Karakuri Burst

68 Você de verdade.


Notas iniciais
LEIAM ESTA POHA, VLW? ~Rélou, rou ari iuou?~ Gente, tá tarde, Sweet tá na junção de com sono, sem tempo, e tem prova amanhã, e não estudou -q Passarolhos, Tia Suiti vai ficar um pouquinho sem escrever tá? Leitores: AIN-AIN-AIN-AIN, COMO ASSIM, VIROU PUTA-PRO E FAZ IÇU Então, vou explicar, não vai ser um tempo muito grande, na verdade ;w; É que, eu, você, todo mundo já tá enjoado da minha pessoa falando que tá sem tempo, MAS É ISSU MEMU, DINOVO, SINTO MUITO, SE ACHOU RUIM, ESFAQUEIA MEUS PROFS Eu vou até curtir -qqq Então né. É a merda de um ano escolar importante pakas, e eu não tenho o tempo como tinha antes ;w; Eu tenho que terminar trabalhos, fazer uma caralhada de provas que brotam do além, deveres, deveres do curso e as merdas das provas do curso. O que me lembra que eu ainda não fiz o caralho do texto em Inglês ;-; Vou ficar quietinha só para ajeitar minha vida. Voltar a poder ser leitora ao invés de só escritora que só entra no site pra postar, responder e rapar fora. Além do mais, eu só tenho o uso do computador um dia na semana, por umas zicas que rolaram ae. Realmente fica difícil. Então eu vou parar um pouquinho, só para me arrumar, e depois voltar com tudo, porque, de acordo com o planejamento número dois, se eu seguisse postando uma vez na semana como fazia antes, já teria um mês, ou mais, que eu já teria terminado a fic -qqq O QUE ME LEMBRA EU FIZ ESSE CAPÍTULO INTEIRO NA PORRA DO CELULAR ISSO MESMO QUE VOCÊ LEU QUASE 6.000 PALAVRAS NO CELULAR PQ? PURQ EU NÃO TENHO PC TODOS OS DIAS NUNCA MAIS RECLAMEM DE ESCREVER NO CELULAR MEREÇO PALMAS. MOVAM ESSAS MÃOS GORDAS. AGORA. AGORA U-U Tá bom, parei -qqq E é exatamente por isso que se houver erros, ME FALEM. Eu não tenho tempo, e eu preciso que me avisem; Obrigada de nada. 23:50 agora. Eu vou programar para amanhã. Tá sem imagem. Igual o 58. Logo eu arrumo isso. Ah, enfim, era isso, espero que compreendam. E se não compreenderam, aí parça, FODACI COM GLITTER ~( '3' )~ Volto logo, passarolhos. ^-^


–Você não quer saber por que ela não se lembra de você? Não é só isso que você quer, Len? Descobrir o passado da Rin? Que ela lembre do que, uma vez, vocês viveram juntos? Então eu vou te mostrar o que realmente aconteceu. Vou te mostrar o porquê ela não consegue se lembrar de você, mesmo que você tente a forçar para isso. – Ela pôs as mãos na cintura. – É uma frase que eu digo muito, querido. Volte no passado, para entender o presente e conseguir um futuro.

–E eu, supostamente, devo acreditar nessa merda?

–Imagens falam melhor que palavras. Acredite no que quiser. Suas perguntas de idiota tem uma mesma resposta. E se não gostar dela, bem, aí o problema já não é meu.



RIN POV’S ON

Flashback on


Lily não era como os médicos. Não dizia que não iria doer.

Mordi meus lábios com tanta força que tive raiva de mim mesma. Só agradeci mentalmente por não dar meus típicos gritinhos de menina que sempre dava com injeções. Eu olhei para Lily com os olhos assustados, e poucas piscadas, por susto.

Olhei para a ponta da agulha fincada na minha bochecha esquerda.

–Não olhe. – Disse ela empurrando o embolo. – Acredite. Vai ser melhor.

Pelo canto do olho, peguei Miki e Sophia, espiando o que Lily fazia, com curiosidade. Desde então, as conversas haviam morrido facilmente. Na beira da cama, apertando a espuma do colchão, Sophia assistia como se estivesse em casa, na frente da Tv, assistindo um programa de medicina bem do chato, mas que parecia interessante para ela.

Voltei a olhar Lily só quando senti que podia mexer a bochecha. Minha primeira vontade foi a de tocar meu rosto, minhas bochechas, ambas, só para ter certeza de que estavam bem. Lily virou-se de costas por poucos segundos, e passou um bolinho de algodão molhado no meu rosto.

–Feche os olhos. Nunca caiu nos meus, mas acho que álcool nos globos oculares não é a melhor sensação.

Fechei os olhos antes mesmo dela terminar a frase. Embora ainda fosse uma pequena dificuldade manter, o olho, que Kaito quase conseguiu tirar de mim, aberto, eu sentia que estava me saindo bem.

