Keep moving slow
12 De vez em quando
Notas iniciais
"And that's the way it is." — Walter Cronkite
Mais um sábado e novamente ela ficaria sozinha na academia. Bom, não exatamente sozinha. Ainda existiam alguns alunos circulando pelos corredores ou em seus dormitórios, mas Alya não estava lá e nenhuma de suas outras amigas, ou Nino, nem mesmo Adrien.
Todos haviam ido para suas casas, passar o final de semana com suas famílias. Alya a convidou para ir junto, mas ela sabia que Nino provavelmente iria querer ver a namorada, então preferiu ficar na instituição ao invés de virar uma vela de um metro se sessenta e cinco.
Ui.
Aqueles dois juntos lhe causavam arrepios. O pior de tudo foi descobrir que eles transaram no quarto que elas dividiam. Meu Deus. Aquele lugar agora parecia feder a sexo.
Resultado: quem foi que disse que conseguira dormir direito.
Passou então, uma hora dando um sermão nos dois, após pegar o moreno saindo de fininho no quarto na tarde anterior.
Marinette não conseguia encontrar sua chave em lugar algum. Sempre estava junto a seu celular, mas naquela tarde, quando voltou dos exercícios da academia, não encontrava o objeto em lugar algum. Revirou os bolsos da calça, a pequena bolsa, pensou em até mesmo voltar e procurar próximo aos equipamentos que usará e no refeitório.
“Era o que me faltava”. Pensou ela se encaminhando para os dormitórios.
Se desse sorte, encontraria a amiga ainda acordada.
Alya estava com muito mais sono do que o normal nos últimos dias. A mestiça julgava isso pela quantidade de ensaios que a avermelhada estava fazendo. Tinha dias vezes em que só conseguiam conversar quando voltavam para dormir.
Chegando próxima ao quarto escutava a voz da amiga. Suspirou aliviada.
— Alya está ai? – Bateu na porta e esperou uma resposta, mas tudo ficou em silencio. – Alya...Abre a porta, eu acho que perdi minha chave.
— Já vai Mari. – Finalmente escuta uma resposta da amiga.
Encostada na parede ao lado da porta, ela conseguia escutar uma movimentação estranha dentro do cômodo. Será que estava tudo bem como a garota?
Até que a avermelhada abre a porta. A roupa amassada o cabelo úmido e desarrumado. A mestiça colocou a cabeça para dentro do quarto e sentiu que um furação havia passado lá dentro. Ou em pelo menos metade do quarto.
Sua cama estava intacta, a cômoda também. Mas o lado de Alya parecia virado de ponta cabeça. Como se o Chapeleiro maluco e a Lebre de Março tivessem resolvido fazer o chá da tarde naquele lugar...
— Nossa, o que foi isso? – Olhava espantada para o lugar. – As peças do teu guarda-roupa resolveram fazer uma revolução?
—N-não... Eu só... estava fazendo a... mala... – Alya deixou a garota entrar e fechou a porta.
— Me lembre de nunca pedir a tua ajuda para fazer a minha mala. – A azulada varria os olhos pelo local. Travesseiros no chão, coberta torna, sendo metade na cama e metade praticamente virando um tapete. Havia espalhadas ainda camisetas, calças, meias, uma cueca...
Preferiu não perguntar.
— Bom eu vou pegar as minhas coisas e vou tomar um banho. Só tenta não bagunçar a minha parte também, por favor. – Riu enquanto pegava algumas peças de roupa na cômoda.
— Claro, claro. Pode deixar. – Alya permanecia em pé, enfrente a própria cama.
Marinette saiu do quarto, indo em direção ao banheiro no fim do corredor. Fora mais um dia logo e cansativo. Os exercícios de levantamento de peço para sua perna, ainda fazia seu membro doer. Mas sabia que com algumas sessões e dedicação, conseguiria alcançar a turma novamente.
E principalmente...
Não desapontaria as amiga.
Haviam pouca estudantes nos box dos chuveiros, fazendo presente o nevoeiro de umidade, deixando os espelhos embasados.
