Kalen, O Mundo Dividido
1 Prólogo
Era noite, as luas apagadas escureciam a floresta da vila do Rio Azul, apenas as poucas tochas iluminavam o caminho, Colmaer olhava seu machado sempre afiado e como na maioria dos últimos anos, impecável. A vila e toda a região não tinha conflitos, as poucas vezes que a arma teve algum contato além da pedra de amolar, fora em caçadas para os grandes festivais, ou nas raríssimas ocasiões que alguém tentava tirar a paz de sua tão amada vila.
As rondas noturnas mais uma rotina de disciplina do que uma real preocupação, alguns guerreiros e jovens se dividiam em duplas, espalhavam elas no perímetro e passavam a noite trocando as experiências do mais velho para o mais novo. Essa noite Colmaer, um dos guerreiros mais fortes e respeitados estava com Maopi, um órfão que foi acolhido pela cidade quando ainda era um adolescente, pois tinha perdido toda a família em uma de suas viagens de negócio, e não tinha maturidade para viver numa cidade sozinho nem experiência para sobreviver nos perigos das florestas de Kalen.
Colmaer gostava muito do garoto, mesmo ele demonstrando uma fragilidade física. algo de extrema importância para ele que vivia pelas lutas e caçadas, o jovem se divertia muito com sua filha mais nova, quase como um tio ou primo, então o grande guerreiro o considerava parte da família.
— Como estão as aulas com Wulfa? — Colmaer voltava a caminhar enquanto questionava o jovem sobre seu treinamento com o ancião mais novo da vila, que tinha para si a responsabilidade de instigar o aprendizado de toda uma tribo formada em sua maioria de brutamontes.
Os olhos do jovem brilharam, a felicidade de poder falar do mestre e de tudo que ele aprendera a amar era gritante.
— Tão ótimas, cada dia aprendo mais, já to fazendo alguns truques, já sei sobre quase tudo sobre Bahamut, já sei sobre as guerras, sobre Atua, sobre a vila, sobre os negócios, o Wulfa é demais!
— Hahaha! Você é muito diferente dos outros garotos! Todos só querem caçar, lutar, brincar, acho que Wulfa é que tá feliz de ter alguém pra ensinar.
A noite foi seguindo e dessa vez foi o jovem Maopi que ficou falando admirado sobre os detalhes novos que aprendia diariamente no último ano, relatos que o Colmaer sabia de cor, por ter se dedicado tanto a vila, e mesmo amando as caçadas sabia da importância destes conhecimentos.
— Você deveria ensinar minha filha, a menina só quer saber de treinar, lutar, correr, caçar, comer e dormir! Haha!
A risada dos dois parou assim que um grito quebrou o silêncio da noite.
Com seu machado em punho o líder dos guerreiros correu determinado a salvar quem quer que estivesse em perigo. Sua experiência e habilidades foram visíveis para o jovem Maopi que ficara para trás, sua lentidão de ficar pronto e sua falta de velocidade fizeram ele apenas acompanhar na escuridão o grande combatente correndo em direção ao templo de Bahamut.
Colmaer foi o primeiro a chegar, a cena que viu foi de uma batalha rápida, silenciosa, viu algumas pessoas no chão desacordadas e movimentações no final do templo, ele sabendo que outros iriam auxiliar os feridos não pensou duas vezes e seguiu seu instinto atrás dos bandidos.
Durante sua perseguição ele que era rápido e forte se sentiu amedrontado pela primeira vez em sua vida, os fugitivos eram incrivelmente velozes, nas poucas vezes que passaram perto de uma tocha suas feições eram pretas, escuras, e quase não pareciam humanas, e um sentimento ruim acompanhavam eles, um aroma pútrido de morte, algo diferente de qualquer criatura vista e contada pelas histórias.
Isto causou uma sensação de incapacidade, um medo, e o grande guerreiro mesmo lutando contra estes instintos foi ficando para trás, até perdê-los de vista já a alguns quilômetros da vila. Lá ele permaneceu pelos próximos minutos, tentando entender o que viu, o que sentiu, antes de voltar a sua vila sem uma resposta concreta.
