Keep moving slow
9 Undone
Notas iniciais
"The only way to enjoy anything in this life is to earn it first." — Ginger Rogers
Marinette estava se sentindo extremamente ansiosa, quando acordou naquela manhã. Hoje era o dia se sua apresentação com o Adrien. Seu coração dava um pulo toda vez que lembrava-se disso.
Seu pé machucado já estava muito bem. O que deixou a mestiça extremamente aliviada. Não suportava a ideia de decepcionar o seu parceiro. Os dois haviam ensaio tanto, não podia colocar tudo a perder por um simples corte no pé.
As aulas da manhã seguiriam normalmente e no período da tarde, os alunos da turma de ballet da Sra. Bustier deveriam se encaminhar para o teatro, onde cada dupla iria se apresentar na frente de todos. Aquele fato era a segunda coisa que estava causando tremores na mestiça naquele dia.
— Vamos logo, Mari. Se nos atrasarmos de novo a professora vai ficar uma fera.
— Claro, claro. Vamos logo. – Marinette e Alya saíram correndo do refeitório em direção ao estúdio em que aconteceriam as primeiras daquele dia.
Novamente iriam ensaiar o Pas de quatre. A professora queria supervisionar mais uma vez devido a notícia que receberiam convidados especiais para a apresentação semestral. Ninguém sabia quem eram, somente o diretor e talvez alguns professores.
A sala já estava lotada quando as duas amigas chegaram. Todas se aquecendo e alongando.
Em um dos lados do grande estúdio, encontrava-se uma loira com uma expressão nada contente.
— Você deve ter feito algo errado, Sabrina. Não era para ela estar aqui. – Os olhos azuis claros dela faiscavam de raiva enquanto encarava a mestiça.
— Me desculpe, Chloè. – A ruiva baixava a cabeça. – Prometo que vou fazer certo da próxima vez.
— Não vai ter próxima vez para você, Sabrina. – Encarou a garota amedrontada. – Como meu pai diz: Se quer algo bem feito, faça você mesmo.
— O que você vai fazer?
— Você vai ver Sabrina. – Voltou a encarar a mestiça. — E dessa vez, Marinette Dupan-Cheng, você não vai sair tão ilesa, isso eu garanto.
A professora entra na sala e todas se preparam para o início das atividades.
As aulas da Sra. Burtier conseguiam deixar qualquer pessoa derrotada pelo cansaço. E era exatamente assim que Marinette se sentia. Todos os músculos do seu corpo pariam gritar ao mesmo tempo. Ela passou a conhecer partes do seu corpo que sequer sabia que existiam. Mas estas já doíam.
— Preciso muito de um banho. – Resmungou a azulada.
— To com você amiga. Meu reino por um chuveiro e uma cama.
— Isso porque ainda é somente de manhã. – Suspirou derrotada. – Não sei se sobrevivo a esse dia. E ainda tem as apresentações à tarde. Alguém me ajude!
— Calma, Mari. Se sobrevivermos a hoje, sobrevivemos a tudo.
— Eu espero que sim. – Sorriu um pouco.
As duas amigas seguiram para o quarto em busca de seus pertences para poderem ir tomar um longo e relaxante banho.
Por sorte, ou não, a área dos chuveiros estava vazia. Aparentemente, muitos haviam decidido almoçar primeiro. As duas se puseram cada uma em um box e ligaram a água corrente, deixando o vapor se espalhar pelo banheiro.
Marinette nunca ficou tão agradecida por um banho quanto naquele momento. Seu corpo agradecia imensamente.
— Mari...
— O que foi, Alya? – Respondeu do box ao lado.
— Estava lembrando de algo. – A avermelhada começou. – Eu cumpri a minha parte do acordo. Agora é a sua vez.
— Acordo? Do que você está falando?
— Não se faça de idiota. Você sabe muito bem. – A garota colocou a cabeça em baixo da água por um instante. – Eu falei para o Nino sobre eu gostar dele. Agora é sua vez de falar para o Adrien.
A azulada empalideceu e ficou um silêncio.
— Sei que está me ouvindo, Marinette. – Alya queria que a amiga tomasse coragem. – A ideia foi sua, não adianta fugir.
— Eu sei que a ideia foi minha... Eu só.
