Karma

5 Desenterrando o prólogo de uma guerra.


Notas iniciais
Na capital do Reino, o rei tenta desvendar o desaparecimento de um dos seus filhos. Enquanto isso, na lendária cidade de Lyra, o príncipe adapta-se a sua nova rotina na Torre na qual foi confinado, sem desconfiar que o seu vizinho de cela detêm informações importantes e perigosas a respeito de planos contra a Coroa. Pai e filho, separados por quilômetros, são envolvidos na mesma trama.

É comum que a reunião entre o rei e seus conselheiros aconteça num dos salões próximos a sala do trono, sendo as portas guardadas por soldados para impedir que as deliberações entre o nobre e o conselho não sejam interrompidas sem um motivo válido. Comumente, os encontros acontecem uma vez a cada quinzena ou em caráter emergencial quando algum assunto requer uma resolução imediata. Durante o reinado de Ignoto, pai de Gideão, o atual rei, aconteceu o encontro mais longo da história, o evento estendeu-se ao longo de quatro dias e tratou das inundações que prejudicaram as regiões agrícolas de Ieshia, deixando o reino diante da possiblidade de falta de alimento para suprir a população.

Os nobres que são ouvidos na audiência privada daquela tarde já encontram-se no salão e distribuem-se pelo cômodo em pequenos grupos de conversas. É natural que em lugar como aquele os assuntos triviais sejam deixados de lado e mesmo na ausência do monarca, os homens negociam entre si, uma vez que cada um dos presentes dispõe de uma posição singular na pirâmide social do reino. Por costume, as “barganhas” nunca são feitas de modo tão claro e transcorrem camufladas em diálogos perspicazes. O homem responsável pelas frotas marítimas narra para um grupo sobre os empecilhos que afetam os avanços dos planos expansivos que ele tem para os navios. Naturalmente, entre seus ouvidos entre o Senhor do Ouro, responsável por administrar o fluxo dos cofres reais e a única intenção do marinheiro é dissuadi-lo.

Enquanto isso, o primeiro Curador distrai-se numa conversa suave com Senhor do Comércio a respeito de licores e eles tentam decidir se os melhores produtos são aqueles produzidos nas regiões das forjas das montanhas ou dos produtores que vivem próximos a região da extinta Solene. Do lado de fora, o sol encontra-se no meio do céu e algumas nuvens posicionam-se formando uma alva colcha de retalhos a projetar fileiras de sombras sobre partes do território.

Numa das torres da fortaleza do precipício, uma extensão daquelas conversas ocorre fora dos ouvidos de todos. Postados na entre-sala dos aposentos do rei, Gideão e Olavo compartilham de uma conversa delicada, enquanto são observados por Dimas, cuja pele de oliva e os traços dos olhos o diferenciam dos outros dois homens. Ainda que o tom de seus cabelos possa lançar uma semelhança entre eles, os de Dimas são escuros como petróleo. Trata-se de um dos conselheiros do Rei, a quem ele dedica uma parcela generosa de sua confiança, conhecendo aspectos e sigilos do reino que são mantidos em segredo mesmo para o conselho real.

Olavo tem as mãos unidas a frente do corpo.

— A guarda está realizando as buscas com a discrição que sua alteza requeriu, nenhuma informação sobre o desaparecimento de Herry corre pelas ruas. — O irmão do rei informa com diligência. — No entanto, manter segredo sobre a situação dificulta o trabalho, torna necessário inventar desculpas para cada casa que é revistada e levanta dúvidas.

Por ordem de Gideão, o desaparecimento do príncipe era um assunto sigiloso, ninguém além dos membro da corte conheciam a situação do rapaz.

— E o que você sugere? — O rei retorque com impaciência. — Assumir que houve uma falha de segurança e levaram Herry de dentro do castelo, bem debaixo dos narizes de todos?

— Assumir que seu paradeiro é desconhecido, já que não conhecemos as circunstâncias do seu desaparecimento. — Há na entonação usada por Olavo uma nota uma exasperação.

— Você outra vez com as suas teorias. — Gideão crispa os lábios.

— Teorias muito mais verossímeis do que a possibilidade de um sequestro diante as evidências que temos. Os guardas que acompanhavam Herry foram dispensados por ordem direta do príncipe, seu quarto estava intacto e nada foi levado de lá, exceto pela espada e por trajes. O cavalo dele é a único que desapareceu dos estábulos e ele foi visto na cozinha pegando comida quando deveria estar no banquete. — Ele lista as evidências que foram encontradas durante as averiguações sobre o desaparecimento, mas não pronuncia nenhuma conclusão esperando que o irmão seja capaz de fazê-lo por si só.

