Notas iniciais
Após a fuga um tanto facilitada por Comodoro, Jack, Kaos e Will vão em direção à Tortuga para tratar de negócios.

– Ótimo! Comodoro está vindo pra cá — eu disse nervosa.

– Acalme-se querida, tudo dará certo — disse Jack mexendo no timão do navio.

– O que você está fazendo? — fiquei curiosa.

– Estou estragando o controle do timão para que eles não venham atrás da gente.

Prestei atenção ao que Jack fazia, achei aquilo incrível, meu pai nunca havia me ensinado a estragar navios e sim concertá-los, mas fiquei encantada no quanto aquilo foi inteligente. Então, Jack, Will e eu fomos correndo para a proa do navio e ficamos do lado de fora segurando em cordas. Assim que Comodoro chegou com o Interceptor, todos os tripulantes entraram no navio a comando dele, deixando o Interceptor sozinho. Ri mentalmente da tamanha estupidez que ele fizera. Então Jack enrolou o braço na corda para se pendurar até o outro navio. Comecei a enrolar meu braço esquerdo e fiquei olhando pra ele. Enrolar aquela corda me lembrava a noite em que meu pai havia morrido, eu tinha feito aquilo para segurar a ele e a mim.

– Kay — Will me chamou com um suspiro.

Olhei para ele, acordando de minhas lembranças daquela noite, era como se eu pudesse sentir os pingos da chuva deixando a corda ainda mais escorregadia, exigindo mais de minha força. Fiz um sinal para que dessem partida no navio que eu iria logo em seguida. O navio começou a se mover, respirei fundo, agarrei firme a corda e me joguei para o outro navio. Assim que caí dentro dele, senti meu braço doer muito, toquei nele, mas fiz de tudo para não demonstrar que havia machucado. Fiquei olhando para o meu braço, a dor estava passando e então fui despertada de minhas lembranças quando a rampa do Interceptor caiu no mar. Pude ver Comodoro furioso.

– Obrigado pelo excelente navio Comodoro! — gritou Jack acenando com o chapéu. — Não teríamos conseguido sem você!

Jack começou a rir e continuou a guiar o navio. Eu sorri ao ver que finalmente estava saindo de Port Royal e voltando para casa. Meu coração se encheu de alegria ao ver que Port Royal ficava cada vez mais distante. Olhei para além da proa e pude sentir a brisa do mar. Fui até a ponta e coloquei as mãos na proa devagar, de repente veio em minha mente a noite em que segurei meu pai, tentando salvá-lo. Tirei a mão da proa rapidamente, fechei os olhos e respirei fundo. Eu não podia deixar essas memórias me afetarem, eu não podia ter um colapso sempre que me apoiasse na proa. Então coloquei minhas mãos de novo e me apoiei, olhando para a água do mar e então a imagem na minha cabeça foi ainda pior, foi meu pai, segurando a minha mão e olhando nos meus olhos, a chuva caía em seu rosto e água passava lhe dando uma forte pancada. Então ele se soltou da minha mão, eu não consegui gritar, não consegui. Então eu fechei os olhos e respirei fundo, quando abri de novo, eu já não via meu pai, apenas a água batendo na madeira do navio.

– Eu voltei pra casa pai — sorri olhado para a água e senti meus olhos ficarem marejados.

Então de repente ouvi Will gritar, olhei para trás e ele estava pendurado no local das velas enroladas, se ele não conseguisse se segurar, ele poderia cair no mar. Corri até a popa, onde ambos estavam.

– O que está acontecendo? — perguntei.

– Seu amigo Turner acha que não pode seguir ordens de um pirata — disse Jack olhando para Will.

– Will, deixe de ser ridículo, você também é um pirata.

– Não! — ele respondeu com dificuldade para se manter ali.

– Está no seu sangue jovem Turner, não tem como escapar. Como eu te disse, você pode escolher ser largado aqui e nunca salvar sua amada donzela, ou aceitar as ordens de um pirata que te levará onde ela está.

Will olhou para Jack com raiva.

– Tudo bem — ele respondeu de má vontade.