Lily começou a passar o algodão pelo meu rosto, ás vezes pondo algumas mechas de cabelo atrás de minhas orelhas, para que não a atrapalhasse. Por um tempo, o algodão parou de molhar o meu rosto, dando ideia que já tinha acabado, porém, ainda não me vi autorizada a abrir os olhos. Acho que, por mim mesma, não esperava uma autorização, só não me sentia livre para fazê-lo. No fundo, mesmo não entendendo nada do que acontecia ou iria acontecer, imaginava que viria mais. Só não estava preparada para me deixar ver isso.

Um pouco desatenta, mal percebi quando ela saiu de perto de mim. Balancei minhas pernas no ar, escutando barulhos na bancada, e depois seus passos de volta. Deu um suspiro de como não estivesse realmente disposta para fazer o que tinha de fazer, mas continuou. Pôs uma ou duas mechas de cabelo atrás das minhas orelhas, — coisa irritante — antes de começar a falar.

–Rin? Preciso que preste atenção agora. É mais do que importante que você não se mexa, não importa o que ouça ou sinta. Está bem?

–Por...

–Está bem?

Se esse era o jeito dela de reconfortar uma pessoa, ou até mesmo de não me preocupar, além de ela ser péssima nisso, Lily tinha despertado um pouco da minha ansiedade e nervosismo.

–Está – Murmurei. — ...bem.

–Mas... – Ouvi a voz meio tímida de Miki. Não sabia se era a vergonha por si só, ou se ela estava escondida em um dos cantos da sala novamente, para que falasse tão baixinho e sem jeito. – Mas ela não é de pano.

Abri os olhos, quebrando o combinado de não se mexer.

Dessa vez era diferente. Era uma agulha diferente. Escura e curvada. Presa em sua ponta, carregava consigo uma linha diferente das daquelas de costurar. Talvez eu entendesse mais e visse mais diferença se tivesse a oportunidade de tocar aquele fio que balançava junto com o ar que vinha do ar-condicionado.

Lily segurou minhas bochechas com uma única mão, prevendo que eu iria me mexer. E mesmo sem parecer ter algum tipo de prática no que estava fazendo, atravessou minha bochecha com a agulha até chegar numa parte mais alta dela, e puxar toda aquela linha desconfortável, por cima, e por baixo, da minha pele.

Esperei por uma dor maior do que a que veio. Não sabia se ficava aliviada ou preocupada se algo maior estaria por vir. A primeira agulha que me atravessou, a que estava presa em uma seringa, não sabia ao certo se ela havia me ferido ou me ajudado. Não conseguia congelar o tempo para dar um imenso suspiro e descansar as costas como precisava. Mas contava os segundos nos dedos e sentia coisas diferentes a partir do tempo. Sentia cada vez menos aquela bochecha que era atravessada tantas e tantas vezes.

Então, não conseguia fechar os olhos.

Lily não era má. E talvez isso fosse a única coisa que me mantinha firme e sem chorar. Kaito tinha feito o corte, Lily o costurava. E até mesmo quando ela chegou perto daquele olho que era um pouco difícil de abrir, minha crença na bondade dela não me permitiu chorar como queria.

Podia ser boa. Não podia ser confiável.

Não tinha muita coisa em mente quando as primeiras palavras foram ditas depois de tanto tempo em silêncio. Lily falou várias coisas, mas eu não escutei nenhuma. Não que estivesse me fazendo de sonsa ou surda, mas agora meu rosto era minha pior distração.

Aquilo tinha um nome. Anestesia.

Das poucas vezes que havia ido ao dentista, em uma delas eu vi e senti o que era. Mas aquilo era diferente, muito diferente. E de tantas palavras que foram ditas, só me prendi a poucas.

–... Então, por favor, tome cuidado.

–Ah, — Me amaldiçoei por não prestar atenção, mas era pior ainda ter vergonha de pedir pra ela repetir tudo de novo. Bravo, gênia. — sim.

Ela deu poucos passos para trás, me dando a ideia de que já poderia descer da cama. Me empurrei mais para a beirada da cama, olhando para a escadinha de metal que ajudava as pessoas baixinhas a subir.

Olhei para as pessoas naquela sala, já no chão. Lily jogou seu braço em sua direção de modo descontraído, gesticulando um ‘’Vamos lá’’ silencioso. Em uma das suas mãos, apertando dois ou três pacotes de gases e ataduras, ela parecia um pouco nervosa. Deu-se de costas e foi em direção a porta.

Não perdi tempo e dei passos apressados para alcança-la, ás vezes dando belas olhadas por cima dos meus ombros, espiando tanto Sophia quanto Miki, um pouco chateada, de, aparentemente, deixar as únicas pessoas que talvez pudessem me entender. Corri pela porta antes que ela se fechasse. Aquelas coisas automáticas ainda iriam cortar alguém no meio, imagino.

