Karakuri Burst
70 Ele nunca foi meu namorado, Hatsune.
Notas iniciais

RIN POV’S ON
Flashback on
– Três anos depois –
–Ei Rin, é a sua vez.
Paro de encarar o chão quando ouço meu nome. Sophia, ou simplesmente IA, como preferia ser chamada, já tinha me cutucado algumas boas vezes. Semana passada, ela fez doze anos, consequentemente, a mais velha de nós três, e desde então está com um ar de mandona. Minha sincera vontade era de a segurar pelos ombros e a sacudir feito uma idiota, até que percebesse que eu e Miki éramos apenas um ano mais novas que ela.
Observava silenciosamente o ‘’andar da carruagem’’ de cima de um dos caixotes de madeira que ficavam espalhados pelo pátio inferior. Percebi que a Senhorita Defoko estava a um ponto de mandar todas nós pro inferno, como havia feito na quarta-feira. Não que ela não fosse calma, na verdade, a calmaria que ela estampava no rosto passava a impressão de que era retardada. Não, já tem um limite pra ser iludido. Bastava a irritar com uma série de erros que ela facilmente meteria a mão na sua cara.
Comigo foi um soco, e demorou pelo menos três dias para os lábios desincharem. Não tinha um único corredor que cruzasse sem ouvir como parecia um pato perturbado. Miku, mesmo carregando seus ‘’sofridos’’ dezessete anos nas costas, parecia que tinha seus quinze quando vinha conversar comigo. E claro, não deixou passar a oportunidade de mencionar que ‘’pata linda’’ eu era.
–Você não conseguiu, não é? – Murmuro. – Matá-los. Eu sei que não consegue.
Levanto a cabeça e olho para IA. Seu olhar baixo e pregado no chão já me dizia a resposta. Não que eu já não a soubesse, claro. Seu maxilar travado a impedia de dizer mais alguma coisa, e já a imaginava rangendo os dentes. Olho por trás de meus ombros, observando uma Miki com gestos antigos.
Era como no primeiro dia. Estava escondida em si mesma, no canto, com medo e lágrimas molhando as bochechas, por motivos particulares, e a minha vista, idiotas. Ela abraçava as pernas e enterrava a cabeça entre os joelhos, para que ninguém notasse o quão fraca que era.
Ah,
Que pena.
Eu notei.
Todas nós estávamos encima de um largo caixote de madeira, com coisas que seriam levadas para a parte leste da China. Não tinha ideia do que estava ali dentro, se era frágil ou não, se respirava ou não. Mas o adesivo era claro, aquilo iria para China, e enquanto não ia, servia como um alto banco para três crianças estúpidas.
–Kagamine. Você está perdendo um tempo que não tem.
Revirei os olhos, irritada com Senhorita Defoko. Ela era a única nesse lugar que ainda me chamava assim. Passei meus olhos por IA antes de descer do caixote, vendo que a deixei quase traumatizada, acho. Com o resto de gentileza que ainda me restava, tirei a mão dela que pousava sobre meu ombro, desde quando foi me cutucar.
Desço do caixote, escutando os altos estalos de meus pés descalços contra o chão gelado.
–Eu sinceramente prefiro que continue me chamando pelo número que me deram.
–E eu sinceramente prefiro a continuar te chamar pelo seu antigo sobrenome que está na sua ficha. É tão... Hm, adorável. Prefiro ‘’Kagamine’’ a sua numeração.
–Claro, Senhorita. – Respondo com falsa arbitrariedade, me aproximando dela. – Como quiser.
Ela ri, antes de tomar uma posição completamente diferente.
–Escute bem, essas duas lixos são um desperdício. – Disse em alto e bom som, com os olhos presos tanto em IA quanto em Miki. Embora ela quisesse contar aquilo para mim, falava alto para que todas ouvissem, se deliciando internamente em provocar humilhação em pirralhas de onze e doze anos. Louca. – Kagamine, você não iria me desapontar, não é? – Sorriu, voltando a olhar para mim. – Sabe o que tem de fazer. Aqui. – Me entregou a faca. – Confio em
você, baratinha.
