Notas iniciais
Baseada em fatos imaginários

_Ele se chama Kariya Masaki. Estará a seus cuidados a partir de hoje.

O estranho apenas deixou o garoto lá e foi embora. A família de Masaki havia falido e seus pais não tinham mais condições de criá-lo, foi só o que o jovem disse sobre sua história. Ele não gostava de interagir com as outras crianças, preferia ficar sentado sozinho em algum canto, resmungando algo inaudível.

A presença de Masaki era meio incômoda as vezes. Por mais que tentassem falar com ele, o garoto ignorava e trocava de lugar.

_O que eu faço com ele?

Hitomiko administrava o orfanato. Trabalhava lá desde que era adolescente, então, não era tão difícil. Em todos os seus anos naquele lugar, conheceu todo o tipo de criança. Tinha medo que Masaki se tornasse um problema, já que grande parte das crianças abandonadas já crescidas tinha dificuldades em ser adotadas por sua idade e ficava por lá até a maioridade. Mas o problema dele não seria sua idade. O garoto perdera completamente a confiança em pessoas.

Certa noite, enquanto Hitomiko organizava os papéis de adoções em andamento, houve batidas na porta. Ela deixou os papéis de lado e foi atender. Para sua surpresa, um conhecido

_Hiroto!
_Como está, minha irmã? — Sorriu

Os dois se abraçaram antes de Hitomiko o chamar para dentro.

Hiroto também trabalhava com o orfanato, ele era um assistente social, indo constantemente visitar as crianças adotadas e famílias em teste. Como não morava lá como Hitomiko, não voltava tanto. Havia estado em Osaka recentemente numa conferência, então não via a irmã havia mais de dois meses.

A moça foi a cozinha preparar algo para os dois, deixando Hiroto em sua sala. O ruivo acomodou-se no kotatsu, fuçando os documentos sobre a mesa. Sorria feliz ao ver que algumas das crianças que viu crescer ali já estavam com famílias. Vendo outros papéis, sorria triste por ver mais crianças chegando.

Hitomiko voltou com uma bandeja com dois copos de barro e um bule no mesmo estilo. Hiroto ajeitou os papéis, dando espaço para que a irmã pusesse a bandeja sobre o kotatsu. Sem desviar os olhos, comentou.

_Tem muitas crianças novas...
_É inevitável — Disse sentando-se — Com a crise econômica, muitas famílias tem falido. A maioria das crianças ainda tem pais, que vem os ver de vez enquanto, mas um em especial...
_Kariya Masaki-kun — Era justamente a ficha que tinha em mãos — É tão triste...
_E preocupante...

A expressão preocupada de Hitomiko chamou a atenção de Hiroto. Estava cabisbaixa, com as mãos em punho sobre a mesa. Hiroto ficou em silêncio, esperando que a irmã contasse sobre Masaki.

_A empresa do pai dele foi uma das que mais sofreu com a crise. Absolutamente tudo foi tomado dos Kariya. Seu pai não suportou tudo isso e se suicidou. Não temos notícias da a mãe dele ou qualquer outro parente. Quem o trouxe aqui foi um dos cobradores de sua família.
_Há quanto tempo?
_Cerca de duas semanas. Desde então, ele não fala com ninguém. Passa o dia todo calado sozinho. Também é o que dorme pro último e acorda primeiro.
_É triste o que ele fez para evitar o contato.

Os dois passaram alguns minutos em silêncio antes de tocarem em seus chás.

Hitomiko se lembrara de Hiroto quando pequeno. Ele chegara ao orfanato como um bebê de cerca de 10 meses, pouco tempo depois de ela perder seu irmão. Ela quem lhe nomeara pelo garoto lembrar muito Kira Hiroto. Se não lhe falhava a memória, aquele Hiroto vivia lá a mais tempo do que qualquer criança do antigo projeto Aria. O ruivo era meio anti social, não interagia com os outros por vontade própria, apenas quando os outros iam até ele, o que era raro.

_Eu quero fazer algo por Masaki-kun.
_Tem alguma ideia? — Um brilho de esperança surgiu nos olhos de Hitomiko. Seu maior desejo no momento era que Masaki fosse feliz.
_Pensarei nisso amanhã — Massageava os próprios ombros — estou morto da viagem.
_Vou trazer um futon pra você.

Na manhã seguinte, Hiroto se encontrou com as crianças residentes. Reconheceu poucos, mais a maioria já tinham ouvido falar dele por causa do Inazuma Japan. Masaki estava sentado no alto do escorregador e via aquela movimentação com o canto do olho. Estava muito barulhento no pátio, então voltou para o quarto, que agora estava vazio.

