Katar
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Katar
Rápida, prática e mortífera.
Sempre foi a minha descrição dessa arma. Sempre foi o meu impecável modo de ver o mundo e o modo como ele próprio me via: Com sangue.
O sangue e a graciosa maneira como a lâmina rasga a carne macia.
O modo como ele escorre e como forma poças e mais poças ao redor de apenas organismos em pré-decomposição. É apenas escoamento, são apenas corpos ao chão. Nada a se importar, nada a reclamar.
Mas tudo a adorar.
Por trás dela, o mundo tem o seu próprio ritmo e sua própria textura. Ele não é rápido ou devagar. Não é adorável ou odiável. É apenas sustentável e sádico. E engloba apenas a mim.
A luz vinda da lua reflete sua lâmina e seu brilho azul quase me ofusca. Ela não é somente ela. Não é somente uma arma. É a razão, é o propósito, o porquê e a recordação.
A constante lembrança.
O cheiro salgado do oceano se encaixa harmoniosamente com as rachaduras e trincados presente em todo o seu perímetro. A sensação de desconforto e repulsa ao imaginar o quão ambos são mutavelmente imperfeitos é sútil. Mas não deixa de ser curioso e agradável.
O mar antes era apenas um amontanhado de mistérios e medos. Agora, o mar é apenas o ritmo. O ritmo que continua a perecer por trás dela, o ritmo que me engloba fielmente à ela. E somente ela.
A minha vontade é de atirá-la navio a fora, mergulhando e lentamente afundando, enquanto o oxigênio ao seu redor vai levá-la à desgraça um dia. Ficará tão enferrujada como a própria alma que insisto em manter. E quando tocar o solo onde a luz não bate, eu saberei que é ali o lugar a qual eu pertenço. Saberei que de lá não poderia sair.
Maldita sejam essas lembranças.
Maldita seja essa viagem, esse monólogo, essa sede e essa vingança. Maldita seja essa arma também, cujo o nome e história se fundem com ela.
E me lembram dela.
A viagem a qual eu não consegui fugir. A viagem a qual faz a minha alma querer afundar eternamente nessas águas. A viagem a qual a única coisa encontrada foi ódio e frustração.
A doce tormenta e a amigável indignação que bate. A fútil incapacidade e o honroso suicídio.
Olho seu brilho de novo e sorrio. Não iremos procurar a morte. Não ainda. Não enquanto todos ainda não conhecem a fúria e a dor da casa Du Couteau.
Não enquanto há esse mar separando a arma e o corpo que a manuseia.
Fale com o autor