Katekyo Gangue Reborn
5 O ataque de Rokudo Mukuro
Notas iniciais
Quinta-feira, os ânimos entre os membros da Vongola ainda eram sombrios. As primeiras notícias não confirmadas de que mais uma gangue poderosa havia caído estavam correndo desde antes do primeiro tempo de aula.
Lambo estava impaciente. Muito impaciente. Ele teria passado a informação que descobriu por acidente na noite anterior na hora se não fosse o choque e o fato de não saber o telefone de nenhum dos comandantes. Ele teria falado com eles antes das aulas começarem, se não tivesse se atrasado.
Ele passou todos os tempos batendo com os pés no chão, dando sinais claros de impaciência. Ele encarava o relógio pendurado na parede da classe como se isso o intimidasse a passar o tempo mais rápido.
Assim que toca o sinal anunciando o intervalo ele se levanta e sai da sala feito um foguete. No caminho quase tromba com algumas pessoas que ele prontamente ignora, seguindo para a parte isolada onde Tsuna e os outros sempre almoçavam.
Chegando lá, ele está totalmente sem ar, com as mãos sobre os joelhos e arfando pesadamente. Sua garganta estava seca e incapaz de pronunciar qualquer palavra.
“Lambo? Você está bem?” Tsuna pergunta após engolir parte do lanche que trouxera.
Yamamoto oferece uma garrafa de chá a Lambo que a vira, o que o faz começar a tossir. Levam alguns minutos desde sua chegada repentina até que ele consiga dizer alguma coisa.
“Eu vi... vi... ontem à noite.” Ele diz, recuperando o fôlego. “O cara que está... acabando com as gangues.”
“Viu? Mesmo?” Pergunta Yamamoto Lambo assente.
“Não fique aí fazendo suspense, fala logo quem é.” Gokudera o apressa.
“Eram apenas quatro. Apenas quatro estavam acabando com todo mundo. Eles eram comandados por Rokudo Mukuro.”
“Rokudo... Mukuro?” Tsuna repetiu incrédulo, mas então o resto da informação bate em sua cabeça como uma pedra. “Lambo! Quem era os outros quatro?”
“Eles também eram daqui.” Diz Lambo se sentando, agora já calmo. “Não sei os nomes, mas não tenho dúvidas. Eram os caras que estão sempre andando com ele.”
“Rokudo Mukuro... quem?” Se pergunta Ryohei em voz alta.
“O cara com cabelo de abacaxi.” Explica Yamamoto.
“Ah, ele.”
“Que estão sempre com ele?” Tsuna insistia. “Q-quem? Lambo, diga os nomes!”. Ele basicamente pulou e agarrou o uniforme de Lambo, o sacudindo.
“E-eu disse que não sei os n-nomes. Era o cara de óculos com cara de tédio, aquele que fede feito cachorro velho e a guria careteira.” Responde, buscando a informação na memória. O ataque repentino de Tsuna o pegou desprevenido.
“Ah...” Tsuna respira aliviado. “Ela não estava no meio, ainda bem”. Diz para si mesmo.
“No que estava pensando, 10º?” Pergunta Gokudera. Assim como os outros, para ele a reação de Tsuna não fazia sentido.
“N-não é nada”. Tsuna da um sorriso sem graça, enquanto balançava as mãos defensivamente. “Mesmo”.
“Bom, isso não é uma coisa boa?” Pergunta Yamamoto. “A pessoa que procuramos está aqui perto. Nem precisamos ir muito longe.”
“Nós vamos... ir falar com o Rokudo Mukuro?” Tsuna engoliu em seco.
“Eu estava pensando na mesma coisa.” Diz uma voz atrás do grupo. Ao se virarem, estavam diante de Mukuro e seus companheiros.
“Foram eles, esses quatro mesmo.” Diz Lambo apontando.
“A gente já sabe disso, vaca estúpida.” Xinga Gokudera.
“V-vaca estúpida...?”
“Gokudera-kun não é hora pra isso”. Murmura Tsuna sem tirar os olhos do grupo que acabara de chegar.
A tensão no ar era tanta que quase podia se ouvi-la estalando. Mukuro sorri e senta junto com o grupo, apanhando um onigiri e o provando.
“Isso é bom. Foi você que fez?”
“H-hai”. Respondeu atento a cada movimento dele. “Eu estou aprendendo ainda”. Murmurou e mordeu a língua por fim, afinal não sabia por que estava dizendo aquele tipo de coisa para alguém como ele.
