Keep Holding On

12 Remember Me


Lembre de Mim

— O QUE DIABOS EU TÔ FAZENDO AQUI? – Lucy gritou, depois de empurrar Natsu de cima dela.

— ESSA NÃO! – disse o Dragneel olhando pra si mesmo debaixo do lençol. – NÃO ACREDITO QUE ISSO ACONTECEU?

— O QUÊ? – a loira olhou pra si mesma e constatou que ainda estava usando suas roupas. – Natsu, calma. Não aconteceu nada.

— ESSE É O PROBLEMA! – o rosado tinha uma expressão assustada.

— Huh?

— EU DORMI COM UMA GAROTA! EU APENAS DORMI COM UMA GAROTA! SEM FAZER NADA! – pôs as mãos na cabeça.

— Você é insano! – Heartphillia revirou os olhos.

— VOCÊ QUE É! Que droga! Meu pai disse que eu não poderia ficar com nenhuma garota enquanto eu não tirasse notas boas, mas não achei que eu fosse levar isso tão à sério! – disse irritado. – NO QUE ME TORNEI?!?

— Numa pessoa com sono? Nunca vi tanto mimimi na minha vida. Que bobagem você tá falando!

— Bobagem? – repetiu irritado, mas logo abriu sua expressão num sorriso. – Quer dizer que aconteceu algo?

— Claro... que não né, idiota.

O sorriso do Dragneel morreu. Ele se aproximou da garota, brincando com seu cabelo.

— Tem certeza? – seus lábios estavam próximos dos best friend da nossa protagonista principal. Ele desviava seu olhar da boca dela e de seus olhos. – E se acontecer agora? AI! – sentiu um soco na sua cabeça.

— Deixa de ser retardado. – o empurrou. – Tudo que aconteceu foi que fomos dormir assistindo filme SEM ESTUDAR NADA! Eu devia socar mais essa sua cara, palhaço.

— Tch, eu acho que vou voltar a ser virgem. Sinto meu BV voltando...

— Eu vou fingir que não ouvi isso, seu nojento. – sentiu uma tontura, quase a fazendo cair.

— Lucy!

Correu pra ajudá-la.

— Você comeu alguma coisa?

— Comi sim, um pouco no café da manhã.

— Café da manhã? Lucy, são quase oito horas da noite. – disse preocupado. – Isso foi ele, não foi?

— Do que você tá falando?

— Loke. Ele tá sendo abusivo com você.

— Não! Não, isso não é verda... – sua visão escureceu novamente. Natsu a segurou firme, deixou-a deitada na cama e puxou seu celular. – Tragam-me tudo que tiver pra jantar urgentemente! – gritou contra o telefone, enquanto caminhava de um lado pro outro.

Minutos depois, o jantar chegou. À princípio, Lucy não queria, mas foi só ver a refeição que começou a comer desesperadamente. O rosado sorriu, apoiando seu rosto na nas próprias mãos.

— O que foi?

— Nada. Você só... me lembra alguém.

— Isso é bom ou ruim?

— Os dois, eu acho. – sorriu timidamente.

— E por quê?

— Porque ela também não era minha.

Lucy forçou uma tosse, percebendo, então, o quanto já havia comido.

— Ah, não posso comer mais.

— Não pode ou não quer?

— Eu só... não posso. É uma coisa minha, nada demais.

— Loki tem algo a ver com isso?

— Claro que não tem. – disse, mas em sua testa estava escrito "MENTIROSA".

— Ok, vamos, eu te levo em casa.

x

Era só ficar sozinho que as memórias voltavam como um tiro. Era como se Lyon fosse teletransportado de volta a seu eu de 7 anos, vivendo nos subúrbios de Nova York, voltando pra casa após mais uma das apresentações de sua mãe. E falando em tiro, foi com essa memória que sentiu os estilhaços de vidro baterem no seu braço. Sua primeira preocupação: olhar pra sua mãe. O sangue inundava o carro. O pequeno Vastia sentia tudo sob o peso do olhar doloroso da sua genitora. Mesmo com uma dor insuportável, a mulher agarrava a caixa do seu violino. Outro tiro foi ouvido. O mundo havia parado para o garotinho. Ele urrava de dor, urrava de desespero, urrava temor. As lágrimas caiam de sua face dolorosamente. Era como se tivesse facas sendo enfiadas ao seu corpo enquanto todo aquele líquido escarlate escorria da boca de sua mãe.