— Você está presumindo que Herry deixou o castelo por vontade própria?

— E está viajando para o Oeste. Informantes disseram que ele foi visto para lá dos Três Irmãos. O Vigilante obteve informações de tê-lo visto numa pousada, mas antes que pudessem ter uma confirmação, os rebeldes caíram sobre eles.

Gideão estreita os olhos acompanhando o raciocínio do irmão e por mais que compreenda as colocações dele, não há confiança na solidez de seus apontamentos.

— E qual seria o interesse dele em deixar a capital?

Ciente de que se trata de um pensamento delicado, Olavo lança os olhos ao redor para certificar-se de que estão sozinhos. Seus olhos passam por Dimas, que se acomoda num dos caldeirões estofados e os observa com atenção girando um dos anéis de ouro no dedo, julgando ver notas de diversão brilharem em seu olhar.

— Para mim, é bastante óbvio. Herry vinha falando sobre o Sul e pouca atenção demos as suas rogações. Ele vinha insistindo em interceder por aquela gente com afinco, mas sem sucesso e agora os rebeldes o impedem de ser encontrado pelos homens do Vigilante como um alcatéia defendendo o seu alfa. Suponho que ele tenha aproveitado o fluxo de pessoas durante as comemorações para deixar a cidade sem ser visto, possivelmente foi escoltado por aliados. Diferente dos irmãos, ele sempre teve esse fugor, uma paixão incandescente para acender todas as suas intenções. Ao mesmo tempo, ele é insubmisso e questionador, ingredientes perfeitos para se formar um revolucionário. — Não há nenhum remorso ou hesitação em sua postura ao apontar o sobrinho como o arquiteto de um golpe contra a coroa que não há necessidade de questionar quanto de sua fé Olavo coloca naquela hipótese.

— Vê-lo acusar de um dos meus filhos de idealizar uma traição contra mim é a visão mais nauseante de toda a minha vida. Eu entendo a sua preocupação comigo, mas existem limites para isso. — Gideão fita o irmão direto nos olhos e há repulsa neles. O rei dá as costas e se afasta na direção de uma das janelas vislumbrando a capital de Ieshia.

— Você é precipitado em assumir a inocência dele. — Olavo continua.

— E você parece deveras ansioso para assumir que o príncipe é um traidor. — Dimas coloca-se em pé e retruca, voltando-se para Olavo sem alterar sua entonação suave ao perceber a incapacidade do rei de levar aquela discussão adiante depois de presenciar uma acusação tão séria a respeito de um dos seus.

— Dimas, por favor, esse assunto envolve questões familiares que não o incluem.

O conselheiro libera um riso fácil sem afetar-se com aquela desfeita e prossegue.

— Eu vi o garoto crescer, senhor, quando ainda era um homem da guarda-real. Posso assegurar que não há no coração do príncipe um traço da iniquidade com a qual tenta vesti-lo por inteiro. É cruel fazer um pai considerar a mera possibilidade um filho urdir tamanha desonra.

— Então, qual é sua visão dos fatos, Dimas? Conte para nós o que pensa. — Olavo atiça com sorriso pernicioso.

— Não penso nada, não consegui chegar a qualquer conclusão. — O outro assume com humildade. — Tudo está confuso, não há evidências para acreditar num sequestro, assim como para considerar Príncipe Herry um traidor, mas lhe asseguro que irei me juntar aos que buscam a verdade sobre o que aconteceu a ele.

— Basta. — Gideão retorna e é resoluto ao colocar um fim naquela conversa. — Os homens da audiência estão esperando por nós no salão, não devemos atrasar o encontro.

Quando o rei faz menção de sair do cômodo, o irmão coloca uma das mãos no ombro dele.

— Você se esquece de quem ele é.

— Ele é meu filho, Olavo. — O rei fita o irmão com solidez, refutando qualquer significado que a colocação dele possa ter. — Herry é meu filho.

Após dias na prisão da Torre, o príncipe começa a acostumar-se com as acomodações inóspitas ao seu corpo. A cama baixa de palha junto do chão não é tão aprazível quanto as da Rohesia ou aquelas que são oferecidas na Estalagem dos Afogados, mas não há sinais tão significativos de desconforto pela constituição. Imagina que a viagem e as adversidades que antecederam aquela cela tornaram sua carne mais rígida.