Colocou sua muda de roupas em um banco a frente de um box desocupado e procurou colocar a toalha dentro de um dos ganchos presentes na porta do box.
Toalha. Onde estava sua toalha.
No quarto, obviamente. Como era esquecida. Deu meia volta em direção ao quarto.
Mas qual não foi a sua surpresa ao ver na porta do seu quarto, Alya aos beijos com Nino. Esse fato em si não a surpreendia. O que fez isso foi o fato do garoto estar semi vestido, com a calça aberta, deixando a mostra a cueca, cuja a qual a mestiça jurava ter visto no chão, juntamente com as outras peças de roupa que ele vestia.
“Só pode estar de brincadeira”. A garota se aproximou dos dois com passos pesados. A amiga não podia ter feito isso. Que dizer, podia até que sim. Mas o detalhe era... Não no seu quarto. No quarto que elas dividiam.
Chegando próximo ao casal, pigarreou alto com a garganta, assustando os dois, que se afastaram e ficaram vermelhos.
— Entrem. – Falou séria. – Os dois.
Ambos se olham e Nino engole seco, a garganta ondula, o queixo empina e o pomo de adão sobre. Eles entram em silencio com a azulada logo atrás, fechando a porta.
— Sentem. – Apontou para a cama da avermelhada e assim o fazer.
Marinette respira fundo. Não sabia o que falar ou pensar. Aquele local parecia ter um novo cheiro agora. Uma mistura de suor, estrogênio, testosterona e feromônio. Isso estava lhe dando dor de cabeça.
Pensou em puxar a cadeira da escrivaninha para se sentar, mas parou com a mão a poucos centímetros do objeto. Era melhor não arriscar. Não sabia por onde os dois acabaram se pegando.
Particularmente estava rezando para que ao menos a sua cama tivesse ficado longe da fúria sexual dos dois.
Senhor. Ela não sabia como encara-los.
Está certo que os dois não fizeram nada de anormal. Era sexo e os dois estavam juntos no fim das contas. Mas esperava um pouco mais de respeito da parte deles, da amiga principalmente. O quarto era dela também no fim das contas.
— Mari... – Alya ia se pronunciar, mas a mestiça levantou a mão impedindo, ficando em pé na frente dos dois. Respirou fundo.
— Sério mesmo? Aqui? – Olhava para o casal envergonhado. Nino fechava os dedos na camisa que estava em suas mãos, enquanto Alya enrolava uma mexa do cabelo entre os dedos. – E pelo amor de Deus, Nino. Vista logo essa camiseta e feche a porcaria da calça.
O garoto ficou ainda mais corado e se apressou para fazer o que foi pedido. Praticamente mandado.
—Eu sei que vocês dois se gostam e tudo mais. Mas caramba, aqui é meu quarto também, além do mais, respeito é bom, ainda mais quando o espaço é nosso. – Apontou o dedo para si mesma e depois para Alya.
— Mari, desculpa. Foi um pequeno acidente...
— Acidente? – Levantou uma sobrancelha. – Quer dizer que você estava aqui no quarto, tranquila, e do nada aparece o Nino pelado e com o pinto dentro de você? – Ela estava perdendo o controle. – É só pra ver se eu entendi direito...
Marinette conseguia ser bem desbocada e sarcástica quando queria. O que geralmente acontecia quando estava irritada. E que geralmente acontecia perto de um certo gato de rua.
A azulada respirou fundo mais uma vez. De nada adiantaria gritar com eles.
— Eu vou pegar a minha toalha, tomar o meu banho, e quando eu voltar, espero do fundo do meu coração, que esse lugar esteja arrumado e que eu não encontre nada de...Desagradável pelo caminho.
Marinette pegou uma toalha limpa e partiu em direção ao banheiro. Mas antes de sair parou na porta e virou-se para o garoto.
— E eu quero a minha chave de volta senhor ladrãozinho. – Saindo logo em seguida, deixando a porta aberta.
De longe, aquela foi uma das piores situações que já passou. Está bem, talvez não a pior. Mas com toda certeza a mais constrangedora.