“Droga”. Seu coração estava disparado, parecia querer sair pela sua garganta, junto com as borboletas que pareciam eclodir de lá.
— Só que está com medo. – Alya suspirou. – Mari, pensa assim... O que pior pode acontecer?
— Ele nunca mais vai olhar na minha cara. – falou apavorada.
— Tá, só isso. E se ele fizer isso quer dizer que ele não é o cara certo para você. – Como na maioria das vezes a avermelhada tentava ser mais lógica. – Mas eu não acho que ele vá fazer isso. Não é a cara do Adrien, simplesmente virar a cara. – tentou confortar.
— Isso não ajudou muito. – Resmungou fazendo bico.
— Mari...
— Está bem, eu sei que o mundo não vai acabar por causa disso... – Suspirou vencida. – Talvez eu fale com ele depois da nossa apresentação. Antes disso jamais. Não consigo imaginar dançar com ele, se a resposta for negativa. Na verdade não saberia nem como olhar na cara dele.
— Vai dar tudo certo. Não fique pensando no pior. Aliás... Não pense em nada. Deixe sua cabeça em branco.
As duas terminaram o banho e foram para o quarto.
Alya tinha razão, a mestiça sabia disso. O mundo não acabaria se ele lhe dissesse não e sua cabeça apoiava a versão das coisas, mas o seu coração parecia sofrer com antecedência.
O que ele iria ver nela? Os dois eram uma dupla, dançavam junto. Mas só isso. E depois de hoje, depois da apresentação, seriam o que? Não existia garantia nenhuma que continuaria dançar junto com o loiro.
E esse fato, fazia seu coração pesar ainda mais.
Cabelos arrumados, roupas devidamente passadas e vestidas. Estavam prontas. Chegara a hora da apresentação. Marinette sentia suas mãos tremerem de nervosismo e ansiedade. Seu coração batia tão rápido que parecia conseguir escutá-lo em seus ouvidos.
Tum tum, tum...
Aquele barulho só a deixava mais nervosa.
— Vamos então? – Alya estava parada na porta.
— É agora ou nunca...
As duas desceram as escadas e seguiram caminho ao auditório com as sapatilhas nas mãos.
O lugar era enorme. Parecia que todos os alunos da academia caberiam naquele lugar sem o menor problema. Algumas cadeiras já estavam ocupadas por professores e alguns alunos.
A azulada mexia as pernas impaciente e esfregava as mãos uma na outra. Sentia que podia vomitar a qualquer minuto. E aquilo, com toda certeza era a última coisa que gostaria que acontecesse.
Passou a mão no pulso e sentiu falta de algo. Sua pulseira da sorte. Naquele momento ela precisava daquilo mais do que nunca. Olhou para o lado e viu Alya acenando para sua dubla.
— Alya, eu vou buscar uma coisa e já volta está bem. Se vir o Adrien avisa que eu já volto, por favor. – A azulada pediu já se distanciando.
— Tudo bem, pode deixar. – A avermelhada gritou em resposta.
A mestiça voltou às presas para o seu quarto a procura da tal pulseira. O objeto fora presenta do seu avô Fu, um senhor muito simpático, pai de sua mãe. O homem veio da China para Paris, quando sua mãe, Sabine, ainda era uma criança.
A pulseira era praticamente uma herança de família, que segundo seu querido avô, trazia muita sorte.
Naquela hora, tudo o que ela mais queria era sorte. Tudo tinha que dar certo.
Escondido no fundo de uma gaveta ela encontrou o que estava buscando. Era uma pulseira simples, mas que continha muito significado. Amarrou-a ao pulso e saiu do quarto, o trancando em seguida.
Estava descendo os primeiros degraus da escada, quando sentiu uma grande pressão ser exercida sobre suas costas e se viu cada vez mais próxima do chão. Tentou buscar apoio em algo, mas não havia nada. Ela estava caindo e não havia nada que pudesse fazer. Colocou os braços próximos ao rosto o mais rápido que pode para se proteger e depois tudo o que sentiu foi o impacto dos degraus em ser corpo. Duro e frio.
A dor não veio de imediato, quando já estava próxima ao chão liso, suas costelas, braços e pernas começaram a dar sinal de vida, mas antes que a dor se alastrasse pelo corpo, um pancada forte e final atingiu sua cabeça.
Depois tudo ficou escuro.