Enquanto olhava as falhas dos azulejos esbranquiçados abaixo dos meus pés, tive a pequena sensação de que estavam olhando para mim. Mesmo não tendo certeza de muitas coisas, eu imaginava que, de fato, era Lily querendo um pouco da minha atenção. Levantei a cabeça, podendo ver a mão estendida e um pouco aberta em minha direção, mesmo durante a caminhada para lugar nenhum.

Ela, que vezes ou outras olhava para trás, esperava que eu agarrasse a mão dela. Lily me deu língua e ficou vesga, ficando mais esquisita do que já é. Continuava a não entender porque ela era daquele jeito, num lugar daquele jeito. Estendi minha mão e agarrei a dela, que, agora sem luvas, era o que eu podia perfeitamente chamar de ‘’toque humano’’.

–Ih. – Ela disse, chamando minha atenção. – Se eu tivesse uma filha, seria mais ou menos isso. – Notando a minha cara estranha, ela riu. – Repara nisso daqui, mulher. – Ela sacudiu nossas mãos, fazendo meu braço inteiro tremer. E agora eu não sabia o que era mais estranho. Minha cara pra ela, ou ela ter me chamado de mulher. Então ela era o quê? Meu homem? Quero não. – Estamos de mãos dadas, igualzinho mãe e filha. Tô te levando pra escolinha pra pegar uns garotinhos. Fechou?

– Não. – Não mesmo. – Lily, pra onde estamos indo?

– Oh no. – Ela disse, pronunciando as palavras de um jeito diferente da minha professora de inglês. Parecia mais... Solto? – Assim não dá. Você não pode ser minha filha na brincadeira se continuar assim. Nota zero pra você, que decepção. – Ela disse com um falso entusiasmo. – Tá bom, parei. E... – Ela olha para os cantos. – Respondendo a sua pergunta...

Repentinamente paramos de andar.

Lily desata nossas mãos, e com dois estalos de seus saltos contra o chão, se abaixa até ficar na minha altura, cara a cara. Ambas as mãos vão diretamente para os meus ombros, mesmo ainda segurando as embalagens de gaze e ataduras que carregava consigo. Ela morde a boca antes de dizer qualquer coisa. Lily fica em silêncio como se estivesse escolhendo quais palavras iria usar. E, infelizmente, para mim, isso não parecia algo bom.

Depois de alguns segundos, ela se concentrou em mim.

–Seja forte.

Antes mesmo de eu poder perguntar por qual motivo eu deveria ser mais forte que já era, Lily se levantou e deu dois tapinhas em meus ombros, e espalmou uma de suas mãos em um reconhecedor de digitais que ficava ao lado da porta atrás de mim, exatamente como nos meus filmes de ficção científica favoritos.

Mesmo com dificuldade, a porta se abriu, deslizando entre os sensores com um pouco de rapidez. Embora se esforçassem para manter a aparência inovadora, aquela porta em particular dava a impressão de ser antiga e suja, ou simplesmente usada demais.

Não pude falar uma última vez com Lily. Assim como não tive muita reação quando fui empurrada para dentro. Mesmo sendo o mais delicado possível, não deixava de ser um empurrão. As embalagens escorregaram sobre meu ombro até caírem no chão, já dentro da sala. Eu me virei para trás, me assustando com a porta se fechando perto de mim, roçando nas minhas costas. Dei um passo para frente, com medo de ficar presa um lado para fora, outro para dentro. Pisei encima das embalagens, quase escorregando e ainda fazendo um barulho de plástico, sendo amassado, irritante.

Finalmente dei uma primeira olhada na sala na qual fui obrigada a estar. Levantei a cabeça e apertei meus olhos por estar olhando diretamente para a luz. Eram as primeiras luzes amareladas que tinha visto naquele lugar. Baixei minha vista, dando uma ou duas fortes piscadas antes de prosseguir. Me abaixei para pegar as embalagens caídas, e um pouco pisoteadas por mim.

Olhei em volta, sem ver muita coisa, apenas uma pequena lata de lixo e uma porta logo adiante, na parede oposta a qual estava. Era um pequeno quarto, sem muito espaço para muita coisa. Talvez a única coisa especial fosse o fato da próxima porta ter uma maçaneta prateada, contrariando o padrão de todas as outras portas que já tinha visto até agora.

Andei até o lixo, apenas para saciar a chata da minha curiosidade, descobrindo nada mais que uma sacola preta e um cesto. Fui até a porta, onde tentei puxar a maçaneta, mas nada consegui além de uma porta trancada. Bufei um pouco entendida, tentando entender por qual motivo Lily quis tanto garantir que eu entrasse aqui.

