Karakuri Burst
61 Engula o choro.
Notas iniciais

RIN POV’S ON
Flashback on
Corri animada até o outro lado da rua, desfazendo todo o sentido que a minha corrida fazia. Uma vez ouvi dizer que correr na chuva só piorava a situação. Mas tudo se repetia exatamente como ontem. Ou seja, molhar a água.
Ri um pouquinho quando vi a cara dele. Estava correndo igual uma louca em sua direção, e se eu fosse ele, acho que já estaria correndo.
Não. Estaria correndo. Nada de ‘’acho’’.
Aliás, qualquer um. Mas acho que faz parte de ser estranho.
Escorreguei quando subi encima da calçada. Quase caí. Nele.
Sorte que ele se esquivou, ou melhor, quase. Acabei batendo nele sem querer.
Acho que ele não se importou. Fez cara de estranho de novo. Então acho que poderia ser considerado normal. Não, ele não se importou.
Ainda bem.
Me escondi em baixo do seu guarda-chuva, sentindo a água menos molhada. Não fazia sentido algum. Não fazia sentido algum eu estar ou não estar ali em baixo. Quase como tentar contar grãos de açúcar num copo de água.
Ou sal.
Grãos de sal servem também.
Mas sal não era importante no momento. Nem açúcar. Sim, o guarda-chuva.
Toquei minhas bochechas com as pontas dos meus dedos. Estavam geladas. Devia estar com frio. Tá legal, muito frio. Mas isso não era um problema. Meu nariz que me incomodava. Quase não dava para respirar direito.
O garoto estranho começou a ir sem mim, e por pouco não bati o pé no chão e gritei por ele.
Você é muito boba, Rin.
Corri para debaixo daquele guarda-chuva brilhante outra vez. Azul, igual o céu supostamente deveria estar. Mas se o céu fosse como o guarda-chuva, seria um guarda-chuva, não o céu.
Dã, bela interpretação do óbvio, Rin.
Mas seria mais bonito. Ah sim, isso seria.
–A chuva está... – Os pingos caiam no meu braço feito pequenos gelinhos. — Me molhando.
Segurei na fina haste de metal do guarda-chuva, e sem pedir licença, o puxei para mim.
–Não me diga, — Ele olhou pra mim com um sorriso meio idiota. Pensando bem, ele inteiro era idiota, então o sorriso não tava sozinho nessa. – Legal mesmo se a chuva estivesse fazendo um churrasco pra nós, Rin.
As solas dos meus sapatos deslizaram pelo concreto da calçada mais uma vez. Rin. Só um nome pequeno que não passa de uma sílaba. Laranjinha tinha quatro. Talvez isso tenha me pegado de surpresa, e quase tenha me feito escorregar. De novo. Mas eu tinha a desculpa do chão escorregadio ao meu lado.
Ah, e chuvas não fazem churrascos. Burro.
–Você é trouxa. – Seguro no guarda-chuva mais uma vez, contra a vontade do garoto estranho. –Quem mandou me oferecer carona?
Ele soltou um ‘’tsc’’ baixinho, quase como um segredo que ninguém pudesse ouvir.
–Mata você falar um simples ‘’obrigado’’? – Ele puxou o guarda-chuva forte o suficiente para meus dedos escaparem do metal gelado.
Obrigado? ObrigadO? OBRIGADO?
Burro!
–Meninas dizem obrigada, e não obrigado, seu leso. – Olhei para ele com o canto dos olhos, e ele, da mesma forma. – E, sabe, eu não te pedi porcaria nenhuma. Compreende, jovem?
Olhando-me de maneira completamente indiferente, soltou um meio sorriso e deixou seus olhos passearem pelo céu.
–Então fica na chuva.
Deu um simples passo para o lado, tirando o guarda-chuva que estava sob minha cabeça. Era como puxar as cobertas num dia frio. Incomodava. De um momento para outro, senti vários pingos escorrerem pelo meu rosto.
Isso... E-ei!
–E-ei! – Voltei para o seu lado, o prendendo-o ali com minhas curtas unhas no seu braço. – Cadê... Seu cavalheirismo?
Remexendo o corpo, se virou para mim com o mesmo sorriso idiota.
–Você é feita de açúcar? – Andou um pouco, à medida que me deixava parada como uma estátua de parque. – Vai na chuva.
Ele esticou a mão para fora do guarda-chuva descontraidamente, a recolhendo de volta depois de um ou dois pingos aterrissarem na sua palma.