Da janela, Masaki via Hiroto se exibindo fazendo embaixadinhas.

_Grades coisa — Disse, saindo da janela. Antes de subir no beliche, reparou a bola de futebol jogada embaixo da cama. Pegou-a e a examinou — Não deve ser tão difícil.

Embora nunca tivesse contato com uma bola daquelas antes, arriscou-se a imitar Hiroto. Não conseguia. Quando chutava forte, a bola atingia seu rosto; quando chutava fraco, a bola rolava pro chão. Irritou-se com isso, e num surto de raiva, chutou a bola pela janela.

A bola tinha acertado Hiroto, derrubando seus óculos no chão.

_Hiroto-nii! Tudo bem? — Uma menina pegava os óculos no chão, entregando.
_Ah, sim. Não foi nada — Coçou a cabeça — Obrigado. Mas de onde veio essa bola? — Disse olhando em volta
_Lá — Um menino apontava para a janela no segundo andar — do quarto dos meninos!

Masaki ouviu, e saiu correndo de lá. Do pátio, pode-se ouvir a porta batendo.

_Foi o Masaki — Alguém comentou — Só ele não está aqui
_Masaki é estranho, ele nunca fala com ninguém.
_Ninguém tenta falar com ele? — Hiroto perguntou curioso.
_Até tentamos, mas ele sempre vai pra outro lugar quando a gente chega perto.

Aquilo intrigou Hiroto. Ele não queria preocupar as crianças, então voltou a brincar com elas como feito antes.

_Eu odeio todo mundo. Odeio todas as pessoas — Masaki resmungava escondido na sala de estar vazia, sentado no breu perto da porta para que não o vissem. — Por que meu pai tinha que confiar naquele sócio que mal conhecia? Aquele idiota!

Abraçava as pernas com força, escondendo o rosto entre os joelhos. Não estava triste, apenas muito irritado. Têm estado assim desde que chegou. Hitomiko passou por ali, mas vendo como o garoto estava, passou direto, mesmo querendo muito ajudá-lo.

Mais tarde, o almoço corria bem. Todas as crianças falavam entusiasmadas sobre as habilidades de Hiroto. Aquilo agradava Hitomiko, visto que muitas das crianças geralmente eram quietas (não como Masaki). E por citá-lo, ele não estava presente. Os dois adultos disfarçavam a preocupação que sentiam com sorrisos, não queriam preocupar os pequenos também.

Ao fim do almoço, era hora dos estudos. Hiroto não queria distraí-los, então saiu de lá. Não importava quantas vezes passeasse pelo orfanato, em todas elas era sempre tomado pelas lembranças de sua infância. Chegou perto da sala de estar e sentindo algo, apoiou-se na parede externa, com uma expressão de nostalgia.

_Vai embora.
_Ah, então você está aí. Perdeu o almoço.
_Não tava com fome, agora se manda.
_Se continuar sendo grosseiro assim, as outras crianças não irão se aproximar de você.
_Eu não ligo pra elas. Quero que todas sumam.
_É solitário né — Olhava pra o céu. — Sei como se sente.
_Sabe?
_Sim. Embora eu tenha chegado aqui muito jovem, eu entendo você. Eu vi muitas crianças sendo levadas durante minha estada e sempre me perguntava "por que não eu?" Eu perdi a confiança nas pessoas. Nas crianças por irem embora, e nos adultos por nunca me escolherem.
_Não é a mesma coisa.
_Tem razão. — dera de ombros — Embora Hitomiko-nee — Ele não a chamava mais assim, só estava usando uma linguagem mais infantil — tenha sempre estado por perto, as pessoas que cuidavam do orfanato no meu tempo costumavam ser trocadas muito regularmente, então não tinha alguém que ficassem comigo tanto assim.
_Não vejo aonde quer chegar com isso.
_O caso é — Sentou-se — Depois de um tempo eu também me isolei. Não deixava ninguém chegar perto porque mantinha o pensamento "Se eles vão me deixar, por que devo ser amigo deles?"

Masaki ficou curioso, moveu a cabeça para ver Hiroto, mas quando este percebeu e sorriu em resposta, Masaki voltou ao estado de antes.

_Sabe, eu vivi aqui a minha vida toda. Nunca fui "oficialmente" adotado, então conheci muitas pessoas. Depois de um tempo, ficou difícil manter meu isolamento, ninguém aguenta.
_Eu vou aguentar. Eu não quero que ninguém se aproxime de mim.
_É só o que quer da vida? Sabe um dia você vai crescer. Não pode ficar assim pra sempre.
_Isso tá ficando chato.
_Ah, me lembrei de algo. Hoje mais cedo, fui atingido por uma bola de futebol — Masaki se arrepiou, achando que levaria bronca — Foi um chute forte, embora desordenado.
_E-eu não vou me desculpar — Cruzou os braços com uma cara birrenta.
_Quer jogar um pouco?