“O que você quer aqui?!” Pergunta Gokudera ao se refazer do choque. Ele estava com um joelho no chão e um braço diante de Tsuna. Atento aos mínimos movimentos. Yamamoto e Ryohei estavam de pé para igualar os outros três.
“Estou aqui para conversar.”
“10º não tem nada para falar com você.”
“E você fala por ele?” Havia algo perigoso no tom de voz de Mukuro. Não era o tom que alguém usaria em uma ameaça, mas sim algo traiçoeiro. Como uma serpente. “Tsunayoshi-kun me parece uma pessoa sensata. Então decidi vir e conversar.” Ele responde, sua voz agora menos anormal, mas ainda com traços da mudança anterior.
“Deixe-o falar”. Tsuna colocou a mão no ombro de Gokudera, temendo que algo acabasse muito mal ali. Ele tinha que ser cauteloso. Tsuna tinha sempre uma má sensação quando Mukuro estava perto.
Os ombros de Gokudera relaxam, mas ele não muda de posição.
“Direto ao ponto, eu gostaria que desse um fim definitivo à Vongola.” Diz Mukuro, dando outra mordida no onigiri.
“O que?” “Como é que é?” “O que você disse?” Gokudera, Yamamoto e Ryohei se voltam a Mukuro. Nenhum deles acreditava no que acabaram de ouvir.
Tsuna fica encarando Mukuro como se esperasse que ele dissesse algo a mais, mas como somente a indignação dos amigos começaram a ser disparadas. Ele percebeu que nada mais seria dito.
“Isso não vai acontecer”. Responde o máximo que conseguiu, sem aparentar estar com medo.
“Hoh...” Mukuro por outro lado estava surpreso, embora isso não estivesse aparente. “Posso perguntar o por que?”
“A Vongola... Não é minha, todos...” Ele passa a olhar para os outros. “Todos já estavam aqui antes. E desde que eu me juntei a eles os meus dias tem sido muito melhores, eu pude conhecer novas pessoas...” Ele sorri satisfeito. “Mudar o meu conceito sobre outros”. Diz ao pensar em Gokudera. “Porque a Vongola é especial para todos nós, e porque nós não queremos que isso desapareça”. Ele diz com convicção. “Mukuro, nós vamos lutar”.
“Kufufu Você é bem mais do que dizem os boatos, Tsunayoshi-kun. Eu pensei que gostaria de uma solução pacifica por isso decidi conversar primeiro, mas parece que foi um esforço em vão.” Mukuro termina o onigiri e se levanta. “Então, vamos fazer como quiser.”
“Ótimo, vamos resolver isso aqui mesmo!” Grita Gokudera se levantando com uma mão dentro do casaco.
“Se fizer isso vai chamar atenção de Hibari Kyoya.” Diz Chikusa. “Isso seria problemático.”
“De fato.” Diz Mukuro. “Até mais.” Ele se vira e o grupo se afasta. Porem antes de Mukuro sair do campo de visão deles, ele para e diz sobre o ombro. “Chrome pediu para lhe agradecer pelos onigiris. Ela gostou deles.” Diz sorrindo.
Por fim ele se retira.
Tsuna fica encarando o obento onde havia o resto de seu almoço e um último onigiri. E assim que Mukuro se retira, um calafrio desagradável percorre seu corpo, o fazendo se encolher.
“Bom trabalho, Tsuna.” Diz Yamamoto pondo uma mão sobre o ombro dele.
“Falou bonito Sawada.” Diz Ryohei com os braços cruzados. “Quem esse folgado pensa que é?”
“Vamos mostrar a esses manés quem é que manda aqui!” Grita Gokudera na direção da porta.
“Ah Reborn, o que eu faço agora?” Pensa encolhendo ainda mais os ombros.
“Eu fiquei surpreso.” Exclama Lambo. “Pensei que você fosse fraquejar ou tentar argumentar.”
“Na verdade, eu também fiquei surpreso...” “A Vongola é importante pra todos nós. Lambo também passou por uma situação ruim, e todos vocês também. Ele não pode fazer o que bem entender”. Diz sério, mas bem menos do que antes.
“Agora tudo que nos resta é acabar com esse palhaço.” Diz Gokudera.
“Não importa o que você diga, aquele cara não é de brincadeira.” Diz Lambo, preocupado. “Ele venceu três gangues inteiras só com aquele pessoal. A gente não pode achar que montar nele na hora da saída vai funcionar.”
“Isso é verdade.” Diz Yamamoto, pensativo. “Precisamos pensar em como agir, e sem demora.”
“Reborn, nós realmente precisamos de você aqui”. Pensa olhando para o céu como se a qualquer momento ele pudesse cair de pára-quedas.