Era interessante como aquela mulher de trinta anos tinha a facilidade de me irritar. Respirei fundo, esquecendo-me daquilo. Não fazia sentido a colocar na minha lista de problemas mental, uma vez que se eu fosse a comparar com o resto de meus problemas, ela não seria nada. Foquei na faca em minhas mãos, fazendo o que sempre fazia quando algum louco tinha a péssima ideia de me entregar uma faca. Passei os dedos pela lâmina, pra ver se aquilo era suficiente para me cortar só de tocar.
–Aqui está. – Defoko soltou o cachorrinho no chão. – Se divirta, Rin.
Dei um meio sorriso, imaginando como a mente doente dela pensava que aquilo era divertido para mim. Olhei para Miki e IA antes de passar a faca de caça para minha mão direita, afinal, era destra. Elas duas, por mais que não quisessem olhar, olhavam, porque a curiosidade, pelo visto, não era um defeito só meu.
Andei até o cachorrinho de pelo meio aloirado sem muita pressa. Ele era bem pequeno, parecia que não tinha tantos dias de vida assim. Não era preciso ser gênio para saber que era um filhote abandonado. Seu pelo sujo e as constantes coçadas denunciavam isso. Aquele cachorro não passava de um vira lata abandonado.
Me agachei quando cheguei perto dele. Acho que estava com frio, pois aquela coisinha não parava de tremer. Seu focinho tocou as costas da minha mão, onde deu uma lambida. Segurei a cabeça do filhote, e virei para o lado, mostrando seu pescoço. Ergui a faca, e tratei de segurar direito seu cabo.
–Você foi abandonado. E se você foi abandonado é porque ninguém te quer. Se é abandonado, é jogado nas ruas, onde ninguém liga pra você. Não acha... Que isso que estou fazendo com você... É um favor? Devia me agradecer.
O som de palmas abafou o ambiente dos gritos do filhote.
–Bravo! - O espírito de falsa poliglota invadia Defoko nos piores momentos. – Bravo Rin, bravo. Não podia esperar menos da minha baratinha. – Ela bagunça meus cabelos. – Excelente, excelente mesmo. E porque vocês duas estão com essa cara? – O comentário de Defoko me faz olhar para as minhas amigas. Elas estavam realmente assustadas. Só não sabia se o medo era de mim ou da situação como um todo. A Senhorita Defoko se aproximou do cão, e tirou a faca presa em seu pequeno pescoço, a jogando no chão. Logo depois, pegou o filhote pela cabeça, e o ergueu no ar, coisa que fez o corpo do cachorro balançar de um lado para o outro.
– Estão vendo isso? O mais forte, vive. O mais fraco, morre. De vocês três, a Rin é a mais forte, e vocês duas são as fracas. Preciso dizer o que vai acontecer? – Ela soltou o bicho no chão e deu-se de costas. – Dispensadas. Vejo vocês amanhã.
Suspiro forte, já enjoada do lado exibicionista da Senhorita Defoko. Nada do que ela me falava me diminuía ou acrescentava nada na minha vida, então simplesmente não me dava nem ao trabalho de escutar.
Me levantei do chão, antes que aquela poça de sangue me tocasse. Era só o que me faltava, sangue e cheiro de cachorro impregnado em minha pele. Tudo aquilo já bastava. Andei de volta para o caixote, para tentar falar com elas. Mesmo com cada passo que dava, seus olhares já diziam tudo sobre o possível julgamento que faziam silenciosamente. Não tinha certeza sobre isso, afinal, nós três não tínhamos tanta capacidade de julgar umas as outras, visto que vivíamos a mercê de cada situação que nos proporcionavam.
–Então é por isso. É por isso que ela te chama de baratinha. Você é gelada, Rin. Seu sangue é frio. A sua consciência, ou sei lá, quem sabe seu coração, não sofre um pouco por isso?
