Katekyo Gangue Reborn
3 Um pedido de ajuda
Notas iniciais
Em uma área afastada do centro da cidade. Uma área dominada por galpões velhos que já não tinham mais utilidade. Uma área sob controle de uma das inúmeras gangues de Namimori.
Embora isso funcionasse na teoria, na prática não era bem assim. Territórios não tinham valor apenas decorativo. Eles valiam pelo que havia neles, logicamente quanto mais dentro da cidade, mais esses territórios valiam, e mais eles eram disputados.
E a área dos galpões abandonados estava longe de tudo. Era uma área inútil que ninguém tinha interesse. Mesmo assim ela se transformou oficialmente em território controlado quando uma gangue reivindicou posse sobre ela.
Essa gangue era conhecida como a Família Bovino. Namimori havia se tornado um lugar repleto de gangues, felizmente a maioria delas não agia sob a luz do sol. Assim, havia gangues de todos os tipos e historias. Embora fosse pouco provável que alguém de fora as conhecesse.
Mas, mesmo entre as gangues, o nome Bovino não era conhecido. Afinal tratava-se de uma gangue menor com apenas um punhado de membros, que em sua maioria eram apenas jovens desocupados brincando de gangue e que reivindicaram um território que fora propositalmente ignorado. Alem disso, eles nunca entraram em disputa com nenhuma outra gangue, então era natural que fossem completamente ignorados.
Por isso, quando outra gangue decidiu que queria o território deles, a Família Bovino foi pega de surpresa.
A invasão não durou nem 20 minutos. Os membros foram rendidos. A velha poltrona de veludo malhado estava ocupada pelo líder dos invasores.
“Mesmo sendo uns ninguéns, vocês até que estão bem instalados aqui, hein.” Diz o chefe dos invasores observando a sala que funcionava como escritório do líder da Bovino.
Apesar da sala estar um caco, foram trazidas muitas coisas para tornar o lugar mais agradável. Alem da já mencionada poltrona, havia também um frigobar, um aparelho de som de ultima geração e até uma mesa de sinuca. Do lado de fora, um ar condicionado que ainda não havia sido instalado.
“O que você quer?” Pergunta Lambo, o líder da Bovino.
Lambo teve a idéia de começar uma gangue porque o colégio em que estuda funcionava como o quartel de uma das mais antigas gangues de Namimori, a Vongola. A principio ele pensou em se juntar a eles, mas decidiu que a vida de membro de gangue era muito difícil.
Assim ele reuniu alguns colegas e criou sua própria gangue. Como ela funcionava apenas para brincadeira, eles nunca participaram dos conflitos, mas queriam ter a sensação real. Então usaram uma área afastada da cidade, que nenhuma gangue tinha interesse como sua base e passavam as noites lá, se divertindo.
Mas ele nunca teria imaginado que essa vida boa iria acabar um dia.
Agora, ajoelhado diante da mesa que ele usava, com dois capangas mal encarados segurando seus ombros, suas mãos amarradas nas suas costas e alguns de seus colegas atrás de si. Alguns deles nunca nem estiveram em uma briga de verdade. Era natural estarem apavorados.
Lambo gostava de historias sobre gangues. Assistia filmes e lia mangás a respeito. A coisa que ele mais gostava era como o chefe era sempre uma pessoa calma e inteligente. Ele realmente se esforçou para ficar parecido com a imagem que tanto admirava.
Por isso, mesmo nessa situação ridícula, ele tentava aparentar calma.
A verdade é que estava morrendo de medo. Não sabia se eles eram malucos ou coisa pior. Podiam matá-los ali mesmo e levaria quase uma semana até que seus corpos fossem encontrados. Ele queria chorar, se atirar no chão e implorar por misericórdia, mas em seu orgulho besta, teimava. E mantinha a fachada tranqüila.
“O que eu quero? Tudo. Tudo isso aqui. Você realmente achou uma ótima área. Afastada, ninguém vai querer esse monte de lixo. Vocês moleques montaram um parque de diversão e eu vou ficar com ele. Meus rapazes as vezes precisam relaxar e aqui é um ótimo lugar.”
“E se eu me recusar a entregar o lugar?”
O homem sorriu. Ele se levanta da poltrona, da a volta na mesa, apanha um soco inglês dentro da jaqueta e da um murro o rosto de Lambo.
Alguns dos colegas de Lambo desviam os olhos. Outros gritam seu nome. Eles estavam desesperados e não tinham a compostura dele.
Os capangas que o seguravam o põem de volta na posição em que ele estava.
“Ta achando que isso aqui é filme, é? Ninguém vai cair nessa atuação de machão! Vocês moleques riquinhos entraram numa roubada e não vão escapar. Eu gostei do que fizeram com o lugar e quero ver ficar melhor. Vocês vão investir nesse playground pra gente, entenderam?”