O resto do intervalo eles usam para discutir táticas para derrotar Mukuro e sua turma.
Durante o resto das aulas daquele dia, Gokudera estava com a cabeça em outro lugar. Desde que recebeu a noticia que alguém estava atrás dos mais fortes em Namimori ele sabia que Tsuna seria atacado cedo ou tarde.
Embora Gokudera não tivesse nenhuma duvida que Tsuna fosse capaz de vencer qualquer desafio, ele não tinha como deixar de se preocupar.
O que ele sabia sobre Rokudo Mukuro? O sujeito nunca se envolveu com assuntos das gangues antes então não era alguém que ele prestara atenção. O máximo que ele sabia era associar o rosto ao nome.
Então porque de repente ele começou a fazer esses ataques? Gokudera não encontrava uma resposta. Por mais inteligente que fosse, sua mente condicionada a pensar como um membro de gangue tinha dificuldades em entender o que as pessoas de fora pensam.
Não era preciso ser um gênio para saber que Mukuro era perigoso. Ele esteve cara a cara com o sujeito e sentiu isso de perto. O preocupava que alguém assim iria fazer Tsuna como alvo.
Então, Gokudera chegou a única conclusão lógica. Ele iria derrotar o cara antes que ele pudesse agir. Até porque não havia como saber quando ele iria atacar. Os últimos ataques foram tão rápidos que era possível que ele agisse ainda naquela noite.
Quando toca o ultimo sinal, Gokudera apanha sua pasta e sai sem se despedir. Ele desce até o pátio e espera, afastado do portão. Dois minutos depois surge Mukuro. Ele atravessa o portão, nenhum de seus companheiros estava com ele.
“Pior pra ele.” Pensa Gokudera, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça e seguindo Mukuro, mantendo certa distancia.
Gokudera não estava muito interessado em ser discreto. Se Mukuro se virasse ele seria facilmente visto, mas ele não estava nem ai. Gokudera queria apenas encontrar um lugar com pouco movimento para acertar o idiota. Se Mukuro caísse por sofrer um ataque pelas costas, isso apenas mostrava que ele não sabia onde estava se metendo.
Os dois seguem dessa forma por uns 40 minutos até chegarem a uma parte abandonada do que fora um dia um centro de lazer. Para Gokudera aquele lugar já era afastado o suficiente. Ele enfia uma mão no casaco, quando Mukuro se vira.
“Você está me seguindo já tem um bom tempo.” Diz Mukuro. “Se sua intenção era ser discreto devia ter começado por essa aura assassina.”
“Por que pretende atacar o 10º? Dependendo da resposta eu te quebro de um jeito diferente.”
“10º? Ah, você se refere a Tsunayoshi-kun.”
“Responda a pergunta.”
“E se eu me recusar?”
Gokudera sorri.
“Nesse caso eu só preciso dizer ao 10º que você era fraco demais.”
As mãos de Gokudera deixam o casaco e arremessam as dinamites com habilidade. Elas cercam Mukuro antes de explodirem, criando uma densa nuvem de poeira. Quando a nuvem se dissipa. Mukuro estava lá. No mesmo lugar, completamente ileso.
“É só isso?”
“Palhaço, nidai bomb!”
As dinamites caem no mesmo local, mas a quantidade cria uma nuvem ainda maior. Antes da nuvem se dissipar, ele sente um objeto pontiagudo em seu ombro esquerdo.
Gokudera se vira com agilidade, afastando o objeto ofensivo. Toda a experiência de luta que ele tinha o ensinou como reagir a esse tipo de situação.
Mas ao se virar, ao invés de Mukuro, o que ele vê é uma de suas próprias dinamites, o pavio prestes a desaparecer.
Ele salta para trás, protegendo o rosto da explosão. Nem bem ele havia se equilibrado, Gokudera chuta o ar atrás de si. O som metálico e a sensação de ter atingido algo indicavam que seus reflexos estavam corretos.
“Nada mal.” Diz Mukuro, com um tridente em suas mãos.
“Vai precisar de mais do que isso para me deter.”
Com um movimento digno de um mágico, Gokudera deixa suas dinamites caírem no chão sem serem vistas. Ele e Mukuro saltam para trás para fugir da explosão. Gokudera atira mais dinamites na direção de Mukuro. Ele não daria tempo para seu oponente respirar.
Mas quando a poeira se dissipa, Mukuro estava de pé. A arma em punho e totalmente ileso. A segunda mão de dinamites que ele havia atirado estava sob seus pés, apagadas.
