Kaos - O Encontro Com Eris
9 O Fim de Nossa História
Notas iniciais
– Eu preciso do Pérola para salvar o meu pai — disse Will, como se aquilo fosse amenizar sua traição. — Foi a única razão para eu vir nessa aventura.
– Eu sabia — eu disse baixinho.
– Por que não me contou seus planos? — disse Elizabeth nervosa já em liberdade.
– Esse era o meu fardo.
– Ele precisa do Pérola. O Capitão Turner precisa do Pérola. Você, Elizabeth, se sentiu culpada. Barbosa e sua Corte da Irmandade. Só uma pessoa veio me salvar porque sentiu a minha falta, estou certo? Ou veio só para conversar com a de...
– Sim está certo — eu disse cortando-o. Não queria que ninguém soubesse que conversei com Eris, a deusa do caos. — Eu fui a única que vim porque queria mesmo te salvar.
Olhamos para os lados e eu realmente era a única, com exceção do anão , do careca, do olho de vidro e até do macaco. Dei uma risadinha e fiquei decepcionada com os milhares de traidores com quem eu estava convivendo todo esse tempo.
– Se puderem soltar a dama... vamos nos reunir desse lado aqui — ele disse para os chineses que nos seguravam. Mas então Sao Feng o pegou pela nuca.
– Lamento Jack, mas há um velho amigo que quer vê-lo primeiro.
– Eu não sei se sobrevivo a outra visita a velhos amigos — disse Jack com um sorrisinho.
– Sua chance de descobrir — ele então mostrou um navio ao longe. Pelas velas e o jeitinho, notei logo que era um navio das companhias orientais. — A sim, é claro, a senhorita irá com você. Tem uma pessoa que deseja muito revê-la. Acho que está com... saudades — ele disse rindo e eu ergui a cabeça e respirei fundo.
Jack e eu fomos levados ao outro navio.
– Kaos, independente do que acontecer, nós estamos juntos nessa, okay?
– Okay — eu respondi. — Espero mesmo que você não me traia, como os outros fizeram.
– Eu também estou esperando o mesmo de você.
Nos olhamos por um tempo e então dois guardas com vestimentas de Port Royal o pegaram.
– Gosto de você pra caramba, não se esqueça — ele disse enquanto era levado e eu fui levada em seguida.
– Eu também — eu disse rapidamente, ele olhou pra trás e nós sorrimos para o outro. Os guardas seguravam meus braços com força, o que era quase desnecessário. E então fomos jogados dentro da cabine do Capitão com as mãos livres. Jack foi ogado primeiro e eu fui jogada em cima dele. Ficamos praticamente abraçados enquanto os guardas fechavam as portas atrás de nós.
– Curioso — disse uma voz que eu não conhecia e nós dois nos viramos, parando de abraçar o outro mas ainda próximos. — Seus amigos parecem bem desesperados, Jack — disse o homem de peruca branca e vestimenta de soldado de Port Royal. — Talvez não acreditem mais que uma reunião de piratas arruaceiros derrote o Holandês Voador — Jack então começou a mexer nas coisas da sala, procurando por preciosidades. — E desespero leva à traição. Mas eu e você não estranhamos traições, não é? — ele então finalmente se virou. — Não está aqui Jack.
– O quê não está aqui? — ele perguntou se virando para o homem que eu ainda não sabia o nome.
– O coração de Davy Jones — foi então que ele olhou pra mim. — Oh, que indelicadeza a minha, não é mesmo, senhorita? — ele me olhou de cima a baixo. — Você deve ser a ratinha que viveu mentindo em Port Royal. A famosa piratinha escondida — Olhei para ele com raiva, como ousa falar comigo daquele jeito. — tem uma pessoa ansiosa para te ver, ele ficará tão feliz — ele sorriu. — Guardas! — ele gritou e dois guardas apareceram na porta. — Levem-na para o calabouço — os guardas pegaram meus braços.
– Isso é mesmo necessário? Não se pode resolver aqui como pessoas civilizadas? — Jack perguntou com um sorrisinho.
O homem, que não me disse seu nome, olhou para os guardas e fez um sinal para que me levassem. Fui levada então para o calabouço. Colocada dentro de uma sela. Aguardei até a pessoa vir e ali estava ele, se achando mais poderoso do que eu. Ele fechou a porta e ficou do lado de fora da sela. Eu comecei a rir.
– Ora, ora, ora, Alex Bench, quanto tempo — eu disse sorrindo.
