Karate Academy
1 De volta às raízes
Notas iniciais
Bom, aproveitem ae. To bem numa vibe amorzenho.
“Senhores passageiros, a aterrissagem irá iniciar em dois minutos. Peço que não se levantem até que o avião esteja parado. TAM agradece sua preferência. Bem-Vindos à Florianópolis.”
Graças a música alta nos fones de ouvido, Pedro não ouvira nada sobre os avisos da aeromoça, incluindo outras coisas ao seu redor.
—Pedro, aperta o cinto. Eu disse “Aperta o cinto”. Pedro? Pedro! -Alice bate a almofada no corpo nele, chamando sua atenção- -Ai mãe! O que foi? -Disse ele enquanto tirava os fones- -Aperta esse cinto menino!
Deu de ombros e obedeceu, esperando agora a aterrissagem. Sem muita conversa entre os dois, desceram do avião e foram pegar suas malas. Sempre era assim, sem muita conversa, mas Pedro não se importava. Pensa que é jeito de sua mãe, e realmente é, mas aparentemente seu filho não puxara isso dela. Apenas claro, quando está com ela.
-Mãe, o carro ta onde?
-Está no estacionamento leste, Vamos logo que chegamos antes do almoço.
Alguns minutos andando pelo aeroporto e finalmente ele avista o carro de longe, sua tia havia cuidado bem dele. Sem hesitar, solta um sorriso. Aquele carro lhe trazia muitas lembranças. Desde uns arranhados na porta marcado na tinta preta do carro, que seu cachorro fez quando ele era criança, até um adesivo velho e amarelado que dizia “Cuidado! Karateca em treinamento.” Ver aquilo doeu, pois lhe invadiu lembranças de seu pai que por muito tempo tentava bloquear. Colocaram as malas atrás e entraram. Sua mãe viu a expressão de tristeza do filho, mas antes que pudesse falar algo, Pedro ligou o rádio que logo tocou Hurt-Jhonny Cash, colocou o capuz tampando parte do rosto , prendeu o cinto e ficou contra a janela do carro, observando o aeroporto. Então o carro ligou, e logo a paisagem começou a mudar, um ambiente urbano , lotado de gente andando em várias direções com turbilhões de pensamentos que eram quase audíveis. Estar de volta ao Brasil CONTRA a sua vontade –Pedro fazia questão de destacar isso- era muito opressivo.
Então ele vira a paisagem mudar novamente, agora para um verde incomum. Era diferente do Japão, mas ainda sim era agradável. Ao longe viu um pequeno relevo que se lembrava bem, automaticamente abriu o vidro, aquele cheiro de café invadiu o carro e percorreu suas narinas, o levando em um flashback para sua infância.
2007;
—Papai, papai! Que cheiro é esse? –Dizia Pedro do acento do passageiro.
—Você gosta? É café filho. Ta vendo essas colinas? São cafezais desde antes quando eu tinha sua idade, e provavelmente ainda será quando você tiver na minha idade. –Diz ele dando aquele sorriso longo e aconchegante que só Luís sabia fazer-
—Gosto! Me sinto bem, aqui. –Fecha os olhos e sorri, sentindo aquele indescritível cheiro.
2016;
Então o carro percorria aquela centopeia negra que chamamos de “estrada”, cortando as lavouras ao meio. Ao retornar a realidade, Pedro sorri, fazia anos que não pensava em seu pai. Fazia anos que bloqueava qualquer lembrança dali, será que tudo está igual? Nossa casa está inteira? A escola ainda está lá? Millet se mudou? A Academia ainda existe? E são com essas dúvidas e pequenas lembranças em sua cabeça que Pedro adormece, assim mesmo, igual quando era criança, sorrindo e sentindo o cheiro do café que as lavouras exalavam.
As imagens eram embaçadas, não dava para entender muita coisa, o sonho era uma mistura de sons, que parecia levar a algum lugar, então Pedro os seguiu, e a imagem começou a clarear. Estava em frente a academia de sua cidade natal, era como se lembrava, mas ainda sim diferente, os sons abafados agora se identificava facilmente, eram kiais que ecoavam por toda a rua, o grito forte e com sentimentos, de todos que treinavam ali, vindo lá de dentro. E de alguma forma, ele se sentiu leve e bem ao rever a academia. Então sem preve aviso ou sinal, uma garota sai de dentro do dojô arfando e suando, sendo logo seguida por uma garota morena no mesmo estado, só que pouco pior que a primeira.
—Ei Laura! Espera. –Dizia a garota morena.
