Karmi
2 Águas
Notas iniciais
Já era noite, mas o sono não vinha.
Estava na mesma posição fazia algumas horas, deitado, com uma mão embaixo do travesseiro e a outra à frente do corpo, apoiada sobre o colchão. O calor era amenizado por poucas e raras brisas frescas que vinham do mar, que não estava muito longe. Seus olhos brilhavam à luz da lâmpada a óleo que ficava na cabeceira. Estavam cheios de lágrimas, mas Caleb não chegava a chorar de fato. Lembrava dos dias felizes que havia passado.
Há dois meses, quando Flavius estava deixando a cidade, resolveu aparecer de surpresa na casa de Caleb e perguntar se ele queria viajar para Mondard, uma cidade não muito distante de Calixto, onde haveria outra festa do Karmi de Lamur. Caleb ficara muito feliz com o convite e o aceitou de bom grado. Deixaram Calixto no mesmo dia. A semana seguinte foi como um sonho para Caleb. Nunca se divertira tanto com alguém. E então uma dúvida surgiu em sua cabeça, incomodando cada vez mais. Até que chegou a ponto de estragar sua diversão e dominar sua mente. Sentia uma necessidade crescente de definir o que estava acontecendo entre eles. Não sabia o que se passava na cabeça de Flavius em relação aos dois, mas sabia que em sua própria cabeça um sentimento se desenvolvia.
Passaram mais um mês e meio viajando por cidades onde os festivais ficavam lotados. O calor nunca indo embora, mas não se importavam com ele, mesmo que Caleb preferisse o Cantestut, a estação mais fria do ano. Flavius parecia muito à vontade com a situação, o que começava a incomodar Caleb, que procurou guardar pra si o que sentia o máximo de tempo possível.
Conseguiu segurar o sentimento até o momento em que foram para Damia, uma cidade praiana que era bem próxima de Calixto. Caleb percebeu que não conseguiria mais acompanhar Flavius se não deixasse claro o que sentia por ele, pois estava se torturando tentando guardar para si, ao mesmo tempo que não deixava o sentimento se desenvolver, ou morrer, devido à falta de comunicação entre os dois.
Flavius era um inteligente aprendiz de mago, que chamavam de Taumaturgo, enquanto Caleb era um pugilista por profissão. Ambos tinham parado de fazer as missões referentes ao treinamento de suas classes, pois praticamente todos em Lamur tiravam férias em algum momento do Karmi, mas Flavius já demonstrava interesse em voltar a fazer suas missões – o que permitiria que viajasse mais ainda, e para lugares mais distantes – e isso preocupou Caleb a ponto de fazê-lo decidir se declarar abertamente.
Em Damia havia um festival diferente dos demais. Além das festas todas as noites, havia, durante o dia, uma espécie de gincana que qualquer pessoa poderia participar. Consistia em três provas que pareciam mais brincadeiras, e quem completasse cada uma ganhava um prêmio. Além disso, quem conseguisse terminar as três até o fim do festival ganhava uma das limitadas montarias que estavam sendo distribuídas especialmente neste ano, devido a uma sobrecarga de filhotes produzida por um fazendeiro local. As montarias se tratavam de grandes lagartos de cores vivas, em sua maioria com as extremidades do corpo azuis e o restante das escamas laranja – e que cuspiam água.
Caleb e Flavius participaram das gincanas e conseguiram terminar com uma folga de tempo para o final do festival, mesmo que Caleb tenha se atrapalhado um pouco. A essa altura, Flavius já fazia muitas brincadeiras em relação a Caleb ser um pugilista – uma classe que exige equilíbrio, velocidade e precisão -, pois ele às vezes era tão estabanado que provavelmente qualquer dia desses morreria numa missão de caça. Superada a crise de atrapalhamento, cada um deles recebeu um vale de papel para buscar suas respectivas montarias na fazenda que os estava distribuindo.