Não, não, não! Isso era, ou quase era, uma interação com meu colega de caminho! Quis bater os pés no chão e o obrigar a voltar pra mim. Poxa! Garoto estranho...
Dessa vez eu preciso de você. Preciso mesmo. Mesmo, mesmo.
Então...
–E-ESSE M-MENINO. – Oh, droga... – M-ME BATEU.
Ele se virou para trás, em partes chocado, e em partes surpreso. Sua expressão era uma perfeita denúncia.
Bom, pelo menos te surpreendi de alguma forma...
Então, quase da mesma maneira que falou ‘’tsc’’, como se fosse um segredo, me xingou de um jeito tão calmo que revi suas palavras na minha cabeça até entender.
–Chantagista barata.
Fiquei na ponta dos pés e juntei minhas mãos como uma concha, envolvendo o redor da minha boca, de maneira que ele escutasse melhor.
–Vai me levar até em casa ou não? – Meu nariz coçou, e prendi a respiração, sentindo um espirro chegar. – Até a porta.
–Até a porta?! – Gritou, como se eu acabara de contar que matei alguém. – Até a porta nã...
Não! Não vai recusar nada meu, garoto estranho.
Não vai.
Mas... É tanta apelação...
–PORQUE VOCÊ FAZ ISSO COMIGO?
Suas bochechas ficaram vermelhas. Vermelhas não, meio rosas. Me olhou com espanto, e me analisou por meio segundo, como se eu fosse uma jogadora em uma mesa de pôquer. Garoto... Estranho...
–Tá! – Gritou. Depois baixou a voz e se encolheu em baixo de seu guarda-chuva. – Tá. – Me encarou. – Mas para com esse show que as pessoas estão olhando.
Pus as mãos na minha cintura, esfregando meus dedos nas minhas palmas. Tão úmida.
–Olha a minha cara de quem liga. – Ajeitei minha mochila e andei calmamente até seu lado. Não, dessa vez ele não correria. Ficaria, e ficou, parado como uma escultura feia no jardim da vovó. Peguei o guarda-chuva da mão dele sem nenhum problema, como se pegasse a coberta que me fora arrancada por esse menino. – Minha mãe não vai ficar nada feliz... Fala para eu não trazer más companhias, e olha o que eu trago pra casa! Porque, ó grandioso universo?
Ele me olhou com uma cara confusa, depois com um sorriso meio falho.
Esse garoto é todo falho. E idiota. E principalmente estranho.
–O universo disse ‘’foda-se’’.
–Oh. – Meus dedos gelados se encontraram com minha boca por um momento. – Lava essa boca pra falar comigo!
Ele me olhou por canto de olho, alternando entre mim e a rua.
–Me obriga, Laranjinha.
E as irritantes quatro sílabas voltaram. Bobo. E agora, huh, irritante.
–Não... – A vontade esquisita de bater os pés no chão refletiu nos meus atos. Meu pé foi de encontro á uma poça não muito longe de mim, nem dele. Então espirrou com quase a mesma essência de espirrar um perfume. – Me chama assim!
Dando um suspiro bem longo, ele se virou para mim com a indiferença habitual.
–Quer uma Barbie? – Fez uma pergunta, que de antemão poderia parecer simples e gentil, mas que soava com uma ameaça prévia para mim. – Se parar de encher o saco, eu jogo uma Barbie no quintal da sua casa.
Pra quê? Já deu um trabalho relativamente chato varrer os cabelos das outras.
–Prefiro Polly... – Cabelos de plástico. — ...Otário. Oh, viu só? Seu palavreado é contagioso.
Puxei a alça da mochila mais uma vez, que havia se enrolado enquanto andava.
–O que tem aí? – Olhava para meus ombros. – Não para de arrumar a mochila.
Mordi o interior das minhas bochechas, tentando agir naturalmente e fingindo não achar estranho. O garoto era tão estranho que notava até a quantidade de vezes que mexia na mochila. Ele me incomodava. Ás vezes mais. Ás vezes menos; só um pouquinho.
–Pedra... – Bah, e para inventar agora? – de crack. – O olhei pelo canto dos olhos, observando a reação de retardado que ele fez. – Cadernos e livros, seu jumento! – As bochechas ficaram infladas. Quando ele tocou minhas bochechas, meus lábios tremeram e um pouco de ar foi embora. Uma parte de mim entrou em puro nervosismo, o que me fez afastar as mãos dele do meu rosto. – Não me toca. – Sacudi meus ombros, tentando esquecer o frio. – É que estão pesados.