—Não dá. E-eu preciso de ar. –Se apoiou na parede.
—Você ta bem?
—To.. Só preciso parar um pouco. Assim não ta dando, não to tendo foco! É como se eu não tivesse objetivos.
—Como assim Laura? Você tem o campeonato SulAmericano daqui pouco tempo.
—Eu sei, eu sei. É que.. –Nesse momento ela se desencosta da parede e olha diretamente para a rua, precisamente onde Pedro estava parado. Era como se ela o visse. Mas então deu de ombros e disse –Deixa. – Voltou para dentro, sendo seguida pela garota.
Então o sonho estava prestes a mudar quando de longe, Pedro sentiu seu corpo balançar, o cenário mudou drasticamente e tudo ficou preto, alternando com uma claridade quase cegante. Ele abrira os olhos.
—Pedro! Acorda menino, chegamos. Me ajuda com as malas.
—Poxa mãe, não precisava me acordar assim. To indo.
Já com o carro parado, ele saiu, abriu o porta malas e enquanto Alice abria o portão e o resto da casa, ele tirava as malas e as caixas do carro, começando a levar as coisas para dentro. Em torno de dez minutos as coisas já estavam na casa.
—Leva suas coisas para o seu quarto e já organiza, ainda tem sua cama, guarda-roupa e mesa. Ainda ta do jeito que você deixou. Eu vou arrumar aqui a sala.
—Ta.. Mas e o almoço?
—Vamos comer fora, aproveitar e passar no supermercado. Credo menino, mal chega e já pensa em comida. –Dá uma risadinha e volta a tirar livros das caixas.
Deu um sorriso discreto e subiu as escadas levando suas coisas para o quarto. Demorou mas finalmente conseguiu deixar do jeito que queria. Ao final era um quarto ainda com as paredes em um tom azul marinho, com um cobertor xadrez cinza e preto sob uma cama box de solteiro, cortinas brancas que iam até o chão, uma prateleira lotada com seus antigos mangás e outra agora cheia de livros, como Star Wars, Percy Jackson, Harry Potter, O Hobbit, Senhor dos Anéis, Jogos Vorazes, Maze Runner, Os 13 Porquês e até alguns romances. As paredes não ficariam de fora dessa onda “geek, gamer, rocker” estampando alguns pôsteres de bandas como Bring Me The Horizon e twenty one pilots, outros de séries como o de Game of Thrones e Supernatural, um dos vingadores, outro de Scott Pilgrim, mais um sobre Assassin’s Creed e claro seus desenhos sobre Karatê. Sua mesa tinha um notebook, várias canetas e lápis usados diariamente para desenhar. Em cima de sua cama na parede ficavam alguns suportes que prendiam algumas faixas que iam desde a branca até a marrom, e um suporte faltando uma. No canto perto de sua mesa tinha um pufe feito de bolinhas preto e logo do lado, um ukulele em seu suporte. Seu guarda-roupa era branco e preto, e logo em uma porta era possível se ler “T E R R I F I E D” riscado.
—Pedro! -Chamou sua mãe da cozinha- –Se arruma que daqui a pouco vamos sair.
Após um banho um tanto demorado, ele aparece na sala vestido casualmente com seu all-star surrado, bermuda preta, regata branca que ficava apertada, e uma blusa de frio cinza dobrada até quase o cotovelo, deixou fechada quase até o rumo de seu colar, que era uma asa aberta de prata. Seu perfume Malbec dava para se sentir desde o corredor da casa, seu cheiro ficava por onde passava.
—Finalmente! Estou aqui te esperando tem bem uns vinte minutos! Vamos vamos, que temos que almoçar, ir no supermercado e ainda ir na sua academia ver com o Sensei Júnior e.. –Ela mal terminara de falar e Pedro já se intrometeu dizendo
—Não, não, não, não. Não precisa essa ultima parte ai não mãe, pode deixar que quando chegarmos do supermercado eu vou lá.
—Oh, quer mesmo ir sozinho? Bom.. Se é assim. Mas vamos logo que estou com fome!
Ele sorriu e a abraçou de lado enquanto saíam portão afora. As horas pareceram-se anos, menos na parte de comer é claro, ali foram nem cinco minutos –De acordo com Pedro- mas Pedro nunca viu alguém mais enrolada que sua mãe para fazer compras, dessa vez ela se superou já que era a compra completa graças a sua casa vazia. Depois de chegar em casa e ainda ajudar sua mãe a guardar a comida e organizar teve que colocar seu kimono para lavar, o que o atrasou mais ainda. Quando finalmente saiu de casa, já estava quase anoitecendo.