Marinette estava voltando da lavanderia, aproveitou o dia tranquilo e solitário para organizar suas coisas e lavar suas roupas. Os estudantes mais ricos, que somavam mais de noventa por cento daquele lugar, lavam as roupas em casa, ou simplesmente compravam novas, como uma certa loira. Mas ela não, toda semana, tirava um dia isso.
Terminou de dobrar suas roupas já secas, graças a secadora devo dizer, e com o montante sobre as mãos, voltou para o quarto. Enquanto cruzava os corredores da academia, notava pelas janelas que já era fim de tarde.
Não lhe restava mais muito que fazer naquele dia. Talvez somente um banho e depois ir para cama, ler um livro quem sabe.
Voltou para o quarto, com a sua chave, agora muito bem junta a si, e passou a guardar as roupas limpas em seus determinados lugares. Logo seria a hora do jantar, talvez um banho antes de comer fosse uma boa.
Com as roupas e tolha a mão foi para o banheiro vazio. Gostava disso, ser a única ali, ter um momento de paz e silencio, aproveitando o barulho da agua contra o piso de cerâmica. Ficar com a cabeça em baixo da agua e deixa-la escorrer sob o corpo nu era uma sensação extremamente relaxante.
— Sabe, sempre fiquei curioso em saber qual shampoo você usa, para seu cabelo ter esse cheiro tão gostoso. – A voz ressoava pelo banheiro, em frente a porta de vidro fosco do box em que se encontrava a azulada. Ela conseguia enxergar os contornos do dono daquela voz.
E duas coisas foram mais do que suficiente, para lhe fazer saber quem é: A obvia invasão de privacidade e as orelhas cobre a cabeça.
— Mas que droga Chat. – Desligou o registro e puxou a toalha para cobrir o corpo. – Resolveu virar maníaco do banheiro agora?
— Eu não diria isso... Mas se você quiser eu posso invadir esse chuveiro agora mesmo. – Sua sombra se aproximava da porta.
— Nem pense nisso. – Sua voz soava brava. – Saia daqui, já.
— Mas porquê? – Afastou-se novamente – A vista parecia ser tão boa...
Marinette sentiu suas bochechas corarem.
— Gato abusado. Passe as minhas roupas então...
— Talvez eu prefira você sem elas. – Sentia o sorriso na voz do loiro.
— Chat...
— Está bem, está bem. – O garoto se aproximou da porta e passou as roupas por cima da mesma. Preta e vermelha.
— Essas não são as minhas roupas. – A garota olhava as peças atordoada. Aquela era a roupa de Ladybug.
— São sim, eu as peguei no seu quarto. – O gato falava como tranquilidade.
— Como é que você entrou no meu quarto? – A voz da mestiça subiu um tom devido a irritação. Ou seria raiva?
— Pela porta, por onde mais seria?
— Quer dizer que você arrombou a porta do meu quarto? – Ela respirava fundo e pesado.
— Arrombar é uma palavra meio pesada, não acha? – Voltou a se aproximar da porta de vidro fosco. – Eu usei a chave. E alias, você deveria tomar mais cuidado com as suas coisas, elas podem parar nas mãos erradas.
— Ando notando isso ultimamente. – Murmurou baixo e depois suspirou. Teria que se trocar com aquelas roupas mesmo, mas notou algo. Merda. – Será que você pode passar a minha... a minha é... c-calcinha.
— Como? Eu não entendi.
— A minha c-calcinha, Chat. – Suas bochechas queimavam.
— Ah sim. Sua calcinha. – Afastou-se da porta por um instante e logo voltou. – Não sabia que tinha calcinhas assim My Lady. – Ele analisava a peça. – De renda e pequenininha, tão sexy.
— M-me passa l-logo isso, Gato idiota. – Ela se encontrava vermelha até as pontas das orelhas. O loiro riu e passou a peça assim como tinha entregado as outras.
Vestiu-se mais do que de pressa. Não dava para bobear perto daquele loiro. Pronta, saiu com a toalha em mãos e o cabelo molhado. Encontrando o gato sentado no banco a frente da porta.