Seus lábios fizeram aquele sorriso idiota. Mais uma vez.
–Não espera que eu vá carregar sua mochila, né?
–Eu não te pedi nada. – Contra-argumento rápido. – Mais uma vez, eu não te pedi absolutamente nada.
–Porque sua mãe não contrata uma vã?
Segurei o guarda-chuva com mais força, antes de responder alguma coisa.
Mãe.
Ele não podia falar da minha mãe.
–Garoto, você se acha muito radical, não se acha?
Ele me olha arqueando a sobrancelha.
–Eu tenho nome. – Reclama com impaciência. – É Len.
Len... Len. Len! L-E-N.
Len.
Uh, melhor do que eu esperava.
Pelo menos, melhor do que garoto estranho.
Só... Não sei, ele é engraçado. Falou de um jeito... Er... Coisado? É, isso. Foi engraçado.
‘’É Len’’.
Ellen.
–Ellen, fica na sua querido, que eu não te perguntei nada.
Seus olhos se apertaram de maneira engraçada, embora eu soubesse que aquilo não passava de uma ameaça silenciosa.
–Qual a sua doença? – O olhar dele voou para longe. – Já chegamos.
Chegamos? Huh, mas já?
Por pouco eu não bateria o nariz na porta. Parecia que para ele já estávamos lá há mais de cinco minutos. Não, não, não passou tanto tempo assim. Garo... Len bobo. Quieto quase igual um criminoso, observava a entrada da minha casa.
O pequeno mundo azul que me protegia de gotas geladas saiu de cima de mim à medida que Len se distanciou. Murmurando um pequeno ‘’tchau’’, balançou um pouco o guarda-chuva, quase como se tivesse o deixado escapar, e foi.
Pequena Rin, onde está sua educação?
–ELLEN, — Falei sem nenhum tipo de controle vocal. – NÃO SE VÁ.
Ele deu um suspiro tão alto que pensei que medir o controle de voz poderia ser uma das nossas coisas em comum.
Se bem que suspiro não é voz... Enfim.
–Eu só estou a cinco passos de distância de você. Para de gritar como se fosse vendedora de coxinha. – Len e suas associações retardadas... – E pela última vez, é Len, não ‘’Ellen’’. – Seus olhos viraram até mim. – Que é?
Len tinha um humor tão doce quanto adoçante vencido.
Mas tudo bem.
–Obrigada. — Sorri com aquele defeito evidente. – Lenzinho.
Ele olhou pra mim com monotonia, provavelmente pensando se valia, ou não, a pena responder alguma coisa.
Bom, dessa vez, valeu.
–Podia ter parado no ‘’obrigada’’. – Acompanhei seus ombros subirem e descerem pelo suspiro. Pondo-se de lado, ele recomeçou a andar em direção à casa da frente. – Não há de quê.
Fiquei um tempo parada na porta da frente, observando em silêncio ele entrar na sua casa. Assim que a porta do outro lado bateu, era hora da minha porta se abrir.
Imitei o Len, deixando um suspiro escapar após entrar em casa. Estava feliz de ter vindo para casa com ele, estava contente! Dessa vez ele fez vários sorrisos. Okay, okay, alguns mais debochados e outros levados para o lado do desprezo. Mas eram sorrisos, sem dúvidas!
Bom, muito bom.
Desfiz a postura alegre e o sorriso bobo que se alargava nas minhas bochechas.
Ah, é.
Olha o que você fez, Rin.
Não parou de doer por meio segundo.
Ainda machucava.
Aquele band-aid era a cor de pele morta para encobrir mais pele morta. Os pulos entusiasmados que dava perto de Len só contribuíram para estraçalhar o meu joelho.
E a água?
Minhas mãos escorregaram pelas minhas pernas até a chegada dos joelhos. O band-aid descolou da minha pele, como se fosse uma figurinha colada no álbum errado. Não esperava mais. Segurei as pontas daquele curativo com as pontas dos dedos, e o joguei no cesto de lixo da cozinha.
Não consegui conter o constante sentimento de querer tocar em sangue.
Tirei a mochila do meu corpo, deixando as alças escorregarem pelos meus braços até a mochila atingir o chão, fazendo os cadernos colidirem e criarem um barulho chato.
Quis ir para o chão, também.
Sentei rente a parede, alinhando minhas costas, conforme a postura mandava. Meus dedos caminharam pelas minhas pernas até chegarem aos joelhos. Toquei uma, duas vezes, até arder e meu cérebro me mandar parar.