Lambo cospe na cara do homem. O homem sorri ainda mais. Ele estala os dedos. Os dois capangas agarram sua cabeça e o atiram com tudo no chão. Mesmo ajoelhado, sem poder contar com suas mãos aquilo doeu. Pra piorar o homem agora pisoteava sua cabeça.
“Acha que vai se safar dessa assim que chegar em casa, é? Eu sei onde vocês estudam seus merdas. Sei onde vocês moram! Se acham que vão escapar dessa cês tão muito enganados!”
No dia seguinte, no Colégio Namimori, Lambo assistia as aulas sem interesse. Seu rosto estava todo esfolado. O lado direito estava coberto por gaze, sua testa estava enfaixada e seu braço esquerdo descansava numa tipóia.
Ele encarava o quadro negro, mas sua cabeça estava em outro lugar. Ele estava tentando achar uma saída daquela situação. Uma forma de salvar a si mesmo e seus amigos. Mas nada lhe vinha a mente. Não podia contar com a policia. Eles não tinham como lidar com as gangues, e mesmo que pudessem como ele explicaria o fato de estarem naquele lugar isolado?
Por mais que tentasse, Lambo não achava uma saída.
No fundo da sala, havia uma garota miúda e encolhida. Ela apoiava os dois pés no assento da cadeira e só olhava para seu amigo que chegara todo quebrado.
Como ela entrara atrasada não tivera tempo de perguntar o que aconteceu. E também deixara o celular em casa, por isso, nem uma mensagem poderia enviar. Ela apertava o caderno entre os dedos, quase rasgando uma folha e tacando na cabeça dele.
Mas se o professor a pegasse ela estaria em apuros. Ela costumava se destacar pela irregularidade com que chegava ao colégio, pelos óculos gigantes que usava, pelo japonês com um forte sotaque, por trabalhar numa loja de lamen, mas o que importava era que ela tirava boas notas. E qualquer chance de ir parar na diretoria faria com que ela fosse suspensa de seu trabalho.
Por isso, assim que o professor deu por encerrado as aulas, ela se levantou na cadeira, ignorando o barulho desagradável que fez ao ser arrastada no chão e os olhares dos colegas. Ela correu até onde Lambo estava sentado. E lá estava ela, debruçada na mesa dele.
“O que aconteceu?” Ela perguntou fazendo questão de olhá-lo nos olhos.
Lambo faz um som de surpresa.
Ele estava tão concentrado tentando encontrar uma solução que nem mesmo havia reparado quando I-pin entrou na classe.
“Caí da escada.” Ele diz, desviando os olhos, a primeira asneira que conseguiu pensar. Falar bobagem era um de seus pontos fortes e se ele era capaz de soltar uma mesmo nessa situação, era porque isso estava enraizado em sua personalidade.
I-pin suspira aliviada. Achando que ele havia apanhado na rua por andar chamando atenção com aquelas roupas.
“Lambo seu descuidado, você precisa olhar por onde anda”. Ela ficou uma expressão séria. “Aposto que você estava correndo e nem viu a escada que devia estar bem embaixo do seu nariz”.
“É... alguma coisa assim.” Responde, dando uma risada sem graça. A última coisa que Lambo queria era deixar I-pin preocupada.
“Também não me assuste desse jeito, eu achando que ia precisar caçar alguns assaltantes”. Ela da um longo suspiro e volta para seu lugar.
O pior de tudo é que isso era bem capaz de acontecer mesmo. Lambo jamais duvidava que I-pin fosse capaz de fazer qualquer coisa que ela dissesse que faria. Ele acompanhou o progresso que ela fez ao longo dos anos e mesmo não sendo nenhum especialista em artes marciais, ele sabia que ela era forte. Muito forte.
Durante a hora do intervalo, Lambo decide sair da sala para arejar as idéias. Por algum motivo o ar da sala de aula parecia mais pesado que o de costume.
Andando sem rumo, ele pega os fragmentos de conversa dos alunos que passavam.
“... e derrotou O Queijão em poucos segundos...”
“Definitivamente, esse pessoal assiste anime demais... espera um pouco. Queijão? Esse não era?”
Por mais que sua gangue fosse de brincadeira, Lambo não estava totalmente por fora do que acontecia no mundo noturno de Namimori. Qualquer um que entrasse em uma gangue sabia os nomes das pessoas que deveria evitar ao máximo e o Queijão era um deles.
“Ele disse, derrotar o Queijão? Em poucos segundos? Quem foi o monstro?” Temporariamente esquecendo a situação precária em que se encontrava, ele segue os dois, ouvindo fragmentos da conversa.