Me afastei da porta num pulo, quando, de repente, eu escuto vozes atrás dela e o som da maçaneta se abrindo, pouco a pouco se curvando para baixo. Corri até a parede oposta, coisa que podia ser feita facilmente em oito ou dez passos. E mesmo eu sendo pequena, não ocupando muito espaço, dessa vez não tinha opções de esconderijo.

A pessoa que entrou no quarto era assustadora. Aliás, como eu poderia saber se era uma pessoa mesmo? Não tinha pele. Nenhuma. Só via camadas e camadas de roupas de plástico, sem nenhuma pele a aparecer. Mesmo eu tendo noção que se tratava de uma pessoa usando roupas de proteção, — contra algo, ou alguém — eu já tinha um apelido formado para esse. "A coisa" seria o nome.

Colei minhas costas na parede, e tateei a mesma, procurando, nem que fosse pequeno, um botão que abrisse aquela porta de dentro pra fora. Pensei um pouco e vi que aquilo era inútil de certa forma, porque imaginava que se era todo aquele trabalho para abri-la de quem estava do lado de fora, não imaginava que seria um simples "botãozinho" que a abriria aqui dentro.

A voz da Coisa saia abafada atrás da máscara que usava. Seu nariz estava coberto, fato que me fazia ter mais dificuldade de entender algo. Tentei identificar o que a Coisa era — menino ou menina — mas de nada adiantou. Ou era uma mulher de voz masculina ou um homem de voz afeminada. Porém isso não importava muito. A Coisa era um tanto assustadora, e eu não queria que nem falasse comigo. Muito menos ter algum tipo de contato.

"Você irá se lavar" A Coisa disse.

Balancei a cabeça, esperando que entendesse que eu não havia entendido, embora isso fosse mentira, e que repetisse mais uma vez. Mais uma, mais outra, quantas fosse, mas o suficiente para que se cansasse de mim e fosse embora.

"Você irá se lavar. Você precisa ser limpa”.

Lembrei-me do que vi no espelho do elevador enquanto subia para cá com Kaito. Lembrei-me também de quando estava no carro, do sangue seco em minhas mãos e embaixo das minhas unhas. Certo, eu estava suja. Embora as palavras que a Coisa dizia para mim não fossem sugestões, e sim afirmações, algo como ordens concretizadas, eu quase quis concordar com aquilo.

Exceto que aquilo era estranho.

A Coisa olhou para o lixo e o apontou, me fazendo olhar para lá também. Disse,

"Tudo".

E se foi pela porta de onde veio. Não escutei nenhum clique metálico, então achava que a porta da maçaneta prateada não havia sido trancada como antes estava.

Pus a mão no peito e suspirei como se nunca tivesse respirado na vida, e aquela fosse a primeira vez que conhecera o ar. Mesmo que pouco, meu coração estava acelerado, diferente do normal. O que fora aquilo que foi proposto pra mim? Tomar um banho? Não sabia ao certo o que era a definição de "limpa" para a Coisa.

A primeira coisa que fiz foi tirar o laço que repousava no topo da minha cabeça. Fui até o lixo, e joguei sem hesitar aquela fita suja e amarrotada que agora estava em minha mão. Puxei as mangas da blusa de Miku, até conseguir tirar de mim e arremessar na lixeira. Quase me sentia mal por fazer isso, porém, continuava sendo um quase. Depois, baixei as alças do meu vestido, uma de cada vez, as sentindo deslizarem pelos meus braços, juntamente com o vestido, escorregando pelo meu corpo até encontrar o chão.

Fiquei com frio. Olhei para o teto mais uma vez, procurando pelo causador de ventos gelados, mas não achando um ar condicionado. Corri as mãos pelo cabelo, voltando a me focar na tarefa mais vergonhosa da minha vida até então. E o pior era que eu que havia escolhido por isso. Embora não realmente achasse que tivesse muita escolha.

Comecei a pensar sobre manter as últimas peças em mim. Daí lembrei do "Tudo" que a Coisa havia me dito, e fiquei ainda mais envergonhada. E consequentemente nervosa. Eu não queria ficar desse jeito. Não desse jeito. Não sabia o que a próxima porta da maçaneta me esperava.

"-Seja forte."

Você disse, Lily. Mas como eu devo ter esse tipo de força?

Não sei.

Mas precisava ter.

Um pouco relutante sobre minhas escolhas, retirei o que faltava de mim, sem sair do círculo que o vestido criara quando caiu do meu corpo. Dei um passo para ao lado, pegando minhas roupas no chão, e sem pensar muito, as enterrei na cesta de lixo.