Nesse meio tempo, mesmo não tão veloz quanto Colmaer, o jovem chegou no templo e contemplou a mesma cena de ataque, o edifício parecia intocado, com apenas alguns objetos jogados e quebrados, as cadeiras e mesas tinham sido derrubadas claramente na confusão de uma batalha que ocorrera a alguns minutos antes.
Sua visão captou a imagem de sua dupla correndo atrás de alguma coisa, e sabendo que existem outros guerreiros experientes e mais velozes que ele seu foco foi permanecer no local, assegurar que ninguém mais estava correndo perigo e que todos já estavam bem.
Ao se aproximar do altar onde a garra de Bahamut anteriormente ficava, percebeu sua ausência, e na proximidade tinham dois corpos no chão.
Os anciões costumavam usar uma vestimenta confortável e característica de sua posição, mas algo chamou atenção do garoto, umas meias coloridas no pé de um dos corpos e seu corpo gelou.
Ele permaneceu imóvel, sem saber o que sentir, fazer, reagir, mas o desespero o encaminhou suas ações de encontro ao corpo, para saber quem era. Sua mente já sabia, mas ainda tinha uma esperança pequena que negava a todo instante, os milissegundos foram passando em câmera lenta, cada um deles acompanhado de uma oração, e a todo instante ele percebia cada vez mais a inutilidade delas.
Quando finalmente chegou ao rosto de seu mestre Wulfa suas lágrimas caíram, suas pernas bambearam e se ajoelhar no lado do corpo ensanguentado já não era uma opção.
— Nããããoooo! — E a noite silenciou novamente.
Naquele momento de tristeza nem os insetos ousaram quebrar o silêncio, e a movimentação dos últimos guerreiros e aprendizes não foram o suficiente para mover o jovem para longe de seu mestre.
Os guerreiros se aproximaram, procuraram sinais de vida no outro ancião, também já falecido, circularam o perímetro a procura de outras figuras ou apenas rastros e pistas de como e quem fez algo tão maligno quanto assassinar pessoas boas como eles.
Algumas palavras de conforto foram ditas, alguns abraços pelos mais próximos foram dados, mas nada o fez levantar. Maopi tinha perdido não só um mestre, mas um amigo, alguém tão próximo que parte dele se foi neste dia.
Colmaer se aproximou com uma cara fechada, ainda em choque pelo que aconteceu e sentiu. Outros guerreiros o perguntaram o que havia acontecido, mas não soube responder. Ele sabia que algo fora do normal tinha acontecido e que ele se tornaria o responsável para reverter a situação.
**************************************************************************************************************************************************
A muitos quilômetros da vila, duas figuras negras se aproximaram de uma carroça velha com mais dos mesmos ao redor. Estes seres por mais que tenham uma estrutura humanóide, nada se pareciam com alguma coisa humana, todos estavam com armaduras de couro negro, suas armas também eram escuras como a noite. Porém o que mais cahamva atenção eram suas faces, única parte descoberta deles, tinham um formato de caveira, mas seus ossos pareciam carvão, os espaços onde nos seres vivos normais seriam seus olhos, bocas e nariz, saía uma fumaça, como se aqueles indivíduos estivessem em brasa, e mesmo assim a sensação que passavam era de frieza.
Já caminhando sem preocupações, se aproximam da carroça e entregam uma sacola de encontro para uma mão, que ainda tinha uma aparência humana, com apenas um pouco de pele cobrindo os ossos e articulações, e sua coloração variava entre um cinza claro e manchas de verde escuro.
A mão segura a bolsa com certa dificuldade e retira uma pedra de dentro lentamente, a pedra vai se encontrando com a pouca iluminação que uma lua dava, permitindo uma luz na escuridão da noite. A rocha tem como seu formato uma garra, com uma ponta afiada e uma base larga, como se encaixasse em algum lugar ou alguma coisa, sua coloração prateada deixava claro, era a garra de Bahamut.
— Hahahahaha cof cof cof hahahahahah… — Uma risada aguda, frágil e intercalada com uma tosse de quem está doente a anos surpreende o silêncio e sono dos animais.
Fale com o autor