— C-Cante para mim... uma última... vez... – a mulher suplicava num sorriso fraco.

— MÃE! FICA AQUI COMIGO, NÃO VAI, ESSA NÃO SERÁ SUA ÚLTIMA VEZ, EU PROMETO! – dizia desesperadamente segurando nas mãos frias de sua mãe. – Vamos sair daqui juntos, tudo bem? – outro tiro bateu de raspão no retrovisor do carro.

A mulher estava fraca demais pra responder, mas sorriu docemente, como sempre fazia. Mesmo o sangue manchando sua face não conseguia tirar a pureza de seu olhar, apesar de tudo. Lyon tinha a voz embargada pelo choro preso em sua garganta, mas começou a cantar. Fechou os olhos com força enquanto fazia carinho na cabeça de sua mãe, colocando pra fora todos os seus sentimentos numa tentativa falha de salvá-la. A dor que ele sentia e seu empenho em fazer sua mãe ouví-lo era quase palpável. Só abriu seus olhos quando terminou a canção, e avistou sua mãe tentar sorrir mais uma vez, embora soubesse que talvez ela não aguentasse.

— L-Lyon?

— E-Eu e-estou aqui, mãe.

— Nunca... pare de... cantar...

— Não precisa se esforçar para falar, mãe, vai dar tudo certo, você vai ver. E-Eu e você vamos cantar juntos no seu concerto, lembra?

— Eu quero que você cante... mesmo sem mim... eu vou partir, mas eu quero que você... eu quero que... você lembre de mim.

— M-Mãe...

O som das ondas do mar lhe trouxeram de volta à realidade.

— Imaginei que estivesse aqui... – uma voz familiar pôde ser ouvida, mas Lyon não olhou.

— É. – respondeu sem tirar os olhos do mar.

— Está tudo bem? – o Fullbuster caçula soou preocupado. – O encontro com a Meredy te fez ficar assim?

— Você sabia que ela estava aqui? – encarou o amigo.

— Erza me contou hoje de manhã. Imaginei que você tivesse se sentido mal de vê-la.

— E é por isso que está aqui?

— Sim! – respondeu rapidamente. Era apenas esse o motivo, Gray COM CERTEZA não estava se iludindo com o fato de talvez se encontrasse com a garota de seus sonhos (Juvia) na praia. – Como está se sentindo? – perguntou, olhando para o estojo de violino que o seu amigos tinha em suas mão. Lyon não respondeu. Em vez disso, apertou ainda bem a caia sobre seus braços. Podia se sentir puxado para aquela época novamente.

Um tapa. O pequeno Lyon (de agora 11 anos) sentiu o impacto do seu corpo pressionar o chão após ser acertado novamente por seu pai, que simplesmente destruíra toda a antiga sala de música de sua mãe.

— A MÚSICA A MATOU, VOCÊ QUER MORRER TAMBÉM?! EU PROÍBO MÚSICAS NESSA CASA! EU ODEIO CONCERTOS, EU ODEIO VOCÊ! – dizia enquanto espancava o garoto, o que já era bastante frequente. O homem se retirou da casa quando se deu por satisfeito. O garotinho levantou cambaleante. Se dirigiu até seu quarto, procurando debaixo da cama a caixinha com o violino de sua mãe. Com todo cuidado do mundo, abriu a janela de sua casa e a pulou, arrependendo-se em seguida, pois já tinha se ferido bastante por causa do seu pai.

— Lyon-san? – a voz de Meredy chamou-lhe a atenção. – Ele fez de novo?

Lyon desviou o olhar, sem responder.

Alguns minutos depois, Meredy limpava os ferimentos do garoto pálido.

— Você tem que fazer alguma coisa, Lyon-san, não pode ficar nessa. Com todo respeito, seu pai é uma pessoa horrível.

O menino deu uma risada nasal e se arrependeu em seguida porque a dor era enorme.

