Karma

1 Cansado de todas essas pessoas falando.


Notas iniciais
Agradecimentos adiantados aos futuros leitores e aos meninos que inspiram os protagonistas de Karma.

Situada ao norte, a capital da Ieshia encontra-se sobre um longo planalto, que um dia pareceu um palco para um castelo solitário, estando menos vazio quando após a queda de um rei, a cidade tornou-se o centro dos governos seguintes. Trata-se de um lugar suntuoso e vivo, as ruas sempre cheias, além de próspero. Na principal área de comércio local, as ruas do mercado são tomadas por cheiros distintos, que vão desde as essências usadas para perfurmar até especiarias culinárias. O tumulto que engarrafa o trânsito, criado pela mistura de homens a pé e cavalos, diminui a medida que se caminha para longe do centro, acessando as áreas onde erguem-se as moradias. É possível deduzir a situação financeira de cada morador pelo distrito de sua residência, mas mesmo os mais pobres dispõe de conforto considerável, aparentemente abençoados pela proximidade com fortificação real.

O castelo de pedra escura ergue-se na porção oeste da cidade, beijando um precipício, ostentando suas muralhas intimidantes sobre as quais a Patrulha do Rei realiza rondas durante todo o dia e torres altas que sustentam bandeiras que dançam ao sabor do vento. O trio de portões, um em cada direção, que dá acesso a fortaleza passa a maior parte do dia aberto e as pontes abaixadas para receber os que vêm ao encontro do soberano. A atual família real é numerosa e vive ali há três gerações, sendo exaltada pelos cantores que dizem que seu reinado nunca terá fim. Os filhos do Rei e da Rainha de Ieshia contabilizam cinco. Apenas o mais velho, Gabriel, o primeiro na linha de sucessão ao trono do pai, já carrega consigo uma criança pequena.

A capital atravessa seus dias vivendo um sonho de bonança, não é preciso percorrer muitos quilômetros para corromper essa utopia. A medida que afasta-se do trono e da capital a situação do reino torna-se pior. Os mais velhos dizem que a fome e a seca nunca foram tão agressivas, tão pouco o rei foi tão cego. Enquanto os nobres fartam-se em mesas cheias, o restante de Ieshia padece. Os notícias sobre o “inferno” que chegam até a capital são abafadas e ignoradas, afinal o sofrimento alheio parece distante demais para importar-se diante da própria opulência.

Contudo, um dos cinco filhos do rei mantêm-se atento a tudo que chega das terras distantes. Herry, quarto filho do senhor seu pai e o terceiro na linha de sucessão (já que Elena, a segunda prole do rei, não tem direito ao trono por ser mulher), seguido apenas que a pequena Gabriela, não alimenta nenhuma ilusão de algum dia usar a coroa antes da velhice, a julgar que o peso dela será sua sentença de morte em sua cabeça calva e fraca. Seu desapego a essa pretensão, no entanto, abre seus olhos para a realidade. Com uma boa dose de sensatez, o rapaz retira dos seus olhos a venda que cega os demais e enxerga a capital como ela é. Caótica. Seu crescimento desenfreado aglomera uma porção de problemas que não são considerados pelo pai e por seu conselho. Ao Primeiro Cavaleiro, como é chamado o líder da Patrulha do Rei, que também é responsável por organizar a segurança da cidade, tem chegado cada vez mais denúncias que apontam o aumento da violência nas vielas.

Nas últimas semanas, a paciência do jovem príncipe tem sofrido cortes. Ao sentar-se a mesa para banquetear-se, permanece quieto a maior parte do tempo, limitando-se a acompanhar os embates verbais calorosos que acontecem entre os presentes, manifestando-se quando é invocado e o faz de modo conciso. Descobre uma ânsia em seu peito, uma inquietude que assola seu espírito. Ele tem vontade de fechar os punhos e acertar a mesa, berrar. Herry o faria, se soubesse que bastaria para acordar aquela gente para o que está acontecendo bem debaixo dos seus narizes.

Chegado o quadragésimo dia do nome do rei, a cidade alimenta-se de um clima festivo apropriado. As ruas são enfeitadas pelos próprios moradores em homenagem ao seu soberano, já que a maioria deles não dispõe de dinheiro suficiente para ofertar um presente digno do nobre. Uma série de espetáculos são realizados ao longo dia para agraciar o monarca, incluindo a tradicional disputa de trovadores, onde homens e mulheres esforçam-se para criar versos rimados em torno do homem ao qual se presta a solenidade. Herry é arrastado para acompanhar todos os eventos, obrigando-se a esboçar sorrisos animados e expressões amenas. A cada cenário seguem-se infindáveis apresentações e cumprimentos aos fidalgos de terras distantes que dirigem-se capital apenas em datas importantes para bajular as figuras importantes da corte.