Veste uma túnica de um tecido grosseiro claro, mas confortável, e sandálias. O clima em Lyra é mais abafado do que na região de Dea Syria, no entanto, a película de maresia que recobre sua pele bronzeada, tornando-a úmida, o ajuda a refrescar-se. Os cabelos negros colam-se nas têmporas e barba negra que reveste seu maxilar tem um aspecto reluzente.

Cygnus é uma boa companhia, por mais que ele fale demais em momentos que Herry deseja ficar sozinho com os próprios pensamentos. Não o recrimina por conceber que para alguém tão agitado como o Mão de Vento é um suplício permanecer preso naquele cela, por mais que ela tenha um tamanho razoável. Não há muito para distrair-se e a rotina na prisão é seguida a risca. Os outros prisioneiros contribuem de alguma forma com o funcionamento da cidade, atuando na construção civil, na pesca ou em qualquer parte que necessite de auxílio. Herry e seu amigo, no entanto, permanecem reclusos na Torre da prisão durante todo o dia, porque sua situação ainda é irregular por não terem passado pelo seu julgamento segundo as leis de Lyra e essa é uma das preocupações que ocupam as suas horas ociosas.

Seu destino o preocupa e o peso da coroa em sua cabeça fará diferença, para o bem ou para o mal. Tenta não ser pessimista, mas aquele povo já demonstrou não acalentar nenhum apreço valoroso pela família real. Não existem economias nas troças e brincadeiras cuspidas em cada oportunidade que os guardas encontram para apontar sua descendência como se fosse uma falha grave de caráter. Com o tempo, Herry parou de importar-se e antes as palavras que acendiam sua irritação agora não arrancam mais do que um crispar de lábios.

Os sons de passos da escadaria o fazem virar-se para a frente da cela. Os carcereiros são pontuais, como sempre, e os conduzem para um dos níveis mais baixos da Torre, onde fontes de águas termais brotam do chão e formam diversas banheiras de pedra distribuidas pelo chão revestido de blocos de pedra lisa e clara. O ar é tomado pelo vapor que torna a atmosfera abafada. Sendo os únicos do último nível, além do Arcano que nunca é deixado junto dos outros presos, Danilo e Herry formam uma diminuta fila ao percorrer as escadarias. A impossibilidade de fugir da ilha-prisão desobriga o uso de algemas.

Na entrada do salão de banho, a dupla ganha uma troca de túnica, toalha e calções limpos, e uma pequena barra de sabonete de fragrância fraca que é suficiente para um uso. No seu primeiro banho, Herry descobriu que delongar demais significa ficar sem uma e ser obrigado a contestar-se esfregando-se apenas com a água morna.

A sua passagem é acompanhada por diversos olhares, mas ele mantêm o seu no chão, enquanto a atenção é dedicada aos próprios pensamentos. Qualquer comentário que venha a ser proferido alto o suficiente para chegar aos seus ouvidos não foge do comum e não causa nenhuma comoção nele, um avanço significativo para alguém que costuma ter os ânimos inflamados por pouco e parte em defesa da própria honra sem precisar de muito.

Herry despe-se, túnica e calção são deixados dobrados sobre uma das pedras que delimita a piscina natural, enquanto o corpo mergulha na água morna. Um suspiro escapa dos lábios ao sentir de imediato o efeito relexante nos músculos a medida que subemerge até um pouco acima do quadril. Cygnus o acompanha, mas diferente dele solta pragas baixas ao sentir arder as feridas nas costas e braços, marcas deixadas pelas forças de Lyra no dia de sua captura.

— Porcos. — Resmunga, tateando o próprio braço para examinar os hematomas. — Não teriam feito isso se estivessemos em números iguais.

— Não teriam feito isso se você tivesse sido pego roubando. — Herry retruca com uma entonação de troça.

— Oh. — Cygnus o encara com os olhos estreitos em censura. — Você está do lado deles agora, caro nobre?

— Não, meu estimado vizinho de cárcere. — Responde com bom humor, o primeiro resquício dele desde a sua chegada forçosa a cidade encrustrada na rocha. — Mas talvez eu devesse repensar minha posição e quem sabe eles me tirassem da inércia diária no topo da Torre.

— Tenho para mim que sua situação não mudaria nem mesmo se você fosse a pessoa mais carismática no mundo... o que não é real, sem ofensas, já que o seu problema não é seu mau humor matinal, mas sim a família da qual você vem. — Cygnus suspira com pesar. — Eu sei exatamente como é ser condenado por seus familiares. — O rosto ilumina-se com um sorriso matreito.