“... ontem a noite... ponte... mandou todo mundo voando... 10º...”
“10º...? Quer dizer o Décimo Vongola? Eles escolheram o 10º? E o cara venceu O Queijão??”
Afinal Lambo se interessava por gangues. Ele continua a seguir os caras, até eles pararem e cumprimentarem um certo trio que vinha na direção oposta.
““Bom dia, chefe!””
“Aha, então o cara deve ser um desses três.” Lambo reconhece dois deles. Já eram membros da Vongola, mas o terceiro era um baixinho com jeito de fracote que ele nunca viu antes.
“Esse não é mesmo... então um dos dois... quem?” Ele passa a seguir o trio.
Lambo segue os três até o pátio, mas uma hora eles param.
“Você ta sentindo esse cheiro?” Pergunta Gokudera farejando o ar.
“Cheiro de leite?” Pergunta Yamamoto.
“Merda... o vento mudou.”
Os dois percebem Lambo, escondido atrás de uma arvore.
“O que você quer com a gente, otário?” Gokudera já saca suas dinamites, pronto para mandar tudo pelos ares.
“N-n-n-não, não é nada não!” Ele tenta andar para trás, mas tropeça em uma raiz e cai no chão. “Eu só queria saber quem era o novo chefe de vocês, só isso, eu sou apenas um fã, ninguém importante...”
Dessa vez ele não se lembrou de agir de forma desafiadora. Talvez porque o olhar de Gokudera fosse intimidador demais. Ou talvez porque ele tinha explosivos com ele.
“Huh?!”
“O 10º é ele.” Responde Yamamoto, apontando para Tsuna.
“Gokudera-kun guarde esses explosivos, por favor”. Pede meio aterrorizado. Agora ele sabia quem era o responsável pelos “fogos de artifício” nas noites em que voltava para casa. E então percebe que Yamamoto estava apontando para si e ele se lembra que ele era o 10º. Ainda não havia se acostumado com aquilo tudo. “O-oi”. Tsuna da um sorriso amarelo e coça a cabeça meio sem jeito.
A expressão de Lambo era difícil de explicar. Parecia uma mistura de muitas coisas e o resultado era algo estranho. Definitivamente, ele nunca teria imaginado que aquele carinha era o chefe da Vongola. Muito menos que teria derrotado um dos cinco caras mais fortes da cidade.
“Por que a curiosidade?” Pergunta Yamamoto tentando quebrar o silêncio.
“Ah... eu ouvi os boatos...” Lambo responde com uma risada sem graça.
“Não sei o que ouviu.” Diz Gokudera guardando as dinamites. “Mas é verdade. Esse é nosso incrível chefe, capaz de qualquer coisa.”
“Gokudera-kun, não exagere”. Por dentro Tsuna fazia um carão. “Que tipo de boatos estão espalhando por aí?”
“Isso é incrível mesmo...” Lambo se levanta. “Então, até mais.” E se afasta rapidamente.
“Até.” Yamamoto se despede.
“Sujeitinho estranho...” Diz Gokudera sem saber ao certo o que pensar do garoto.
Tsuna olha rapidamente na direção em que Lambo havia sumido sem saber se deveria dizer alguma coisa. Afinal ele não estava querendo saber quem era o 10º? Talvez estive começando a ser marcado como alvo.
“Nee, como eu posso falar com o Reborn?” Perguntou de repente, lembrando-se que ainda não havia entendido algumas coisas.
“Hmm... isso é um problema.” Diz Yamamoto com uma expressão pensativa. “Porque a gente não tem nenhuma forma de contato com ele.”
“Reborn-san sempre aparece quando é necessário, ou quando quer. Ele não vem se não for urgente.” Completa Gokudera. “Afinal ele não é um membro da Família.”
“E-ele não é um conselheiro externo? Nós não deveríamos então ter uma forma de contato?”
“Bom, ele deve ter sua própria vida pra cuidar. Além da gente.” Diz Yamamoto.
“Isso é verdade...” Tsuna pela primeira vez pensou em Reborn como uma pessoa, além de considerar seus próprios pensamentos egoístas. “Mas ele deve aparecer de novo, ne? Eu digo, esses dias”. Ele ignorou o fato de que Gokudera já havia dito que senão fosse urgente, ele não apareceria.
“Se for necessário.” Diz Yamamoto, despreocupado.
“Hehehe Reborn, no que você me meteu?” Pensa Tsuna desesperado.
Lambo correu o máximo que suas pernas permitiram. Quando deu por si, ele estava na cobertura.
“Como eu vim parar aqui...?” Ele pergunta para o nada.