– Kaos... muito tempo mesmo, não é — ele disse se aproximando de uma mesa cheia de armas pontiagudas.
– O que vai fazer? Me matar? — eu disse me divertindo.
– Não. Te matar seria rápido e fácil demais...
– Vai me torturar? — eu dei uma gargalhada. — Quanta perda de tempo — eu disse de maneira sexy.
– Você se acha muito esperta, não é mesmo Kaos?
– Não. Eu não sou muito esperta, eu sou incrível — ele gargalhou e se aproximou da sela, enquanto eu me afastei para o fundo. — Sabe Alex, eu mudei muito desde a última vez que me viu — eu girei a minha mão, trancando a porta de acesso ao calabouço.
– Eu notei, se tornou mais mendiga ainda, mais podre...
Ri mais alto ainda.
– Não querido Bench. Você se engana — olhei nos olhos dele e senti que meus cabelos começaram a se levantar como se estivesse na água, meus cabelos dançavam no ar como os de Eris e eu adorava isso. Pude sentir um pouco de medo nele. Sorri, girei a minha mão e abri a porta da minha sela. — Entre querido Alex — ele se assustou.
– Você virou um demônio do mar. Não era de se esperar menos — ele disse com nojo e eu gargalhei ao sentir o seu medo e o quanto ele tentava disfarçá-lo.
– Eu? Demônio? Não, não... Jones é um demônio do mar, mas eu? Bom... eu sou Kaos, filha de Simbad, acolhida por Eris e mãe do Kraken.
– O Kraken, está morto.
– Eu sei que você o matou, mas eu o trouxe de volta e agora ele obedece as minhas ordens — eu disse me aproximando de Bench. Ele jogou a faca contra meu peito e eu coloquei minha mão na frente, parando a faca no ar. — Interessante, não é mesmo? — eu fiquei olhando para a faca e então Bench correu para a porta. Comecei a girar a faca. — Não adianta Alex, eu a tranquei e ninguém irá nos ouvir também — olhei para ele como uma criança olha quando está fazendo uma travessura e ele finalmente expôs o medo. Apontei o dedo para ele e a faca voou em seu chapéu de Capitão, fincando-o na parede. Ele saiu correndo para a mesa de facas. — Alex, sabe porquê eu nunca matei você enquanto dormia? Porque eu sabia que Constance iria sofrer muito pela perda e também porque ela podia me denunciar para alguém.
– Constance? Constance sabia...?
– Ah sim, ela sabia. E por causa dela eu não matei você. A vontade de te matar é tão grande Alex.
– Se você me matar, eles saberão que foi você e vão dizer à Constance.
– E você acha mesmo que eu me importo? Que ela saiba que você morreu nas mãos da pequena, doce e juvenil Kaos, a garotinha que você alimentou, deu abrigo, roupa, cama quentinha e que sua esposa encheu de amor. — Bench ficou com raiva e lançou uma faca atrás da outra contra mim e eu parei todas no ar. — Uau... imagina se todas elas voltarem na sua direção Alex... — eu as girei para que apontassem para ele e ele engoliu em seco. — Ah! Pelos deuses, isso é tão divertido — comecei a rir e lancei as facas contra ele, ele se abaixou para que não o atingisse, mas eu fiz com que elas se desviassem. — Isso é tão legal, não é Alex? Ter a morte pertinho dos seus olhos e ver a filha do homem que você matou te torturando — eu estava muito nervosa e a cela começou a vibrar e dobrar. — Mas, como você disse, simplesmente morrer é fácil demais, não é? Afinal, você não deu esse privilégio ao meu pai — Comecei a levantar uma bala de canhão e a trazê-la para perto dele.
– Kaos... Kaos, o que você vai fazer? — ele perguntou em pânico, quase chorando.
– Fazer você sentir a mesma dor que o meu pai sentiu — eu disse deixando a bala de canhão cair em queda livre sobre as pernas dele e ele deu um grito de dor gigantesco. Levantei a bala e a deixei cair de novo, fiz isso umas quatro vezes e ele estava chorando de dor. — É gostoso não é? Que dor maravilhosa de se sentir, não é mesmo? — enquanto eu ia falando, meu ódio crescia e as paredes do navio começavam a rachar. — Agora imagine como eu me senti Alex! Eu, uma criança de oito anos, tentei segurar um homem adulto na proa, com as costelas e os braços doendo enquanto ele sofria por não sentir suas pernas! — o navio rachava a cada tom em que aumentava a minha voz. Começaram a bater na porta.
