Kaywal School
3 Primeira vez
Jimmy sentia um redemoinho dentro de seu estômago. Poucas vezes isso acontecia, porque ele não se importava de verdade com as coisas. Se precisava fazer o dever de casa, enganava a mãe com algum de seus truques e corria escadas acima, para ir brincar com Bomir. Se o pai chamava-o para dar-lhe algum sermão, fingia ter dor de barriga, e logo era dispensado. Mas, hoje, ele não podia usar nenhuma de suas artimanhas de menino levado. Teria que ficar na fila, juntos dos trezentos e pouco meninos e meninas, esperando sua vez de ser chamado. Estavam em um auditório gigantesco. As paredes colossais eram pintadas de cor marfim e nelas vitrais enormes deixavam o ar matinal entrar. O chão era coberto de carpete marrom. E as cadeiras todas continham um estofado vermelho-sangue. Os pais dos garotos aguardavam sentados, com sorrisos bobos nos rostos. Conversavam entre si, tentando conter a empolgação como quem tenta conter uma boa fofoca.
Era um momento de festa, de qualquer forma. Exceto para Jimmy e Bomir, ali parados, um ao lado do outro, em pé, em uma fila colossal, com certo calor e desconforto, graças suas vestes formais. Quer dizer, Bomir era um leãozinho bebê ainda, quarenta centímetros de altura e cinquenta de comprimento; ele não precisava usar roupa nenhuma, mas sentia o mesmo medo que Jimmy, pois, como seu fiel escudeiro, precisaria acompanhá-lo qualquer que fosse seu destino. Jimmy, por sua vez, fora obrigado a pentear o cabelo castanho e liso para o lado, tornando seu rosto de garotinho-de-treze-anos-de-idade-que-ainda-não-chegou-na-puberdade mais jovem ainda. Também o enfiaram dentro de um terninho azul com uma gravata vermelha, pois era um momento deveras importante em sua vida e sua mãe o obrigou a se vestir adequadamente.
“Que saco”, pensou Jimmy, entediado, passando os olhos na fila parada, de garotos da mesma idade que a dele. Todos pareciam desconfortáveis e ansiosos. A maioria já tinha sua companhia animal e eles descansavam aos seus pés, mas alguns seriam unidos naquele mesmo dia. Jimmy olhou seu leão dourado com apreço. Sua pelagem era como os raios de sol refletidos em um lago. Pequeno, mas valente. Lembrou-se de quando eles se juntaram. O pai e a mãe de Bomir moravam na casa de Jimmy desde antes de seu nascimento, pois eram os animais companheiros de seus pais. Bomir nasceu quando Jimmy tinha sete anos. Quando o leão completou três anos de idade, ataram os laços mágicos e desde então se tornaram companheiros inseparáveis. Os Animais e os Humanos foram inimigos por muito tempo. Depois de a grande Guerra, séculos atrás, resolveram firmar acordos de paz e se unirem contra a terceira grande raça, as Bestas. Desde então, são unidos por laços mágicos desde crianças, dividem o mesmo lar por toda a vida e compartilham das mesmas tradições, vivendo em harmonia.
Jimmy se recordava de sua infância quando escutou uma voz vinda de um microfone. Todas as pessoas da sala se endireitaram em um movimento involuntário. A sala pareceu prender a respiração por um momento. No palco do auditório, à frente das cadeiras, apareceu uma mulher de terno vermelho-escarlate, a mesma do holograma. Parecia ter cerca de cinquenta anos, cabelos loiros caindo em cachos sobre os ombros e uma postura de liderança.
– Sejam bem-vindos, meus caros! – a mulher anunciou, animada – Dentro de instantes começaremos a chamada dos novatos. Serão distribuídos em seus grupos e iremos para Kaywal! Pais, sintam-se honrados. É um momento de grande honra.
Jimmy sentiu outro calafrio acometer-lhe. Olhou para seus pais ali sentados, juntos aos pais de Bomir, e seus olhos marejaram. Não queria parar de morar com eles. Tinha apenas treze anos. Mas respirou fundo. Limpou os olhos como quem os coça e bocejou, para disfarçar. A mulher chamou os cinquenta primeiros da fila. Os chamados podiam ir se despedir dos pais, depois atravessavam uma grande porta de vidro, no final do corredor onde a fila esperava.
Jimmy não precisou se mover. Alis e Andre, seu pai, correram em sua direção, abraçando-o. A mãe agarrou sua cabecinha e a pressionou contra si, envolvendo-o em um aperto maternal. Jimmy sentiu seu rosto corar, pois sabia que todos seus colegas o observavam. Mas acabou sem dar importância. Abraçou-a de volta com todas suas forças. A seguir, fez o mesmo com seu pai. Era um homem magro e não muito alto. Usava óculos e se aposentou da carreira de Explorador para viver como jornalista. Por isso, olhava Jimmy, seu tão querido filho, com pena e preocupação – sabia o que o menino ia enfrentar, missões, selvas, desertos, treinamentos intensivos.
– Você vai ficar bem, filho – ele disse, fitando-o nos olhos com um sorriso que disfarçava seus reais sentimentos. – Eu te amo.
– Também te amo. Vou ficar bem. – repetiu, respirando fundo. Deu três pulinhos e balançou os braços, como quem se aquece antes de um exercício.
A fila andava e chegou a vez de Jimmy. Ele caminhou lentamente em direção a porta, sem olhar para TR;as. Não pretendia ter aquelas despdidas melosas. Era só uma semana até se verem novamente, pois, os meninos do Centro tinham permissão para voltarem para casa durante os finais de semana.
Sentia agora seu coração a mil e a energia tomar conta de seu corpo. Queria pular e berrar.
Berrar ele teve a chance, pois Bomir soltou um rugido. Todos os meninos pararam para olhá-lo. Ele vinha correndo em direção a fila. Tinha ido se despedir de seus pais e se distraíra, sem perceber que já haviam começado a se mexer.
– Aqui, Bomir! – Jimmy gritou do começo da fila. Ficou na ponta dos pés e acenou, com o braço estendido. O leão virou a cabeça naquela direção. Sorriu e correu, galopando. Não parou ao chegar junto de Jimmy, mas continuou reto, atravessando a porta de vidro. O menino precisou correr para segui-lo. Todos da sala os encaravam, indignados e com certa reprovação ou curiosidade. Principalmente a mulher no terno vermelho, que sorriu.
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