Ele se aproxima da grade, observando o pátio. De onde ele estava, dava pra ver o local onde Tsuna, Yamamoto e Gokudera costumavam almoçar.
“Aquele Vongola parece um cara legal...” Lambo suspira. “O que eu estou fazendo...? Isso não é hora de ficar pensando besteira...”
Mas, durante o resto do dia, Lambo não conseguiu pensar em nada. Ele sai da sala sem nem se despedir de I-pin.
I-pin que terminava de fazer umas anotações, ergue os olhos, mas antes que pudesse chamar Lambo, ele já havia deixado a sala.
“Wah...” Ela encolhe os ombros e volta a olhar para as anotações no caderno. Voltando à tarefa de por a matéria em dia.
Na manhã seguinte, ao sair de casa para ir ao colégio, ele repara um envelope suspeito meio pra fora de sua caixa de correio. Ele apanha o envelope e o abre. A carta era extremamente simples, mas muito preocupante.
Nós sabemos onde você mora.
Ele amassa a carta. Não era um blefe, eles realmente tinham intenção de persegui-los. A coisa ficava feia.
Durante a hora do intervalo, ele se reúne com alguns de seus colegas da Bovino.
“Vocês também receberam uma carta assustadora?”
“Eles vão mesmo acabar com a gente.”
“Vamos falar com a polícia.”
“Seu idiota, a polícia não pode nos ajudar.”
“Vamos falar com o Comitê de Disciplina, eles tem força e podem agir.”
“Tá maluco? Aqueles caras são piores do que as gangues.”
“Não tem jeito... não tem jeito... nós vamos morrer!”
“Ainda é cedo pra dizer isso.”
“Vamos nos render.”
A sugestão de Lambo cala o resto do grupo.Ninguém imaginava que Lambo iria sugerir algo desse tipo. Todos começam a falar ao mesmo tempo, alguns não aceitavam a idéia, outros se conformavam.
“CALEM A BOCA UM INSTANTE!” Grita Lambo dando um murro na parede. “Eu disse para nos rendermos, mas não disse para quem.” Havia um sorriso em seu rosto.
“O que quer dizer?”
“Guerra entre gangues não são completamente caóticas. Especialmente aqui em Namimori. Existem certas regras a serem cumpridas.”
O grupo já sabia a tempos que Lambo era fanático por gangues e sabia mais a respeito do que qualquer um deles, mas eles não tinham a mínima idéia do que ele estava armando.
“Escutem bem o meu plano.”
Na hora da saída, a Família Bovino segue em massa para o portão, formando duas linhas ao redor. Os alunos que saiam viam aquele grupo estranho e imaginavam que algo ruim estava para acontecer.
Como eles deixavam todos passarem, ninguém reclamou. Ao avistarem Tsuna, Lambo da um passo a frente, ergue o braço e grita. “Vongola! Eu o desafio!”
“EH!?” Tsuna basicamente salta para trás. “P-por quê?” Ele abraça a mochila.
“Pra trás, 10º. Eu cuido desses palhaços.” Diz Gokudera dando um passo a frente de Tsuna, com uma mão dentro do casaco, buscando as dinamites.
“Saia do meu caminho, peixe pequeno.” Grita Lambo. “Meu assunto é com o chefe, não com o capacho.”
“P-peixe pequeno? Capacho...?” Várias veias saltavam na testa de Gokudera.
“Ah o que eu faço? E se esse cara for perigoso? Espera, alguém pode ser mais perigoso que o Gokudera-kun? Mas e se o Gokudera-kun machucar esse garoto? Ele não parece muito forte”. Tsuna coloca a mão sobre o ombro do amigo.
“Essa será uma briga entre chefes, eu Lambo da Família Bovino, o desafio, Vongola!” Diz de forma convincente, passando o braço pela tipóia, a descartando.
“Heh, então já era.” Diz Gokudera. “Ninguém pode vencer o 10º! Né?” Ele se vira para Tsuna com um sorriso iluminado.
“He...hehehe...” Tsuna da um sorriso completamente torto. “Reborn você vai me ajudar agora?”
“Vamos! O vencedor irá ficará com o controle da outra família! Venha!” Lambo continuava com sua bravata.
“Acaba com ele, chefe!” Alguns membros da Vongola estavam se juntando. Yamamoto e Ryohei, que estavam começando as atividades de seus clubes e se juntam também.
“Q-que regra é essa? Eu nunca ouvi falar!!” Tsuna tentava não se desesperar por completo. Ele olhava para os lados, procurando por algum sinal de Reborn.
“Esse cara não vem atacar? Nesse caso.” Lambo faz uma imitação porca da pose de defesa de um boxeador e avança devagar.