O teatro já estava com os alunos presentes e dispostos nas cadeiras. Alya estava começando a ficar preocupada com a demora da azulada. A amiga já deveria ter voltado.
— Alya, você viu a Marinette por ai? – Adrien se aproximava da garota que permaneceu próxima a porta.
— Ela foi buscar uma coisa no quarto.
— Mas agora? – O loiro não estava entendendo.
— Eu sei. Meio em cima da hora. Mas ela já deveria ter voltados... Eu vou atrás dela. – A avermelhada já estava saindo do teatro. Pela hora faltava menos de cinco minutos para as apresentações começarem. Marinette tinha que voltar rápido.
“Não estou com um bom pressentimento”. A cabeça de Alya tinia.
— Eu vou com você. – Adrien colocou-se a caminhar ao lado da garota.
Os dois partiram em direção a ala dos dormitórios a passos rápidos. Alya tinha a esperança de encontrar a amiga correndo apresada, pelo caminho. Mas nada dela.
“Cadê você, garota?”.
Finalmente encontrara a azulada. Mas do modo que nunca esperou.
Ao final da escadaria, Marinette estava esticada no chão. O tronco virado para baixo, as pernas levemente dobradas de modo estranho, um dos braços estava sobre o rosto, em quanto o outro estava estendido acima da cabeça.
— MARI. – Alya gritou e correu até a garota desacordada. Simplesmente se jogou ao lado da amiga, não importava roupa, apresentação, nada. Sua melhor amiga encontrava-se desmaiada no chão.
Adrien veio correndo logo atrás, se colocando ao lado da avermelhada. Sua respiração estava descompassada e seu coração disparado. Tirou delicadamente o braço de cima do rosto da garota e encontrou uma mancha de sangue sobre parte do rosto e cabelos.
Seus olhos arregalaram e suas pernas tremeram.
As mãos de Alya tremiam, não sabia se podia toca na amiga, movê-la. Estava apavorada.
— E-e-eu vou bus-buscar ajuda. – A voz do rapaz falhava. Por mais que suas pernas tremessem, se forçou a levantar e correr em busca de ajuda. Sua cabeça estava a mil, mas de uma coisa tinha certeza.
Aquele sangue não era coisa boa.
Aquele barulho irritante não parava e sua cabeça latejava horrores. Marinette tentava abrir os olhos, mas a luz era muito incomoda. Sentia sua garganta árida e seu corpo mole. Não estava conseguindo se mexer, o que a estava agoniada.
Manteve os olhos serrados e se forçou a enxergar algo contra a luz forte e clara.
— Ai, minha cabeça. – Sua voz saiu baixa e rouca. Sua garganta estava tão seca que chegava a doer.
— Mari, você acordou, graças.
— Alya? – A garota procurava pela amiga mesmo com a visão embasada.
— Não se mexa. Eu vou chamar a enfermeira. – Alya saiu com pressa atrás da mulher. Seu coração batia mais aliviado em saber que a azulada finalmente acordara.
Ver todo aquele sangue no chão tinha deixado a avermelhada em prantos. Ela sozinha com a amiga desacordada, enquanto Adrien buscava ajuda. Só de lembrar um arrepio lhe corria a espinha.
Marinette tentava levantas, mas seu corpo não cooperava. Sentia-se sonolenta e sem forças. E o pior de tudo, parecia haver uma britadeira dentro de sua cabeça.
— Eu falei que ela acordou. – Alya apontou para a cama onde se encontrava a amiga.
Marinette estava em um quarto desconhecido, deitada em uma cama macia. Tinha diversos tubos presos a seu braço e algo enrolado em sua cabeça.
A enfermeira se aproximou da garota a ajeitando melhor no travesseiro.
— Como está se sentindo senhorita, Cheng?
— Minha cabeça... Parece que vai explodir. – Começou a falar com a voz fraca e falha. – Minha garganta, dói.
— Vou pegar um pouco de água para a senhorita. – A mulher ajudou a azulada a levar um pouco a cabeça e encostou um copo de água em seus lábios, ajudando a garota. – O médico já está vindo para examiná-la melhor.
A enfermeira volta a deitar a mestiça delicadamente sob o travesseiro e se afasta para verificar o soro que estava ligado às veias da garota.
— Alya?