Gokudera estala a língua. Era um inimigo poderoso. Ele atira mais uma leva, que Mukuro apaga com um único movimento do tridente. Porem Gokudera não havia esperado para ver o resultado.
Ele corre em volta de Mukuro e atira as dinamites para cercá-lo por completo. Antes que ele possa terminar seu ataque, uma nuvem menor surge de fora como um tentáculo. Era Mukuro, correndo para fora arrastando a poeira.
“Te peguei!”
Gokudera havia deixado uma trilha de pequenas bombas pelo caminho que fez. A trilha explode em seqüência, atingindo Mukuro.
“Sem descanso!” Gokudera atira mais uma leva na direção de Mukuro. Sua intenção era reduzir o oponente a cinzas.
Quando a nuvem de poeira abaixa, lá estava Mukuro. Embora ele não estivesse ferido, seu uniforme estava bem sujo e apresentava algumas manchas chamuscadas.
“Nesse ritmo suas armas vão acabar antes de mim.” Provoca Mukuro.
“Heh, fique tranqüilo. Tem muito mais de onde vieram essas.”
Gokudera apanha uma mão generosa e arremessa na direção de Mukuro. Ele se atira na nuvem, sua intenção era pegar Mukuro antes que pudesse se reequilibrar.
Para sua surpresa, uma estocada do tridente vem em sua direção, mirando seus olhos. Ele consegue escapar do golpe, mas a seguir vem uma serie de estocadas. Gokudera as bloqueia ou desvia, o que era difícil por causa da nuvem de poeira.
Logo os golpes começam a vir mais rápidos, Gokudera não consegue achar uma brecha para contra-atacar. Ele vê os golpes, mas não vê seu adversário. A velocidade continua a aumentar e logo ele começa a sentir as pontas da arma cortar sua pele.
“Isso é impossível, ele não pode atacar de vários lugares ao mesmo tempo. Alem disso essa nuvem já devia ter se dissipado.”
Ele decide arriscar a salta para fora da nuvem, mas não consegue evitar um golpe em seu braço direito. As três pontas entram em sua pele.
Ao sair da nuvem, ela se dissipa repentinamente, ao comando de Mukuro que balança o tridente.
“O que diabos é você?” Pergunta Gokudera, com a mão esquerda cobrindo o ferimento. Foi repentino, mas não era grave.
“Eu sou invencível.” Diz Mukuro com simplicidade.
“Heh, eu já acabei com muitos caras que se diziam invencíveis.” Gokudera retruca.
“Imagino que sim.”
Mukuro avança, carregando o golpe. Gokudera evita o ataque com um chute. Má decisão. Mukuro enfia uma das mãos no casaco de Gokudera e pega um punhado de dinamites.
“MER-”
As dinamites se acendem e explodem violentamente. Gokudera consegue saltar para trás, protegendo o corpo com os braços, mas agora eles estavam feridos. As mangas de seu uniforme estavam em frangalhos.
Agora era Mukuro que havia tomado a ofensiva. Ele golpeava com seu tridente. Estocava e batia com a lateral. Gokudera fazia o possível para bloquear os ataques, mas seus braços já não estavam respondendo como deveriam.
Ele sabia bem o que estava acontecendo. Conhecia bem esse jeito de lutar porque era o que fazia quando enfrentava um oponente particularmente perigoso.
No inicio da luta, Mukuro apenas se defendeu. Na verdade ele estava analisando a forma como Gokudera lutava. Suas reações e reflexos. Estava criando uma imagem dele em sua cabeça.
Quando essa imagem está pronta era hora de partir para a ofensiva. Esmagar o adversário depois de entender seus padrões. Gokudera se esqueceu de algo tão básico e agora estava com problemas graves.
Pra piorar as chances de chegar ajuda eram nulas. Aquela área não pertencia a Vongola e seus membros não andariam por ali sem ter um forte motivo. Apesar de todas as explosões, era um lugar deserto que ninguém vinha.
Mukuro havia escolhido um lugar onde ele teria a vantagem. Ele percebeu a presença de Gokudera desde o colégio e procurou um lugar deserto longe de seu território, onde pudesse lutar sem ser interrompido.
E ele caiu na armadilha.
A barra do tridente atinge sua cabeça. Ele recua. A parte de trás da arma o golpeia no estomago. Ele recua. Suas costas atingem um muro. Mukuro da uma estocada. Gokudera desvia e se afasta correndo. Mukuro apenas o segue com os olhos.
