Kaltblütig

5 Bazar de antiguidades


Marinês estava sentada em uma cadeira na barraca em que Bianca estava vendendo seus objetos antigos. Uma mosca começou a perturbá-la e ela sentiu uma vontade incontrolável de matá-la.

– Mosquitos malditos! – exclamou ela, tentando se livrar da mosca. – Eu os odeio!

– Sempre alguma coisa, não é? – perguntou Bianca, ainda irritada.

Uma moça caminhava pelo corredor e parou para apreciar um dos objetos expostos na mesa de Bianca.

– Eu posso ajudá-la? – perguntou Bianca, o tom grosso e sem humor.

A mulher sorriu e sacudiu a cabeça como um não.

– Muito obrigada por não comprar nada! – disse Bianca.

A mulher retirou-se dali um pouco assustada, e Marinês repreendeu a filha:

– Bi, querida, os clientes não tem culpa que Fernando lhe deu um cano! Procure ficar calma! – ela acariciou os ombros da filha.

E neste exato momento, algumas barracas à frente, Marinês o viu. Fernando estava ali, abraçado a outra garota, olhando cada barraca do bazar de antiguidades.

Fátima olhava uma barraca de ovo Franklin Mint atentamente. Procurava por um que pudesse substituir o que Lourdes supostamente quebrara. Encontrou um ovo de aparência idêntica ao que ela tinha, porém, havia um arranhão.

– Escute senhor – disse ela, com o ovo na mão. – Este ovo Franklin Mint está arranhado!

– Sim senhora, está! – disse o vendedor.

– Dou 50 reais por ele! – disse Fátima, pegando o dinheiro da bolsa.

– Não. Isto é um ovo Franklin Mint! São 125 reais! – disse o vendedor, sem rodeios.

– 125 reais? – surpreendeu-se Fátima. – Franklin Mint ou não, isto é mercadoria danificada!

Ela então deu uma olhada nos outros objetos da barraca e encontrou ali uma lança. Era parecida com as que os índios costumavam usar para atacar vítimas ou pegar alimentos. Porém, esta lança era para ser aquecida em uma lareira e serviria, somente, de enfeite.

O preço marcava apenas R$6. Enraivecida por não conseguir comprar o ovo Franklin Mint, Fátima trocou os preços sem que o vendedor percebesse. Retirou a etiqueta de um outro produto que constava R$3 e colou-o na lança.

– Vou levar! – disse Fátima, andando até o vendedor e mostrando o objeto.

– Ah! É uma bela peça, hein? – disse o vendedor alegremente. – E esfria em um instante! – então ele olhou o preço e levantou uma sobrancelha, em dúvida. – R$3? Bem, eu devo ter marcado isso...

Fátima sorriu e lhe entregou o dinheiro.

– Obrigado – disse o vendedor, ainda confuso.

– Obrigada a você! – disse Fátima, pegando a lança e saindo de perto da barraca lentamente, feliz da vida.

Ela andou alegremente, cantando uma música bem animada, até a barraca de Bianca e sentou-se ao lado de Marinês.

– Achou o seu Franklin Mint, Fátima querida? – perguntou Marinês.

– Bom, eu vi um idêntico ao que Lourdes quebrou. Mas, estava caro demais...

– Ah, que pena! – disse Marinês, olhando a lança de Fátima. – Quer que eu guarde isto para você?

– Ah sim! Estava em oferta! – disse Fátima, entregando a lança para Marinês.

Ela pegou o objeto e olhou-o admirada, e quando ia se abaixar para guardá-lo dentro de um caixote, viu o rosto do rapaz de relance mais uma vez.

Fernando andava abraçado com outra garota, agora bem próximo de sua barraca.

– Muita coisa interessante, né? – perguntou Fernando a garota.

Eles então pararam na barraca dos ovos.

– Ah meu Deus! É um ovo Franklin Mint! – disse a garota loira e magra, encarando o objeto com desejo.

– É, combina com você... – disse Fernando.

– Por favor, amor... É pra estante do meu quarto... – pediu a garota.

Marinês os olhava com repugnância.

– Tudo bem, gata! – disse Fernando, pagando os 125 reais pelo ovo.