— Aqui. – A avermelhada se aproxima se coloca ao lado da cama da amiga e segura sua mão livre com delicadeza.
— O que aconteceu? – Suas lembranças estavam embaçadas. Recordava da apresentação que teria, de ter ido ao seu quarto na academia e de pegar sua pulseira. Depois disso as lembranças estavam embaçadas.
Com a consciência ganhando forma, Marinette começava a sentir novamente as partes do seu corpo, e junto com ela um dor incômoda em suas costelas, braços e pernas. Tentava mover os membros, mas o ato era doloroso.
— Não se mexa, Mari. — Alya apertou um pouco a perto sobre a mão que segurava. – Você caiu da escada e bateu a cabeça. Não pode se esforçar. – A voz da avermelhada saiu engasgada, a vontade de chorar era grande e o alívio em seu coração era maior ainda. Estava morrendo de medo de sua amiga não acordar.
— Caí... Da escada?
— Não se lembra do que aconteceu?
— Eu lembro de ter ido ao quarto buscar minha... pulseira e depois... Ai minha cabeça. – Marinette fechou os olhos com força.
— Bateu sua cabeça com força, senhorita. É normal que esteja doendo. – Interrompeu a enfermeira. – Vou pedir para o doutor para administrarmos mais uma dose de analgésicos. – Terminou e se retirou da sala.
Alya continuou no quarto, segurando a mão da amiga.
— A academia ligou para os seus pais. Eles estão vindo para cá. Devem chegar à noite.
— Foi tão sério assim? – Virou a cabeça em direção da voz da amiga, enxergando levemente seu contorno. Forçou-se um pouco mais e consegui ver a cara de choro da garota.
— Eu e o Adrien fomos te procurar... E quando te encontramos você estava no chão com uma mancha de sangue na cabeça.
— Entendo...
Alya se manteve presente durante todo o tempo, até que foi obrigada a voltar para a academia no final da tarde, mas prometeu que voltaria no dia seguinte.
Os pais da mestiça chegaram no cair da noite, ambos extremamente preocupados com a única filha. A academia havia ligado para ele, avisando sobre o estado da filha, fazendo-os pegar o primeiro voo direto para a capital.
O diagnóstico?
Nada muito sério do ponto de vista clínico. A garota tivera muita sorte segundo o médico.
A batida na cabeça não fora nada sério, os riscos de convulsão haviam diminuído após as primeiras 24h de observação. Por conta da queda, a garota chegara a deslocar um dos ombros, mas nenhum osso havia sido quebrado.
Novamente, muita sorte.
Entretendo, a azulada havia torcido o tornozelo e estirando os músculos e nervos que iam do pé a perna da sua perna direita. O que iria render a imobilização do pé e sessões de fisioterapia para recuperar a mobilidade do membro. O médico informou todos os procedimentos feitos e o que deveria ser cumprido para a melhora da garota. Coisa que os pais da garota concordaram mais do que prontamente.
Entretanto, Marinette enxergou o que estava nas entrelinhas. Dependeria do tratamento saber se ela poderia voltar a dançar.
Ela sentia seu sonho escapando pelos seus dedos como areia.
E as lágrimas silenciosas lavando o rosto.
Marinette havia deixa o hospital há cerca de três semanas. Ficara internada durante quatro dias e nos outros, a pedido dos pais, ficara em um hotel com eles, enquanto a garota começava as sessões de fisioterapia.
Por mais que não quisesse admitir, fazer força com o pé machucado lhe causava muita dor. A médica responsável pela sua recuperação ia com calma, não forçava além do limite da garota. Dizia que aos pouco seu corpo ia fazendo o trabalho e que logo poderia voltar às atividades normais. Era tudo uma questão de recuperação.
Após uma semana e meia, a azulada já conseguia caminhar normalmente. Porém, nada de esforço. Não poderia correr ou pular. Mas já não precisava das muletas para andar. O que no ponto de vista da amiga, Alya, já era uma coisa ótima.
Após a terceira semana, foi liberada pelos médico para voltar para a academia, com a promessa de manter a rotina de exercícios passados pela fisioterapeuta.
Os pais da garota voltaram para casa por força maior, a padaria não poderia ficar fechada por tanto tempo. Mas por ele a garota teria voltado junto. Entretanto ela se negava a isso, afirmando que ficaria bem.