“Eu devo estar louco em pensar em fazer isso...” Pensa Gokudera com um sorriso amargo. Era obvio que ele não iria vencer essa luta, mesmo assim ele se recusava a ir para o chão sem tentar. “Mesmo que eu não vença, se eu levar um braço ou perna dele que seja, já vai ter valido a pena.” Gokudera apanha mais uma leva de dinamites, mas elas escorregam de seus dedos e caem acesas aos seus pés.
“Parece que já não lhe restam forças.” Diz Mukuro sorrindo.
“Será? Sabe o que dizem sobre ratos acuados?”
Mukuro ergue uma sobrancelha. Gokudera começa a correr, mas não escapa do raio da explosão. Não, esse era seu objetivo desde o inicio. As dinamites não escorregarem de seus dedos, ele as derrubou.
A força da explosão o arremessa na direção de Mukuro. Gokudera carrega um poderoso soco e atinge o rosto de Mukuro com tudo. Ao final de seu curto vôo, Gokudera cai de cara no chão.
Mukuro recua até o muro, atordoado. Ele não recebeu apenas a força do soco, mas parte da energia da explosão.
Sangue escorria de sua boca. Gokudera se levanta.
“Não me parece tão invencível assim.” Ele provoca.
“Ah, isso não é bom.” Diz Mukuro passando a mão pelo sangue. “Se Chrome ver isso ela vai ficar preocupada.” E se volta para Gokudera. “Você é o primeiro que consegue me acertar desde que eu comecei essa campanha. Certo... eu reconheço sua força.”
“Vai reconhecer muito mais quando enterrar meu punho na sua fuça!”
“Nesse caso, permita que eu lute com todas as minhas forças.”
A mão que estava parada no canto da boca sobe, cobrindo seu olho direito. Gokudera não acredita no que vê. O kanji “cinco” estava no lugar da íris. E ele tinha a impressão de ver uma chama a frente do olho.
“Que diabos...”
“Isso irá doer... enquanto você estiver consciente.”
Mukuro corre com o tridente em punho. Um ataque com a barra. Gokudera se defende com o braço esquerdo. Mas algo estava errado.
Seu braço faz um som horrível. Ele pode sentir seus ossos e músculos se arrebentando por dentro. Gokudera não chega nem a gritar, por causa do choque. Ele recua alguns passos e cai no chão.
Mukuro se prepara para perfura sua barriga. Gokudera apanha algumas dinamites menores e as atira. Mukuro já não estava mais lá. Gokudera se levanta e procura o adversário com os olhos.
Novamente seu corpo é atacado pela sensação horrível. Dessa vez é sua perna direita. Mukuro o atacou logo abaixo do joelho. O golpe o faz ficar apoiado na outra perna.
Mukuro o chuta, o derrubando de barriga pro chão. Uma única dinamite rola a frente de Gokudera que estende a mão para apanhá-la.
As costas do tridente acertam sua mão direita. Gokudera grita. Ele mal consegue pensar. Seu corpo é tomado pelos choques provocados pela dor. Seus nervos gritam mais alto que seu cérebro.
“Ainda não acabou.” Diz Mukuro. “Só acaba quando eu disser chega.”
Naquela noite, Miura Haru foi mandada por seus pais para fazer algumas compras de emergência para o jantar.
Com o caos que Namimori se tornou nos últimos anos, não era surpresa que ela estivesse extremamente preocupada. Especialmente porque o sol já havia sumido do horizonte, e era nessa hora que as gangues começavam sua algazarra noturna.
O fato do colégio onde ela estudava liberar seus alunos quando o sol já estava se pondo era motivo freqüente de preocupação também. Ela normalmente saia acompanhada de suas amigas Kyoko e Hana. Andar em companhia afastava o medo.
Alem disso o irmão mais velho de Kyoko era o capitão do clube de boxe. Haru sempre imaginou que talvez fosse por isso que Kyoko parecia menos preocupada que a média sobre as gangues. Um irmão desses era muito útil para espantar arruaceiros.
Como sua casa ficava numa direção diferente das outras duas, ela tinha que fazer pelo menos parte do caminho sozinha. Mesmo que o céu estivesse vermelho, ela costumava correr a distancia até sua casa. Brincar com a sorte nunca foi uma boa idéia.
Se Haru já era apavorada assim sob a luz do dia que dirá a noite, quando as únicas fontes de luz são os postes elétricos?
É claro que Haru esperneou, chorou e até ameaçou ligar para o serviço de proteção ao menor por estar sendo enviada as ruas nessa hora da morte.
Mas acabou sendo vencida pela dura ameaça de ter sua mesada cortada.