Como seu plano não envolvia derrotar Tsuna, mas sim perder para ele, Lambo não precisava levar a luta a sério. Na verdade não tinha intenção nenhuma de lutar. Iria se jogar no chão assim que levasse o primeiro golpe.
“Qual o problema, Vongola? Com medo? Anda, em guarda!”
“O que eu faço? O que eu faço?” Tsuna fecha as mãos em punhos. Ele não sabia brigar. Ele não sabia chutar, não sabia socar e tão pouco sabia se defender. Ele não praticava esportes e não tinha coordenação para essas coisas.
É claro que ele tinha alguns jogos de luta, lia mangá e assistia alguns filmes nos tempos vagos. Ele havia se lembrado de algo que assistira num filme... O básico das lutas. Com as mãos fechadas ele as posiciona erradamente na altura do peito.
“O que ele pensa que esta fazendo?” Ryohei pensa em voz alta. Não era preciso lutar boxe pra saber que aquilo estava completamente errado.
“Talvez ele queira que o adversário de o primeiro golpe.” Indaga Yamamoto com uma mão no queixo.
“Espírito esportivo! Boa, gostei. Boa, Sawada!” Grita Ryohei tomando nota mental de se lembrar dessa tática.
“O que diabos...?” Se pergunta Lambo.
Ao contrário de Tsuna, Lambo já tinha alguma experiência em brigas, embora não estivesse nem perto de gente como Gokudera, Yamamoto e Ryohei. Na verdade ele até sabia uma coisa ou duas sobre artes marciais observando I-pin. Aquilo não fazia sentido nenhum.
“Esse não é o cara que derrotou duas gangues só essa semana?”
Lambo resolve testar a sorte e da um soco, propositalmente lento, mirando do lado do rosto de Tsuna. Apesar de ser o Dame-Tsuna, até mesmo ele era capaz de se defender daquilo, no entanto algo parecia muito errado.
Se Lambo estivesse levando aquilo a sério como parecia estar a poucos minutos atrás, Tsuna já teria voado no chão. Tsuna apenas se desvia e decide dar um soco em seu adversário, ainda que suas mãos estivessem tremendo e sua postura fosse patética.
O golpe de fato fora patético e provavelmente não teria atingido nem uma criança do primário, mas para Lambo já era o suficiente. Ele deixa o soco conectar e se atira para trás, mergulhando de costas no chão de forma exagerada.
Os membros da Bovino correm até Lambo, também de forma exagerada. Eles estavam a par do plano e tinham que fazer sua parte.
Da parte da Vongola, o espetáculo lamentável era comemorado como se fosse um combate épico. Eles gritavam, aplaudiam e assoviavam.
Para o resto dos alunos que se deram ao trabalho de assistir aquilo, aqueles foram cinco minutos desperdiçados de suas vidas e alguns deles tinham vontade de bater em Tsuna e Lambo de verdade só de raiva. Felizmente nenhum deles seguiu com a idéia e seguiram para seus destinos.
“Chefe, fala comigo, chefe!”
“Você precisa ser forte!”
“Desculpa camaradas... eu não consegui...” Lambo seguia com seu teatrinho que parecia mais um drama de quinta.
“C-como ele caiu?” Tsuna fica olhando para o punho fechado. “Eu não senti nada de diferente, então o que aconteceu?”
Do alto do prédio, I-pin sacudia a grade com violência.
“Lambo seu inútil o que você pensa que está fazendo!?” Ela grita para ninguém.
“Oe, aqueles idiotas são os seus amigos?”
I-pin se vira assustada e da de cara com a expressão de poucos amigos de Hibari.
“N-não senhor!” I-pin basicamente sai correndo, deixando um Hibari desgostoso ao ver aquela bagunça na frente de seu colégio.
“Sawada Tsunayoshi, kamikorosu”. Murmura estreitando os olhos.
Tsuna sente um calafrio e olha para trás, mas não havia ninguém.
“Heh! É isso que acontece quando se desafia o 10º.” Diz Gokudera com orgulho.
“Como prometido.” E Lambo corta o teatrinho, se ajoelhando. Seus companheiros imitam o gesto. “Nossa Família Bovino agora está em suas mãos.”
“Q-que?” Tsuna olha para Yamamoto e Gokudera esperando por alguma ajuda.
“Até parece que precisamos de uns fracotes como vocês! Sumam da nossa frente!” Grita Gokudera.
“Espera um pouco, nós estamos precisando de gente nova.” Intervêm Yamamoto.
“Fracotes não vão acrescentar nada, pior vão nos atrasar!”
“Mas foi um desafio justo.” Diz Ryohei. “É extremamente justo ganhar o troféu depois de uma luta.”
“Isso não é uma partida de boxe, imbecil.”