Segurei na maçaneta prateada, e usando a porta para me cobrir, a abri bem devagarinho, só permitindo que, quem estivesse, ou o quê estivesse atrás daquela porta, visse meus olhos curiosos, e um pouco do meu nariz. Meu campo de visão sem dúvida não era o melhor, mas era o mais acessível. A Coisa estava me esperando, sentada em uma única cadeira no canto da sala. Apoiava seus cotovelos em seus joelhos, como se aquilo tudo fosse desgastante, afinal. Com as costas dos meus dedos, bati na porta cerca de três vezes até chamar a sua atenção.

Com as mãos, fui chamada pela Coisa para que andasse até ela. Abri a porta um pouco mais, fazendo mais um rangido, para tentar explorar a sala somente com os olhos. Não tinha "jeito" o suficiente para entrar por aquela porta e ver tudo pela minha conta, então tentava espiar o máximo que podia.

Essa sala era maior do que a anterior. O chão era sujo e amarelado, não porque era originalmente amarelo, e sim porque o tempo desfez o branco. Havia vários ralos no chão, com marcas de água corrida. No topo de uma das paredes tinha algo com que se parecia com um chuveiro, só que diferente dos quais eu conhecia. Era prateado, — coisa que me fez pensar que havia um padrão quanto a cores naquele lugar — mas a boca era pequena, dando impressão de que não saía muita água de lá, e que, de algum jeito, as coisas eram racionadas.

A Coisa bateu as mãos nos joelhos e se levantou,

"Temos muito trabalho a fazer" foi dito num murmúrio.

E empurrando a cadeira para trás, que, com suas longas pernas prateadas, arranhou o piso. Suas botas de plástico quase não faziam barulho algum quando eram forçadas contra o chão, nem mesmo quando pisou encima de uma das tampas dos ralos. Me encolhia cada vez mais atrás da porta à medida em que se aproximava. Quando a Coisa pode tocar na porta, segurei a vontade de sair correndo e me esconder, nem que fosse atrás da lixeira — algo quase inviável -. Uma barra azul, que parecia um pedaço de sabão, foi oferecido a mim pela Coisa. Olhei para o retângulo azul que fora estendido, com um cheiro não muito forte, porém que não passaria despercebido por mim, visto que estava na altura do meu nariz, de químicos.

Arrastei minha mão pela porta, até a Coisa conseguir ver mais um rastro do meu corpo — no caso, meu braço — e agarrei a barra de sua mão. Trouxe de volta meu braço e minha nova aquisição para o meu "porte seguro" que pensava que as costas daquela porta era. Olhei para a mão que continuava estendida a minha frente, a espera de alguma coisa. Vi que tudo o que tinha era um pedaço de sabão azulado e três embalagens de gaze e ataduras, descobrindo qual era o motivo de Lily ter jogado aqueles pacotes por cima do meu ombro há poucos minutos atrás. Mostrei o indicador para a Coisa, pedido "um minuto".

Sem esperar resposta, fechei a porta, deixando escapar mais um daqueles pesados suspiros. Procurei com os olhos algo que supostamente deveria estar na minha mão, encontrando-os na soleira da porta. Os peguei, e abri a porta bem devagar, colocando a mão para fora e pondo os três pacotes na mão da Coisa. Seus dedos apertaram os pacotes, e parecendo um pouco satisfeito, deu de costas e voltou para seu lugar, a cadeira no canto da sala. Sentou-se, olhou para mim, apontou para o chuveiro de metal, e cruzou os braços.

–Porque não posso fazer isso sozinha? — Perguntei. — Porque tem de ficar aqui?

Esperei por alguns minutos até ouvir uma resposta.

"Porque tenho que monitorar."

Dei uma forte fungada, imaginando que eu não faria a cabeça dele para sair dali. Ele não me machucou, pelo menos. — Pensei. – É só uma coisa. Uma coisa assustadora.

Sai de trás da porta, finalmente entrando no quarto de ralos. Colei minhas costas com a porta, assim a fechando, mesmo essa não sendo a minha real vontade. Corri até ao pequeno chuveiro de metal, escutando o estalar de pés descalços contra o piso. Com nada para me cobrir ou esconder, nem mesmo um box, não evitei de olhar para a coisa, sorrir sem humor e esperar por uma próxima instrução.

Quase levei um choque térmico quando a água começou a cair do nada, batendo na minha cabeça, costas e ombros com uma força e frieza inacreditavelmente fortes. Assoprei o ar com minha boca, praguejando mentalmente o ser que havia ligado à água. Abracei meu corpo, tentando reter calor para mim mesma. O pedaço de sabão que estava na minha mão, pouco a pouco espumava, escorrendo pelo meu braço e minha perna, fazendo bolhas no caminho que a água formou até encontrar o ralo mais próximo. Fechei os olhos, mordendo a boca e abaixando a cabeça, para que a água caísse na minha nuca e não no meu rosto, que por mais que estivesse anestesiado, aos poucos perdia esse efeito.

