Kardiá
3 O primeiro coração: o coração abandonado.
Na manhã seguinte, Ren, como no dia anterior, acordou naturalmente.
Foi até a cozinha, comeu algo, depois ficou na sala assistindo TV. O dia passou quase que voando e quando se deu conta, a tarde já havia chegado e Aron chegou junto a ela.
—Ren, cheguei mais cedo! – Aron dizia ao entrar no apartamento procurando pelo o outro.
—Aconteceu alguma coisa? – Ren perguntou sem nem mesmo sair do sofá.
—Bom, meu chefe me deixou sair mais cedo hoje. Conversei como ele sobre você e amanhã você tem uma entrevista! – Aron disse largando a mochila que carregava em qualquer cantor e se sentou ao lado de Ren.
Ren olhou para ele completamente chocado. —É sério? – perguntou.
—Sim. E acho que hoje podemos aproveitar para comprar umas roupas para você. – Aron olhou Ren de cima a baixo. —Você não pode ficar a vida inteira usando minhas roupas. – riu.
Aron não se importava com Ren usando suas roupas, não era muito apegado a isso, mas Ren precisava de roupas próprias.
—Vamos sair agora? – Ren perguntou.
—Sim.
—Okay. Eu só preciso de um banho! – disse e imediatamente correu para o banheiro. Aron já havia lhe permitido pegar roupas em seu armário quando precisasse. Mas seria bem melhor ter suas próprias. Já tinha um quarto e agora suas roupas. Mais um pouco, e Ren regularizaria toda a sua vida novamente.
Passaram-se não muitos minutos, Ren estava devidamente vestido e pronto para sair. Pegou uma roupa simples de Aron e prendeu os cabelos para não chamar muita atenção, não sabia quem poderia encontrar na rua.
***
Nem precisaram atravessar a ponte. Haviam lojas de roupas naquele lado do rio mesmo. Claro, não eram das grandes marcas, mas eram de boa qualidade.
Ren sequer se importou com isso. Mesmo tendo vivido sempre vestido das melhores e mais caras marcas, Aron não tinha a obrigação de lhe dar roupas, quanto mais roupas caras. Estava satisfeito com o que havia ganho.
Os dois aproveitaram para passar no supermercado onde HaNa trabalhava para comprar alguma comida para o jantar. Ela já não estava lá, mas compraram algo e no final acabariam a convidando para jantar com eles de qualquer jeito.
—Sabe quem são os donos desse mercado? – Aron perguntou enquanto ele e Ren caminhavam pelos corredores entre as prateleiras. Ren era quem empurrava o carrinho.
—Não. – Ren respondeu pensativo. —Quem?
—Conhece Super Junior?
—Claro.
—A família de um deles é dona de toda essa rede. Choi Siwon...
—E por que está me contando isso? – Ren perguntou confuso. —Não é porque ele também tem o sobrenome Choi que somos da mesma família!
—Não é por nada. Só lembrei que HaNa odeia esse Choi Siwon de todas as formas. – Aron disse rindo.
***
Logo, os dois estavam chegando em casa. Ren ajudou Aron a carregar as sacolas, tanto as do mercado, quanto as das lojas de roupa. Mas quando chegaram, Aron notou algo estranho. HaNa ainda não havia dado notícias.
Não se pode dizer que Aron e HaNa se falavam o tempo todo durante o dia. Mas ela sempre dizia a ele, por mensagem ou ligação, se estava saindo ou chegando no trabalho. Assim como ele também a avisava. Era um costume dos dois. Se HaNa não avisasse se estava saindo do trabalho, avisava quando chegava em casa. Era muito estranho em todo aquele tempo, ela não ter ligado uma vez.
Conferiu o celular mais uma vez e nenhuma ligação, nenhuma mensagem. Começou a ficar preocupado.
Ren já ia abrindo a porta, quando notou que Aron estava parado em frente à porta de HaNa.
—Ya! Eu preciso de ajuda aqui! – chamou a atenção de Aron, que praticamente o ignorou. —Aron! – chamou.
—HaNa não deu notícias. – disse ainda encarando a porta. —Alguma coisa está errada. Ela sempre avisa quando chega.
—Ela pode ter saído com alguma amiga. – Ren respondeu indiferente.
—Não. – disse dando três leves batidas na porta. —Ela não tem amigas.
Ren encarou Aron chocado. Como alguém tão agradável como HaNa não teria outros amigos? Ela parecia alguém tão dinâmica e popular. Nunca imaginaria que ela fosse do tipo solitária.
Aron tocou a campainha repetidas vezes e nada.
—Ren, entre e deixe as bolsas em qualquer lugar. Na estante da sala têm uma pequena caixa azul que tem uma chave. Você vai saber que achou, quando notar que o chaveiro é um daqueles ursos de pelúcia. Traga essa chave aqui.
