Kaos - A Filha de Simbad
1 Port Royal
- Paaaaaaaaaaaai! — eu gritava.
Havia uma tempestade muito forte, no qual meus cabelos eram jogados para todas as direções e estavam ensopados. O mar entrava furioso em nosso navio e era como um tapa na cara. Eu amarrei meu braço em uma corda que estava presa ao mastro principal para que eu não caísse no mar e para salvar o meu pai. Eu o segurava próximo à proa e apoiava-o com meu tórax, o que estava doendo muito já que cada vez mais o corpo do meu pai ficava mais pesado.
- Kay, você tem me soltar — meu pai dizia.
- Não! Não pai, eu não posso, não posso perder você.
Eu chorava muito, eu não podia perder o meu pai, perdê-lo seria uma dor maior do que a que eu estava sentindo em meu tórax naquele momento.
- Eu já perdi a mamãe, não posso perder você!
- Kay, eu não sinto as minhas pernas, se eu viver, serei um encosto pra você! Para todo o navio!
- Não pai, nunca será, nunca.
- Você tem que ser forte querida, você vai conseguir se sair bem. Você é minha filha.
- Pai, por favor, não!
- Eu te amo Kay.
Eu não tinha certeza se vi lágrimas nos olhos dele ou se era a água do mar ou da chuva. Uma pancada de água do mar nos atingiu novamente e eu senti as mãos do meu pai escorregando.
- Não! Não! Não!
Eu tentei pegar a mão dele mas ele parecia não querer que eu pegasse.
- Desculpe, querida. Você tem que viver.
- Não, pai, não, por favor!
E então a mão dele escorregou da minha e ele caiu no mar agressivo.
- Nãããããããããããããão!!! — gritei tentando alcançá-lo.
Soltei minha mão da corda e Carl, o tripulante do navio que vivia sem camisa, me pegou pela cintura e me afastou da proa.
- Não! Paaaaaaai! Paaaaaai!
- Calma Key, calma.
Comecei a chorar muito e não parava de olhar para a proa, na esperança de que meu pai voltaria, afinal, ele era meu pai, ele sempre dava um jeito. A água nos atacou novamente e eu mal a senti, me anestesiei de tudo, prestava atenção apenas na proa.
- Kay, eles estão próximos, eles vão nos matar. Kay! Me escuta! — Então eu decidi escutá-lo. — Você tem que fingir que estou te atacando, ok?
- Mas eles vão matar você — Olhei para Carl com os olhos inchados de tanto chorar.
- Não vou não, eu dou um jeito. Mas você precisa se salvar. Promete que vai se cuidar?
Lembrei do meu pai dizendo que eu tinha que viver, do sacrifício que ele fizera para que eu me salvasse e então eu balancei a cabeça em sinal de que entendia.
- Então grite por socorro — disse Carl.
Olhei uma última vez para a proa e então comecei a gritar.
- Socoooooorro! Socorrooooo! Alguém me ajude, por favooor! — eu não parava de olhar para a proa.
Assim que os soldados idiotas chegaram com suas armas, Carl me jogou no meio deles e saiu correndo. Eu queria olhar para onde ele fora, mas não consegui, se eu olhasse mais uma vez para aquela proa, eu iria pular para encontrar o meu pai, o que seria muita idiotice. Um soldado me segurou quando a água entrou furiosa no navio.
- Você está bem? — ele perguntou.
- Não — respondi e chorei ainda mais. Eu queria esfaquear cada um deles, mas aquele não era o momento certo.
- Levem-na ao Capitão! — ele gritou para outros soldados.
Um soldado me pegou no colo e me levou. Os outros tripulantes não viram, os que viram eu tentei fazer o sinal de que estava tudo bem e que era parte do plano, assim como meu pai me ensinara. Cocei o nariz duas vezes e fiz um sinal de positivo discreto com a cabeça. Esse era o sinal.
Fui levada até a cabine do Capitão do navio que nos atacara. Me sentaram em uma cadeira e eu comecei a chorar lembrando do meu pai caindo na água. Eu estava sozinha na sala e olhava tudo ao redor. Cheio de instrumentos bonitinhos e alguns eram de ouro, pensei em roubar algum deles, mas depois me lembrei de que não tinha para onde levá-los. Saí da cadeira e me encostei numa parte do navio, eu tinha um bom equilíbrio em navios nas tempestades. Eu nasci durante uma.
O Capitão entrou de repente na cabine, me procurou por um tempo e me viu sentada em um canto no chão.
- Olá garotinha, está tudo bem agora, a guerra acabou, o barco foi incendiado.
