Karma
1 Capítulo Único
Minha mãe sempre me disse que nada acontece por acaso. Eu bem que gostaria de dizer que não, mas bem…
Eu trabalho num escritório de segunda a sexta e, por sorte, eu moro perto. Então eu me dou o luxo de poder dormir uns minutinhos a mais. Então eu acordo, tomo um banho gelado e ponho a primeira camisa que eu encontrar no armário. Os sapatos estão sempre apertados (para a infelicidade dos meus pés de unhas encravadas), o meu velho cinto de furos extras improvisados ainda precisa de um substituto com urgência e meu relógio ainda precisa de concerto.
No caminho para o escritório, eu costumava parar em um café e comprar um sanduíche de presunto com queijo e aquele molho especial que só eles sabem fazer pra começar o dia bem, porque eu também sou filho de deus. Só que um dia, eu passei a me encontrar sem o tal sanduba do molho especial porque alguém chegava antes e comprava o último. O MEU sanduba do molho especial. Então nada mais justo do que ir de pá virada para o trabalho.
Entre uma planilha e outra, eu bufava nervoso, pensando no filho da mãe que tinha a audácia de roubar o meu lanche favorito do café; eu ficava pensando no que faria se eu encontrasse o desgraçado no flagra, entregando o dinheiro para o caixa em câmera lenta e um close cinematográfico da minha cara enquanto eu empurrava as pessoas para longe na tentativa de agarrar o sujeito pela gola da camisa e arremessá-lo calçada afora. Eu me lembro de ter desenhado essa ocasião uma ou duas vezes no verso de uma folha de rascunho pra passar o tempo.
E foi comendo um outro sanduíche (de peito de frango com queijo branco) que eu tive a ideia de sacrificar preciosos vinte minutos de sono para chegar antes no café para poder garantir a tão desejada primeira refeição do dia.
O café vivia cheio àquele horário, o que sempre me obrigava a caçar um assento vazio ao balcão ou me sentar com algum estranho (com certeza, a pior decisão). Fui pedir aquele lanche que eu não comia há duas semanas e achei um tanto desagradável quando me disseram que o último já fora comprado. Como o homicídio é ilegal por aqui, decidi forçar um sorriso e pegar o de rosbife. Sem paciência pra comer de pé ou esperar alguém esvaziar um lugar ao balcão, procurei por qualquer mesa – mesmo que já ocupada – e me contentar com o que eu tinha.
Lá foi Gilbert Beilschmidt, um pouco menos pomposo do que o usual, perguntar para uma moça de cabelos castanhos se aquela única cadeira estava sendo utilizada. Ela, muito simpática, sorriu e disse que não tinha ninguém ali. Sentei-me rapidamente, sem prestar muita atenção a ela. Ela mexia no celular quando finalmente olhei para ela de relance e percebi que ela era a secretária nova de quem falavam os meus colegas… E pra quem eu estaria enviando os meus relatórios e as minhas planilhas. Nunca tínhamos nos falado pessoalmente, apenas por e-mails, mesmo. Nada mal…
Mentira, havia um mal, sim. Comecei a pensar em que tipo de pessoa ela seria, quais seriam os seus gostos, que tipo de roupa ela usaria fora do trabalho, o que eu faria se a encontrasse numa festa, se era solteira, se era hétero, se preferia homens bonitos ou homens inteligentes, Coca Cola ou Pepsi, em que tipo de música ouvia, que tipo de sanduíche ela compraria. E aí eu olhei para o lanche que ela segurava: O maldito lanche com molho especial.
Qualquer vontade que eu tivera de iniciar uma conversa “amigável” morreu ali. Mas o pior não era nem ter de aguentar vê-la devorando o lanche, mas ter de ouvir “o quão bom é o molho” ou “que sorte ter pego o último”.
Mas, por mais que eu quisesse distância daquela mulher, ela aparecia em todos os lugares com aquela mesma cara de “já te vi por aqui antes, mas não vou comentar sobre isso”. Eu ainda tentava acordar cedo pra descolar o sanduba, mas lá estava ela com ele, na única mesa com aquele único lugar sobrando. Passamos a ir juntos para o trabalho. Eu ia pedir para alguém entregar os relatórios para ela, mas acabava topando com ela na máquina de café enguiçada. Ficávamos nos revezando para chutar a máquina vez ou outra. Passamos a colar bilhetinhos um nas costas do outro; perdia quem tinha a maior quantidade de post-its nas costas ao final do dia. Decidimos ir embora do trabalho juntos para economizar gasolina. Eu desisti de todos aqueles planos idiotas que tinha rabiscado no verso daquela folha de rascunho. Simplesmente amassei o papel e joguei na cabeça dela.
Há duas semanas, ela me chamou pra sair. Finalmente nos apresentamos formalmente: O nome da secretária nova do patrão era Erzsébet; disse que era um nome húngaro, que demoraria para que eu aprendesse a pronúncia correta. Levei só cinco dias, na verdade. Jantamos num restaurante mexicano de quinta categoria por causa das paletas de graça. Ela passou mal por causa da pimenta e eu deixei que passasse a noite na minha casa. No dia seguinte, pediu desculpas por “ter feito as coisas mais nefastas” no meu banheiro (creio eu ter sido só o “número dois” e o vômito) e disse que estaria livre no final de semana seguinte.
Anteontem, a gente foi no cinema, tomamos banho de chuva e chegamos tremendo na casa dela. Jantamos uma lasanha de micro-ondas que ela tinha comprado e algumas taças de vinho barato. Apesar do porre, me lembro vagamente de não termos feito “nada sério” na noite de sábado pra domingo. Isso foi na noite de ontem pra hoje.
Agora, estou sentado aqui no escritório, só pensando em como eu me sinto bem por não ter comido aquele lanche de molho especial. Minha mãe provavelmente deve estar rindo em algum lugar distante, só esperando para conhecer a futura nora.
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