Masaki ficou confuso. Olhou Hiroto novamente e viu o mesmo sorriso de antes. Mesmo desconfiado, aceitou.

Hiroto o levou para um campo não muito longe do orfanato. Era o lugar onde costumava treinar com as crianças da Aria antes do incidente. Hiroto respirava feliz lá, deixando Masaki cada vez mais confuso.

_O que vamos fazer aqui?
_Me mostre como você chuta.
_Eh? Mas eu nunca fiz isso antes!
_Não importa, só quero ver.

Os sorrisos do ruivo, apesar de simpáticos, eram meio que intimidadores. Os poucos chutes que Masaki arriscava a dar eram certeiros, embora bem fracos. Hiroto reparava mesmo era em como o garoto corria. Ele era bem veloz, mesmo sendo a primeira vez dele em campo. Logo depois mudaram o treino. Agora Masaki teria que roubar a bola de Hiroto, que estaria parado. Era impossível, mas o pequeno não desistia. Era engraçado vê-lo com raiva quando falhava. Começou a escurecer, então resolveram parar.

_Eu ainda — ofegava — não terminei...
_Por hoje, terminou sim. Vamos voltar.

Hiroto estava diante de Masaki, segurando a bola debaixo de um dos pés. O menor não queria desistir, avançou mais uma vez, novamente, sem sucesso.

_Que dorga — caiu ajoelhado, exausto — Por que eu não consigo? — bateu no chão.
_O que esperava de um lendário "Inazuma Japan". — A postura de Hiroto havia mudado agora ele estava... Se achando?
_Droga, droga, droga!
_Mas e aí — Foi até lá — Se divertiu?

Algo estranho se passou pelo coração de Masaki. Nas duas semanas que estivera no orfanato, não, talvez nunca em sua vida, se sentira daquele jeito. Ele ficou imóvel por um tempo, tentando organizar as emoções. Seus olhos estavam se enchendo de lágrimas. Ele não queria chorar, apenas sacudiu a cabeça antes de se recompor.

_É, acho que sim — Levantou ainda de costas para Hiroto. — Esse tal de futebol, não parece ser tão ruim.
_Mas tem uma coisa que precisa saber sobre ele.
_O que é? — Se virou
_Você nunca vai jogar bem se não confiar nos outros. Futebol é um esporte de equipes, você nunca será bom nele se não confiar nos companheiros de time.
_Então tudo isso era só pra me dar sermão pra eu gostar de pessoas. Tsc, que besteira. — Deu lhe as costas outra vez
_Quem disse que é pra você gostar delas? — Seu tom de voz deixou Masaki curioso, o fazendo se virar de volta. — Tudo que precisa fazer é "ser sociável até quando lhe convém"
_Até quando me convém...
_Agora vamos. Hitomiko deve estar preocupada conosco.

E foram embora.

Hiroto se foi de lá alguns dias depois e no mês seguinte foi para fora do país. Ele só retornou quase dois anos depois.

_É fantástico Hiroto! — Hitomiko estava animada — Masaki-kun tem treinado futebol sozinho no campo aqui perto.
_É mesmo? — O ruivo não parecia tão surpreso.
_E não é só. Agora ele interage com as outras crianças. — Suspirou — Embora tenha a personalidade um pouco...
_Estou muito feliz por ele, de verdade.

Na hora de ir embora, Hiroto passou por aquela sala onde conhecera Masaki, e como esperado, ele estava lá, de pé na parede oposta a sua.

_Parabéns.
_Pelo que? — Desdém
_Soube que vai para a Raimon.
_N-não é como se eu me importasse. — Embora falasse como se não ligasse, Masaki ficara com vontade de entrar para a Raimon desde que ouvira que o famoso ex-capitão do Inazuma Japan era o técnico do time de futebol de lá. Hiroto costumava falar muito sobre Endou.
_Mande lembranças minhas ao Endou-kun
_Tsc, faça isso você mesmo. — Disse saindo.

Hiroto sorriu, sentindo que sua missão fora cumprida.

_Endou-kun, você sempre esteve certo quando dizia que o futebol era capaz de salvar alguém. — Alongava-se, logo olhando para o céu limpo — Acredito que toda sua paixão possa salvar Masaki-kun do mesmo jeito que me salvou.

Notas finais
Como dito antes, baseada em fatos imaginários
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!