A maior parte das guildas de ladrões de Ieshia respeita códigos muito semelhantes que coloca os seus integrantes como fraternos. Anos antes, resumiam-se a grupos de mulheres e homens que partilhvavam do mesmo objetivo: ladroar. Contudo, o tempo e a vinda das gerações seguintes fizeram com que alguns se tornassem grandes famílias, alterando suas finalidades, embora nunca tenha abandonado completamente o hábito primordial. Os Mãos de Vento, guilda a qual Cygnus pertence, é um desses grupos e transitou seu meio de sobrevivência para o comércio, mas nunca livrou-se do preconceito e por mais que não se importem com os olhares tortos, os homens da Lei nunca os poupam.

Herry descobriu por Cygnus que os moradores de Lyra, por outro lado, não alimentam nenhum tipo de hostilidade com o seu povo e os dois grupos mantêm negociações regulares. Essa “amizade”, no entanto, não garante nenhuma imunidade como a prisão do ladino pode provar. O príncipe desconfia que o que existe é uma associação baseada no mútuo desafeto que ambos tem com a coroa. Como Dimas diria, nenhum acordo ou elo é mais forte para forjar uma união entre dois do que um terceiro oponente em comum.

— Eles não podem me manter recluso para sempre no topo daquela Torre. — O nobre retorque.

— Na verdade, eles podem. A existência da cidade é um segredo para uma grande parte do reino, você mesmo disse que lá para os lados da Capital é apenas uma lenda... Quais são as chances do Vigilante estar cogitando a possibilidade de procurá-lo nela? Não se pode buscar por algo que você sequer sabe que existe! Mesmo que ele descobrisse sobre Lyra e viesse ao seu resgate, precisaria atravessar um desfiladeiro e um caminho estreito para contornar a montanha. Para fazer isso rápido e não correr o risco de ser notado pelos batedores, ele teria que enviar um pequeno exército... Mas é preciso um grupamento numeroso para ter a chance de vencer as forças que guardam a cidade e conseguir penetrar nela. Então, eles podem mantê-lo por quanto tempo quiserem na prisão.

— Você sempre parece muito animado para enumerar meus infortúnios em detalhes.

— Alguém aqui tem que ser sincero com você, se nossos carcereiros não se preocupam com isso, eu fico feliz e me incubir de tal tarefa. Eles mantêm o Arcano no último nível... — O nariz de Cygnus torce ao citar o mágico. — Porque obrigar os prisioneiros a conviver com ele nos outros níveis levaria a uma rebelião, qualquer homem são se mantém o mais distante pssível dessa gente. Eu estou lá, porque, bem, colocar um ladrão no meio de outros homens é o mesmo que camuflá-lo e torná-lo dez vezes mais furtivo. — Solta um pequeno riso debochado. Pessoas são presas por roubos todas as semanas e são enfiados em celas comunitárias, por mais que Lyra tenha um dos menores índices de crimes quando comparada com outras partes do reino com uma população tão numerosa quanto a sua. No entanto, não subestimam as habilidades de alguém que cresceu no meio das guildas e é ousado o suficiente para violar um cofre num edíficio fortemente guardado, confiando em suas capacidades contra toda as chances de falhar. — Mas você é a jóia de Coroa. Eles não podem arriscar que algum outro prisioneiro se sinta inspirado para fazer justiça com as próprias mãos, já que a maior parte do reino guarda muitos rancores da sua família, se sentem vítimas do descaso ao longo de gerações. Você é uma peça importante nesse conflito, principalmente para um lado que estava em destavantagem até agora.

— Impressionado com a sua capacidade de analisar situações e cenários. — Herry mergulha o rosto na água morna para molhar os cabelos e as primeiras palavras do ladino se perdem.

— ... ser o inteligente e eu tenho uma mente estratégica.

— Era parte da sua estratégia ser pego roubando?

— Não estava nos meus planos, mas eu considerava essa hipótese.

— Não me disse o que estava tentando conseguir, aliás. — O príncipe massageia o couro cabeludo depois de ter espalhado sabão nos cabelos escuros.