A academia deu a Marinette o tempo necessário de recuperação. Poderia voltar às aulas, mas de forma moderada. Além de ter que visitar a enfermaria semanalmente.
Estava de volta à rotina há apenas três dias. Sentia seus movimentos mais lentos e fracos do que das outras colegas bailarinas. Aquilo despedaçava seu coração, apesar de continuar a sorrir e dizer que estava tudo bem na frente dos amigos.
Outra coisa que pesava em seu coração era a culpa. Não conseguia olhar direito para Adrien desde que voltara. Sentia que havia prejudicado o garoto. Ambos não haviam se apresentado e tudo por culpa dela.
Depois que Alya saiu para o clube, por insistência de Marinette, que dizia que se sentiria culpada se a amiga não fosse por culpa dela, a mestiça foi em silêncio para um dos estúdios menores, decidida a ensaiar. Não queria ficar atrás de ninguém.
Toda a academia estava em silêncio, os corredores escuros, sequer os grilos faziam barulho. O silêncio era tanto que até mesmo os fantasmas se assustariam com a presença da garota zanzando pelos corredores.
Chegando no lugar, a azulada encostou a porta e acendeu as luzes. Com as sapatilhas nas mãos ela se sentou no chão e amarrou-as nos pé, começando a se alongar. Segurava a ponta dos pés enquanto a barriga encostava-se às pernas. Ela tinha que puxar ambos os pé para trás e depois para frente, o movimento era doloroso.
Colocou-se de pé e se apoiou nas barras. Os pés deveriam ficar alinhados aos joelhos enquanto ela realizava movimentos de descida e subida. Respirava fundo pelo nariz e soltava o ar pela boca, deveria se manter calma e controlar a dor. Não se daria por vencida. Não prejudicaria mais ninguém.
Em menos de três semanas seria a apresentação em quarteto e apresar da Sra. Bustier dizer que ela não precisava se apresentar caso não se sentisse apta, ela não queria desapontar as amigas.
Pegou o celular e os fones de ouvido. Por mais que doesse, forçou os pés a fazê-la ficar nas pontas da sapatilha. A cada impacto era como se um fio de eletricidade passasse pelo seu pé até o final de sua perna, fazendo com que ela perdesse um pouco o equilíbrio.
Quase foi ao chão por duas vezes, mas recuperava o equilíbrio colocando o outro pé como apoio o mais rápido que podia. Seu corpo suava e a careta de dor já se fazia mais do que presente. Mas ela continuava. Ela se entenderia com as consequências daquilo depois.
E mais uma vez ia ela. Forçou ficar na ponta da sapatilha do pé direito e novamente perdeu o equilibro. Só que dessa vez não houve tempo de criar um apoio e a garota foi de encontro ao chão.
Sua respiração era pesada e ela queria chorar de frustração.
— Deveria tomar mais cuidado, Princesa.
Aquela voz. Não.
Com os olhos arregalados, Marinette vira a cabeça em direção a porta, encontrando encostado na mesma a última pessoa que espera ver na face da terra. Os olhos verdes brilhantes, a roupa preta, a mascara espalhada sobre os olhos, as orelhas na toca sobre os cabelos loiros.
“Chat Noir”.
O gato se aproximava dela com passos largos. Ela continuava a encará-lo assustada. O que diabos ela fazia lá?
— Venha, deixe eu te ajudar. – Ele estendeu uma mão para ajuda-la a se levantar. Marinette ficou somente encarando o loiro com a mão estendida sem falar uma palavra. – Não vou te machucar, não se preocupe. – Ele sorriu. – Sou Chat Noir, a seu dispor.
Era verdade, ele não conhecia Marinette, pensou ela.
Com a mão um pouco trêmula ela aceitou a ajuda.
— Obrigada. – Respondeu com a voz baixa enquanto ela a ajudava a ficar de pé. Para depois encará-lo. – Como e por que entrou aqui?
— Eu? –Sorriu apontando um dedo para si. – Tenho meus truques. E bom... Tinha um pouco de curiosidade sobre esse lugar. Dizem que tem fantasmas aqui durante a noite. – Riu baixo. – Mas eu não pensei que fossem palpáveis. – Ele levantou a mão que ainda segurava a dela e depositou um beijo casto na superfície.