–Sophia. – A chamo pelo seu nome, sabendo que isso a iria incomodar. – Não ponha a culpa em mim por você ser tão fraca. Você não tem moral pra me dizer absolutamente nada. Ao invés de reclamar do que eu faço, porque não se esforça pra ser menos... Hm, como diria a Senhorita Defoko, ‘’lixo’’?
–Mas Rin... – A voz tímida de Miki invade o ambiente, completamente diferente da voz de quando Miki está animada. – Ele... O filhotinho, ele era inocente. Não devíamos fazer isso com gente, ou... seres, inocentes. Não é certo...
–E o que você sabe por certo ou errado, Miki? Escute o que eu digo, não se apegue, por que...
Mordo minha língua, sem vontade de continuar.
Por um momento, ficamos a três lá, completamente caladas e com uma tremenda cara de paisagem, apenas olhando pro nada, esperando que o maldito pátio de treinamento não fosse tão grande e ao mesmo tempo tão vazio.
–Eu só queria saber como foi capaz de fazer isso...
Olho para Miki e respondo naturalmente.
–Gosto mais de gatos.
////
–Está fazendo aquela cara de novo, pato de água doce.
–Miku, essa história de pato já deu. Já se passaram quatro meses, e meus lábios só ficaram daquele jeito por três dias. – Reviro os olhos, colocando minha torre duas casas para o lado. – Cheque. E que cara eu estou supostamente fazendo de novo?
Ela balança a cabeça de um lado a outro com o sorriso, movendo seu bispo e derrubando minha torre. Merda. Eu não tinha visto esse maldito adorador das diagonais ali.
–É ele. — A olho com tédio, empurrando meu rei esbranquiçado no tabuleiro. – Desistiu? Já? Uau.
–Ele quem?
–Seu namoradinho, oras. Está fazendo aquela cara de quando pensa nele. Engraçado, você disse que tinha esquecido esse tal de Len.
–Primeiro, ele nunca foi meu namorado, Hatsune. Segundo, não, eu não penso nele. Terceiro, eu esqueci sim.
Ela riu alto, chamando a atenção de IA e Miki. Como havia dito, mesmo com seus plenos dezessete anos, Miku não deixava de vir encher meu saco todo dia. Não que eu não gostasse, e não que eu gostasse, só não sabia direito como tratar essa garota que se diz mulher, depois de tudo. Estávamos na minha cela, lugar que Miku apelidava de ‘’quarto’’. Como a filha do famoso Primeiro, tinha a permissão de ir e vir para onde quisesse. E não tinha nenhum ‘’coisa’’ que a impedisse de invadir meu cubículo de paredes transparentes para me infortunar todo dia.
Não sabia por que justo eu, porque ela quis ser minha amiga. Não esqueci de como ela, cuidou, ou pelo menos tentou, de mim com seu casaco repleto de corações. Do mesmo jeito que não conseguia esquecer de seus frequentes ataques e perdas de controle quando algo dava errado. Não tinha ideia porque ela escolheu justamente a pirralha que quase matou nas primeiras horas que esteve na sua ‘’casinha’’.
Ela tinha me ensinado xadrez e pôquer nas últimas semanas. Dizia ela que em breve viria me derrotar em todas as partidas de dama também.
Quanto a Kaito, mesmo ele dizendo que eu era responsabilidade dele há três anos atrás, nesta mesma cela, ele parou de falar comigo. Ás vezes passava por aqui, pela madrugada, mas só por vagar os corredores. Não entendia porque essa mudança dramática em seu comportamento, mas imaginava que ele teria as suas razões, e essas razões sinceramente não eram da minha conta.
–Ah, como era mesmo? Era uma fruta... – Ela mordeu os lábios, pensativa. – Oh, sim. Laranjinha. Porque em sã consciência um garoto chamaria uma menina assim?
‘’–Oh Laranjinha. Você não pode atingir os sentimentos de uma pessoa que nunca os teve.