Estava nos meus dedos.
Bah, sangue é nojento.
Só meio... Desconhecido por mim. Só um pouquinho.
Você não tem o costume de se machucar, Rin.
Também tinha um cheiro enjoado. Claro, claro. Deveria lembrar. Só não me atrevia a colocar na minha boca por puro nojo. Ou receio. Só era curioso.
E eu também. Então não ajudava muito.
Escutei o relógio de metal tiquetaquear, cruzando o silêncio que eu mesma havia criado.
Sim, verdade.
O que ela faria? Quando ela cortaria o meu silêncio?
Quebrar, quebrar. Destruir, destruir.
Ah, é.
Esfreguei minhas mãos na parede amarelada atrás de mim, até sentir meus dedos limpos novamente. Repensei várias vezes o que faria. Não queria sair do chão. Queria ficar imóvel. Queria brincar. Queria muitas coisas sem sentido exato.
Meu sentido de boa menina gritou mais alto. Disse para eu trocar a roupa molhada.
Eu já havia pensando comigo mesma a respeito de áreas de contração. Joelho era uma. Iria esticar e soltar, contrair e dilatar. Várias e várias vezes. Toda vez que andasse. Machucar o machucado.
Poxa...
Carreguei minha mochila comigo, segurando em uma das alças e a deixando se arrastar livremente pelo chão. Bater em cada degrau que subia. Um por um. Um passo de cada vez.
Os corredores do andar de cima escutaram o barulho de uma mochila arrastada.
Meus olhos observavam cada reflexo no meu nas fotos presas na parede. Eu conseguia me ver. Queria me achar dentre as olheiras que moravam em baixo dos meus olhos. Que chato... Estava me cansando de tudo, então.
Virei à esquerda depois disso. Sequer precisava de atenção, eu conhecia minha casa muito bem. Afinal, aquele era meu castelinho. Castelo da princesa.
Abri as gavetas do meu armário e escolhi algumas peças de roupa.
Puxei meus cadarços e tirei meus tênis, sentindo as meias molhadas tocarem o carpete como um contraste estranho. Deixei meus dedos encontrarem o laço na minha cabeça e o puxar até sair de mim. Troquei de roupa após alguns segundos, retirando os cabelos que haviam ficado presos debaixo do colarinho da camisa.
A porta da frente bateu não muito tempo depois.
As chaves bateram uma na outra, agitadas como um sino.
Claro, mamãe havia chegado.
Gritou meu nome, do andar de baixo, recebendo um ‘’Aqui, mãe’’ como resposta. Quando os seus passos se alargaram pelas escadas ressoaram pelo corredor, eu prometi a mim mesma num sussurro baixo que tudo terminaria bem. Vai ficar tudo bem, Rin. Apenas acredite nisso.
Um passo.
Tudo bem.
Outro.
Bem. Mesmo.
Seguido de mais um.
Mas...
Mais outro.
Será que eu deveria...
Acrescentado de um estalo.
Só dessa vez...
E uma batida na porta.
Mentir para a mamãe?
–Rin, — Ela me chamou, parada na porta do meu quarto. – Rin.
Suas unhas se arrastavam ao longo da porta de madeira lisa. Sua mão subia e descia, marcando a porta com arranhões leves e esmalte vermelho que descascavam lentamente de suas unhas.
Mamãe e suas unhas faziam um barulho como se estivessem estragando alguma coisa.
Quebrar, quebrar. Destruir, destruir.
Eu estava de costas para mamãe, encarando a parede a minha frente.
O que aconteceria se me virasse?
O machucado, Rin.
Não deixe ela ver.
Mas...
–Sim? – Pergunto, me virando um pouco em sua direção.
–Está com fome? — Um sorriso se estendeu pelo rosto da mamãe, logo depois um dedo cobriu o meio de seus lábios. Indicador. Silêncio. – Shhh, não responda. – Ela baixou o dedo, e corroeu o sorriso. – Me diga agora o que está escondendo, Rin.
...Esconder?
Cobri o repentino susto com uma expressão nervosa. Tratei de mudar isso também. Não estava bom. E precisava de uma resposta. Quê resposta? Algo. Algo rápido.
–Acha que eu não sei sobre tudo que acontece com você? – Sua mão desceu da porta e encontrou seu braço, onde decidiu os cruzar. – Diga.
Tudo?
Tudo, tudinho mesmo?
Até do...