— Um mapa. Quer dizer, a minha intenção inicial era pegar um. — E se tivesse sido um pouco mais inteligente do que ambicioso teria continuado com esse foco, mas o que pode fazer se nasceu amaldiçoado pelos deuses com o pecado da ambição. — No Edíficio Central da cidade há uma sala, uma espécie de cofre onde eles guardam suas relíquias mais valiosas... O prédio tem uma cúpula grande e azul. Você o viu antes de te enfiarem na prisão? — Ao interpelar, Cygnus o fita e ao fazê-lo lembra-se de reduzir o tom de voz por conta prisioneiros ocupam as outras piscinas termais e do trânsito contínuo de guardas. — Se algum dia te levarem num passeio didático pela cidade, você verá. Eles tem um pequeno tesouro, não é tão grande... já ouvi falar de maiores, mas os safados tem umas belezinhas como um mapa que indica o lugar onde é possível encontrar o Pássaro do Alvorecer...

— O Pássaro do Alvorecer? — Herry interrompe a narração, o corpo parado no meio do movimento para enxaguar os cabelos ensaboados. — Você quer dizer o Ente Dourado?

— A Capital o trata como lenda também?

— Não, mas...

— Ah, que alívio! Vocês tratam tudo como se fosse um mito!

Herry o encara com impaciência.

— Não seja estúpido.

— Não sou. Nos últimos dias você fez a mesma cara de surpresa para cada lorota da Capital que eu desmenti.

O mito que resiste ao tempo e ao esquecimento corre o reino narrando a existência de um ser mítico, um pássaro de penas douradoas que cintilam como o próprio sol, vítima da ganância dos homens. A criatura costumava ter uma relação amistosa com os nativos da região em que vivia, sua presença trazia fertilidade a terra e as mulheres, sendo que a cada ano ele realizava um pedido feito pelo líder em nome de toda a aldeia que vivia próxima ao seu ninho. No entanto, um conflito cresceu entre as tribos locais que se julgavam desmerecidas por não terem seus anseios levados ao conhecimento de tal ente magnífico e a ganância colocou os grupos em conflito. Para evitar o derramamento de sangue e a morte de inocentes, o Pássaro Dourado sacrificou sua própria existência e desapareceu. As tribos perderam todos os benefícios concedidos por ele, o solo tornou-se menos fácil de ser cultivado e a taxa de natalidade das mulheres das tribos caiu, um número relevante de crianças passou a nascer fraca demais para sobreviver.

Ainda relata-se que uma vez a cada cem anos o Pássaro volta a vida no alvorecer de uma manhã e concede um único desejo a qualquer alma desesperada que o encontre, desde que o pedinte porte um coração puro e livre de ambição egoísta, retornando a morte ao fim do dia, quando a penumbra da noite avança pelo céu róseo do entardecer.

— Eles tem um mapa para o lugar onde ele é encontrado a cada centena de anos e eu o tive nas minhas mãos... — Contemplativo, Cygnus desliza a palma pela surperfície da água rememorando a sensação do pergaminho entre as falanges. — Eu estava deixando a sala com a única coisa que me interessava no momento quando vi um brilho escarlate e traiçoeiro protegido por uma simplória redoma de vidro... a Lâmina Rubra logo ali ao meu alcance, só precisa ser furtivo e quieto o suficiente para pegar e cair fora. Eu nunca me perdoaria por perder a oportunidade. — Esfrega os ombros enquanto relata e as mãos fazem fricções mais fortes do que o necessário deixando um rastro de vermelhidão. — Tenho quase certeza que eles me viram entrar lá e os sacanas me deixaram alimentar a esperança de ter sucesso... Uma crueldade imperdoável para se cometer contra um homem como eu.

Os traços duros no rosto do rapaz evidenciam seu ego ferido e Herry nada profere, evitando troças desnecessárias.

— É bem provável. — Concorda. Uma curiosidade emerge na maré de pensamentos dele. — O que você pretendia pedir ao Ente?

O ladino tagarela recolhe-se num silêncio sólido e o Rohese o encara, a expressão de quem mergulha em si e nada por pensamentos pungentes que ferem a alma, mas não consegue impedir-se de percorrer essa jornada para revisitar algumas memórias.

— Nada. — Cygnus devolve e sua boa vontade escorre de seu corpo assim como a água que usa para livrar-se da espuma que reveste o tronco. — Não tem importância agora.