—O.K.
Enquanto Ren procurava a chave, Aron ainda estava de frente para a porta do apartamento de HaNa. Ligava incansavelmente para o celular dela e nenhuma resposta. Não podia ser bom.
—Aqui. – disse Ren, ao entregar a chave para Aron. —Mas tem certeza de que ela não está com alguma amiga?
—Tenho. – Aron respondeu sério. HaNa, com certeza, estava com problemas.
Aron usou a chave para abrir o apartamento de HaNa. Ela havia dado essa chave a ele assim que se tornaram amigos. E ela também tinha uma chave do apartamento dele. Essas chaves eram pra emergência, para quando um não conseguisse encontrar o outro, ou um dos dois estivesse com problemas. Aron, geralmente, usava a chave mais do que HaNa.
Dentro do apartamento de HaNa, tudo estava no lugar. Era sempre bem limpo e arrumado. Ela não costumava ter muito móveis. Um computador e um bom sofá eram o suficiente para ela. Tudo estava realmente no lugar, menos HaNa. Ela também não estava em seu apartamento.
Mas, onde HaNa estaria?
Aron imediatamente ligou uma coisa à outra. Era uma outra crise.
***
Aron dirigia apressando atravessando a ponte. Voltavam a Gangnam. Entregou seu celular a Ren, que já havia percebido a seriedade daquela situação, para que ele ligasse para o celular HaNa.
—Enquanto liga, olhe pela janela para ver se a encontra.
Os dois passaram mais de 30 minutos procurando-a e nada.
Já era noite e como na noite em que Aron encontrou Ren, Chovia, o que dificultou a busca. Não conseguiam a encontrar e Aron já estava ficando nervoso. Não era muito difícil de encontrá-la nas outras vezes. Mas por que dessa vez era tão difícil?
Com esforço, pensou no último lugar em que ela poderia estar.
Ren percebeu que Aron ia mudando o curso para a área residencial. Estava próximo de sua antiga casa. Um sentimento de nostalgia e dor lhe preenchia. Queria sair do carro, se sentar no chão e chorar por horas. Mas o foco ali era HaNa, não ele.
—Como é estar em casa? – Aron perguntou irônico.
—Não. Essa não é mais minha casa.
Chegaram a uma rua bem próxima à rua da antiga casa de Ren. Foram bem devagar e finalmente viram HaNa.
Não era uma situação bonita de se ver. Ela estava sentada em uma calçada, segurando um guarda-chuva, e sua bolsa estava em seu colo. A primeira vista, Ren ficou assustado. Mas Aron foi ágil, pegou o guarda-chuva que estava no banco de trás e o entregou a Ren.
—Vamos lá, eu a pego e você, segure isso!
—O.K. – fez um sinal positivo com a cabeça.
Com cuidado, os dois se aproximaram de HaNa, que parecia sequer notar sua presença. Ela chorava tão dolorosamente, que seu choro podia ser ouvido por toda a rua.
Aron parecia estar acostumado com a situação, mas Ren tremia tentando segurar um simples guarda-chuva preto.
Ao se aproximarem, Ren ficou chocado, não tinha uma reação definida para o que via ali. Sua vontade era de sair correndo naquele momento até sua casa e implorar para voltar, não sabia o porquê, mas se sentia assim. E era doloroso. E por mais que doesse, ele tinha que ser forte por HaNa.
Ao contrário de Ren, Aron parecia estar completamente certo do que estava fazendo. Deveria tirar HaNa dali, leva-la para casa e cuidar dela.
—HaNa... – disse se abaixando para ficar numa altura parecida com a dela, sentada na calçada daquele grande mansão. — Vamos para casa. – e segurou a mão da amiga, e só assim ela percebeu que era ele ali.
A intensidade da chuva só aumentava, HaNa mal conseguia segurar seu guarda-chuva, Ren ainda tremia, e Aron estava na chuva.
Sua preocupação era HaNa, não suas roupas molhadas.
***
Aron segurava a HaNa com todo o cuidado. Ela conseguia se manter de pé, mas chorava tanto que mal via por onde estava indo. Aron preferiu segurá-la para evitar qualquer acidente. Ren ainda estava assustado, porém tentava ajudar da maneira que podia.
—Ren, ligue a torneira da banheira. Água fria, por favor.
Não contestou. Apenas fez o que Aron pediu e ficou observando todo o cuidado que ele tinha com a amiga.
—Ren, me ajude a tirar as roupas dela! – disse fazendo Ren ficar confuso.
—Como? – perguntou chocado.
—Somos 3 adultos aqui, Ren. Sem essa infantilidade que os Coreanos têm, por favor.