Depois, continuaram a olhar as barracas próximas.

Marinês já não estava sentada. Algumas barracas à distância, ela os seguia de olhos bem abertos. A lança em suas mãos. Andou um pouco mais até ficar no mesmo corredor que o casal, sempre mantendo pouca distância entre eles e no mesmo ritmo de passo. Ela olhava para trás e para os lados, para se certificar de que ninguém prestava atenção nela.

Fernando parou em então em uma barraca de rosas, onde comprou uma para a garota.

– Valeu! — Disse ele ao vendedor, pegando a rosa e o troco do dinheiro.

– É linda! – disse ela, dando-lhe um longo beijo.

– Olha... – disse ele. – Aguenta um pouco aqui. Eu preciso ir ao banheiro...

Ela o olhou com cara de nojo.

– Eu odeio isso. Mas vai logo, não quero ficar sozinha.

Ele andou alguns passos até o banheiro, que ficava alguns metros de distância da barraca.

11h20 da manhã

Marinês olhou novamente para trás, parada a pouca distância da porta para se certificar de que ninguém a via. Então, entrou no banheiro masculino.

Fernando já se aliviava em um dos mictórios. Não notou a entrada de outra pessoa, já que estava de costas para a porta. Marinês o olhou com repulsa, e apontou a lança. Neste momento, alguém de dentro dos boxes apertou a descarga. Ela rapidamente correu para o boxe ao lado, enquanto um homem musculoso saiu e foi embora do banheiro sem lavar as mãos.

No outro boxe, ao lado de Marinês, havia um homem um tanto baixinho e careca. Na parede que dividia o seu boxe com o do lado, havia um pequeno buraco, de onde podia ter uma perfeita visão do que seu vizinho estaria fazendo.

Em cima do buraco, o careca escreveu com uma caneta permanente: “Me coma” e olhou para dentro do buraco. Ele viu perfeitamente Marinês, de cabelos pretos e batom vermelho bem forte. Olhava com admiração para a lança.

O careca então, assustado, saiu do boxe praticamente correndo.

Marinês saiu abriu a porta, agora decidida. Provavelmente, não havia mais ninguém no banheiro e ela teria de ser rápida, antes que outro alguém entrasse e a flagrasse no ato. Posicionou-se na direção de Fernando e novamente apontou a lança. Correu. Enfim a lança o mais forte e fundo que pôde. Ele deu um grito fraco, e rapidamente caiu no chão, o rosto dentro do mictório. Removeu a lança e sentiu o estômago revirar. Um tom vermelho, muito vermelho, como um pedaço de carne, estava preso ali. Uma parte dos órgãos de Fernando.

Marinês sacudiu com violência a lança com o intuito de derrubar o que estava preso nela, mas não conseguiu. Então, com as mãos, tentando manter distância e retorcendo o nariz, tirou o pedaço de carne com a ponta dos dedos.

– Argh! – disse ela, quando o órgão caiu no chão.

Quando se virou para sair do banheiro, acabou pisando na carne muito vermelha e quase escorregou de forma que cairia com o rosto no chão. Seu sapato branco, dos lados e na sola, ficou marcado pelo tom vermelho escuro.

Ela olhou para Fernando e deu as costas, indo em direção à porta, mas parou. Olhou novamente o corpo, e voltou calmamente até o mictório, onde apertou a descarga. A água caiu por sobre a cabeça de Fernando. Pronto. Não podia sair sem realizar a tarefa de limpeza e higiene.

Bianca entregou um quadro pintado à tinta para um comprador.

– Aqui está! – disse ela, feliz.

– Eu nem acredito que consegui! – disse o comprador, bastante feliz, se retirando da barraca.

Marinês surgiu, a lança em uma das mãos e na outra, uma bola colorida.

– Bi! Bi, veja isso! – disse ela, aproximando-se da barraca da filha.

Um homem comendo um espetinho de frango entrou no banheiro masculino, e sua primeira visão foi do rapaz ali, caído com a cabeça dentro do mictório. A parte de trás de sua camisa ensopada de sangue, e o pedaço de carne, vermelho vivo, no chão ao seu lado.

– NHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! – gritou ele.

Em questão de segundos, praticamente bazar inteiro correu em direção ao banheiro.