Terminam de lavar-se e ao final do banho já não há qualquer resquício da pedra de sabonete, apenas um rastro diminuto da fragrância neutra. Herry poderia aproveitar a comodidade da banheira de pedra, mas não está em casa e os horários regrados de rotina da prisão não o permitem ir além daquilo. Veste-se com a as vestes limpas e calça os pés. Toalha e a túnica suja são dobradas para serem entregues as guardas que as recolhem na saída da sala de banho. As sandálias contra o chão de pedra lisa e a dupla conversa sobre o jantar, Cygnus tenta adivinhar o que servirão na última refeição do dia. É ele quem apressa o passo e toca um dos ombros de Herry, empurrando-o mais para frente ao mesmo tempo que um burburinho cresce ao redor deles.

Irrita-se com os que atrapalham o caminho até a saída e Herry está prestes a questionar sua pressa, por mais que ele seja agitado nunca demonstrou essa urgência descabida, mas uma manifestação é o começo de uma explicação proferida por uma voz desconhecida, fazendo-o virar-se ao interromper seus passos.

— Não me interessa se ele não é o rei, se tem o sangue pestilento daquela corja é culpado o suficiente para mim. — Um homem de cabelos secos e ensebados abre caminho até onde o príncipe e o ladino estão, Cygnus desistindo de insistir para tirar o amigo dali. Ele é alto e esguio, algumas cicatrizes marcam os antebraços livres de tecidos. O nariz é proeminente e destaca-se no rosto de expressões muito retas. — Nós deviamos castrá-lo para ter certeza de que haverão menos nobres abutres que enchem os rabos com plantações e ouro enquanto nossos filhos roem cascalho. — Os dois já encontram-se no meio de um círculo formado por outros habitantes da Torre e o esbravejador vence a última fileira de homens para juntar-se a eles no centro das atenções.

Herry mantêm seu semblante impassível e por mais que haja tensão no franzir dos seus cenhos, a rigidez de sua expressão não revela irritação. Não há como refutar aquela acusação, ele mesmo já as articulou em sua mente antes. Os lábios mantêm-se unidos e sendo o acusador alguns centímetros mais alto, ele é obrigado a levantar nos olhos, porém não há no erguer do queixo nenhum resquício da soberba que outrora via-se no mesmo gesto.

— Nenhuma palavra para os seus súditos, majestade?

— Não. Você está certo.

— Aprendeu a dançar conforme a música para manter a língua ou é frouxo demais para se posicionar sem os seus estandartes e cavaleiros? Também fica calado quando está sentado no Conselho e decidem não dar atenção para os problemas de quem não vive de calças abaixadas para o rei?

Cercados por uma muralha de curiosos, Cygnus imagina que os guardas estão prestando atenção no tumulto, mas não detecta nenhum esforço da parte deles para findar com aquilo.

— Ele não tem um lugar no Conselho. — O ladrão adianta-se colocando-se ao lado do príncipe. — E tem muitos irmãos, nunca ocupará o trono, nunca será rei, não é? — Olha por cima dos ombros buscando apoio em Herry. — Não é? — Repete.

— Sim. — O nobre completa, enchendo o peito com uma lufada de ar. — E esse é motivo pelo qual eu deixei a cidade para trás. Via os erros sendo cometidos e não tinha nenhum poder para alterar o rumo das decisões ou dissuadir o rei. Ele está cercado de homens que carregam prioridades equívocadas o aconselhando, alguns deles próximos demais. — O rosto de seu tio Olavo surge diante de seus olhos. — De qualquer forma, eu não me eximo das minhas responsabilidades e minha viagem tinha como propósito encontrar um meio de me fazer ouvir junto do Conselho, um meio de redimir as falhas cometidas por meu pai, por meu avô e os que vieram antes dele.

Uma piada.

Herry não os culparia se caíssem no riso nesse instante, porque só percebe a falha de seu discurso depois que aquelas palavras deixam os lábios. Desde que deixou as muralhas de Rohesia, seus dias são uma coleção de infortúnios que o afastaram de seu objetivo e ser um prisioneiro das forças de Lyra ridiculariza suas intenções. Qual remissão pode angariar quando sequer pode decidir qual rotina seguirá nos seus dias? Herry falhou consigo, com seu povo e com o própri pai.

— Eu tenho uma ideia de redenção que me agrada e imagino que também deixará os outros satisfeitos. — Os olhos do ensebado correm ao redor antes de retornar ao príncipe. — Uma que podemos aceitar como castigo ao seu pai.

Herry é rápido ao esquivar do punho cerrado que é lançado na direção do seu corpo, mas é pego de raspão pelo golpe e precisa reencontrar seu equilibrio ao tropeçar para trás.

