Kaiko
1 Prologue
Aquela água rodeava-me. Os meus olhos só viam azul.
Senti a habitual falta de ar e vi-me obrigada a regressar à superfície. Quando o oxigénio se infiltrou nos meus pulmões novamente permiti-me observar a praia tão sossegada.
Não havia gente àquela hora da manhã. Olhei o meu relógio à prova de água. 04h58 da manhã. Estava o sol a começar a despontar no horizonte. Era uma visão tão linda, tão magnífica, tão sem igual!
O laranja era escuro e lá no fundo, bem lá no fundo, um amarelo fraco tentava aparecer. Ter o seu período de destaque. A lua cheia da noite anterior ainda era visível assim como os pequenos pontinhos, denominados de estrelas. Era uma mistura perfeita entre dia e noite. Luz e sombra. Paraíso e inferno.
Tentei identificar as constelações que tantas vezes o meu pai me mostrou e lembrei os nomes. Porém não lembrei só os nomes. Ao olhar em redor da praia mais uma vez, localizei o sítio onde me deitava com o meu pai e os meus irmãos para observar "os tais pontinhos luminosos", enquanto a minha mãe tratava do jantar. Tantas memórias, tantas recordações. E tudo isso apenas nesta praia quase sempre deserta.
Os meus primeiros passos foram dados naquela areia branca e lisa. A minha primeira palavra foi "Oceano", seguida de "mãe" e "pai". O meu primeiro aniversário. A minha primeira aula de surf foi neste mar onde agora me banhava. Foi naquela praia que comemorei a minha primeira vitória num campeonato regional de surf. As manhãs estendidas a tardes de brincadeiras com Kanoa e Sarah, meus irmãos mais velhos. Os passeios nas noites quentes repletos de ensinamentos da minha mãe. As festas em família. O meu primeiro beijo com Tom Kelly. Um acabamento pacífico no relacionamento com Tom Kelly.
Foi sentada na areia que abri a carta da Billabong, dizendo que adorariam que uma surfista como eu se juntasse à equipa de juniores deles.
Foi ali que ecoaram gargalhadas, vivacidade, lágrimas e até mesmo gritos.
Fechei os olhos e passei as mãos no meu cabelo ruivo escuro. A melancolia tinha me atingido de uma forma ortodoxa.
Deixei um suspiro sair por entre os meus lábios, abri os meus olhos verde floresta e arranjei forças para sair do sítio que era a minha segunda casa. O mar. Tão azul, tão pacífico. Por vezes tão tempestuoso e perigoso. Tão parecido comigo.
Quando a brisa suave de fim do verão tocou o meu corpo seminu, um arrepio passou pela minha espinha. Era algo extremamente bom de se sentir.
Decidi dar uma volta pela praia. Tornar este último dia inesquecível, sereno e calmo. Afinal ia mudar-me para Miami. Parecia que ia para o outro lado do mundo. E analisando bem os factos (e os mapas), era uma verdade muito controversa.
Olhei novamente o relógio. 5h21. Daqui a duas horas estaria a entrar num avião. Ótimo, está tudo a melhorar. Principalmente porque eu não gosto muito de aviões nem da forma como eles flutuam no ar com gravidade.
Vi uma sombra ao fundo. Quando se aproximou percebi quem era. Tom Kelly. O meu primeiro amigo. A minha primeira paixão. O meu ex-namorado.
Ele sorriu e eu vi-me impelida a sorrir de volta.
Ao aproximar-se da minha pessoa, a animação normal em mim acendeu-se, pois havia estado apagada nos últimos dias.
—Tommy!
—Kea, meu anijinho subaquático!- abraçámo-nos e senti-me reamente feliz por estar nos seus braços.
Ri. O Tommy costumava dizer que eu parecia uma sereia, porque eu nunca saía da água se lá pudesse ficar. Nadava, surfava ou ficava simplesmente a boiar.
De facto, o meu primeiro trabalho foi como nadadora salvadora nas praias principais de Oahu e depois no Surf Shop do meu avô por parte da minha mãe.
—Levantei-me cedo só para te ver! Diz lá que não sou um grande amigo!
Encarei o meu amigo mais antigo. O cabelo castanho escuro completamente desalinhado, os olhos pretos e brilhantes, o rosto suave e o corpo magro e bronzeado.
Sim, ele havia sido a minha primeira paixão. Lembro-me que me declarei para ele. Achava uma estupidez as garotas terem de esperar que os garotos lerdos e retardados percebessem os seus avanços ou investidas para namorar. Porque tinha de ser o garoto a pedir em namoro. Tradicionalismo idiota. Tradicionalismo muito romântico, porém idiota. Então declarei-me. Deu certo, porque os sentimentos eram recíprocos. Namorámos por dois anos, depois percebemos que o nosso relacionamento tinha caído na rotinha, que resultávamos melhor como amigos, como irmãos. Cada um só queria ver o outro feliz.
Acho que foi por isso que não houve constrangimentos na nossa amizade depois de acabarmos o namoro. Foi algo fluído, natural e muito normal.
—Não és! Devias saber que, como meu amigo, tens a obrigação de levantar cedo só para ver a minha beleza matutina!- mostrei a língua, num gesto um tanto infantil.
Continuámos a brincar e a conversar por um bom tempo até que ouvi a voz da minha mãe da minha casa em frente à praia.
—Kaiko querida! É hora de irmos!
Não questionei como é que a minha mãe sabia que eu estava na praia. Ela sempre sabia.
Olhei Tom com os olhos tristes de repente.
—Ei, não olhes assim para mim! Tu sabes que não é um adeus! Afinal, meu querido, há internet, telefone e eu venho sempre passar o Natal aqui!- disse eu, mesmo estando um pouco acuada e já morrendo de saudades.
—Ok, mas prometes ligar por Skype toda a maldita semana e enviar mensagens todos os dias?
—Claro que sim, Tommy. Agora tenho de ir, senão perco o voo. — prometi. Uma verdade acerca de mim: nunca descumpro algo que juro ou prometo.
—Liga assim que aterrares. Nessa altura vou estar com a Zoe e ela vai querer saber de ti também.- disse, já mais animado.
Demos um abraço rápido e corri pela areia até chegar às palmeiras na entrada da minha casa. Branca, muito grande e moderna, com um enorme jardim de areia na frente.
Observei uma última a MINHA praia e o MEU oceano.
—Até já. — sussurrei para o vento da manhã. O sol já tinha nascido. Era uma visão nova. Um novo dia.
Entrei em casa, preparada para o que me esperava na terra e no mar desconhecido para onde ia. Estava pronta para a aventura que me esperava. Ou talvez não.
"Do not judge my story by the chapter you walked in on" (unknown)
[não julgue a minha história pelo o capítulo em que entrou] (desconhecido)
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