—Tudo bem. – Ren respondeu um tanto envergonhado. Mesmo sendo gay, ainda era uma situação constrangedora. Só havia visto HaNa uma vez na vida. E na segunda vez estava tirando suas roupas. Nada agradável.
Depois de tirarem as roupas de HaNa, Aron e Ren a ajudaram a entrar na banheira com água fria. Triste minutos ali fariam ela ficar um pouco melhor.
Ren estava sentado no chão, de frente para a banheira e encostado na parede vigiando HaNa que ainda chorava.
—Onde está Aron? – HaNa perguntou por entre soluços.
—Ele foi buscar roupas secas para você.
—Eu preciso dele aqui!
—HaNa, eu estou aqui. Tudo bem.
—Eu quero o Aron.
—HaNa... Eu...
—Traga o Aron agora! – gritou se debatendo na banheira e Ren teve que segurá-la. Aquele segundos usando toda sua força para mantê-la na água fria pareciam uma eternidade. Parecia que Aron nunca apareceria para ajudá-lo. O choque de sua pele com a água fria voltava a lhe trazer as lembranças da noite em que foi expulso de casa. A chuva era fria daquela mesma maneira.
—Vá para o quarto, Ren. – era Aron, finalmente ali.
Ren saiu correndo até o quarto. Ainda tremia, mas tentou respirar fundo para se controlar. Sentou-se na cama e ficou à espera dos dois. Era a única coisa que podia fazer.
***
—Ren vai pentear seus cabelos e vai te levar para a sala depois. – Aron disse em um tom tão calmo que parecia estar falando com uma criança chorona e carente. Guiou HaNa até a cama, onde Ren estava sentando. — Eu vou preparar algo para você comer. Tudo bem?
—Tudo bem.
Ren estava completamente assustado. HaNa parecia uma morta-viva a sua frente. Penteava seus cabelos com todo cuidado do mundo. Cada mecha negra com toda delicadeza possível. Ela parecia sentir dor.
—Seus cabelos são lindos. – disse tentando puxar assunto, mas HaNa manteve sua expressão pseudomorta e não respondeu. —Tão bem cuidados. – mais uma vez, sem resposta.
Assim que terminou, pegou umas das mãos de HaNa e guiou-a com todo cuidado até a sala de estar, de onde já se podia sentir o cheiro de alguma coisa que Aron preparava na cozinha. Automaticamente, Hana se sentou no sofá mais próximo. Aron apareceu com um copo de água em uma das mãos, e na outra, vários comprimidos. Com certeza, remédios para HaNa.
—Tome. – entregou os comprimidos e a água, HaNa os tomou. Mesmo que estivesse naquele estado, ela era capaz de obedecer a qualquer comando sem discussão.
Ren observava todo o cuidado que Aron tinha com HaNa e se lembrava de sua mãe. Todas as vezes em que eles esteve em uma situação difícil, ela o ajudou. Mas por que não pôde ajuda-lo quando foi expulso de casa?
***
Mesmo que ainda não parecesse estar consciente, HaNa comia a sopa que Aron havia preparado com certa vontade. Ele dava colherada por colherada em sua boca para que ela não tivesse esse esforço podendo causar algum acidente.
Cuidadoso como uma mãe. Esse parecia ser o papel de Aron ali, o de uma mãe.
Assim que HaNa terminou de comer, Aron a guiou até seu quarto, ela se deitou em sua cama, ele a cobriu e ela fechou os olhos. Se os remédios funcionassem normalmente, em questão de minutos ela dormiria.
—Boa Noite, HaNa Triste. Traga a HaNa feliz com o sol da manhã. – disse para se mesmo apagando a luz do quarto. Não era religioso mas essa era sua prece interna toda vez que a doença de HaNa aparecia para dizer “Olá.”
***
—Pensei que você estava vigiando o Lámen no fogão. – disse ao ver Ren sentando no sofá imóvel.
Ren o encarou com uma expressão que parecia dizer “Que tipo de louco é você?”. Ele queria respostas. Não que tivesse direito a elas, mas as queria. Se estava vivendo ali, queria ao menos entender sobre aqueles que estavam a sua volta.
—Vamos comer e eu te explico. – Aron disse enquanto ia em direção a cozinha.
***
Pouquíssimos dias e Ren já sentia falta da grande variedade de pratos no jantar da grande mansão em que costumava viver. “Até quando vou comer Lámen?” – pensou decepcionado. Porém tratou de não deixar que Aron percebesse a insatisfação.
“Agradeça por estar comendo algo, Ren. Agradeça.”
—Então, o trabalho não é muito difícil. Você só terá que me auxiliar. Você vai ter uma pequena mesa na agência também. – Aron, descontraído, ia falando sobre o trabalho enquanto Ren só queria respostas sobre HaNa.