— Ei, ei. — Cygnus coloca-se entre ele e o adversário. — Eu tenho certeza que isso não é necessário. — Tenta manter a voz firme, mas Herry percebe a hesitação que faz vacilar algumas das silabas. — Podemos encontrar um outro meio de redenção que deixe as duas partes satisfeitas! — O ladino mune-se de seu carisma, combatendo o rancor do homem de cabelos longos com seus sorrisos abertos.

— Você é amigo dele?

— As coisas são bem paradas no último andar, há tempo de sobra para dois homens conversarem. Ele não é uma pessoa ruim, seu único erro é ter nascido numa família problemática. — Cygnus libera um riso nervoso.

— Eu perguntei se você é amigo dele, ladrão.

Herry procura pelo olhar do ladino, mas não recebe nenhum, ele encara o prisioneiro exaltado com firmeza.

— Sim, eu sou. — Retorque sem titubear.

O primeiro soco faz soar um som agourento de osso sendo quebrado. Cygnus tenta escorregar para longe dos dedos esguios, mas eles estão presos com força em sua nuca e cada movimento para escapar causam uma dor aguda no couro cabeludo ao repuxarem os fios escuros. Os braços debatem-se ao tentar acertar o captor, mas é arrastado para junto de uma das banheiras de pedra morna até cair de joelhos junto dela com a figura de agressor ao seu lado.

— Alguns dias, algumas palavras bonitas e você já se curvou? Desleais e traidores são tão sujos quanto os ratos que usam uma coroa. — Ele destrata antes de empurrar a cabeça do ladrão para dentro do bacia de água morna para afogá-lo.

Herry caí sobre ele e seu primeiro golpe é desferido contra a lateral do rosto magro do prisioneiro, que cambaleia para o lado e libera os dedos que prendem a cabeça de Cygnus submersa. O príncipe adianta-se para puxá-lo de volta para a superfície, deitando-o no chão de pedra lisa e fria enquanto cospe a água que enchia suas vias. Os nós dos dedos doem e ele atenta-se aos movimentos do algoz para antever uma nova investida, mas os guardas decidem cumprir com a sua função ao dispersar a aglomeração e intervir no conflito, arrastando encrequeiro para longe. A atenção que destinam a Cygnus é pouca e apenas com a intenção de certificar-se de que ele continua vivo.

O príncipe desfruta de um pêssego que foi servido junto do jantar, um fruto doce e suculento. O conjunto todo da refeição é bem melhor do que oferecem aos prisioneiros nas masmorras da Fortaleza do Penhasco e o príncipe sente-se envergonhada por isso. Se fosse um cativo aos cuidados da coroa teria que contentar-se com uma sopa rala e pão velho.

O pensamento deixa seu paladar amargo e nem o sumo que se derrama na sua língua o ameniza. Está sentado junto do chão, as costas apoiadas no gradeado que separa o seu recinto daquele em que vive o ladino, que também está acomodado no piso depois de findar com sua refeição. Ele está fanho e há um inchaço onde seu nariz foi quebrado por um soco, deixando-o fanho, mas, segundo o curandeiro da prisão, não é razão para preocupação excessiva.

Revisitar os eventos daquele início de noite o conduzem há uma das frases de Cygnus que revela uma sugestão implícita ao passarem por um exame mais minuciosos e atento.

— Cygnus, você me disse que eu sou uma peça importante no conflito.

— E o que há debais nisso? — Interpela coma dicção prejudicada. — É um fato.

— Não, não é. De qual conflito você está falando? Na Capital não há nenhum prenúncio, a menos que tenha sido desencadeado nessas semanas que eu estou longe e nenhuma notícia chegou até Dea Syria a respeito disso.

Dão-o... — Cygnus solta um esgar dolorido ao ajeitar-se e apoiar a cabeça no gradeado, mantendo-a elevada para tentar evitar os sangramentos ao respirar pela boca. — As movimentações já estão acontecendo há quase dois anos. Eu não deveria estar te contando essas coisas... Se eles soubessem das coisas que eu ouvi nunca teriam nos deixado tão perto para não correr esse risco. Talvez nem me tivessem deixado com a língua... Eu também não sou um admirador da sua família. Não confio no seu pai, no seu avô ou qualquer outra pessoa que tenha uma pequena parcela de poder, porque ele cega. Confio em você e naquilo que você diz. Pode não dar certo, mas acredito no seu desejo de tentar mudar a situação.