–... Nada. – Volto a olhar a parede. O quê eu poderia dizer para mim era... Coragem.
Mamãe suspirou fundo e alto, fechando os olhos por poucos segundos friamente medidos. Quando abriu os olhos para me olhar de volta, assumiu sua postura de rainha.
Oh, sim.
Se aquele fosse meu castelinho, mamãe era a rainha.
–Mentirosa. – Os olhos verdes da mamãe me encaram com raiva. Frios, como olhos de gelo. – Sabe que eu odeio mentirosos. Não sabe?
Congelada no mesmo lugar, permanecendo de costas para mamãe, me encolhi como se pudesse sumir.
O que eu deveria dizer? Contra argumentar?
Não sabia.
Não sabia qual dos meus segredos escondidos havia sido exposto. Todos ou um. Qual era? Quais eram?
E se fosse...
Ele?
–Sua escola. – Mamãe completa. – Me ligou. – Deixa ar escapar pelo nariz. – Vire-se.
Meus passos fizeram pouco barulho pelo quarto. Fiquei de frente para mamãe, precisando inclinar a cabeça para encontrar os olhos de gelo.
Eu estava com vergonha.
A boca esquerda da calça de moletom roseada que eu usava foi puxada para cima. Fui puxando para cima até destampar o escondido.
Não era tão feio assim.
Não estava tão feio assim.
Era só... Um machucado.
–Como conseguiu isso? – Mamãe deu largos passos em minha direção, enquanto eu não deveria recuar algum. – Eu perguntei como, Rin.
–Eu... – Meu olhar correu para a mesa de desenhos. – Só cai.
–Você é burra por acaso? – Suas longas unhas vermelhas apertam meu rosto, machucando minhas bochechas. Fui trazida para realidade com aqueles olhos malvados me encarando. – Quantas vezes eu vou precisar dizer para não fazer essas idiotices? Olhe para sua mãe enquanto eu estiver falando. – Prendi meu olhar no dela. – Não tem escrito ‘’idiota’’ na minha testa, Rin. Você pode esconder as coisas de quem quiser, mas para a sua mãe, não. A merda da sua escola me ligou hoje, me avisando que você se ‘’acidentou’’. Você, nunca mais, vai me atrapalhar enquanto eu estiver trabalhando, entendeu, Rin?
Meus olhos coçaram.
–Mas, mamãe... – Coragem, né... – Eu só...
–Estou apenas te protegendo, querida. – Ela sorriu. – Não destrua o meu trabalho. Mamãe só está cuidando de você, para que os outros não te quebrem. Mas, como é tão mal agradecida pelo o que sua mãe faz, eu mesma vou precisar te quebrar, pequena. Você é muito malvada. Não nasceu pra ser boa, pelo contrário. Mamãe só vai te ensinar como se comportar.
Ela soltou meu rosto e bateu as mãos, uma na outra, como se tivesse se sujado e apenas estivesse se limpando.
Seus dedos se prenderam nos meus fios de cabelo, e os puxou, me fazendo dar um ou dois passos contra a minha vontade.
Eu gritei para ela parar, mas ela não me ouviu.
Mamãe me segurou com força, e me arrastou para fora do quarto.
Andava de costas para mim, sem perder a sua postura de rainha. Com sua mão direita presa ao meu cabelo, me arrastava com passos involuntários dados por mim. Ao cruzar pela porta do quarto, eu me agarrei na parede, fincando a pouca unha que tinha no papel de parede com muito custo.
Me segurei ali enquanto mamãe me mandava soltar. Ela dizia: Comportamento de vadia, enquanto usava sua outra mão para me puxar pela roupa. Minhas mãos doeram e pequenas farpas entraram nelas enquanto eu me agarrava na porta.
Eu soltei.
Tropecei nos próprios pés enquanto mamãe continuava a me arrastar pelos cabelos.
Então eu pedi para ela parar.
Mas ela não escutou.
Mamãe arrastou meu corpo pelos corredores. Não conseguia me por de pé mais uma vez.
Comecei a tentar soltar a mão da mamãe do meu cabelo, mas não conseguia. Arranhei o pulso e o braço dela, mas minhas unhas eram pequenas por eu roê-las. Ela usou a outra mão para acertar meu rosto, e me mandou ficar quieta, calar a boca.
Gritei mais alto por ela.
Nas escadas, eu sentia que iria rola-las a cada degrau que mamãe me puxava. Ela passava a mão livre nas fotos da parede, as fazendo se soltar e caírem no chão. O vidro de proteção de cada uma caía no chão e quebrava, espalhando milhares de caquinhos em cada degrau.