É por eles que o príncipe descobre da situação calamitosa que toma conta do sul do reino. Durante as justas, Herry decide deixar a varanda montada para acomodar a família real e desce para tomar o caminho de retorno do castelo, acompanhado de uma dupla de guardas. Ao contornar a arena e tomar o rumo dos jardins, nota dois cavaleiros que seguem a frente. Ainda que sua mente esteja distante, os ouvidos atentos compreendem o teor da conversa e atrai sua atenção.

— Está cada vez pior no sul. — O mais alto entre eles diz sem qualquer cuidado em conter sua entonação. Trata-se de um homem de cabelos cor de areia e postura altiva, os ombros largos e os braços torneados revelam um extensivo trabalho físico. — A praga está se disseminando como fogo na palha seca e nenhum curandeiro consegue interromper o seu avanço ou pelo menos atrasar a morte. — Uma diversão mórbida dança entre as palavras dele, emedando-se num sorriso amarelo. — E ela não poupa ninguém, nem mulher, nem os velhos ou as crianças.

— Ouvi dizer que os corpos já estão fazendo pilhas. — O outro comenta aguçando a curiosidade para arrancar mais informações sobre o assunto, qualquer coisa que possa trocar por atenção durante o baile daquela noite. É ligeiramente menor do que o seu companheiro de caminhada e seus cabelos são escuros, pendendo para um tom acobreado e igualmente forte fisicamente.

— Nem me fale. — O loiro bufou, levando a destra até as narinas. — E fedem como cem porcos. Não há quem aguente. O cheiro está tomando toda a Península da Sereia e sendo levado adiante pelo vento que sopra do mar. Estão sem espaço para enterrar os mortos e começaram a queimar os mortos. Piras funerárias comunitárias e enormes que só fazem piorar o cheiro.

O menor esboça uma expressão de escárnio. — Enquanto isso, o rei come como um porco e bebe como um cão.

— Está tudo perdido, meu caro. Ninguém está preocupado até que a Praga comece a comer a carne macia do povo da capital. E sem falar na onda de crimes...

Herry os ultrapassa, tomando o rumo do pátio central, mas as palavras proferidas por eles o acompanham o restante do dia. Quando o sol começa a desenhar sua descida através do firmamento, ele recolhe-se para preparar-se para o banquete, seguido do baile da corte, que encerrará as comemorações em nome do Rei. O corpo relaxa mergulhado na água quente que enche a banheira, embora os pensamentos não encontrem descanso. Os olhos do jovem estão fixos no teto, mas sua consciência perde-se além daquelas paredes. As afirmações sobre situação precária do sul de Ieshia agitam-se dentro de seu crânio como mariposas ao redor de uma fonte de luz. Apoiado pela nuca, sua cabeça descansa contra o metal frio.

Herry inspira ao fechar os olhos. O cheiro da essência derramada na água pelos empregado enche suas narinas, impregnando-se em sua pele ligeiramente bronzeada pelo sol durante os árduos treinos de combate. Há urgência naquele assunto. A morte e a fome por si só são questões emergenciais e o avanço da Praga torna o cenário ainda mais crítico. Ao abrir os olhos, toma uma resolução. Ergue-se da banheira, a água escorrendo pelo por seu corpo nu. Um rapaz, poucos anos mais jovem do que ele, aproxima-se no mesmo instante estendendo uma toalha seca.

A medida que se apronta, formula em sua mente como o fará. Veste-se sem a demora habitual, os cabelos curtos e negros sendo ajeitados diante do espelho que há no quarto. Ainda está prendendo o manto pesado quando deixa o cômodo e segue pelos corredores, nos quais cresceu correndo e brincando com os irmãos.

— Onde está o meu pai? — Questiona um dos guardas que caminham junto dele.

— Vossa Graça desceu a pouco para a sala do trono afim de receber Lorde Brahmani que chegou para o banquete, senhor.

O príncipe agradece com um aceno do rosto, movendo-se com maior decisão agora que sabe para onde dirigir-se. Os corredores estão apinhados, os funcionários misturam-se com convidados que aproveitam o evento para esgueirar-se através das alas internas, mesmo com intensivas recomendações para permanecerem no salão de festas e no jardim anexo. A coroa que adorna o topo do cabeça de Herry reluz diante das chamas tremeluzem nas tochas presas as paredes.

A entrada principal da sala de trono é formada por uma porta de folhas duplas, altas e feitas de bronze que estão entreabertas e pela abertura a risada ruidosa do soberano de Ieshia escapa. Herry verifica o interior do cômodo, vislumbrando uma despedida entre o pai e o homem que ele recebe. Quando o convidado gira o corpo para deixar o rei sozinho, o príncipe adentra o âmbito, recebendo um curvar de cabeça quando o Lorde passa por ele.