– É bom que quando cada um de nós for para um lado, completar nossas missões específicas da classe, poderemos chegar mais rápido onde quisermos sem ter que pagar por transporte – disse Flavius, se dirigindo a Caleb, ao entregar os vales para o funcionário da fazenda.
Isso foi a gota d’água para Caleb. Não queria se separar de Flavius – pelo menos não definitivamente. Mas era o que seu tom dizia – que quando se despedissem seria para sempre, como se todos os dias que passaram juntos tivessem sido apenas férias comuns. Para Caleb, tudo aquilo significava muito mais que isso.
– VOCÊ AINDA NÃO PERCEBEU QUE EU TE AMO?! – gritou em resposta.
Flavius ficou parado, sem reação. Sorriu de leve alguns segundos depois e pediu para conversarem depois de pegarem suas respectivas montarias. Caleb ficou com o semblante entristecido, pois já imaginava onde a conversa iria chegar.
Receberam seus filhotes de Lagarto das Cachoeiras – descobriram que esse era o nome da espécie -, que já tinham alguns poucos meses de vida e já estavam treinados para serem montados. O funcionário disse que deveriam escolher um nome para seus respectivos mascotes o mais cedo possível, e Flavius nomeou logo o seu de Babão, pois da boca dos Lagartos das Cachoeiras pingava água constantemente. Caleb decidiu escolher um nome depois para o seu.
Compraram selas para já voltarem montados até a estalagem onde estavam e se puseram a caminho.
Conversaram enquanto voltavam lentamente pela estrada. Os lagartos se acostumando ao peso de seus novos donos. Na verdade, Flavius falou e Caleb apenas ouviu durante todo o percurso.
Flavius explicou que Caleb era muito importante para ele, que jamais o esqueceria, mas que teriam que seguir caminhos diferentes. Disse estar certo de que voltariam a se encontrar depois que se despedissem, e talvez já estivessem em um nível alto de suas respectivas classes quando acontecesse. Mas tudo o que Caleb ouviu foi um longo adeus. Não quis falar, pois com certeza se atrapalharia nas palavras.
Chegando na estalagem, Caleb decidiu se mudar de quarto, pois não aguentaria ficar ao lado de Flavius como se estivesse tudo bem. Dali a alguns dias se despediriam e seguiriam caminhos diferentes, assim como haviam feito no dia em que se conheceram. Flavius demonstrou tristeza com a escolha de Caleb, mas respeitou sua decisão.
Então há dois dias estava no quarto, sozinho. Não tinha saído desde que se separara de Flavius.
Deitado, olhando para as paredes de madeira e sentindo uma das raras brisas frescas passarem e balançarem de leve seu cabelo, Caleb decidiu se levantar e dar uma volta, aproveitando que era noite e o festival de Damia já estava em seu penúltimo dia.
Saiu do quarto, passou no banheiro para lavar o rosto e se encaminhou para a rua. Turistas já deixavam a estalagem para seguir para a próxima cidade, percebeu ao passar pelo hall de entrada.
Cruzando as portas da estalagem, Caleb avistou Flavius na varanda. Ele estava recostado em uma das grossas vigas de madeira, fumando uma espécie de cachimbo. Também notou a presença de Caleb. Sem ter outra saída, Caleb se aproximou e tentou sorrir.
– Oi, tudo bem? – Por dentro, Caleb já se reprovava, achando a pergunta inútil. Odiava o fato de ficar assim, nervoso e atrapalhado, toda vez que encontrava Flavius.
Conversaram brevemente, mas Caleb sentiu que não aguentaria levar a conversa muito longe, então saiu para sua caminhada. Ficou agradecido por Flavius não se convidar para ir junto.
Passou nos estábulos para ver como seu lagarto estava – tinha que escolher logo um nome para ele, pensou – e acabou indo até a praia, onde sentou na areia e ficou observando as pequenas ondas quebrarem.
Decidiu não se despedir de Flavius no dia seguinte e partiu de volta para Calixto sob a aurora, que tinha as mesmas cores de seu lagarto, em quem ia montado. Já havia escolhido seu nome. Karmi.
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