“O que você acha, Tsuna?” Pergunta Yamamoto.
Os três se viram para ele.
“Você é o chefe. A decisão é sua.”
“Isso me parece correto.” Diz Ryohei.
“Se o 10º aceitar... eu também aceito.” Gokudera se acalma.
“E? Eh!? Por que eu?” Tsuna já estava começando a ficar contente, pois não estava entendendo muita coisa.
“Por favor, Vongola. Você é o único que pode nos ajudar.” Lambo implora, encostando a cabeça no chão. Seus companheiros o imitam.
“Eu...” Tsuna fica olhando para aquelas pessoas. Mesmo que elas precisassem de ajuda, o que ele o Dame-Tsuna poderia fazer? Ele automaticamente se lembra das palavras de Reborn e também de quando ele apontou a arma e atirou sem hesitar. “Eles não parecem ser más pessoas e também esse Lambo nem lutou a sério, ele se deixou vencer. Porque eu posso ajudá-los, porque o Reborn disse que eu posso ajudá-los...” Ele encara a própria família. “Nós iremos ajudá-los”. Diz sem muita firmeza. Sem que aquilo soasse como uma ordem. Ele não queria mandar em ninguém.
Yamamoto assente.
“É isso ai, Sawada!” Comemora Ryohei.
“Se é o que o 10º quer.” Resmunga Gokudera estalando a língua.
“Agora... O que nós temos que fazer?” Pergunta se virando para Yamamoto. Com medo de que tivesse alguma cerimônia bizarra ou algo do tipo.
“Por que não pergunta pra ele?” Sugere Yamamoto indicando Lambo, que já estava de pé.
“Muito obrigado, Vongola. Muito obrigado!” Diz Lambo agarrando as mãos de Tsuna e as sacudindo em um exagero de cumprimento.
“D-de nada, mas... O-o que nós devemos fazer?” Pergunta ainda sendo sacudido.
“Venham comigo, eu explico no caminho. Ah, melhor trazer a Família, só por precaução.”
“Por precaução?” Tsuna olha para os demais membros e da um sorriso sem graça, meio sem saber o que dizer por ter que levá-los para aquela situação. Bom, não é como se ele pudesse fazer qualquer coisa sozinho.
Lambo e a Bovino guiam a Vongola até onde ficava seu território. Por ser uma área afastada do centro da cidade, quando eles chegam lá, o céu já tinha estrelas. O enorme comboio de gente aumentou durante o caminho, já que membros de ambas famílias que não estudavam naquele colégio, se juntaram a eles.
No caminho, Lambo explica decide contar a historia toda. Tsuna parecia um sujeito decente e confiável e ele se sentia meio culpado por despejar seus problemas sobre o garoto.
“Vocês usaram isso aqui como território?” Pergunta Gokudera, que fez questão de demonstrar ao longo do caminho que não ia com a cara de Lambo.
Se Tsuna havia aceitado Lambo na família, ele só podia acatar com a decisão, mas isso não significava que ele tinha que gostar do sujeito. Se dependesse dele, todos da Bovino seriam soldados rasos, do tipo que sempre é mandado pra frente, só pra apanhar.
“Uau, é tudo tão legal”. Tsuna não conseguia parar de observar o ambiente, de alguma forma parecia meio reconfortante. “Por que tem uma mesa de sinuca?” Acabou por fazer uma careta ao imaginar Yamamoto, Ryohei e Gokudera numa partida. Não que ele entendesse alguma coisa para criticar, mas do jeito que eles eram, Tsuna via claramente o resultado.
“Se é pra ficar, é melhor ficar confortável.” Diz Lambo de forma simples.
Do lado de fora, alguém grita.
“Chefe, eles estão aqui!”
Tsuna recua alguns passos assustado. Ele não podia acreditar que estava naquela situação de novo.
“Bom, é nossa hora, certo?” Pergunta Yamamoto jogando o taco sobre o ombro.
“É isso ai!” Agita Ryohei. “Vamos acabar com eles ao extremo!”
“N-nós vamos?” Tsuna basicamente estava agarrado à mesa.
“Vamos mostrar do que somos capazes, 10º!” Gokudera tenta animá-lo.
Tsuna sentindo as pernas incrivelmente bambas, acaba caindo sentado no chão, ainda com as mãos segurando na ponta da mesa.
“““10º! Tsuna! Sawada!”””
Os três se aproximam de Tsuna.
“N-não se preocupem”. Ele tenta se levantar, mas suas pernas não colaboravam. Mesmo que já tivesse visto o grupo assustador na ponte. Um ataque quando ninguém esperava o apavorava por completo.
Do lado de fora uma voz começa falar de forma alta e autoritária. Não era possível distinguir as palavras, mas o tom agressivo estava bem audível.