— Obrigado. — Herry mantêm os olhos presos no teto da cela. No prelúdio do conflito no salão de banho foi a segunda vez em que ele falou em voz alta sobre suas intenções e ao fazê-lo, libertá-las da clausura de sua mente e trazê-la para a realidade, faz com seus planos percam os contornos de um desejo fantasioso e ganhem a solidez da determinação de um homem, algo que pode ser realizado. Um compromisso, não apenas uma vontade.

— Não me agradeça, eu posso ser morto por isso se você se revelar um grandesíssimo desgraçado e contar tudo isso ao rei. — O ladino ri. — Não reservo muita fé aos deuses, mas tenho esperança de que alguém intervenha antes que a situação afunde todos nós, ricos e pobres, numa guerra.

— Guerra?

— Por que você acha que Lyra tem uma força militar tão bem organizada?

— Você ouviu sobre isso aqui na Torre?

— Absolutamente não, esse assunto é sigiloso. Eu ouvi sobre quando estava fazendo um reconhecimento do interior do edífico central para descobrir um jeito de entrar e sair do cofre.

Herry compreende que quando ele diz ter “ouvido” significa que obteve a informação por meios ilegitímos que possivelmente incluem esgueirar-se por esconderijos e acompanhar diálogos que não eram para os suas orelhas. Por mais que sua guilda tenha acordos com Lyra, não é um homem de posição alta ao suficiente dentro do grupo pra ter acesso a informações tão delicadas como essa.

— E o que mais você ouviu?

— Eles tem dedicado os últimos meses a buscar todo apoio que possam conseguir de senhores menores, mas ainda não estão confiantes em avançar, porque poucos, nem mesmo os mais insatisfeitos, acreditam firmemente que uma rebelião terá sucesso. Eles tem bons números, a lealdade de guildas e senhores do mar, mas os exércitos da coroa são de longe mais bem preparados e possuem melhores armas. Não se coloca camponeses mirrados e famintos contra uma formação de soldados bem alimentados, além de treinados. Já dedicaram muito tempo preparando-se para arriscar tudo disparando a primeira flecha no momento errado. Na época que ouvi sobre isso eles não tinha noção de que colocariam as mãos num herdeiro do trono, mas não é difícil de imaginar que você é uma vantagem para eles, uma que eles não previram e foram agraciados pela sorte. Acredita que seu pai mandará que os seus homens caíam com toda a força sobre os inimigos enquanto você estiver sob o poder deles?

— Não. Meu pai preza demais pelos filhos, são a única coisa que ele coloca antes do próprio reino. — Constata, sentindo o peito apertar-se com a saudade de Gideão.

— Exato. Você é a moeda de troca que eles segurarão até conseguir um acordo extremamente vantajoso. De um jeito ou de outro, você definirá o futuro da guerra, impedindo-a ou indiretamente determinando o seu fim.

São razões suficientes para Herry acreditar que não encontrará a morte pelas mãos dos homens de Lyra tão precocemente e permanecerá encarcerado no topo daquela Torre por longas semanas. O carroço de pêssego rola entre os dedos da sua destra.

— Pelo menos, não se pode dizer que Uthyr seja um homem precipitado atrás de glória e sangue.

— Como?

— Ele é a Voz da Guerra das forças rebeldes.

— Uthyr? — A confusão mental de Cygnus soa em sua entonação. — Não, ele é o comandante, mantêm a ordem na cidade e a administra, mas não é ele quem lidera a rebelião... ou liderará quando vier a tona.

— Não?

Ao levar os olhos para o lado, a atenção de Herry divide-se de súbito ao vislumbrar um vulto branco que se move velozmente junto do chão na escuridão parcial da cela do arcano desacordado.

— Não. O Uthyr se comunica com alguém e juntos eles tomam as decisões. Ninguém sabe a identidade dessa pessoa, apenas que ela está presente entre os altos círculos da capital. A Voz da Guerra é alguém próxima a coroa.

Notas finais
Eu protelei esse capítulo por semanas, porque não conseguia encontrar inspiração para escrever a sua sequência depois de ter narrado todo o fragmento que se passa na Capital do reino. O bloqueio criativo persistiu por mais que eu saiba exatamente o que virá nos próximos capítulos e o que eu precisava transmitir neste. Espero que ter vencido esse obstáculo me permita voltar a escrever Karma no mesmo ritmo de antes. Como Pedro lidará com o conhecimento de que uma rebelião está sendo arquitetada contra seu pai e não há nenhuma forma de avisá-lo a respeito? Referência visual para a cidade de Lyra: http://img11.hostingpics.net/pics/835806port2.jpg
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.