– Ok — disse Jack mexendo o timão e fazendo com que Will voltasse para dentro do navio.

– Então... para onde vamos? — perguntou Will.

– Para Tortuga — Jack sorriu olhando para o horizonte.

– Tortuga? — perguntei.

– Nunca ouviu falar, querida? — balancei a cabeça negativamente. — Seu pai era um bom pai, fez muito bem em não te apresentar Tortuga.

Fiquei sem entender o motivo, o que me deixou ainda com mais vontade de conhecer Tortuga, sim eu sou bem curiosa.

Um tempo depois chegamos em Tortuga, descemos até um bote e Jack remou até o porto. Quando olhei bem para Tortuga, tive a certeza porquê meu pai nunca me trouxera aqui. Era um lugar cheio de piratas nojentos e beberrões, haviam alguns bonitos até, mas a maioria estava bêbado e todas as mulheres que eu via eram prostitutas. Davam risadas exageradas e estavam com os seios praticamente de fora. Jack andava na frente e eu e Will logo atrás, sempre que passávamos perto de algum pirata bêbado eu me afastava e fazia cara de nojo, era inevitável. Foi então que vi uma loja de roupas de pirata em um canto e fiquei bem interessada, mas não quis falar com eles, pois me achariam muito menininha, o que na verdade, eu só queria roupas de pirata e não esse vestido de dama que me deram em Port Royal.

Chegamos então em um local que era um chiqueiro, fedia muito e um homem dormia entre os porcos. Jack jogou água no homem e ele acordou furioso, mas assim que viu Jack, sua expressão mudou.

– Jack! O que te trás aqui? — ele disse animado.

– Uma nova aventura meu amigo — ele disse animado.

– Nossa, não se pode acordar um homem desse jeito, sabia?

– Claro que pode, quando se precisa falar de um assunto muito importante.

Eles sorriram um para o outro e deram uma risada. Will então jogou outro balde d'água no homem.

– Eu já estou acordado! — ele reclamou.

– Mas ainda fede — disse Will e nós concordamos.

– E quem é a dama? Acredito que nunca a vi por aqui antes — disse o homem com um sorriso estranho.

– Permita-me apresentar meus companheiros — disse Jack. — Esse é Will Turner e essa é a Capitã Kaos, filha de Simbad.

– Um Turner e a descendência de Simbad. Está em ótima companhia Capitão Jack — ele riu. — Sou o Sr. Gibbs — ele fez uma reverência.

– Prazer em conhecê-lo Sr. Gibbs — fiz uma reverência rápida com a cabeça.

Então eles foram em direção a um bar, antes que entrassem eu falei com Will:

– Já volto.

– Espera, onde você vai?

– Vou ficar bem — respondi com um sorriso.

– Ei, ei, ei, onde vai sozinha por aqui, querida? — perguntou Jack.

– Eu vou ficar bem — respondi impaciente.

– Escute, as mulheres aqui não são bem vistas e está cheio de piratas bêbados por aí e...

– Eu sei me cuidar Capitão Jack Sparrow. Não sou criança.

– Mas você viveu muitos anos sobre cuidados e...

– Eu vou ficar bem. Já volto, não vou demorar.

Eles custaram a confiar em mim mas finalmente me deixaram ir sozinha. Fui caminhando em direção à loja de roupas que tinha visto, muitos piratas bêbados me olhavam como se me despissem com o olhar e eu apenas ignorava e passava de cabeça erguida. Até que um dele me pegou pelo braço.

– Cadê os modos quando um Capitão passa...

Pisei no pé dele com força, lhe dei uma cotovelada no estômago, soquei seu queixo e o joguei na parede colocando meu braço em sua garganta e com a mão direita apontando minha espada para a garganta dele.

– Opa... que donzela nervosa — ele começou a rir.

– Sou uma pirata e não uma donzela. Na verdade sou Capitã e você devia me respeitar seu monte de merda. Da próxima vez a espada vai continuar e você nunca mais olhará para mulher nenhuma como me olhou.