–Laranjinha?
–Sim. É porque você é gorda e redonda como uma.’’
–Eu... – Me censuro mentalmente. – Eu esqueci. Não me interessa mais saber por que ele me chamava assim.
–Own Rin, essa sua mudança do giz de cera para a faca, é mesmo um amor. – Ela ri. – Rin, não tente me enganar, mas também não seja iludida. Sei que você não esqueceu esse seu namoradinho como tanto fala. Você não é esperta o suficiente para perceber que fica sempre citando ele, mesmo sem falar seu nome. Eu sei que, mesmo depois de três anos, mesmo depois dele encontrando outras amiguinhas, ou então, gostando de outras meninas, você ainda é iludida o suficiente para continuar a gostar dele.
–Não, eu não...
–Shh. Não terminei de falar. Querida, eu também sei que você pensa nele, mas nós duas sabemos que ele não pensa em você. Sei que você queria estar com ele do que estar aqui, mas você acha mesmo que ele iria querer estar com você agora? Olhe pra si mesma, Rin. Você não é a mesma de antes, nem se parece com a mesma de antes. Se ele era como você conta, você já não tinha muita chance naquele tempo, imagine hoje. Kaito fez o favor de destruir o seu rosto para acabar com qualquer esperancinha que você possa ter. Já imaginou se ele esqueceu você? Ah sim, já imaginou se por todo esse tempo você teve uma esperança de sair daqui, e ele se esqueceu de você? Hahaha, que coisa trágica seria, não? Ei, vocês não tinham uma promessa ou algo assim, que ele sempre iria te encontrar? Ah... – Ela fez biquinho. – Que peninha...
–Não...
–Oh, sim.
–Não.
–Ah Rin, claro que si...
–Cala a boca, Hatsune. – Elevo a voz. – Eu já disse que não. Eu não sinto o mesmo o que sentia. Eu não sou idiota o quanto era antes. E eu não vou calar a boca enquanto você fala merda. Vai pro Inferno, Hatsune Miku.
–Uau. – Ela bateu poucas palmas. A essa altura, Miki e IA, que descansavam em suas respectivas, não tiravam os olhos da confusão que estava prestes a arrumar com a filha do ‘’todo poderoso’’ daquele lugar. – Parece que alguém ficou ‘’putinha’’, não é mesmo? Tudo isso por culpa do seu namo...
Quando percebi, minha mão já estava ardendo do tapa que meti na cara dela. Droga, é uma merda ser temperamental. A garota sentada na minha frente de cabelos azul turquesa apenas riu com aquilo. Levantou o rosto, com a sua bochecha direita avermelhada, e pôs sua mão ali, tentando esfriar o calor de um tapa muito bem dado, se posso dizer.
–Olha, olha... Adoro esse seu lado impulsivo, Rin.
–Pena que eu não posso dizer o mesmo. – Comento.
–Se tudo isso que me disse é mesmo verdade... Hm... Quem é Len?
Por um momento, realmente considerei se a Hatsune era idiota ou não.
–Len não é ninguém.
–Oh... Entendo. – Ela balança a cabeça com um sorriso sacana. – Pena que eu não acredito em você. Acredite Rin, vai ser para o seu melhor. Eu vou fazer você se esquecer desse garoto de vez. E então, esse Len não vai passar de uma memória esquecida do seu passado. Afinal, passado é passado, e esse menino fez parte dele. E esse? Esse é seu presente e futuro, Rin. E sou eu que faço parte deles.
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Nossos dedos entrelaçados me fazia sentir o quão nervosa ela estava. Conseguia sentir sua mão quente junto da minha e o suor que saía dela. Eu não via razão do porque de tudo isso, mas não me julgava apta da situação para avaliar as reações dela ou não. Agora, não tão baixinha como era antigamente, mas ainda assim razoavelmente pequena, já tinha altura para tentar cutucá-la no ombro ao invés de só puxar seu jaleco.