– Eles vão matar você — ele disse sofrendo de dor e eu ri.
– Me matar? — eu ri ainda mais. — Me matar... você é bem engraçado Alex, mas sabe o que vai acontecer? Ninguém vai me matar e sabe porquê? Porque o chão está acabando pra você — ergui minhas mãos e comecei a rachar o chão perto de Bench.
– Não, não, não! — ele tentava se segurar em alguma coisa, mas eu fui afastando tudo dele. Ele foi caindo cada vez mais. — Não, não Kaos. Me desculpe.
– Desculpe? — eu ri histericamente. — Desculpa pelo quê? Por ter me deixando órfã e ter destruído o meu lar?
– Eu cuidei de você! — suas pernas já estavam na água.
– Cuidou porque não sabia que eu era uma pirata. Se você soubesse que eu era uma pirata Alex, o que teria feito aquele dia? — eu o olhei nos olhos enquanto ele entrava na água.
– Teria atravessado uma espada no seu coração.
Eu sorri docemente para ele. Eu sabia que ele não tinha pena de mim, nenhuma. Então ele caiu no mar e eu entrei na água, fechando o fundo do navio para que ele não afundasse. Bench tentava nadar para a superfície e eu fui me abaixando com ele para o mar.
– Legal essa sensação, não é? — eu disse para ele debaixo d'água e ele arregalou os olhos pra mim. — Sim, eu falo debaixo d'água, eu não estava brincando quando disse que era acolhida de Eris. Foi isso que meu pai passou Alex, enquanto via a sua garotinha gritando por ele na parte de cima do navio, com as mãozinhas esticadas. Ele foi caindo, caindo, até não conseguir respirar mais — Alex começou a fechar os olhos, ele estava desmaiando por causa da pressão. Toquei em seu rosto, pegando suas bochechas e fazendo ele olhar no fundo dos meus olhos. — Você não vai desmaiar Alex, quero que você sinta a água entrar em seus pulmões e estourá-los, até que seu coração exploda. — Os olhos dele se arregalaram ainda mais. Ele abriu a boca para me xingar e eu o soltei, deixando ele seguir sozinho para o fundo do mar.
Esse era o fim de nossa história Alex Bench. Me desculpe Constance, mas o seu marido é o pior ser que conheci em toda a minha vida e meu desejo de matá-lo é maior do que meu amor por você. Chegando na superfície, percebi que o navio estava em guerra. Subi com certa facilidade no navio das companhias e dei de cara com Jack saindo tranquilamente da cabine.
– Ah, você está aí. Fica mais fácil não precisar descer pra te salvar — ele disse se aproximando de mim.
– Como chegou a esse ponto? — olhei para a guerra.
– Não é importante — ele disse me beijando e depois parou e me olhou. — Por que está toda molhada? Achei que estivesse no calabouço.
– Não é importante — dei de ombros, o peguei pela nuca, o beijei e sorri determinada. Ele sorriu de volta da mesma maneira e depois me puxou para fugir de um tiro de canhão.
– Vem — ele me chamou para acompanhá-lo e nós subimos as escadas que levavam ao timão.
Jack amarrou uma corda a um canhão e atravessou essa corda onde se segura a vela no mastil. Era um plano simples, ele acendia o canhão, ele disparava, a corda seria puxada e nós iríamos para o navio ao lado.
– Vocês são loucos — disse o homem que eu ainda não sei o nome.
– Agradeça por isso, porque senão nunca daria certo — disse Jack.
– Ah e antes que eu me vá, qual é o seu nome? — perguntei.
– Sou Lorde Becket, das...
– Ah, sim, sim... já falaram de você no navio, não precisa explicar mais. Sou a Capitã Kaos, aliás, prazer em conhecê-lo.
Jack acendeu o canhão, o canhão disparou, ele largou o acendedor e me pegou pela cintura. A corda nos puxou mais do que esperávamos e nós dois voamos gritando em direção ao Pérola e aterrizamos bem na pontinha. Eu passei direto, mas Jack me segurou pela ponta da blusa e me puxou de volta, dando um encontrão de frente. Ele sorriu.
– Você ia mesmo me buscar no calabouço? — perguntei.
– Claro. Deixarei a única pessoa em quem eu posso mesmo confiar, para trás?
Nós olhamos um para o outro e sorrimos.
– Droga, eu gosto de você pra caramba — começamos a rir e então a tripulação nos olhava.
– E sem deixar cair uma gota de rum! — disse Jack convencido.
Barbosa saiu com raiva e nós dois rimos da situação.
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