“Meus pais não tem coração... eles não se importam com a segurança de sua única filha...?” Ela resmunga, choramingando pelas ruas.
Haru seguia com os ombros caídos até o distrito comercial, que na ultima semana foi palco de uma violenta luta provocada pelos arruaceiros. O local estava uma bagunça depois do incidente. Felizmente não houve mais brigas de lá pra cá, mas nunca se pode estar seguro demais.
No meio do caminho ela vê um vulto estranho nas sombras entre um poste e outro. Haru sente um calafrio. O vulto fazia apenas leves movimentos.
Haru olha para os lados, procurando, nem ela sabia dizer o que. Não havia ninguém na rua além dela. Ela se aproxima devagar do vulto, na ponta dos pés. Sua visão concentrada na escuridão aos poucos se acostuma e ela consegue distinguir uma pessoa caída de barriga para baixo.
Ao reconhecer o uniforme do mesmo colégio dela, o peso em seu coração se alivia. Pelo menos não era nenhuma pessoa suspeita. Ela se aproxima do individuo.
“Tudo bem com você? Já é noite, não é uma boa hora para...”
Ao se ajoelhar e sacudir o ombro do garoto sua mão toca em algo viscoso. Ela ergue a mão para ver o que havia tocado.
“O que... é isso...?”
Sua mão estava suja com o sangue do garoto. Sua visão se move automaticamente para o garoto caído a sua frente. Seu uniforme estava todo arrebentado e ele estava coberto de sangue.
Olhando para a parede próxima e para o chão, na direção oposta a que ela veio, ela podia ver uma pequena, mas distinta trilha de sangue.
“Isso... é brincadeira... não é...?” Assustada, ela cai sentada no chão. Haru tremia dos pés a cabeça, sua mente estava perdida em pensamentos confusos.
O rapaz a sua frente abre um olho. Ele a olhou bem nos olhos. Ele não tinha mais forças para se mover. Tentou dizer alguma coisa, mas apenas soprou ar da boca. Haru acorda nessa hora.
“Não se preocupe, eu vou chamar uma ambulância. Fique calmo, vai dar tudo certo.”
O garoto parece ter entendido suas palavras e seus olhos se fecham novamente. Haru busca freneticamente pelo celular em sua bolsa, discando o numero para emergências.
Ela sabia que não podia deixar o garoto sozinho. E se quem fez isso voltasse para terminar o serviço? Ela sabia que não seria capaz de fazer nada se algo assim acontecesse, mas Haru não era egoísta ao ponto de sair correndo e abandonar o rapaz a própria sorte.
Prestando atenção, ela não conhecia aquele rosto? Na hora o choque foi tanto que ela não havia reparado, mas sim, ela sabia quem era essa pessoa. Esse era Gokudera Hayato, um garoto de sua classe.
Gokudera tinha uma má reputação pelo colégio e havia boatos de que ele era membro de uma das gangues. Sua aparência não ajudava muito. Nessa hora Haru começa a se perguntar no que ela estava se metendo.
Sem pensar muito suas mãos vão novamente ao celular e ela acaba discando o numero de sua melhor amiga. Alguns toques depois, a voz de Kyoko surge do outro lado da linha.
“Kyoko-chan... é a Haru...você pode me encontrar agora? ... eu estou bem... no Hospital Municipal... não, eu estou bem... é que... é que...”
A voz de Haru foi falhando e falhando, até que ela não conseguiu mais controlar os soluços. Ela estava chorando. Ela estava apavorada. Ela estava sozinha. Ela queria voltar para casa.
Logo o som das sirenes ecoa a distancia. Chegam os paramédicos. Haru segue em uma das ambulâncias para o hospital, o tempo todo com a voz de Kyoko do outro lado da linha.
Kyoko não espera nem um segundo para sair de casa, ela rapidamente comunica a situação ao irmão e os dois seguem para o hospital. Mesmo que Haru tivesse dito que nada havia acontecido com ela, Kyoko não podia tirar da cabeça que talvez algo com seus pais tivesse acontecido.
Durante o caminho, Kyoko ficou andando com o celular contra o peito, como se a qualquer momento Haru pudesse ligar novamente.
Ao chegarem ao hospital, ela se pendura no balcão de recepção pedindo por informações, apesar da expressão assustada da recepcionista ela permite que os dois sigam para o quarto.
“Haru-chan!” Kyoko estava à beira das lágrimas, só pela apreensão. Ela corre até a amiga a abraçando.
“Ah, Kyoko-chan.” Haru tinha os olhos um pouco vermelhos, mas parecia estar bem mais calma, comparado a hora da ligação.