–Mãe? – Ela se virou para mim. – Porque está tão nervosa?
–Eu não estou nervosa, Rin. – Ela sorriu. – Estou com medo.
Parei de andar assim que dois funcionários passaram por nós. Já não era mistério para ninguém dali que Lily era a minha mãe, e não havia ninguém no mundo que me impediria de a chamar assim. Lily não era minha mãe biológica, mas era a minha mãe. Não percebi, nem vi quando tudo isso começou, mas agora é tarde demais para voltar atrás. E aliás, eu não quero isso. Lembro perfeitamente de quando ela cuidou de mim, e fez tudo ser menos horrível do que era – do que ainda é –. Sabia que era um risco eu ser responsabilidade de tantas pessoas assim, mas ser responsabilidade dela foi o melhor que aconteceu pra mim.
De um jeito lerdo, eu vi o que Lily era pra mim e o que Miriam era pra mim. E então percebi quem era minha verdadeira mãe e quem era mãe de verdade. No inicio, as pessoas daqui não gostaram muito disso, porque achavam que não era certo Lily se misturar com ‘’gente do meu tipo’’, mas então, o pai da Miku, o Primeiro, achou que seria ‘’bom para o meu psicológico’’ ter uma mãe. Eu não decidi do dia para noite escolher uma mulher estranha que trabalha num lugar estranho para ser a minha mãe. Acho que no meu aniversário de nove anos que as coisas realmente começaram a mudar. Lily tinha trazido um cupcake de chocolate para a responsabilidade dela completamente escondida, e quase foi mandada embora quando descobriram.
Pelo menos, naquele dia eu ganhei um bolinho.
Tinha certeza que era muito egoísta, mas não o suficiente para comer algo diferente do mingau que eles nos davam todo dia, sozinha. Mesmo não sendo o maior dos cupcakes, não pude deixar de dividir com IA e Miki. Talvez tenha sido nesse dia que tenhamos prometido ser amigas pra sempre, até esse inferno acabar. Ou simplesmente isso já tenha acontecido antes, só não contamos umas pras outras o que sentíamos de verdade. Mesmo eu sendo grossa ou chata, no final do dia estávamos inventando histórias, quase gritando para que o som passasse pelas paredes, e a história prosseguisse.
Isso até o coisa vir mandar a gente calar a boca e dormir, claro.
–Mãe, você não precisa ter medo de nada. Pelo menos, não por mim.
Tomei um susto que me deixou sem reação quando minha mãe me puxou para um abraço. Mesmo sendo ela, contato humano além de empurrões e tapas não eram tão comuns, e meu instinto defensivo rapidamente me fazia pensar que estavam me enganando.
–Ei Rin, não importa o que façam ou o que digam, trate de se esquecer de quem eles querem que você seja, e não quem você realmente é.
–Como ass...
Dessa vez eu não tomei susto nenhum. Já estava acostumada as pessoas me puxarem para lá e para cá, como se eu fosse uma coisa, e não uma pessoa. Já havia entrado em tantas dessas portas que poderia traçar um mapa na minha cabeça. Bem, pelo menos dessa vez, iria acrescentar mais uma sala nesse meu mapa.
Não tinha ideia de qual ‘’médico’’ tinha me tirado do corredor dessa vez. O novo dessa vez é que Lily pode vir junto. Interessante. Pelo menos dessa vez, as coisas tinham chances de serem ‘’menos piores’’ do que já eram.
As luzes que clareavam aquela sala pareciam mini sóis brancos. Não via a hora que não iria ver mais nada. O chão estava cheio de fios, alguns finos, outros grossos, dependendo de seus resistores de energia. Vários fios se conectavam numa única cadeira, e outros em alguns computadores com monitores exageradamente grandes.
Dei duas boas olhadas naquela cadeira até me lembrar o que aquilo parecia.
–Finalmente vão me executar?
–Rin! – Lily me censura pela pergunta.