—Não pode me contar? – interrompeu de uma maneira sutil.
Aron terminou de servir o Lámen calado, sentou-se em um dos bancos do balcão da cozinha e começou a brincar com os Hashis dentro do molho do macarrão. Ren o observava quieto e um tanto arrependido.
—Ela tem depressão.
Ren não soube exatamente como reagir. Estava um pouco claro que HaNa tinha algum tipo de problema psiquiátrico. Mas ele nunca havia conhecido alguém com Depressão. Sua vida maquiada e perfeita, como um arco-íris depois da chuva nunca o deixou ver algo tão natural.
—O que aconteceu não é exatamente comum da doença. O que aconteceu são marcas que a doença e a vida deixaram em HaNa. – Aron continuou. — E não me olhe com essa cara de assustado, da última vez eu a encontrei no hospício.
—Como assim, marcas que a vida e a doença deixaram?
—O mundo não é colorido, Ren. Até mesmo GangNam tem seus dias cinza. E HaNa esteve em muitos desses dias.
—O que quer dizer com isso?
—Está mesmo pronto para ouvir a história de HaNa?
—É claro!
—Então...Você que pediu. – Aron então, começou a contar a triste história de HaNa.
Quando HaNa nasceu, seu pai abandonou sua mãe. E então ela se tornou mãe solteira. O problema é que, na sociedade coreana, uma mãe solteira é extremamente julgada. Não importava o quanto ela trabalhasse para cuidar de sua filha, sempre haveria alguém para dizer o quão “errado” a vida dela era.
Com o passar do tempo, a fadiga, os julgamentos, a falta de apoio da família e a solidão, fizeram com que a mãe de HaNa, começasse a enlouquecer. Daí o objetivo da sua vida passou a ser buscar um homem que lhe desse uma vida nos padrões coreanos, e ela conseguiu.
Aos 8 anos, HaNa viu sua vida de classe média mais-do-que-baixa se transformar ao atravessar os portões de uma mansão em GangNam. Tudo era novo. Tudo brilhava. Havia ganhado até mesmo um pai! Era uma família perfeita os olhos da, tão exigente, sociedade coreana.
O que HaNa se esqueceu, é que nada é perfeito. Nada.
Não demorou muito e a mãe de HaNa engravidou. Era um menino. O início do pesadelo. Foi aí, que toda a perfeição teve seu fim. Alguns meses depois que o pequeno irmão de HaNa havia nascido, sua mãe começou a demonstrar algum tipo de rejeição, repulsa com a filha. E isso se estendeu por um bom tempo.
Até que HaNa chegou à adolescência, e as vontade de seu irmão eram superiores a suas necessidades, até mesmo de comer ou dormir. Ela era apenas a filha bastarda que vivia ali de favor. O filho homem era prioridade.
Quando chegou na época de entrar numa faculdade, HaNa não conseguiu. Talvez por causa de seus problemas internos, ou fato de que seu irmão não a deixava estudar. Sua mãe a considerou uma inútil. Não queria ter que manter HaNa por perto pro resto da vida. Ela sequer era filha legítima de seu marido. Seu filho homem precisava de mais espaço e HaNa estava sendo um empecilho! Com esse pensamento, HaNa foi expulsa de casa pela própria mãe. E se não fosse por seu padrasto, ela estaria na rua.
Ele deu a ela um pequeno apartamento e também a ajudou a encontrar um emprego.
Mas isso não era suficiente.
Depois de um tempo HaNa foi ficando depressiva, cada vez mais triste. Como poderia uma mãe expulsar a própria filha? Isso a deprimiu. Mesmo com a presença de Aron, numa amizade que só crescia, a doença foi chegando de uma maneira cruel. Ela sempre tinha crises porque os remédios sempre foram muito caros e não era sempre que podia comprar todos. E mesmo quando Aron a ajudava a compra-los, se ela não se esquecesse de tomar, eles não faziam efeito.
Isso trazia o que Aron apelidou de “HaNa Triste”. Uma HaNa que aparecia vez ou outra e acabava em algum constrangimento.
Aron estava sempre ao seu lado, mas não sabia por quanto tempo HaNa estaria.
—O que foi? — perguntou observando a expressão de Ren. Ele estava ainda mais chocado. Informação demais para uma noite só.
—Que tipo de mãe faz isso?
—Coreanas. – Aron respondeu de boca cheia. Estava com fome demais para falar e depois comer. —Todas loucas por perfeição e por seus maridos. Até minha mãe, que não foi criada Coréia, é louca.
—Não foi?
—Isso é história para outro dia. – respondeu ainda concentrado na comida. Nada de mais conversas, só queria comer seu Lámen. —Vamos comer e dormir. Você tem um dia cheio amanhã.
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