A estrelinha estava morrendo, enfim.
Pedi para mamãe parar de quebrar minhas fotos.
Quando os degraus acabaram, havia um pequeno rastro de destruição atrás da mamãe e de mim.
Agarrei o braço dela mais uma vez, e apertei o máximo que podia. Sacudi minhas pernas como se fosse uma barata morrendo para um inseticida. Quase morrendo. Ainda lutando. Agarrava em cada parede que conseguia, recebendo mais agressões por isso.
Acho que a mamãe não entendia que aquilo me machucava.
Gritei ‘’mamãe’’, gritei ‘’não’’.
Mas a mamãe não queria me escutar.
Ela chegou onde queria chegar. Na porta velha da casa. Na coisa esquisita. No quarto onde ficavam as coisas do papai.
Nunca gritei tão alto.
Não queria entrar ali.
Mamãe me ignorou.
Ela destrancou a porta, puxou a porta, trazendo consigo o cheiro de mofo e poeira. A porta fora escancarada.
Gritei, gritei, gritei.
Fui arrastada para dentro do quarto, onde tentei me segurar na porta para não ser trazida ainda mais para dentro. Ela soltou meus cabelos, e por um pequeno período de tempo, eu me senti livre.
Mas só por um pequeno período de tempo.
Mamãe me puxou pelos braços antes que conseguisse correr para longe. Fui arrastada para dentro daquele quarto. Ela gritou várias vezes para eu calar a boca, mas não consegui obedecer. Ela disse ‘’engula esse choro’’ e me soltou no chão do quarto.
Não me movi.
Não consegui.
Ela caminhou pra fora do quarto, parando na porta para me olhar.
Eu estava de cabeça baixa, mas sabia quando a mamãe se decepcionava comigo. Sabia quando ela me olhava com raiva. Sabia.
–Mãe...
–Cala a boca. – Seus braços se mantinham cruzados, como uma ditadora de um mundo onde tudo é delimitado por ela.
Dando sua olhada final em tudo que havia, morto ou vivo naquele quarto, torceu o nariz e bateu a porta. Nojo. Me pus de pé, e meio cambaleante e com passos vacilantes, fui ao chão de novo. Engatinhei em direção a porta quando ouvi o trinco fechar.
Pondo-me de pé, corri até a porta, e quando senti que iria tropeçar mais uma vez, pus as mãos rente a porta, me apoiando. Suspirei pesado uma, duas vezes, antes de gritar novamente.
–MÃE!
Espalmei as mãos na porta.
–... Mãe!
As fechei, formando dois punhos, e bati na porta várias e várias vezes.
–Miriam...
Chorei baixinho e escondido. Não consegui de deixar de tocar o chão. Queria me jogar por completo. Eu não queria ficar aqui.
Deitei no chão.
Minhas bochechas tocaram o chão empoeirado. Era aqui.
Havia pilhas e pilhas de roupas no chão. Roupas velhas e estragadas pelas traças. Sapatos e cinto de couro velho faziam o meu nariz coçar.
Não quero tocar nisso!
Não quero tocar nas coisas do papai...
As fotos me dão medo. Muito medo...
Há umas manchas pretas na cara do papai...
Mamãe riscou suas fotos...
E escondeu aqui.
–Mãe! – Gritei mais uma vez, fechando os olhos. – Eu não quero ver isso!
Ouvi passos se aproximando. Sem o mínimo de cautela, eu levantei num estalo, pronta para fugir.
Quando mamãe apareceu na porta, um pingo de esperança se deu em mim.
Por pouco tempo.
Mamãe estava com minha caixa de giz de cera na mão, e a jogou no chão. Chutou até mim e me encarou com a mesma repulsa de minutos atrás.
–Colore. – Ela disse. – Você não desenha essas porcarias por todo canto da casa? Agora, colore. Faz a merda que você quiser nessas paredes, Rin Kagamine. Mamãe vai te deixar aqui até você quebrar, então colore o que você quiser.
–Não... – Passei a mão pelo nariz. – Eu não quero ficar aqui, mãe... – Olhei para os olhos de gelo. – Por favor, não.
–‘’Por favor’’? – Mamãe sorriu. – Não. Finja ser boazinha, querida. Se ficar quietinha, eu serei boa. Mamãe não é boa? Então. Seja comportadinha e obedeça a sua mãe. Você não pode esconder as coisas de mim. Isso é pra você aprender, pequena. Lembra-se de quanto ama a mamãe?