Por alguns poucos minutos ele andou, a cidade era pequena, tudo era perto, ao virar a esquina, ali estava Karate Academy. Apesar de já conhecer ali, depois de todos aqueles anos tudo era diferente, principalmente as pessoas que ele nem se quer vira ainda. Respirou fundo e então passo pelo portão parando ao lado da porta vendo uma garota faixa marrom que agora esta de costas em um movimento de kata. Os outros alunos estão sentados ao redor do tatame observando a perfeição de seus movimentos, sutis e firmes ao mesmo tempo. Quando ela se vira para cumprimentar o Sensei no final Pedro a reconheceu, era a garota de seu sonho.. Lau..
—Laura, muito bem! Está ótimo seu Heian Godan, não tenho o que corrigir. Muito bom mesmo. –Disse o Sensei Júnior.
—Oss, Sensei. Hã.. –Laura percebe sua presença e aponta com a cabeça para que o sensei olhe também, que entendeu na mesma hora, já acompanhando o olhar, sorrindo e vindo na direção de Pedro.
Ele não percebeu, mas continuava encarando secamente Laura, ela o olhou algumas vezes e da ultima quase corou e olhou para frente novamente. Já os outros alunos começaram a olhar para ele, entre algumas meninas pôde-se ouvir alguns comentários falando o quanto o garoto era bonito. O que era verdade. Pedro com seus 1,87 cm de altura, seus cabelos loiro escuro e os azuis como uma tempestade atraia a atenção de muitos. Se o Sensei não tivesse entrado no meio de sua visão, provavelmente ele ficaria ali por horas apenas observando aquela garota. Outra que apesar de sua baixa estatura chamava atenção com os olhos verdes quase castanhos, traços delicados porem fortes, uma mistura bela que Pedro nunca havia visto antes. Apenas em seu sonho de longe.
—O que lhe traz aqui rapaz? Interessado nas aulas? –Disse Júnior com um sorriso no rosto.
—Ah.. Sim, sim! Acho que o senhor não se lembra de mim. Mas eu vim do Japão onde estava treinando e queria saber se posso treinar aqui para pegar minha faixa preta.
—Se lembrar de você? Qual seu nome?
—Pedro Proust –Disse ele dando um leve sorriso.
—Proust? Ah meu Deus, o filho do Luís! Mas é claro que lembro, então está na faixa marrom? Que ótimo, fico muito feliz que continuou com o karate.
—Continuei sim.. Inclusive vou participar de um grande campeonato daqui um tempo. Em todo caso Sensei.. Posso vir treinar aqui?
—Sim sim! Deve vir. Mas já que está aqui, por que não entra e me deixa te apresentar aos outros. E ver se aprendeu alguma coisa mesmo durante esse tempo fora. Se quiser claro.
—Me pareceu um desafio. Entro sim Sensei. –Sorri enquanto já começa tirar seu tênis para entrar.
—Te espero lá dentro.
Enquanto Júnior voltava e avisava sobre ele no dojô, Pedro tirava suas meias e preparava para entrar. Não demorou muito, cumprimentou antes e entrou, indo para o lado do sensei que ao ver todos prestando atenção já começou dizendo.
—Esse é Pedro Proust, ele entrou aqui a muitos anos atrás, ficou até pegar sua faixa amarela, com onze anos. Mas logo saiu por que foi morar no Japão. Lá ele continuou o karate e hoje está aqui com.. Quantos anos? –Olhou para mim
—Hã, 17.
—Dezessete anos! –Soltou uma risadinha e continuou –Agora faixa marrom, irá treinar conosco para pegar a faixa preta. Bom, iríamos iniciar o kumite (luta) agora, então o que acha de termos uma luta sua aqui?
—Claro. –Disse enquanto abria o zíper de sua blusa de frio, a tirando e colocando em um canto, ficando apenas com a regata.
—Certo.. Alguém se dispõe?
Vendo ninguém se manifestar, Laura se levantou e dispôs a lutar.
—Laura DaGama! Muito bom. Pedro você é Aka, Laura você é Shiro. Aka, Shiro Nakae. Shobu ippon HAJIME!
Aquilo significava que a luta tinha começado, Laura queria testar suas habilidades e Pedro apenas não queria machuca-la.
Notas finais
Se tu curtiu, favorita aqui e bora acompanhar. Cap. 02 já ta saindo do forno. Não esquece de comentar o que achou.
Obrigado >.
Fale com o autor