— Eu não sei se posso. E às vezes eu acho que mereço.

— Nunca diga isso! – a rosada disse com lágrima nos olhos. – Você não teve culpa do que aconteceu com sua mãe. Olha, se você quiser, pode morar com minha vovó e eu. Nós poderíamos ser felizes juntos. Como uma família.

— Como uma família de verdade? – um sorriso se formou no rosto do garoto. – Quer dizer que vamos nos casar?

— Eu não sei, não planejo casar no futuro, quero ser uma mulher de negócios independente e rica! – sorriu e então sussurrou, com o rosto todo corado: – Mas com o Lyon-san, eu posso casar. – abriu um sorriso. – Você pode cantar pra mim?

— Claro, Meredy-chan!

— Hoje é o aniversário do dia em que ele morreu, certo? – Gray perguntou quase como uma afirmação, sem olhar pro amigo.

— Sim.

— Você sabe que não pode se culpar por isso, não sabe? Você era apenas uma criança.

Lyon o olhou com um olhar dolorido. Gray era uma das poucas pessoas que ele pôde se abrir para contar sua verdadeira história.

— Eu sou um monstro. – disse e então sentiu os braços do seu amigos lhe envolverem. O abraço o fez querer gritar e chorar cada vez mais.

— O seu pai era um bêbado desgraçado e provocador de brigas. Por ser tão briguento, tinha diversos inimigos e gangues que lhe odiavam e juravam matá-lo ou matar sua família. Ele chegava bêbado em casa e espancava você, Deus sabe o que mais ele poderia fazer com sua mãe. O pior de tudo é que ele ainda era aclamado pela mídia por compor canções famosas que na verdade era sua mãe que fazia. Por causa dele, sua mãe e você sofreram um atentado e sua mãe acabou falecendo. Por causa dele, você tem essas cicatrizes, por causa dele, apenas dele. Você salvou duas vidas naquele dia.

Era pouco mais das seis da tarde quando ele chegou mais bêbado que nunca, destruindo os móveis da sala. Lyon e Meredy se olharam assustados com a cena que viram, pois normalmente, o homem chegava em casa em pouco mais de 11 da noite.

— O que essa garota faz aqui? E essa violino... eu não disse que não quero você cantando?!? POR QUE VOCÊ NÃO ME OBEDECEU? – jogou o garoto no chão, chutando sua barriga e pisoteando suas pernas.

— PARE! PARE, POR FAVOR! – Meredy tremia de medo, enquanto gritava.

— CALE A BOCA, SUA VADIAZINHA! – puxou o cabelo da menina e a jogou no chão. – AGORA VOCÊ VAI APRENDER A NUNCA MAIS... SE METER NA MINHA FAMÍLIA.

— PARE AGORA! – o homem se virou ao ouvir a voz do filho. Lyon estava agora em pé, ensanguentado, com cortes no rosto, segurando uma arma. Sabia bem onde seu pai a escondia, por isso foi rápido em pegá-la.

— ORA, ORA, ORA! O QUÊ VAI ASSUMIR O ASSASSINOZINHO DE MERDA QUE VOCÊ É? – deu um passo pra frente e Lyon ameaçou apertar o gatilho.

— NÃO SE MOVA! SOLTE ELA! PAI, VOCÊ PODE ME BATER O QUANTO QUISER, APENAS DEIXE ELA IR EMBORA, EU TE IMPLORO!

Meredy urrou de dor, após o pai do seu amigo puxar seu cabelo com força.

— ATIRA! ATIRA, ATIRA LOGO, VAI! – berrou. Lyon mordeu os próprios lábios, ficando com a visão embassada pelas lágrimas. – EU SEI QUE NÃO TEM CORAGEM!

— SOLTA ELA! SOLTA ELA AGORA OU ENTÃO...

— OU ENTÃO O QUÊ, SEU VERME? EU VOU ACABAR COM ESSA DAQUI E EM SEGUIDA VOU ACABAR COM VOCÊ!!! DESSA VEZ NÃO VAI SOBRAR NADA. – fez menção de abaixar as próprias calças. – ELA NÃO ME PARECE SER NADA MAL!