Ele ficou calado e eu continuei meu caminho para a loja de roupas. Entrei na loja e analisei as roupas.

– Ora, vejam só. Uma mocinha perdida aqui em Tortuga — disse o vendedor.

– Não estou perdida. Sou a Capitã Kaos e gostaria de comprar algumas roupas. Você só tem vestidos femininos desse jeito? — eram como os das prostitutas.

– Pode ficar sem roupa se quiser.

– Escuta aqui, não sou prostituta, sou uma Capitã e você me respeite.

O vendedor não pareceu me levar a sério, mas continuei minhas compras, achei uma camisola bonita, um vestido simples com um corpete preto maravilhoso, uma capa de manga comprida e botas de cano bem longo que eram femininas.

– Vou querer essas peças, quanto fica? — perguntei.

– Pra você só uma rapidinha ali atrás é o suficiente.

Dei uma risada de quem não estava acreditando no que acabava de ouvir.

– Escute aqui seu vendedor nojento, eu já te disse que sou uma pirata, uma Capitã. Sou filha de Simbad, o pirata que foi até o fim do mundo, na terra do caos. Gostaria de mais respeito e que o senhor me dissesse quanto devo pagar nessas peças.

– Já dei o meu preço docinho — ele apoiou o rosto na mão e ficou me olhando com um olhar pervertido.

Apontei minha espada em direção aos olhos dele.

– Me diga o preço e te deixo com os dois olhos intactos, que tal assim?

Ele olhou para minha espada e deu um sorriso.

– Dez xelins — ele respondeu.

Sem tirar os olhos dele, peguei dez xelins e os espalhei no balcão.

– Aí estão seus xelins.

Peguei minhas roupas e saí da loja. Era repugnante o quanto esses piratas de Tortuga são pervertidos. Então fui até um local onde saíam muitas mulheres, provavelmente um prostíbulo, mas não me importei, poderia trocar de roupa a vontade ali. Entrei em um banheiro nojento e o tranquei. Cortei a camisola para que ficasse mais curta e deixei seus ombros bem caídos, arranquei o corpete do vestido e o coloquei para que ficasse como se fosse uma blusa e uma saia. Calcei as botas que eram as coisas mais lindas que já vi, peguei a jaqueta e arranquei as mangas, transformando-a em uma capa maravilhosa que ia até um pouco abaixo dos meus joelhos. Coloquei o cinto de volta, encaixei minha espada e pendurei a bússola em outro canto. Soltei melhor meus cabelos e agora sim eu estava parecendo uma pirata, me sentia bem melhor.

Saí do banheiro deixando os restos e minhas antigas roupas lá. Saí ainda mais orgulhosa do que já estava e fui caminhando em direção ao bar onde Will, Jack e Gibbs estavam. Não fui atacada de novo porque eu encarava os piratas bêbados como se fosse matá-los e eles desviavam o olhar. Entrei no bar que estava tendo uma briga entre bêbados e vi uma mulher suada, suja e gorda rindo para cima de Will, seus peitos quase pulavam para fora e parecia que cerveja saía da sua boca quanto mais ela se aproximava.

Cheguei perto de Will abraçando-o de lado.

– Vai procurar outro querida, esse aqui é meu — eu disse passando os dedos no rosto de Will.

Will abraçou minha cintura e me olhou nos olhos.

– Ela tem razão — ele disse.

A moça saiu meio de mal humor e eu e ele rimos. Paramos de nos abraçar e ele me olhou de cima a baixo.

– O que você fez?

– Troquei de roupa — respondi com um sorriso orgulhoso. — Gostou?

– Ficou muito bom — ele sorriu de volta.

– Onde estão Jack e Gibbs? — perguntei.

– Sentados ali. Eles acham que eu não estou escutando muito bem e estão discutindo como se aproximar do Pérola Negra.

– Pérola Negra? Mas é impossível, eles são imortais — eu disse.

Will olhou para Jack e Gibbs e depois balançou a cabeça.

– Parece que não para eles.

Olhei para os dois e fiquei curiosa para saber o que estavam tramando.