— Senhor. — Chama pelo progenitor, que abre um sorriso ao verificar a presença da sua prole. — Tem tempo para uma conversa antes do banquete?

Gideon toca os ombros dele, apertando-o com os dedos fortes. — Sempre tenho tempo para os meus filhos.

O mais novo umedece os lábios, correspondendo ao sorriso dele. Inspira uma lufada de ar antes de começar. — Sei que hoje é um dia de comemoração, de alegria, mas receio que ele seja inadequada considerando o que está acontecendo para lá da capital. — Procura as palavras corretas ao introduzir o assunto. Eleva a destra até tocar a mão oposta do pai que está em seu ombro. — Quando retornava ao castelo nessa tarde após as justas, ouvi uma conversa de dois cavalheiros. Eles falavam do sul do reino. Nenhum dos dois notou minha presença, então não tenho motivos para acreditar que tenham motivos para mentir. Pelo teor do diálogo, as coisas estão difíceis por lá. A Praga está mais forte do que nunca.

A expressão do rei entra em transformação ao ouvir o discurso do filho. Os traços suaves desaparecem e adotam seriedade. O soberano recolhe ambas as mãos, unindo-as diante do corpo. Herry vê naquilo um péssimo sinal.

— A Praga nunca esteve em controle no sul, por mais que todos os reis antes de mim tenham tentado por um fim nela, tudo o que conseguiram foram empurrar suas desgraças para o mais distante do reino. O sofrimento de alguns é inevitável, meu filho. — A justifica alcança os ouvidos de príncipe, mas seu cérebro recusa-se a aceitar sua veracidade.

— A doença não é o único problema. A violência também está crescendo e com tudo isso... O senhor se recorda do emissário que chegou ao conselho na última semana? Ele falava sobre pequenos grupos de rebeldes sendo formados, um possível levante...

— E quem será tolo de formar uma rebelião contra a família que é soberana em Ieshia ao longo de dez gerações? — As tentativas insistentes de Herry em tentar fazer o pai compreender a importância daquela questão é interrompida por alguém que está presente ali desde a reunião com Lorde Brahmani, mas que escapou da primeira verificação do príncipe. Otto, irmão do rei e seu tio, aproxima-se em passos lentos. Seu olhar passa do sobrinho para Gideon. — O sul está sempre reclamando, por mais benefícios que você ofereça, nunca estão satisfeitos. Há quem ainda lamente pelos primeiros reis. — Os olhos castanhos do homem rolam em desdenho. — Você sabe bem, não sabe, irmão?

Um silêncio curto permanece entre o trio. Herry compreende o embate que forma-se ali. Ele e o tio são reinos opostos e o pai é um território a ser conquistado. O vacilar do olhar de Gideão esclarece ao príncipe que não detêm poder de fogo suficiente para conter o poderio devastador de Olavo ou mesmo fazê-lo recuar.

— A coroa deveria enviar, pelo menos, alguns Senhores da Lei até o sul e ordenar que tragam informações consistentes sobre a situação. — Herry insiste, seu olhar preso ao rosto do pai imprime emergência. — Ignorar essa situação é o mesmo que descer sua espada sobre o pescoço de milhares! É assumir que pessoas estão morrendo sobre o seu consentimento! — A esperança do príncipe consiste em tocar a consciência do rei com a emoção que tange sua voz.

— Se as pessoas estão morrendo é porquê a Deusa permite que a Praga avance. — As palavras de Olavo são entremeadas por um abafado riso de chacota. — E o sul está sofrendo por sua própria desobediência. Se recuam a dobrar os joelhos para a nova fé e professam suas orações aos deuses das terras além do mar. Um homem deve aprender a arcar com as suas consequências, meu jovem sobrinho.

— Crianças também estão morrendo, tio.

— É uma pena que eles tenham que pagar pelos erros dos pais. Se houvesse qualquer problema importante, o protetor do Sul já teria se manifestado.

Herry cerra os punhos e os dedos doem ao serem pressionados contra as palmas das mãos. Algo na forma como fita o tio deve revelar seu furor indignado, porque o rei empertiga-se ao espalmar as mãos.

— Como você mesmo disse, hoje é um dia para comemorar. — Gideão responde. — Entendo suas preocupações. Dos seus irmãos, você sempre foi o que demonstrou maior preocupação com o próximo. Prometo que retomaremos essa conversa quando for mais propício, meu filho. Podemos até fazê-lo junto do conselho real. Agora, deixe isso para lá e vamos comemorar! — Tapinhas são seu prêmio de consolação.