— O que eu te falei sobre ficar entrando aqui? – Ela o encarava com a expressão fechada.
— Adorei seu cabelo solto. – Ele estava com a cabeça apoiada sobre as mãos. – Devia deixa-lo assim mais vezes.
— Não desconverse...
— Ta bem, ta bem. – Suspirou e levantou. – Vim te buscar.
— O que? Nem ferrando. – Ela da um passo para trás.
— Bom, você não tem muita escolha... Já que eu... Te inscrevi em uma batalha. – O gato da um sorrisinho.
— Você fez o que? – Ela arregala os olhos, se aproxima dele e o segura pelo guiso. – Está louco? Eu não vou participar de batalha nenhuma. Não vou a lugar algum. – Seu olhar era firme contra o dele. Não desviada. Esse tipo de coisa o desconcertava. E era o que ele mais amava nela.
Amava?
Sim, amava.
Só a presença dela o inundava com uma sensação que ele não conseguia controlar. Quando ela estava perto dele, como Adrien, a timidez da garota fazia quere-lo provocar, ver o rosto tingir de vermelho, gaguejar, vê-la reagir a ele.
Quando se tornava Chat Noir, a provocava ainda mais, deixava-a irritada, só para ela olha-lo daquele modo. Fazendo o loiro sentir como se estivesse ligado secamente a uma corrente elétrica. Seu corpo inteiro formigava. A garganta ficava seca. O sangue subia a cabeça, tinia nos ouvidos, lhe enchia os lábios e dilatava as pupilas.
— Tarde de mais... – Tinha um sorriso no canto da boca. – Você vai nem que eu tenha que te carregar. – Aproximava o rosto do dela, enfrentando o olhar feroz da azulada.
— E pretende fazer isso como? Estamos no meio de uma academia cheia de alunos esqueceu? Eu posso muito bem gritar.
— Você sabe tão bem quanto eu que não tem tanta gente assim aqui pra te ouvir grita. – Aproximou a boca do ouvido da mestiça. – Apesar de que eu adoraria ter ver gritar. Só que por outros motivos. – E lhe mordeu a hélice da orelha levemente.
A azulada sentiu o rosto escaldar e emburrou o garoto para longe de si.
— O q-que pensa que e-está fazendo? – Ela continuava corada. Adorável na opinião do gato.
— Fica uma graça corada, Bugaboo. – Ele mantinha aquele sorriso maroto.
— Cala a boca, Gato idiota. – Ela resmungava com um pequeno pico se formando em seus lábios. O loiro ri.
— Vamos logo. – Aproxima-se dela que dá um passo para trás. – Você ainda precisa comer.
— E você pretende simplesmente entrar no refeitório assim. – Aponta o dedo para ele de cima a baixo.
— Na verdade eu pensava em comermos algo na rua mesmo. – O loiro se encaminhava para a porta do banheiro. – Vamos?
— Eu não disse que iria com você.
— Você sabe que vai. Se não já teria gritado, me batido ou qualquer outra coisa. – Ele falou e ela suspirou pesadamente. Ele tinha razão.
— Primeiro preciso passar no meu quarto. – Juntou sua toalha e pertences, seguindo em direção ao quarto.
Ela entrou com o garoto logo atrás de si, fechando a porta no final. Estendeu a toalha molhada sobre a cadeira e foi até o armário de Alya em busca da tinta, enquanto o loiro circulava os olhos pelo local, analisando o espaço. Foi andando lentamente até próximo a uma das camas, para se sentar enquanto esperava a mestiça se ajeitar.
— Se eu fosse você não sentava ai... – Ela o alertou. O garoto estava quase sentado na cama da avermelhada.
— Por que não? – Levantou a sobrancelha.
— É melhor nem saber... – balançou a cabeça e lhe apontou a outra cama.
— Fiquei com medo de perguntar...
Adrien mal havia falado com Nino desde ontem, quanto todos foram para suas casas. Só sabia que ele estava com a namorada. Sim, ele contou que havia pedido a avermelhada em namoro e que os dois comemoram a situação, só não havia dito onde.