Mesmo de cabeça baixa, encarei a Coisa que me observava no outro canto da sala, sentado em sua cadeira. Ele nada disse, só me encarou por longos trinta e cinco minutos, tempo exato de quando a água foi cortada. Minutos em que eu pude não só me lavar cerca de sete vezes, como consumir metade da barra azul que ele havia me entregado. Com pingos caindo sobre minha cabeça molhada, soltei o pedaço de sabão no chão, levantando um pouco de água, logo esfregando minha mão na parede para que não ficasse nenhum resíduo em mim.

O frio que sentia antes teve um estrondoso aumento, que eu infelizmente não tinha como curar. A Coisa se levantou da cadeira e caminhou até a parede a minha esquerda, usando o indicador para passear pela parede até chegar em certo ponto, onde afundou sua mão e acabou abrindo mais uma porta. Porta que quem não estivesse acostumado a tal lugar, jamais encontraria. Olhou para mim mais uma vez, e atravessou a parede, me deixando uma sala para trás.

Pisquei com força, fazendo meus cílios molhados se apertarem e criarem gotas que escorreram pelas minhas bochechas, como falsas lágrimas. Fui andando até a porta — ou devo dizer, buraco — em que a Coisa entrou. Parei na frontal, observando um breu total em que estava prestes a me "aventurar". Andei um pouco, ou andei muito, dependendo do espaço que aquela sala tinha, até a tal porta se fechar e tudo realmente ficar escuro.

"Por favor, não se mexa.”

Girei ao redor de meus pés procurando pelo dono da voz, uma vez de que não era mais de "Coisa" que estávamos tratando. Apertei os olhos, observando um pontinho luminoso vermelho no fundo da sala. Logo depois um pontinho amarelo e outro azul. Olhei para trás, vendo que se tratava de um raio de luz, pois acertava a parede atrás de mim. Levantei minha mão ainda úmida, na frente de uma coisa que mais parecia um laser, para poder ver a pequena luz azul refletir na minha palma esquerda. Abri e fechei minha mão me divertindo com aquilo. Notei a luz vermelha no meio da minha testa, e vesgueei um pouco para tentar vê-la. Tentei alcançar a luz amarela também, até que me lembrei do aviso que haviam acabado de me dar.

"De zero a dez," Foi dito. "descreva sua escala de dor."

Primeiro, senti nada. Ligaram uma luz azul encima de mim, e ela piscou algumas vezes. Nada demais aconteceu.

–...Zero?

Depois disso, a pequenina luz azul se apagou, juntamente com as que surgiram do teto. Me perguntei mentalmente porque luzes algum dia machucariam alguém, para me fazerem aquele tipo de pergunta. No lugar da luz azul que brilhou no teto, agora veio uma amarela, mas uma amarela mesmo, como o amarelo de giz de cera. Mesmo não podendo me mexer, aproveitei a momentânea claridade para examinar no lugar que estava. Um quarto não muito grande, não muito pequeno. No topo da parede a minha frente, talvez uns dois metros acima das pequenas luzes azul, vermelho e amarelo, estava um vidro sem reflexo, uma janela de observação. Não importava o quanto eu apertasse meus olhos para ver melhor, eu não conseguia ver quem estava ali. Isso é, se tivesse alguém para estar.

Esfreguei meus dedos uns nos outros disfarçadamente, enquanto não tirava os olhos da tal janela. Aparentemente, já estava seca. Olhei para cima, irritando minha vista com aquela luz tão forte acima de mim. Depois de alguns minutos, me senti presa num forno humano. Luzes amarelas emitiam tanto calor assim? A Luz azul piscou por cerca de quinze segundos e depois a desligaram, já a amarela parecia estar acesa há quinze minutos.

Não que isso me causasse dor, mas me causava desconforto.

–Dois.

E como só esperassem isso, todas as luzes foram desligadas, exceto a vermelha. O pontinho de luz tão longe, ou então tão perto de mim me lembrava de quando desligava minha Tv à noite, e apenas ficava um pontinho vermelho lutando para ser a luz da escuridão.

Então a luz vermelha se acendeu acima de mim, tirando qualquer destaque de um relés pontinho. Fiz uma careta, pensando que aquele não era meu quarto escuro. Com aquela vermelhidão, eu vi vários arranhões na parede a minha frente, como se um bicho tivesse entrado aqui antes. Aquilo tudo me lembrava de um quarto para fotografias, só que de um jeito categoricamente doente que um quarto de fotografia nunca poderia alcançar.

Suspirei com falhas no meio da respiração, coisa que denunciava meu nervosismo. Foram necessários um pouco mais de sete segundos para eu sentir minha pele arder e queimar, como se eu passasse dias e dias na praia, sem ao menos tentar me proteger, e sem ao menos alguém me tocar.