Herry inspira para encontrar paz dentro de si, permanecendo na mesma posição, enquanto o pai e o tio o deixam.

— Aconselharia a manter seus pesadelos inverossímeis para si. — A voz sussurrante de Olavo alcança seus ouvidos, quando o homem passa por ele para deixar o ambiente.

Herry encara o trono de bronze diante dele. Os desenhos entalhadas no metal não são distinguíveis da sua posição, mas estão gravados em sua mente, de forma que não precisa aproximar-se para ater-se a narrativa de como os reis de Ieshia derrotaram os primeiros reis. As histórias da guerra que durou dez anos, narradas pela voz da sua mãe, ressoam dentro dele.

A justificava do tio usando a figura da Deusa é estúpida. O irmão do rei não perde nenhuma oportunidade para esclarecer que religião manto feito para os pobres vestirem, enquanto os homens sensatos não precisam apegar-se a nenhum falso deus para obter a glória.

Ainda que os minutos passem, a fúria não arrefece.

Ele decide.

Ao girar o corpo e caminhar na direção da porta de folhas duplas é sustentado pelo peso de sua resolução.

— Vocês estão dispensados para aproveitar os festejos. — Anuncia para a dupla de guardas que o escoltam ao deixar a sala do trono. — É uma ordem. — Confirma com tom imperativo ao ver a relutância dos homens em abandonarem sua presença. Todavia, o poder de sua autoridade os vence e eles afastam-se.

Ciente de que não terá muito tempo, Herry retorna a torre em que encontra-se seu aposento privado e pega apenas o essencial para a próxima semana. Os trajes formais destinados a festejos reais é substituído por roupas apropriadas para montaria. Na cozinha, consegue alimento, não sendo questionado sobre a sua finalidade. Esgueirando-se pelo interior do seu próprio lar como um gatuno, faz o caminho mais curto até os estábulos. Os cavalariços reúnem-se na entrada frontal e bebem, conversando em voz alta, enquanto distraem-se com um jogo de cartas. Com pisadas leves, ele contorna a estrutura até encontrar a porta dos fundos. Os cavalos estão silenciosos e ao cruzar diante das baias, ele prende a respiração, rezando para que a sorte esteja ao seu favor naquela noite.

Encontra a baia do animal que está habituado a montar, um baia amarilho, quase na metade do caminho até a entrada da frente, conseguindo ouvir claramente a voz dos funcionários responsáveis por cuidar do espaço. Evade-se para o interior do cubículo que o cavalo está, tentando não realizar movimentos bruscos e evitando qualquer barulho que possa denunciar sua presença. Coloca a sela sobre o animal e o prepara, puxando-o pelas rédeas para fora dos estábulos pelo local que o acessou. Ao escapar dos cavalariços sem alarde começa a considerar que a deusa o abençoa com sorte.

O caminho até um dos portões não é simples. O aumento do número de cavaleiros realizando rondas pela capital exigem mais cuidado ao atravessar as vielas conduzindo o baia amarilho. A medida que aproxima-se da saída, seu coração perde o ritmo, acelerando em êxtase e temor. Quanto mais perto fica do arco que dá forma ao portão, maior é a sensação de que está prestes a falhar. Mesmo sendo noite, o movimento não é menor do que durante o dia e ele aproveita disso ao caminhar nos cantos da rua, mantendo a cabeça abaixada.

— Ei! — O chamado o faz congelar por dentro, próximo a ele um homem ergue a mão na sua direção. Começa a considerar suas justificativas para estar ali e não no baile em honra ao seu pai caso seja pego. Uma figura cruza o caminho a sua frente e vai na direção daquele que manifestou-se, cumprimentando-o.

Herry solta pelos lábios o ar que segura sem perceber, apertando os dedos ao redor da rédea. Ao cruzar os portões, ele fecha os olhos numa tentativa de tornar o momento mais fácil. Por favor, por favor. O pedido ressoa em sua mente. Ao retomar sua visão, está livre. “Livre”. Dá mais alguns passos, a adrenalina de sua fuga disseminando-se por seu corpo. Aperta as mãos nas rédeas da montaria ao ter a sensação de que as pernas tremem. Dá mais alguns passos saboreando seu sucesso momentâneo e decide montar, encaixando os pés entre o estribo e a pedaleira. Ao ficar seguro sobre o cavalo, Herry maneja as rédeas e atiça para avançar a galope para fugir do alcance da Patrulha do Rei o mais rápido possível. Ele irá para o sul, ele precisa ir. Alguém o está esperando, embora ele não saiba.

Notas finais
Primeiras impressões? Críticas? Sugestões? Não fiquem tímidos!