A garota puxou a mão e se afastou do loiro.
— Não deveria estar na cama, princesa? Já esta tarde.
— E não está na hora do gatinho estar em casa? – Retrucou. Marinette estava nervosa, não espera encontrar aquele gato novamente, principalmente ali na academia. Suas mãos tremiam e seu coração estava na garganta.
— Gatos costumam ser mais ativos à noite. – Ele se aproximou da garota que estava de costas. – Além do mais, eu sou um gato livre... Prefiro explorar durante a noite.
Ela se manteve em silêncio ainda de costas para o loiro.
— Mas você não respondeu a minha pergunta... O que faz acordada a essa hora?
— E isso é da sua conta? Por que? – O timbre da voz era bravo.
— Hey, sem violência. Só estou curioso...
Ela suspirou. Por mais que fosse um intrometido, ele não tinha culpa da frustração dela.
— Estava ensaiando um pouco... Ou ao menos tentando. – Olhou para baixo.
— Seu pé está machucado. – Ele falou baixo e ela virou para encará-lo com o olhar surpreso. Como ele sabia? – Desculpe, é que eu vi você dançando. Sua perna treme. Não tem força o suficiente, o que significa que está machucada.
Ela suspirou derrotada.
— Eu me torci a perna não faz muito tempo. Estava fazendo fisioterapia até pouco tempo. – Por que mesmo estava contando aquilo para o Gato?
— Sinto muito.
— Tudo bem. Não acho que tenha muito que fazer. – Suspirou triste. – Acho que só não aceitei ainda que acabou para mim. – Ela tentava conter as lágrimas que começavam a se formar em seus olhos.
Ela estava de cabeça baixa, mas o Gato conseguia escutar o tom de choro em sua voz. Aproximou-se mais dela colocando uma mão sobre o ombro da garota.
— Não desista tão fácil... – Com a outra mão, pegou a dela. – Venha cá, princesa. – Ele a puxou para o meio da sala. Ela o encarava com confusão. – Talvez você só precise de uma mãozinha... Ou de uma pata. – Ele riu baixo e ela chacoalhou a cabeça.
— O que você está faz-
— Não se preocupe. – Interrompeu sorrindo e colocou uma mão sob a cintura da garota. Com a outra, pegou a mão dela e a colocou sobre seu ombro e por fim, segurando a que restou. – Com toda certeza você já deve ter dançado uma valsa na vida. – Olhou fundo nos olhos dela. – É isso que vamos fazer.
O Gato tinha um sorriso travesso nos lábios e olhava fundo para os olhos azuis da garota. Ele movimentou um pé para frente, fazendo a azulada mover-se para trás, depois fez o movimento para o lado e novamente ela o acompanhou.
— Viu, não é tão difícil. – Piscou um dos olhos e começou a cantarolar uma valsa enquanto guiava a mestiça pela sala.
Ela acompanhava os movimentos dele com facilidade, aquilo não a manchava e agradeceu por isso.
— Agora um giro... – Ele levantou a mão que segurava a dela, fazendo os dois braços ficarem esticados. O outro ele manteve firme a cintura dela. A fez rodar uma, duas vezes. É claro que o pé doeu um pouco, mas com certeza menos do que antes. – Viu... Você ainda consegue. – Ele sorriu para ela, aquele sorriso que ela sabia, que só ela tinha. Um sorriso de gato malandro. Fazendo uma covinha se formar em uma das bochechas.
Ele continuou atado a ela por mais uns instantes, até que um barulho veio da calça larga que ele usava. O garoto parou os movimentos e soltou a mão da dela, levando-a até o bolso, tirando de lá um celular.
— Infelizmente eu tenho que ir. – Ele retirou a outra mão da cintura da garota, levantou novamente a cabeça a encarando e deu um sorriso aberto. O loiro virou-se e foi até a porta abrindo-a, depois virou a cabeça em direção a garota. – Não desista tão fácil, My Lady. – Fechou a porta atrás de si.
“My Lady”. Ela estava em choque, ainda parada no meio da sala. Seu coração perdeu uma batida e assim que retornou acelerado e se dispôs a correr até a porta, a abrindo com força e olhando as pressas pelo corredor escuro e vazio.
“Ele sabe”. Foi tudo o que veio a cabeça.
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