Parando para pensar, o loiro começou a juntar os pedaços e estremeceu com o resultado que lhe veio à mente.
Aqueles dois não perdoavam nem os dormitórios. Ficou com pena da mestiça, que passou pelo constrangimento de saber. Ou pior, até ver a situação.
— Pronto. – A tinta vermelha já espalhada sob os olhos e testas. O gato adorava admira-la daquele jeito. O vermelho tornava seus olhos ainda mais azuis. Hipnotizantes.
A garota foi atrás de seus prendedores de cabelo. Com a ajuda da escova, passou a escova-los, com isso pronto, segurou uma mexa e passou a amarra-la, até a mão do Gato a impedir.
— Deixe solto. – Pelo espelho a sua frente, ela via o garoto segurar a mexa de cabelo com cuidado e remover o elástico de lá e coloca-lo sobre a cama da azulada. Passava os dedos entre as mechas unidas, trançando-os entre os fios negros azulados. O garoto estava distraído e ao mesmo tempo encantado com aquilo, com a macies e o perfume que ela exalava após o banho.
Deixou a mão escorrer até o fim dos fios, percorrendo as costas, até deposita-la na cintura da garota. Subiu o olhar e a encarou através do espelho. A visão dos dois juntos lhe aquecia o peito.
Ela era cerca de meia cabeça mais baixa do que ele, poderia facilmente se esconder atrás do rapaz. Sentia-se pequena perto dele.
— Por mais que eu adorasse ficar aqui com você, temos que ir. – Ele segurou a mão dela e guiou até a porta. Os corredores estavam vazios, o que era uma coisa boa. Mas eles estavam saindo antes do horário de recolher, ou seja, teriam que ter o dobro de cuidado.
— E como é que vamos sair daqui? – Marinette se lembrava da passagem pelo porão. Mas o único que tinha a chave do lugar era Nino, e bem, ele não estava ali.
— Pelo mesmo lugar que eu entrei. – Segurando a mão da joaninha, ele a guiava para o andar térreo e depois para os corredores mais ao fundo da academia. Existia um espaço ao ar livre nos fundo da instituição que era cercado por muros altos.
Descendo a maçaneta da porta, os dois saíram do prédio alto. Marinette havia ido lá pouquíssimas vezes. O tempo livre naquele lugar era algo escasso.
Existiam alguns bancos, grama, flores, árvores, mesas com guarda-sol, postes fornecendo luz, enfim...
— Por aqui. – Os dois se dirigiam para uma parte mais afastada dos muros. O gato olhava com cuidado para todos os cantos. – Cuidado com as câmeras. – Apontou para um ponto acima da cabeça onde se encontra o objeto de segurança.
Marinette engoliu seco. Quase nunca se lembrava da existência daquelas câmeras pela academia. Elas só eram permitidas nos lugares coletivos, como no refeitório e corredores. Mas nos dormitórios era estritamente proibido.
Com as costas praticamente grudadas na parede, a joaninha e o gato seguram até a lateral do prédio, ao lado de uma árvore. O gato aproximou-se da planta, impulsionando os pés sobre o tronco até conseguir alcançar um dos galhos e sentar-se nele. Olhou para a azulada e estendeu a mão.
Segurando a mão do loiro ela tentou fazer o mesmo processo, com os pés contra o tronco e uma mão em um galho, juntou-se ao gato. Continuaram a escalar até que os galhos estivessem na mesma altura que os muros. Engatinhando sobre eles, o gato alcançou os muros e sentou-se com uma perna de cada lado, ajudando a joaninha a fazer o mesmo.
Do outro lado do muro, havia uma lixeira industrial. Ele ajudou a mestiça a descer até que já estivesse segura e com os pés já sobre a tampa, para depois soltar-se do muro fazendo o mesmo. Já no chão, segurou a garota com as duas mãos na cintura e a desceu com cuidado. Ele sabia que ela não poderia ficar recebendo grandes impactos na perda. A garota ainda estava em recuperação.
— Finalmente livres. – Abriu os braços e sorriu para ela. – Bom, vamos comer alguma coisa...