“Aqueles idiotas vão começar sem a gente.” Resmunga Gokudera.
“Consegue ficar de pé?” Pergunta Yamamoto ajudando Tsuna a se por de pé e passando o braço do pequeno líder por seus ombros.
“Me desculpem”. Ele pede abaixando o rosto, envergonhado.
“Você comeu direitinho no almoço?” Pergunta Ryohei.
“H-hai...” Tsuna responde com uma expressão meio incerta. Obviamente porque ele sabia que o almoço de nada tinha a ver com o fato de não conseguir andar.
Yamamoto começa a andar em direção a saída. Gokudera e Ryohei seguem ao lado.
Do seu canto, Lambo começa a se perguntar se tinha tomado a decisão correta.
Ao chegarem à rua, a pancadaria já havia começado. Pelo visto o pessoal que ficou de guarda tinha o pavio curto demais.
“Bom, assim fica mais fácil.” Diz Ryohei estalando os dedos. “Menos conversa, mais ação.” E se junta à bagunça, distribuindo socos nos adversários.
“Yamamoto o que nós fazemos?” Tsuna pergunta assustado ao ver aquele caos.
“O que viemos aqui fazer, certo.” Diz deixando Tsuna e apertando o taco entre os dedos. Ele e Gokudera partem pra briga.
“Ei, vocês vão deixar que eles façam todo o trabalho?” Grita Lambo para seus companheiros. “Aqui é nosso território, e nós vamos defendê-lo!”
Eles gritam e logo a Família Bovino está na briga também.
“O que eles estão fazendo?” Tsuna se levanta, mas apenas cai de joelhos. “Isso está errado, isso tudo está errado”. Ele fecha os olhos, amargurado. “Reborn!”
“O que você pensa que está fazendo?” Vem a voz grave e levemente debochada de Reborn. Ele estava alguns metros atrás de Tsuna, sob a luz de um poste.
“Reborn!” Tsuna se vira com um sorriso de esperança. “Onde você estava?”
“É patético ver você no chão feito uma menininha.” Ele ignorou completamente a pergunta.
“Mas eu não posso fazer nada. Não foi você quem me fez derrotar aqueles caras? Aliás, o que foi aquilo tudo? Você atirou em mim! Não era pra eu estar morto?!” Tsuna começa a falar até se esquecendo de respirar.
“Se tem tempo para ficar reclamando então lute.” Diz sacando a pistola. “Com seu ultimo desejo.” E novamente acerta um tiro na testa de Tsuna.
“Ah...” O corpo de Tsuna é arremessado. “Se eu tivesse uma segunda chance eu gostaria de ter ajudado a todos.” E pouco antes de atingir o chão ele levanta com uma expressão furiosa. Testa franzida e punhos fechados. “REBORN!” Ele grita em chamas. “Eu vou proteger a todos com meu ultimo desejo!!” E sai correndo tão rápido que chegava a levantar poeira.
Mais ou menos como na batalha da ponte, Tsuna sai atropelando quem chega perto. Porem o inimigo dessa vez nem se comparava ao daquela noite e acaba sendo dominado rapidamente.
“Mas que diabos... que merda é essa?!” Grita o líder dos invasores.
“Esses são os meus reforços.” Anuncia Lambo.
“O que você pensa que vai conseguir com isso, Bovino!”
“Bovino? Não...” Ele diz balançando a cabeça. “Essa é a Vongola.”
“Vongola? A-aquela Vongola? Os tais que derrotaram o Queijão, aquela Vongola?!”
Lambo da um sorrisinho. Ele corre, gira o corpo e acerta um poderoso chute no rosto de chefe adversário. Um chute inspirado nas poucas vezes que viu I-pin lutar a sério. O homem é arremessado vários metros até se chocar contra uma parede.
“Isso é pela humilhação que me fez passar.”
“Onde está o chefe?!” Tsuna estava no topo de uma pilha de corpos, olhando para todos os lados, parecendo impaciente e agitado.
“É todo seu, Vongola.” Diz Lambo virando as costas para o chefe invasor.
Tsuna da um salto e acerta direto a cabeça do chefe o fazendo cair de testa no chão. Logo a efeito acaba. Com a vitoria, a Vongola comemora.
“Mais uma vez você foi impressionante, Tsuna.” Exclama Yamamoto ao passar pela pilha de corpos.
“Você é um lutador extremo.” Ryohei faz o sinal de ok.
“10º é invencível.” Admira Gokudera.
Tsuna da um sorriso sem graça enquanto encolhe os ombros.
“Não é nada disso, foi graças ao Reborn”. Diz olhando na direção do hitman.