–Sei... Sete. Oito. — Quis coçar meus braços. — Nove. Nove.

Então tudo desligou, me largando num escuro profundo e assustador, sem meus adesivos de estrelinhas que brilhavam no escuro no teto do meu banheiro.

Aquilo era muito diferente de estar em casa.

Eu queria estar em casa.

"Responda com sim ou não.”

Balancei a cabeça, concordando, porém já contradizendo o acordo que acabara de ser feito.

"Kagamine Rin, oito anos.”

–Sim?

"Um metro e vinte e seis."

–...Sim?

"Sem fraturas, apenas corte atravessado entre as três camadas da derme?"

Derme?

–...Eu... Acho que sim.

"Indivíduo de teste da experiência 1408, datado como 2.0”.

–...Como assim?

"O processo de descontaminação foi finalizado.”

–Não, espera! Como assim? Espera! Porque não responde as minhas perguntas?

"O indivíduo 2.0 foi aprovado."

Escutei o barulho de portas automáticas se abrindo. Desse jeito, sabia que estavam vindo, mas não pelo mesmo caminho que fui obrigada a vir. Justamente por não saber o que vinha me buscar, eu quis sair correndo, mesmo estando daquele jeito, nesse estado. A primeira luz que não vinha do teto ou da parede, vinha de fora, pela porta automática. Quis me matar por pensar de tal forma, mas antes as luzes brancas do corredor infinito do que as luzes coloridas do quarto escuro. A quantidade de luz que invadiu o quarto não era muito grande, tanto que só alcançava até meus pés, da porta até aqui.

Pela porta, entraram uma pessoa que parecia uma médica, e a Coisa que havia monitorado meu banho. Assim que entraram, as luzes se apagaram de novo, porém com um simples bater de palmas, o local se reacendeu, só que com luzes brancas, como se fosse mais uma sala qualquer, de qualquer corredor que esse lugar poderia ter. A médica e a coisa andavam em minha direção, e pela primeira vez em um conjunto de minutos, recobrei a noção da vergonha na posição que estava, e quis correr e me esconder de qualquer jeito. Nos braços, a médica carregava um fino tecido que parecia um pequeno lençol. Quando se aproximou de mim, me entregou o pedaço de pano e me pediu para me vestir. Desdobrei a peça, me enganando por pensar em um lençol. Tratava-se de uma camisola, igual às roupinhas que as pessoas doentes usavam em hospitais. Por notar uma coisa dessas, eu comentei,

–Eu não estou doente.

Vesti a camisola sem mais reclamar, mas um tanto incomodada por ser tratada num nível de enfermo por essas pessoas. Passei as mãos pela minha mais nova roupa, tirando uns pequenos amassados que tinha feito acidentalmente enquanto colocava a roupa. Olhei para a médica e a Coisa, que entre cochichos e outros, riam sem muito humor, apenas gastando os segundos em que eu me ajeitava.

"O Primeiro acha ela uma criança estranha."

–Pronto.

Eles olharam entre si, e cortaram seus risos estranhos pela metade. Me pediram para me sentar no chão, e não me mover nem sequer um milímetro. "Não se mexa" era provavelmente a coisa que mais havia ouvido por ali. Me pediram também para fechar meus olhos. Não confiava muito neles como confiava em Lily, – se, ela fosse de confiança — então aquilo só havia contribuído para me deixar, infelizmente, tensa. Ouvi o barulho de plástico se rasgando três vezes, e antes mesmo do fim do rasgo do terceiro plástico, a primeira atadura foi posta na minha cabeça.

Me assustei, fazendo um barulho estranho com a garganta. Rapidamente pus a mão no meu olho direito, o machucado, recebendo um chiado da médica em troca. Não sei por quanto tempo precisei ficar sentada no chão, e nem quantos centímetros — metros, quem sabe — daquela fita usaram em mim, mas quando finalmente disseram que tudo tinha acabado, fiquei feliz. Certo que o "tudo" deles era quase nada perto do meu tudo. Mas agora não importava, eu estava um pouco mais feliz. Haviam mexido no meu cabelo e no meu rosto, e várias vezes fiz barulhos de quem não estava gostando do que estavam fazendo. No entanto, agora tinha acabado, e eu não tinha mais porque reclamar com esses dois.

Quis abrir os dois olhos, mas eu só consegui abrir o esquerdo. Toquei nas ataduras, por cima do lugar onde deveria estar meus olhos, levando uma bronca alta da médica, mais uma vez. Tentando amenizar a situação, falou em termos bem infantis, contando que meu "dodói" jamais sararia se continuasse a tentar mexer. Ela não podia me culpar, na verdade. Só ter metade da vista não era a melhor coisa a se ter. Imaginava nem poder ver. Meio emburrada, dei um meio agradecimento numa voz mais falha ainda, e fui atrás da Coisa, seguindo-o porta afora, como haviam me mandado.