Um...
Muitão...
–E querida, — Estalou os dedos. – Isso é comportamento de vadia. Tem de obedecer à mamãe. E quando eu disse que sei de tudo o que você faz, quero dizer tudo mesmo. O cabelinho das suas Barbies, tadinhas. – Mamãe jogou uma pequena sacolinha na minha direção. – Eu peguei. Me diz, Rin. Porque você gosta tanto de destruir as coisas? Hahaha, você tão horrível, querida. E agora? O que faremos com esse cabelo? – A alegria da mamãe se foi. – Responda.
–Eu... Não sei.
–Ah, não sabe? – Mamãe pôs as mãos na cintura e me encarou. – Coma.
Prendi a respiração por um momento.
Mamãe disse...
Coma?
–C-Como assim?
–Burra. – Ela revira os olhos. – Coma, querida. Olhe para si mesma, olhe para o que você fez. Merece isso. Cubra seus olhos. Só... – Me olhou por fim. – Sabe que mamãe te ama, certo?
A porta foi fechada num grande estalo. Alto, barulhento, perturbador.
Quase como uma sentença.
Trancada. Presa. Sozinha.
Sozinha.
Meus olhos doíam de um jeito desesperador. Sentia a ponta dos meus dedos doerem pelo frio que as cercava, e pelo frio que encobria todo o meu corpo. Estava gelada como um pequeno defunto.
Perguntava-me novamente se valia ficar do jeito que estava. Sabia que tinha que ignorar as dores que mamãe me dava.
Mas dessa vez ela estava tão má.
Se ela estava tão má, porque eu tinha que ser boazinha?
Precisei olhar para os meus gizes quebrados. Tantas cores quebradas em tantos lugares. Todas espalhadas em tantos lugares.
Quebrar, quebrar. Destruir, destruir.
Não queria desenhar naquelas paredes.
Nem escrever nada.
Minhas telas eram papéis, não paredes.
Isso era errado.
Mamãe queria que eu fizesse algo errado.
E ficaria feio.
Estiquei meus dedos para pegar o azul escuro, ou pelo menos uma parte dele, perto de mim. Eu pensei na primeira vez que eu fui à praia. Com passos meio tortos, pisei em alguns sapatos do papai que estavam espalhados pelo chão até chegar à parede. Qual era a forma do mar? Mar tinha forma?
Fiz alguns riscos azuis tremidos na parede amarelada, que deveria ser branca.
Não, não, não. Não parecia o mar.
Mamãe era muito burra.
Se quisesse tanto que o quarto do papai fosse colorido, não deveria me obrigar a fazer coisas feias.
Depois eu me lembrei do gramado do jardim. Verde claro. Procurei pelo chão alguns pedacinhos de verde. Quando achei, rabisquei a parede de forma ziguezagueada, subindo e descendo o giz na parede várias vezes.
Rodopiei pelo quarto para chegar à outra parede.
Lembrei das várias uvas que tinham na fruteira da cozinha. Sem querer, pisei no roxo, terminando de o quebrar ainda mais. Peguei o pequeno pedacinho que havia se prendido embaixo do meu pé, e comecei a fazer vários círculos na parede.
Muitas e muitas voltas. Várias e várias vezes.
Colorir, colorir...
Havia várias flores rosa na minha cabeça. Talvez até azuis. Muitas cores bonitas.
Sentei no chão quando cansei. Tinha enjoado um pouco também.
Isso era legal, eu era talentosa.
O quarto tinha ficado bem colorido. Talvez mamãe fosse gostar.
Eu só tinha de fazer mais uma coisa para a mamãe.
Uma coisa nojenta.
Mamãe em si era nojenta.
E eu não queria fazer aquilo.
Pensei em jogar fora aquele punhado de cabelo. Esconder nas roupas do papai. Empurrar para debaixo do tapete. Jogar nas gavetas mofadas das cômodas velhas.
Esconder, né?
Mamãe acharia. Sempre. Se não achasse, algo de errado estaria acontecendo.
Talvez eu que não saiba esconder.
Achava que se espalhasse em vários lugares ela poderia não achar.
Mas, e se achasse?
Sentia que não havia nada a ser feito. Nenhum jeitinho de escapar. Meu olhar correu afugentado para a sacolinha de plástico. Sendo ela translucida, de material branco, eu não podia ver o que havia dentro exatamente.