Reborn faz um som nasal, desencosta do poste e segue embora.
“E-espere Reborn!” Tsuna usa o máximo de sua coordenação. Se desviar dos corpos e não tentar deixar que Reborn sumisse de vez.
“Hm? Que foi?” Pergunta parando só quando Tsuna o alcança.
“Tem um monte de coisa que eu quero te perguntar”. Diz parando para respirar. “Por que... Por que eu?”
“Você já procurou a resposta por conta própria ou apenas desistiu de pensar?”
Tsuna balança a cabeça negativamente, não satisfeito.
“Como eu fui capaz de fazer todas essas coisas até agora? Quer dizer, eu não deveria ter morrido?”
“Ah, quer dizer isso.” E enfia a mão no terno, tirando uma bala vermelha. “Essa é uma Shinu ki Dan, do mesmo tipo das que eu usei em você. Elas são balas especiais que forçam seu ultimo desejo a vir a tona.”
“Eh!? Como uma coisa dessas pode existir? Então você realmente atirou balas em mim!”
“É claro. Mesmo uma Shinu ki Dan ainda é uma bala. Eu realmente te matei.” Diz com a maior simplicidade do mundo.
“Eu não entendo nada!” Tsuna se agacha no chão, bagunçando os cabelos com as mãos. “... Mas, e se o meu último desejo fosse uma coisa diferente? E se eu não estivesse pensando em ajudá-los?” Pergunta deixando as mãos penderem ao lado do corpo, enquanto olhava assustado para o homem que estava diante de si.
“Nesse caso você teria seguido esse ultimo desejo... é claro, se houvesse arrependimento o bastante. Se você morre sem um arrependimento, a Shinu ki Dan não funciona e você simplesmente morre.”
“EH!?” Ele gritou tão alto que provavelmente qualquer ser consciente havia o escutado. “Você atira em mim mesmo sabendo disso!?” Tsuna tenta se acalmar e se levanta, andando em círculos murmurando coisas como ‘isso é impossível para mim’, mas então ele pára de rente. “Eles sabem sobre... isso?” Ele pergunta bem mais baixo. “Sobre a Shinu ki Dan”.
“Não.” Reborn responde de forma curta e objetiva. Ele não estava nem um pouco preocupado, embora soubesse onde Tsuna queria chegar.
“Então... Eles realmente acham que eu sou capaz de fazer todas essas coisas com a minha força?”
“E isso é uma mentira?”
“É claro que é. Eu não poderia fazer nada disso se você não aparecesse e atirasse essa bala esquisita em mim. Eu só ficaria sentado sendo um inútil. Reborn! Você precisa dizer a eles”.
“Então me diga, quem derrotou aqueles caras ali?” Pergunta apontando para a pinha de corpos.
“Mas...” Ele olha na direção apontada. “Essa força não é minha. Isso não é errado?”
“Se foram seus punhos que derrotaram aqueles caras, então isso é o bastante. Eles também pensam isso.” Diz indicando a Vongola comemorativa alguns metros atrás deles dois.
Tsuna fica em silêncio olhando para Reborn até que passa a olhar o grupo da Vongola.
“Você pode ter razão, mas...” Tsuna não conseguia concluir a frase, pois ele mesmo não sabia o que dizer.
“Se entendeu então vá logo.” Diz dando um empurrão em Tsuna. “Não seria uma festa da vitoria sem o chefe.”
Ele da um sorriso conformado. “Obrigado, Reborn”.
Reborn faz novamente aquele ruído nasal, se vira e segue noite adentro.
A maior parte da Vongola estava dentro do galpão que havia funcionado como sede da Bovino. Eles comemoravam mais uma vitoria e o continuo aumento do grupo.
“Do que foi que você tinha me chamado antes?” Pergunta Gokudera agarrando Lambo pela blusa. “Peixe pequeno, huh? Capacho, huh?”
“Você ainda se lembra disso?” Responde Lambo com aparente calma.
“É isso ai. Agora que você se juntou a Vongola não vai ter descanso. Eu vou cuidar pessoalmente que você fique sempre atarefado!”
“Ótimo, assim não fico entediado.”
“Seu filho duma puta, eu vou te quebrar aqui mesmo!”
Se Yamamoto não o segurasse, Gokudera realmente o teria feito.
“Me solta, me solta! Vai sobrar pra você também!”
“Gokudera-kun, por favor”. Tsuna teve a impressão de que Gokudera seria muito mais difícil do que qualquer outro chefe de gangue. “Lambo, fico feliz que esteja bem”. Diz obviamente não se referindo ao quase ataque de seu subordinado.
“Agradeço a preocupação. Venha, eu te mostro onde a gente escondia as coisas boas.”
A festa continua.
Continua...
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