Ao invés de usarmos o elevador para descer, usamos as escadas, artifício que eu não tinha ideia de que havia num lugar como esse. Descemos até minhas pernas cansarem e meus passos serem vacilantes, ainda mais por meus pés continuarem descalços, descendo lances e lances de escadas de concreto cinzento e gelado. E quando achei que iria cair, a Coisa murmurou que tínhamos chegado.

Queria dizer que aquilo parecia um bunker, mas não era. Antes de ter alguma oportunidade de fugir, eu percebi que não se tratava apenas de eu e a Coisa ali. Me via andando num corredor claro, com câmeras, e pela primeira vez na vida, vi aquele tipo de guardas, pessoas que não eram policiais e usavam armas.

–Você vai me prender? — Perguntei timidamente para a Coisa. — ...Vai?

"Isso não tem resposta ainda" Ele disse. "É o seu quarto."

A Coisa se aproximou de uma porta com uma pequena placa quase ilegível com os números dois e zero. As paredes de vidro só me mostravam uma cama pequena e um travesseiro. Dei um giro em torno de mim mesma, vendo um longo corredor com muitos desses "quartos", porém todos vazios. Len poderia me chamar o tempo todo de ingênua, mas aquilo era óbvio demais até mesmo para mim.

–Você vai me prender. — Murmurei.

Olhei para os homens com armas, que talvez não merecessem ser chamados de guardas, e sofri em silêncio. Eu não tinha muitas escolhas.

E quando eu tinha?

A Coisa me colocou para dentro do meu "quarto" , fechou a porta, e com uns bipes do lado de fora, trancou aquilo umas quatro vezes. Se afastou, me encarou apenas por encarar, e me deixou sozinha.

Sozinha.

Eu odeio ficar sozinha.

Olhei para a câmera no cantinho da parede envidraçada em que estava a porta, e a ignorei logo em seguida. Sentei-me no chão, mesmo me sentindo meio desconfortável em fazer aquilo usando uma camisola. Apoiei meus cotovelos em minhas pernas, e minha cabeça em minhas mãos, bufando com raiva. Lembrei-me da sala de luzes coloridas, e das "perguntas" que nem perguntas de verdade eram.

Escutei um assobio vindo do fim do corredor e ficando cada vez mais próximo. Parei de encarar o chão como fazia há poucos minutos atrás e fui espiar quem tanto assobiava. Não que isso fosse chocante, só não era bom ter descoberto que quem criava aquela melodia, um tanto depressiva, era, justamente,

Kaito.

Com as mãos escondidas em seus bolsos, andava meio descontraído, apenas ignorando tudo e todos ao seu redor. Quando me viu, sorriu de canto, apertando os olhos, me mandou um "tchauzinho" que quase poluía o ar com sua ironia que balançava de um lado para o outro num simples aceno. Nada respondi, só o segui com o olhar, até ele parar em uma parte do vidro e o cutucar, como se eu fosse um peixinho num aquário barato.

–Oi, Rin-chan. – Me chamou, de um jeito que o meu nome parecia nojento. – Você está tão... bonita. Você precisa ver isso.

Estreitei os olhos, negando com a cabeça.

Me ignorando, ele puxa o zíper do casaco que usava, retirando uma pasta amarelada de papel que estava toda amassada junto dele. Ele colocou as mãos dentro do envelope e tirou algo que pareceu uma foto. Sorriu sem humor, como na maioria das vezes, e aproveitando que as paredes eram envidraçadas, colocou a foto contra o vidro, a segura com sua palma.

Levantei-me do chão e andei até ele, passando a mão sobre o vidro, querendo, mas não podendo, tocar a foto.

–Essa é a antiga você,

Então, ele tira seu celular do bolso, e com a câmera, Kaito é o primeiro a me mostrar o meu reflexo.

–E essa, — Ele bate com o indicador na tela do celular duas vezes.– é você de verdade.

Notas finais
SIM, ELA ESTAVA PELADA NÃO, EU NÃO FIZ UM DRAMA ENORME POR ISSO Até porque, quem é que tem saco pra isso? Quer dizer, eu fiz umas alusões da vergonha aí, mas acho que já tá de um ótimo e bom tamanho -qq GENTE, A BANDEIRA LARANJA GANHOU, PAU NO CU DA BRANCA E DA PRETA, MUAHAHAHAHAHAHAHAHAA As nossas macumbas reunidas realmente são poderosas véi :') Ai ai, eu tô com sono. Não tenho muito o que dizer, até porque eu disse tudo que tinha pra ser dito nas notas iniciais. ENTAUM É IÇU AMO VCS, SEUS PUTO LINDO Até logo '3' Vejo vocês nos reviews!