“O que aconteceu?” Kyoko perguntou desfazendo o abraço e envolvendo as mãos dela com as próprias.
“Ah sim...” E ela se vira para a cama.
“Cabeça de polvo!” Grita Ryohei ao reconhecer o companheiro. “O que aconteceu?” Ele pergunta agarrando os ombros de Haru.
“E-eu não sei! Eu o encontrei caído na rua...”
Ryohei se afasta de Haru e encara Gokudera. Ele tinha uma expressão de amargura. Kyoko estava com as mãos sobre a boca e olhava espantada para a cena.
“Ei, Cabeça de polvo.” Diz Ryohei se aproximando de Gokudera. “Se pode me ouvir, diga-me quem foi que fez isso. Me diz quem foi que eu acabo com o otário.”
“Os médicos disseram que ele está sob forte medicação... ele não vai-”
Haru é cortada quando Ryohei se vira para ela com um olhar furioso. Apesar dele falar de forma calma ele parecia pronto pra surrar alguém.
“Conte com detalhes o que você viu.”
Haru recua um passo, assustada. Ela não conseguia falar nada, pois a presença de Ryohei parecia que a esmagava.
“Onii-chan!” Kyoko rapidamente se coloca ao lado da amiga, a abraçando de forma protetora. “Eu sei que o que aconteceu com o Gokudera-kun foi horrível, mas a Haru-chan também está assustada. Tente entender”.
“Ahh, sim... claro...” Ryohei finalmente se acalma. “Eu só... preciso esfriar a cabeça... desculpa.” Ele diz se curvando rapidamente para Haru e sai do quarto.
“Nee, Kyoko-chan... por que isso foi acontecer comigo?” Ela pergunta, sentindo o rosto molhar novamente.
Kyoko observava com um olhar um pouco triste o irmão deixar o quarto e então se volta para a amiga quando esta começa a falar.
“Eu queria poder saber a resposta Haru-chan...” Ela diz encolhendo um pouco os ombros. “Mas você salvou o Gokudera-kun”. Diz mais animada. “Eu acho que você foi incrível hoje”.
Haru ergue o rosto e olha nos olhos de Kyoko. Ela podia sentir o calor da amiga naquele olhar. E sabia que aquelas não eram apenas palavras de conforto. Elas eram exatamente o que eram.
“Você... acha mesmo?” Pergunta Haru com um sorriso. Era um sorriso fraco, se comparado ao seu normal. Mas era um sorriso verdadeiro.
“Hai!” Kyoko se vê um pouco mais empolgada ao receber aquele sorriso. “Haru-chan sugoii”. Diz com um sorriso sereno.
Do lado de fora, Ryohei segue até uma janela, encarando a paisagem, embora não estivesse realmente vendo nada. Ele estava preocupado. Gokudera era um sujeito esquentado, mas era um bom amigo e companheiro leal. Ele iria encontrar o sujeito que fez isso com ele e devolver em dobro.
Ainda naquele momento, Ryohei tentava se controlar. Se alguém podia dizer alguma coisa era Haru, que o encontrou, mas a garota ainda estava em choque não conseguiria dizer nada. Na verdade era pouco provável que ela fosse dizer qualquer coisa a ele.
Ryohei tinha o celular em mãos. Tinha pensado em ligar para Yamamoto e Tsuna, mas o que isso ajudaria? Nenhum deles podia fazer nada, e só os deixaria mais preocupados. Ele não sabia o que fazer.
“Eles vão ficar sabendo, cedo ou tarde.” Uma voz conhecida.
“Reborn-san...” Ryohei reconhece o conselheiro da Vongola, encostado na parede. A aba do chapéu lançando uma sombra em seu rosto, como sempre. “Eu sei disso... mas... isso vai apenas angustiá-los...”
“Uma Família não apenas se diverte junta nos momentos felizes. Eles também se suportam nas horas difíceis. Se é difícil demais sozinho, você sabe com quem contar.”
Ryohei encara o telefone em suas mãos. Por fim ele decide chamar os outros.
Algum tempo depois, Yamamoto e Tsuna chegam ao hospital.
“Onii-san, o que aconteceu?” Tsuna pergunta assim que o vê. “Reborn?!” E basicamente da um salto ao vê-lo ali.
“É mais ou menos o que eu falei.” Diz Ryohei batendo na porta do quarto antes de abrir.
Tsuna já estava apreensivo desde que recebera a ligação e na verdade achava que a sensação não iria piorar, mas sentira o coração mais pesado ao ver Reborn ali. O que indicava algo nada favorável.