Eles começaram a andar em direção ao centro da cidade, lado a lado. Algumas pessoas os encaravam, mas outras simplesmente ignoravam o fato de haver dois adolescentes mascarados andando pelas ruas. A joaninha estava um pouco envergonhada com a situação.
Os dois chegaram em um fast food e o garoto a arrastou para a fila consigo.
— Você não fica com vergonha das pessoas ficarem encarando? – Ela olhou ao redor. – Afinal parecemos dois idiotas comemorando o Halloween fora de época...
— Acho que já acostumei tanto com isso que já se tornou normal. – Sorriu para ela. – O que eu mais gosto daqui, dessa cidade, é que ninguém me conhece, então não vão me incomodar... Mesmo que eu resolva vir vestindo somente uma cueca. – Riu ao imaginar a situação.
Chegou a vez deles.
— Hey Chat Noir. – O atendente cumprimentou.
— E ai Lucca, como é que ta? – Trocaram um soco em cumprimento.
— Na mesma de sempre. – O garoto atrás do balcão ri. – O mesmo de sempre?
— Sim, só que dessa vez faz dois pra viajem. – A cabeça do loiro pendeu levemente na direção da joaninha.
O gato pagou e com a sacola na mão e as bebidas na outra, os dois saíram do local. A mestiça olhava para ele curiosa.
— Você conhece todo mundo, por acaso? – Ela pegou a bebida estendida por ele, enquanto os dois caminhavam.
— Todo mundo não. – Riu. – Mas algumas pessoas já estão acostumadas com a minha presença sem ficar fazendo perguntas. Simplesmente aceitam.
Enquanto caminhavam em direção ao galpão, que ficava a algumas quadras de distancia, a noite já se fazia presente. Os dois comiam os sanduiches e a batata frita, enquanto conversavam sobre banalidades, coisas como o tempo, a cidade, estudos...
O Gato nunca aprofundava os assuntos a respeito da vida pessoal, sobre quem ele era sem a mascara e a fantasia de gato. Era injustiça, pensava a azulada, afinal ele sabia quem ela era, o que fazia, e se bobeasse até mesmo como dormia.
— Chat, por que você não fala sobre você? – Olhou para ele com o copo quase vazio na mão.
— Mas eu falo sobre mim...
— Digo, sobre você sem a mascara, sem ser o Chat... Só você. – Ela olhou para o lado, para o loiro que tinha uma expressão séria no rosto.
— Não sei. – Suspirou. – Acho que isso não é uma mascara para mim. Do outro jeito é que é... – Ela continuava a encara-lo curiosa. – Eu posso fazer o que quiser quando estou assim, não preciso me preciso me preocupar com os outros ou manter uma imagem.
“As pessoas esperam muito de mim. Que eu tenha sucesso, mantenha uma boa imagem, que eu não falhe. Mas eu acho que isso não é o que eu quero para mim, entende. Eu quero poder me divertir com os meu amigos, fazer bobagens, sem uma pessoa normal alguns instantes.”
O loiro suspirou pesado.
— Então acho que esse é quem eu sou de verdade, não o outro. – Sorriu fracamente. – Eu chego a odiá-lo às vezes. – Riu sem humor.
Falar sobre Adrien, sobre ser Adrien Agreste o incomodava. Estava ali algo que ele realmente não gostava na vida. Mas queria que o pai se orgulhasse, então aceitava o que vinha para si.
A joaninha sentiu o coração pesar ao ouvir a confissão do loiro. Nunca havia imaginado o motivo que levava as pessoas a se fantasiarem e irem para o Miraculous, mas talvez Chat fosse o exemplo perfeito do por que todos amavam tanto aquele lugar. Lá podiam ser eles mesmo, sem mascaras, sem pressão, sem a realidade para atormentar.
Aquele lugar era casa dela. E aos poucos sentia que também estava se tornando a sua.
Colocou a mão sob a do gato e o olhou com um leve sorriso brotando nos lábio.
— Vamos para casa gatinho.
Os dois continuaram seu caminho pelas margens do Rio Sena, para dentro do portal para o País das Maravilhas.
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