Sinceramente, se aquilo não era, parecia demais com uma cadeira elétrica. Só um pouco mais moderna, aparentemente. Tudo aquilo era por mando da Hatsune, ‘’querendo o melhor pra mim’’. E mesmo assim, não via aquilo de outro jeito. Parece que resolveram me matar logo. Dessa vez, acho que nem Lily faz ideia do que está acontecendo, e do que vai acontecer, coisa que me questiono do por que ela foi trazida pra cá junto comigo, só de um jeito mais educado e menos bruto.
Me sentei naquela cadeira depois de um ou dois gritos de uma pessoa bastante estressada. Precisei me remexer algumas vezes, para tentar me acomodar naquele lugar. Aquela cadeira poderia concorrer ao ranking oitenta e um negativo em questão de acomodação. Depois do médico sussurrar algumas coisas no ouvido da minha mãe, ela escondeu a sua preocupação para não me preocupar. Mas isso nunca dava certo, porque Lily fingia muito mal.
–Isso vai doer. – Ela murmurava enquanto puxava algumas tiras de couro para prender minhas mãos nos braços da cadeira. Era por isso que Lily era terrível em fingir. Ela só conseguia me dizer a verdade, mesmo que ela não fosse o que queria ouvir. – Não como a injeção que te dei antes de costurar seu rosto. – Ela prendeu a mão esquerda. – É como se eles quisessem apagar uma parte do seu cérebro.
–Por quê? – Murmuro de volta. – Mas isso não vai me matar?
–O que você fez pra Hatsune, Rin? Quantas vezes eu preciso te dizer que isso um dia ainda vai te...
O médico gritou por Lily impaciente.
Mordi meus lábios á medida que ela ia se afastando de mim. Testei o quanto minhas mãos estavam presas as puxando, e pelo visto, minha mãe prendeu essas coisas irritantemente direito. Soltei um suspiro insatisfeito quando as coisas começaram a apitar, como um trem prestes a partir, ou um bulhe anunciando que o chá está para ficar pronto.
Não precisava ser muito esperta para saber que aquilo era só o anúncio do início.
Haviam coisas presas no meu peito, exatamente como na última vez em que me arrastaram para fazer o eletrocardiograma. Já agora, me sentia numa visita de um neurologista louco, com vários fios presos perto do meu cabelo, ficando na minha cabeça, quase como as presilhas mais estranhas que já havia usado na minha vida.
Torci o nariz quando escutei um estalo vindo de dentro da minha cabeça. Depois fechei os olhos pela dor que veio logo em seguida. O barulho era de energia cortando o ar, e por algum motivo isso me arrepiava. Mordi a língua, para não gritar algo que Lily não gostasse. Que merda era aquela, afinal? Era como se a dor visse de fora, mas se propagasse por dentro. Eu já odiava ter dor de cabeça, mas aquilo era...
...Diferente.
O objetivo era me fazer esquecer dele.
‘’E então, esse Len não vai passar de uma memória esquecida do seu passado.’’
Se ele faz parte do meu passado, porque ela quer o tirar de mim?
‘’Acredite Rin, vai ser para o seu melhor.’’
Sou eu quem decide isso ou não. Esse passado pertence a mim, e não a ela. Faz parte de mim e não a ela. Eu não ligo se ela não concorda.
Ela não pode apagar meu melhor amigo.
Meu primeiro amigo.
‘’Eu vou fazer você se esquecer desse garoto de vez.’’
...E muito menos eu.
Deixei meu corpo se amolecer pelas últimas dores. Entendia que aquilo era pra esquecer, mas eu só conseguia me lembrar cada vez mais de alguém que tentei esquecer.
‘’–Eu tenho muitos colegas. Não muitos amigos. E depois de um tempo, eles se afastam de mim. Ainda mais agora que eles me viram indo de guarda-chuva com você.
–Estou te causando muitos problemas.
–Não.
–Não foi uma pergunta.
–Pra mim tanto faz. – Disse. – É melhor assim.’’
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