— NÃO! – a menina gritou, sentindo o homem se aproximar.

— EU DISSE PRA PARAR! – gritou, encostando a arma nas costas do homem e disparando o gatilho, acertando em cheio o peito do homem mais velho, por estar à queima-roupa.

— Você não tem culpa de nada. Você fez isso para se salvar, até a polícia comprovou isso. – disse, enxugando as lágrimas do amigo.

— Então por que me sinto tão sujo por isso? Eu sinto nas minhas mãos o sangue dele. Gray, eu segurei minha mãe até a morte e levei meu pai até ela. Eu devo ser amaldiçoado. Encontrar com a Meredy só fez esses sentimentos virem à tona novamente. Eu sei que ela não me culpa de nada e sempre acreditou em mim, mas eu não posso evitar em pensar como eu fiz mal para ela por ter me aproximado. – Gray ouvia atentamente. – Ao mesmo tempo que quero me afastar desses pensamentos, eu penso na minha mãe. No que ela queria para mim. No que eu prometi e no que me tornei. Eu sinto que preciso dar um tempo desse lugar, tomar distância daqui e tentar me aproximar da minha mãe.

— E o que te impede de fazer isso?

— Eu não sei. Talvez seja medo. Eu tenho medo de me arriscar. Tenho medo do que vão pensar, tenho medo de voltar para lá.

— E o que você tem vontade de fazer?

— Voltar pra Nova York por um tempo. Eu quero me aproximar da minha mãe novamente, eu quero tocar nos lugares que ela tocava, quero sentir suas mãos sobre a minha enquanto tocar piano. Mas...

— "Mas"?

— Eu fico apavorado só de fazer isso.

O moreno se levantou.

— Ok, eu te libero.

— Me libera do quê?

— Das suas atividades como membro do F4! – sorriu. – Você está livre para fazer o que quiser e tem nosso maior apoio.

— Mas eu sempre fui livre... – riu. – Mas ainda assim eu sei se...

— É o seu sonho, é a sua promessa. Você não vai querer cumprí-la? Não quer mostrar pra ela que você se lembra?

Lyon sorriu pro Fullbuster, respirando fundo o cheiro da água salgada.

X

.Dias depois, na casa do Dragneel, Lucy passava o sufoco que era ensinar alguma coisa pro idiota do Natsu.

— NATSU, VOCÊ...

— Eu????

— VOCÊ RESPONDEU CORRETAMENTE! – releu a prova novamente para verificar se estava certo mesmo, e constatou que o rosado finalmente tinha aprendido algo.

— AHHHHHHHHHH! – gritou animado, pulando junto com a loira. – Eu finalmente entendi alguma coisaaaaa! E tudo graças à você! – sorriu, levantando a garota no ar, que sorria do mesmo jeito. – Você é incrível! – a abraçou forte, depositando vários beijinhos nas bochechas dela.

— Que nada! O mérito é todo seu! – riu alto.

— Nós somos uma dupla e tanto e... – parou no meio de sua fala, sentindo seus dedos tocarem algo diferente.

— O que foi? Ai! – viu o garoto formar uma expressão séria no rosto, tocando na sua cintura.

— Lucy, isso... – levantou um pouco da blusa de Heartphillia, avistando uma cicatriz aparentemente recente. Sem jeito, ela abaixou rapidamente, se afastando depressa. – Você pode me falar a verdade. Isso tem a ver com...

— Huh, preciso ir ao banheiro. – mudou de assunto depressa e se dirigiu quase correndo ao local, deixando um Natsu desconfiado na sala. Ele sentou-se no sofá respirando fundo quando ouviu um celular notificando uma mensagem. – É o da Lucy...

Sem querer ser intrometido nem nada, ele apenas se aproximou do celular e avistou na tela que a mensagem era de quem ele já imaginava que fosse.

"Boa tarde, minha gatinha, espero que não esteja comendo como um porco. Não namoro gordas feias, você sabe, haha. Se achar que comeu demais, apenas rasgue isso pra fora do seu corpo, meu amorzinho. ♥"

E foi nesse momento que Natsu decidiu que iria acabar com aquele filho da puta.