse acontecido. ''É melhor eu dormir mais cedo da próxima vez, tô começando a ver coisas'', ela continuou a andar até a sala.
Enquanto terminava seu trabalho, a garota começou a pensar: ''Quem será que eles estão esperando?''. Talvez um digiescolhido, talvez algum parente, talvez apenas um conhecido, ou talvez... ''Não, não pode ser, afinal, por que ele viria para cá? Ele mora em Tamachi, seria um desperdício vir estudar aqui. Se bem que não seria uma má ideia...'', de repente, a porta da sala se abriu e a garota quase caiu da cadeira com o susto.
–Inoue?! O que está fazendo aqui? Achei que estivesse lá fora com os outros.- Era o Professor Fujiyama, o professor do clube de informática.
A garota suspirou. -Desculpa professor, é que eu tenho que terminar um trabalho de história, alias... O que o senhor está fazendo aqui?- Ela falou voltando sua atenção para o computador.
–Estou mostrando os clubes para o nosso novo aluno. Vamos! Não seja tímido!- O professor olhou para trás mas não aconteceu nada. -Tá, você que sabe. Mas enfim, as aulas vão começar daqui a pouco, é bom apressar isso ai!- Ele piscou para a garota e foi embora junto com o novato.
Ela voltou ao seu trabalho, mas ante de tocar em qualquer tecla, o sinal tocou. ''Ah, eu termino isso depois!'', ela pegou suas coisas, desligou o computador e foi para sua sala.
Durante a aula, Miyako não prestou atenção e praticamente nada, girava a caneta nos dedos enquanto olhava para a janela pensando sobre o que aconteceu naquele dia. Repetiu a cena várias e várias vezes em sua cabeça, cada vez que pensava nisso,sentia uma dor estranha perfurando seu peito mais e mais, e por incrível que pareça, isso a fazia se sentir bem, mas, como contar? E se ele não sentisse o mesmo? O quer fazer?.
–Ken...- Sem que ela percebesse, havia pensando alto demais.
–Inoue, gostaria de contar para classe o que é tão importante a ponto de tirar sua atenção da minha aula?- O professor encarou a garota e todos os outros alunos fizeram o mesmo.
–É, de ''quem'' você estava falando?. Um dos alunos olhou maliciosamente para a mesma.
–Quem?... É isso mesmo! QUEM! Quero dizer... Quem não saberia responder aquela pergunta ali?- Ela deu uma leve risada forçada novamente e apontou para o quadro.
–Se você é tão inteligente assim... Poderia responder a equação?- Questionou o professor.
–Bem, eu...- Para sua sorte, o sinal do intervalo tocou. Miyako se sentou aliviada, mas por pouco tempo, ela não havia terminado o seu trabalho ainda, então ela correu o mais rápido que pôde até a sala de informática.
Depois de terminar o trabalho, ela foi até a sala dos professores para entregar. Chegando no local, a garota apenas aguardava o professor que terminava de ler os papéis, e durante esse tempo ela olhou para a mesa ao lado, onde estava uma pilha de redações, e no topo de todas, uma em especial, nela dizia: ''Aquele dia foi a única coisa de emocionante que aconteceu nas minhas férias, depois disso, minha vida mudou totalmente, não penso em mais nada além dela, e também não sei que dor é essa que sinto agora, mas de alguma maneira isso me faz feliz, mas, como vou contar? E se ela não sentir o mesmo? O que devo fazer? E se...'', o resto estava apagado e não havia nenhuma assinatura apenas o número da sala do aluno, que por incrível que pareça, é a mesma de seus amigos, ''Provavelmente seja Takeru-kun tentando se declarar para a Hikari-chan'', a garota riu com o pensamento.
–Qual a graça?- O professor perguntou.
–Nada não.- Ela apenas sorriu.
–Bem, isso não importa. O trabalho está bom, mas você ainda me deve uma coisa.- O homem se levantou devagar.
–Que coisa?
–Dá próxima vez, estude mais para a minha prova!- Ele enrolou os papeis e deu um leve tapa na cabeça da garota e por fim os guardou em uma gaveta.
–Pode deixar!- Ela sinalizou com o polegar e saiu da sala.
Miyako foi em direção do refeitório, mas o sinal tocou novamente, então ela voltou para sua sala.
No fim do dia, a garota saiu do colégio e viu seus amigos caminhando juntos, ela correu até eles e os acompanhou.
–E ai pessoal? Como foi o dia de vocês?- A herdeira dos brasões do Amor e da Sinceridade falou alegremente como de costume.
–Daisuke-san quase levou uma suspensão por gritar com a professora.- Iori falou balançando a cabeça decepcionado.
–Por que?
–Brigando com Takeru-kun.- Hikari disse e todos começaram a rir.
–Daisuke-kun, você acha que ''ele'' voltara para casa conosco?- O loiro comentou.
–Afinal, quem e esse que vocês tanto falam?- A garota perguntou curiosa.
–Acho que...- Daisuke olhou para os lados como se estivesse procurando algo, ele se virou de costas e sorriu.- Olha ele ali. ICHIJOUJI! AQUI!- Ele gritou.
''Espera... Quem?'', ela se virou ajeitando os óculos e se surpreendeu. Era ele, aquele que ela menos esperava estava ali, parado no meio de todos olhando para ela, fazendo o rosto da mesma corar. Era Ichijouji...
–KEN-KUN?!- Quase gritou com o susto, e sem que a própria percebesse, tropeçou em uma pequena pedra e derrubou tudo no chão, inclusive ela mesma.
A garota iria apanhar seus materiais que estavam espalhados pelo chão, mas de repente, o moreno surgiu e fez aquilo por ela, a única coisa que ela pegou foram seus óculos, que rapidamente foram colocados em seu devido lugar. O coração de Miyako nunca bateu tão forte e tão rápido assim na sua vida, quando levantou sua cabeça, sentiu o verdadeiro Ichijouji Ken novamente, com um um tímido e sincero sorriso que poucos conheciam, e um belo olhar confiante, sim, aquele maravilhoso olhar que ela pôde ver naquela escura caverna estava ali novamente. Ele estendeu a mão para a garota, e ambos com os rostos vermelhos se levantaram. Se encararam por alguns segundos, ela não sabia o que dizer, até que o silêncio foi quebrado por Takeru.
–Ah, esqueci de contar algo para você Miyako-san, Daisuke-kun te chamou de quatro-olhos.- Takeru sorriu enquanto o ruivo apertava fortemente a alça da mochila.
Ela balançou a cabeça tentando recobrar sua consciência e olhou para o mesmo com um olhar furioso. -COMO É QUE É?! Ora seu...- O único barulho que todos ouviram foi do soco que a garota deu na cabeça do herdeiro da Coragem.
–VARETA DE CUTUCAR ESTRELA!- Daisuke fala puxando as orelhas da mesma.
–CABELO DE FERRUGEM!- Ela começa a enforcá-lo.
–Pelo menos o meu cabelo não tem uma cor anormal que nem o seu!- Ele mostra a língua.
–Pelo menos a Hikari-chan gosta do meu cabelo!- Miyako sorri vitoriosa e finaliza com outro soco, fazendo o mesmo cair no chão derrotado. E todos começaram a rir novamente.
No fim, o dia não foi tão ruim, muito pelo contrário, ele foi ótimo. Todos voltaram para suas casas normalmente, menos Miyako, que voltou saltitando e com um sorriso maior do que o de costume para seu lar, apenas aguardando o próximo dia.
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