Mas não era somente o estado de Gokudera que era algo preocupante e desfavorável. Tsuna estava estático depois de dar alguns passos e ver o amigo daquele jeito. Porque ele realmente não esperava que aquele tipo de coisa fosse acontecer.
Embora ele soubesse e imaginasse que fosse esse o resultado de se envolver com gangues, mas mesmo no colégio ele via alguns machucados e outros ausentes por algum tempo, mas nunca havia presenciado aquilo.
E para alguém como Tsuna que se preocupava até com cortes de faca. Aquilo era um pouco demais. E ele sentiu o coração ainda mais pesado.
“Senpai, você...” Yamamoto indica com o dedo Kyoko e Haru que estavam sentadas nas poltronas do quarto. Ryohei abaixa a mão de Yamamoto e balança a cabeça negativamente.
“Vem, eu falo lá fora.” Diz Ryohei abrindo a porta.
Yamamoto assente, mas antes de sair ele se vira para Tsuna. A preocupação estava visível em seu rosto.
“Não se preocupe.” Ele diz pondo uma mão sobre o ombro dele. “Ele já passou por coisa pior antes.”
Tsuna parece só acordar para a realidade quando Yamamoto o toca, no entanto, as palavras que ouvira não foram nem um pouco consoladoras e isso só fez com que um calafrio percorresse seu corpo.
E então ele repara nas duas garotas sentadas do outro lado do quarto. E seus olhos se arregalam ainda mais e por alguns segundos ele havia se esquecido como respirar.
Kyoko-chan, sua querida Kyoko-chan estava ali. E parecia que ela consolava Haru. Por quê? Por que de todas as pessoas aquelas duas estavam ali? Por que sua Kyoko-chan que ele tanto gostava estava naquele quarto, vendo aquilo?
Esse lado horrível de Namimori. Esse lado de estar envolvido numa gangue. Ele queria poder protegê-las. Ele queria poder se levantar e dizer que tudo ficaria bem. Mas ficaria? Gokudera era forte. E agora estava naquele estado.
Tsuna passa a olhar para os próprios sapatos, sem coragem de continuar a observar qualquer um naquele quarto. E logo ele faz o que deveria ter feito desde o início. Ele sai dali rapidamente de cabeça baixa.
Ryohei e Yamamoto fazem de ir atrás de Tsuna.
“Deixem ele ir.” Diz Reborn.
“Mas... Tsuna não está acostumado com essas coisas.” Tenta Yamamoto.
“A vida não é feita só de vitórias. Além disso, vocês podem mesmo fazê-lo se sentir melhor?”
“Não foi você mesmo que disse, Reborn-san.” Diz Ryohei. “Que uma Família deve se suportar nas horas difíceis? Se Sawada precisa de alguém por perto, esse alguém somos nós.”
Reborn ergue ambas as sobrancelhas, embora o gesto tenha passado despercebido por causa da sombra do chapéu.
Yamamoto e Ryohei passam por Reborn antes que ele pudesse dar alguma resposta que destruiria suas resoluções.
Os dois seguem até verem Tsuna sentado em um banco. Eles se sentam, deixando Tsuna entre eles. Nenhum dos dois diz nada, apenas ficam ali, em silencio.
Tsuna obviamente percebe a presença deles, mas não conseguia dizer nada. Assim como não conseguira dizer para Kyoko e Haru. Mas ao contrário do que acontecera no quarto, ele sentia como se o ambiente fosse ficando melhor com a presença deles.
Algo estava o incomodando agora que conseguia pensar direito.
“Foi o Mukuro, não foi?” Ele perguntou lembrando-se da ameaça que receberam no colégio.
“Provavelmente.” Diz Yamamoto. Ryohei assente. Era a linha de pensamento mais provável.
“Isso não vai ficar assim”. Ele fechou as mãos em punhos. “Reborn, eu sei que você está aí”. Ele disse erguendo o rosto.
“Que foi?” Ele pergunta, encostado em um poste próximo.
“Nós vamos enfrentar Rokudo Mukuro. E precisamos da sua ajuda”. Diz o encarando.
Reborn sorri.
“Eu sou o melhor hitman do mundo. Meu treinamento não é moleza.”
Tsuna olhou para os lados, procurando pelo assentimento dos amigos.
“Vamos nessa.” Diz Yamamoto sorrindo.
“Hoh, treinamento! Eu estou pegando fogo!” Ryohei estava coberto com as chamas de sua determinação.
Tsuna sorri satisfeito e volta a olhar para Reborn.
“Nós estamos prontos”. Respondeu por fim.
Continua...
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