Comecei a chorar. O querido navio do meu pai fora incendiado, o navio onde eu havia nascido, onde meus pais se apaixonaram, onde toda a minha história de vida estava. Isso também significava que os tripulantes estavam mortos ou, com sorte, haviam conseguido escapar.
- Ei, está tudo bem. Vai ficar tudo bem.
O Capitão tentou fazer carinho em minha cabeça, mas eu bati em sua mão, afastando-a.
- Desculpe, eles te maltratavam?
Eu não quis responder, eles não me maltratavam, eles me amavam e ele havia destruído todo o meu lar.
- Você vai ficar bem, criança.
Ele sorriu pra mim e eu não consegui sorrir de volta, eu queria o meu pai vivo, só isso.
- Seus pais estavam no navio?
- Sim — respondi. — Mas eles estão mortos — eu disse.
Era a única verdade que me ajudaria a sobreviver naquele momento e isso me deixou com uma raiva imensa deles.
Adormeci naquele canto de chão mesmo e nós descemos em um pedaço de terra chamado Port Royal. Todos celebravam o retorno daquelas pessoas terríveis, um homem fazia um discurso sobre ter destruído o navio pirata, comecei a chorar, ele destruíra a minha casa e todas as pessoas estavam celebrando, o que era terrível.
Fui com o Capitão até a casa dele. Eu estava enrolada em um cobertor e meus cabelos estavam bagunçados e eu devia estar meio suja. Ele pediu que eu esperasse na sala e então eu os ouvi conversar.
- Querida, encontramos uma criança no navio pirata.
- Oh meu Deus, a criança está bem?
- Está, nós a salvamos, mas ela perdeu os pais.
- Oh não.
- Pensei que... poderíamos ficar com ela, já que não conseguimos ter filhos.
- Posso conhecê-la?
- Claro.
Eles então apareceram na sala. Ela fez uma cara de pena quando me viu, eu devia estar criticamente suja e desarrumada para ela quase lacrimejar.
- Oi querida, quantos anos você tem? — ela me perguntou de maneira doce.
- Oito — respondi mais com pena dela do que de mim.
- E qual é o seu nome?
- Kaos — respondi.
- Kaos? É um nome bem diferente.
- Meu pai que escolheu.
- Ah sim, claro — ela pareceu ficar meio sem jeito.
- Mas pode me chamar de Kay.
- Kay — ela sorriu para mim. — Gostaria de morar conosco Kay?
- Não — respondi. — Não quero outros pais, quero os meus.
- Não vamos substituir seus pais querida, vamos só cuidar de você, o que acha?
Olhei para o Capitão, ele era mal, como poderia viver com ele?
- Sou o Capitão Bench, Alex Bench. E essa é a minha esposa Constance Bench. Não vamos machucar você como aqueles...
- Constance — o cortei e olhei para ela.
Ela me olhou esperando que eu continuasse, mas eu não queria dizer para ela cuidar de mim, não queria dizer que eu estava morrendo de fome e cansada e minhas costelas doíam.
- Venha querida, vou te dar um banho e roupas quentinhas. E também algo para comer.
Uau, ela era boa nisso. Ela esticou a mão para mim e eu entreguei minha mão para ela, ela me guiou até uma banheira com água bem quentinha e eu gostei muito, mas não queria demonstrar que gostei. Então eu comecei a chorar, lembrando que meu pai estava naquela água fria e provavelmente deve ter sido devorado por tubarões enquanto eu estava naquela água quentinha e alguém cuidava de mim.
- O que foi querida? — Constance perguntou.
- Eu queria a minha mãe — eu disse.
- Por que não me fala sobre ela? Quem sabe você se sente melhor?
- Ela era uma princesa — comecei a dizer depois de alguns segundos.
- Para ser casada, ela se tornou uma rainha, não?
- Não, ela desistiu de tudo para ficar com meu pai.
- Mas então, você tem sangue real, de certa forma.
- Acho que sim — respondi olhando para a água.
- Suas roupas, foram feitas pela sua mãe?
- Sim.
- Então... você é uma pirata?
Olhei para Constance. O que essa mulher tinha para saber tantas coisas?
- Bom, suas roupas não são vestidos e parecem panos de roupas de pirata. E você disse que sua mãe largou tudo, ela fugiu com um pirata, não foi?
- Vai me dedurar? — perguntei séria.
- Claro que não. Você só tem oito anos, não teve escolha.
- Obrigada.
- Por nada.
Constance sorriu e continuou a me lavar, sorri de volta pra ela. Talvez aceitar ser cuidada por Constance não seria uma má ideia.
- Mas não vou chamá-la de mãe — respondi de imediato.
- Tudo bem Kay, não precisa.
Constance Bench... você é estranha.
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