Será que era mentira?
Será que era verdade?
Mamãe era má. A rainha nunca teria limites no castelo.
Absolutista.
Puxei as alças que formavam o nó que prendia a sacola. O nó se desprendeu, e marcou o plástico de uma forma meio amassada. Espiei meio hesitante para dentro do sacolinha, só confirmando o que pensava.
Era verdade.
Comer, comer, comer.
Eu deveria fazer isso mesmo?
Sim?
Sim. Sem desobedecer à mamãe.
Com uma das mãos segurei a sacolinha, coloquei a mão lá dentro, e peguei um pouco daqueles fios enloirados. Aproximei a mão da minha boca, e fiz o que costumava fazer quando provava alguma coisa que achava que não iria gostar. Usei a ponta da minha língua apenas para distinguir algum tipo de sabor.
Não tinha gosto de nada.
Só... Blé, era uma sensação horrorosa ter aquilo na minha boca.
Mas, de algum modo, havia alguma escolha?
Não, não.
Não tinha.
Os primeiros fios a escorrerem pela minha garganta foram de maneira sufocante e desesperadora. Queria coçar minha garganta de dentro para fora. Tossi várias vezes, precisando me apoiar na parede para tomar fôlego. Senti como se um nó se formasse na minha garganta, engasguei. Eram como pequenos vermes descendo por mim. Parecia apodrecer, podridão.
Mas eram apenas fios de cabelo.
‘’Engula o choro’’.
Meus olhos firmaram lágrimas com o passar do tempo.
Eu só tinha que manter na cabeça que ficaria tudo bem. Eu tinha que conseguir. Era só a primeira mão.
Minutos depois eu estava deitada no chão novamente. Encolhida ao máximo que podia, pressionando a minha barriga com meus braços. Sentia aquele bolo se remexendo no meu estômago, como se gritasse para eu não ter feito isso.
O que você me fez fazer, mãe?
Tentava esconder meu rosto da claridade que a fresta de soslaio da porta fazia.
Tentei me deitar de bruços, depois de costas. A sensação incômoda dentro de mim não passava. Tentei ficar imóvel, prender a respiração e esquecer.
Meu corpo desistiu perto das três e meia da tarde.
Levantei engatinhado, arrastando parte do meu corpo até o canto onde ficavam as malas velhas do papai. Tentei não deixar meu joelho se arrastar no chão, para não piorar o catastrófico. Coloquei algumas mechas para trás das minhas orelhas, e com o fechar dos olhos, eu precisei vomitar.
Passei a mão pela boca e tossi algumas vezes.
Havia sido como um gato de rua.
Vira-lata.
Depois, eu fui chamar pela mamãe.
Eu não queria ficar ali.
Depois de dezessete gritos, a mamãe veio.
Me olhou de cima a baixo, como uma juíza dos olhos esverdeados de gelo. Viu as paredes coloridas e sorriu, pondo as mãos na cintura.
Certo, certo. Isso parecia bom.
Seus olhos vasculharam o quarto, até se prenderem num ponto fixo. Com um sorriso de rainha que mamãe fazia, voltou a me olhar com satisfação.
–Muito bem. – Mamãe me elogiava com fervor. – Muito bem, mesmo. Que bom que aprendeu a se portar como mocinha, Rin. – Dando um passo para trás e abrindo espaço, ela sorriu mais uma vez. – Pode sair. Mamãe está muito orgulhosa de você.
Um pequeno sorriso se formou involuntariamente.
Ela estava orgulhosa de mim.
Que bom.
Levantei do chão, andando devagar até a porta. Ao cruzar a porta, puxei a barra da camisa da mamãe, chamando atenção dela.
–Mamãe... – Concentro meu olhar para as paredes limpas do corredor. – Posso brincar? Lá fora?
Com um breve sorriso, mamãe me responde.
–Claro, querida. Apenas não demore muito.
Soltando a mamãe, saio a passos lentos do quarto de coisas do papai. Diferentemente do que imaginava, pensava que sairia correndo quando aquela porta fosse aberta. Mas não. Me contive. Aguentei.
Como uma mocinha que era.
Quando seguia direção para as escadas, mamãe me chamou mais uma vez.
–Rin? – No final do corredor, mamãe me encarava com o sorriso congelado no rosto.
–Sim?
Levando o indicador a boca, mamãe simulou algo que eu sabia muito bem.
–Shhh.
E consentindo com a cabeça, imitei o mesmo gesto.
–Shhh.
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