– Mãe, toma conta aqui. Quero ver o que está acontecendo! – disse Bianca, saindo da barraca.

– Claro! – respondeu Marinês, sorrindo. Ela se sentou na cadeira ao lado de Fátima. – Espero que não seja nada grave!

Fátima então reparou no sapato branco de Marinês. Aquela bolha vermelha bastante escura.

– Marinês, querida, tem cocô no seu tênis! – disse Fátima.

– Ai credo! – disse Marinês, olhando o sapato e tentando tirar a sujeira arrastando-o no chão. – Eu odeio isso! É por isso que detesto usar banheiros públicos. Que nojo!

Fátima olhou o sapato com nojo, e depois olhou para Marinês, confusa. Aquilo não parecia com cocô.

11h48 da manhã

O lugar já estava cheio de policiais. Clóvis e Alcibides interrogavam o homem baixinho e careca.

– É! Tinha uma mulher no banheiro masculino! E ela era bonita! E estava bem ao lado!

O corpo de Fernando foi retirado. Sua namorada sacudia os cabelos loiros para todos os lados. Parecia revoltada.

– Não! Não! – berrava ela.

Bianca abriu caminho entre os policiais e conseguiu ver o corpo antes que o zíper fosse completamente fechado.

– AAAAAAAAAAAAH! – o grito de Bianca foi muito agudo, alto e desesperado.

Clóvis assustou-se e a olhou, confuso. Afinal, o que a filha de Marinês Freitas estava fazendo em um bazar em que acabara de ocorrer um assassinato? No mínimo suspeito.

Bianca saiu correndo rapidamente enquanto uma velha chegava à multidão e tentava entender:

– Ah meu Deus! O que houve? O que houve com ele? – perguntava ela sem obter nenhuma resposta.

A garota loira olhou para o corpo do namorado, e encontrou o olhar de Alcibides. Ele também a encarou. Ela sorriu, jogou os cabelos para trás, tentando mostrar o volume de seus seios. Lançava para o detetive um olhar de sedução. Alcibides sorriu perante a beleza da garota.

– Essa peça custa 158 reais! – disse Marinês a um homem que olhava um boneco Chucky, uma peça rara.

– Aceita dólar? – perguntou ele.

– Mas é claro! – disse Marinês, sorrindo para Fátima, que retribuiu.

O homem lhe entregou 158 dólares e saiu com o boneco no momento em que Bianca vinha gritando:

– Mamãe! Mamãe! Era o Fernando! Ele... – ela começou a chorar. – Está morto!

– Ah mais que horror! – disse Marinês, indiferente. – Acabei de vender o Chucky!

– Mãe, você não me ouviu? – perguntou Bianca, surpresa. – Alguém matou o Fernando lá no banheiro! Acabei de ver o corpo dele!

– Não era o que você queria? – perguntou Marinês, novamente indiferente.

– Eu disse que queria ele morto, mas foi na hora da raiva... Não... Eu não... Eu não queria isso! Não queria que ele morresse de verdade! Ainda mais assassinado, em um banheiro! Eu não queria isso!

Fátima olhava de Marinês para Bianca, então pegou sua lança. Fez uma cara de espanto e choque ao sentir um líquido escorrer por seus dedos e constatar o tom vermelho vivo. Tom de sangue. O mesmo que acabara de ver nos sapatos de Marinês. Encarou a amiga, chocada. Teria ela sido a assassina do pobre rapaz no banheiro?

Notas finais
Mais uma vítima de Marinês Freitas por um motivo fútil. Matou a sangue frio, de forma cruel, um rapaz dentro de um banheiro público. O que você acha? Marinês deve pagar por seus crimes? Deve sair impune? Deixe sua opinião, só temos mais três capítulos para o fim da história. Para os curiosos: no próximo capítulo, nossa assassina protagonista irá fazer mais duas vítimas, de uma vez. Quem consegue imaginar quem é, e por qual motivo? Ela assassinou o professor Gilberto por ele ter insinuado que Luís era louco. Assassinou Fernando por ter deixado Bianca plantada e a trocado por outra. E agora, quem vai se meter negativamente no caminho da adorável sra. Freitas? Não perca!