Kago no Sanagi
1 One-shot
Notas iniciais
Desde criança, eu sempre soube com muita clareza quem eu era e quem eu queria me tornar. Eu fui uma criança muito precoce... Podia não ser o melhor aluno da classe, nem tão aplicado quanto minha mãe desejava que eu fosse na escola, mas eu sabia que o meu destino não estava ligado aos estudos. Eu sabia desde muito cedo e para grande desespero da minha pobre mãe que não estudaria muito mais do que o obrigatório ensino médio. Porque eu queria me tornar o maior baterista de todos os tempos: eu queria ser Yoshiki-san!
Ele não era só o meu maior ídolo (ou de todos os garotos da minha idade), ele era um exemplo, uma meta, um estilo de vida! Era o que eu queria ser e eu dormia e acordava pensando em como eu poderia me tornar ele!
Quando eu comecei a praticar bateria, eu me empenhei como nunca tinha feito com nada na escola. Eu batucava o tempo todo, sem parar, em tudo o que eu podia: na mesa, nas cadeiras, na minha cama, nos livros da escola, nos livros de receita da okaa-sama... Eu batucava até que fosse parte de mim, até o ponto em que eu não conseguia mais parar, em que fosse tão natural quanto respirar e não precisasse mais de um comando... Bastava eu estar parado pra começar a mexer minhas mãos como se nelas tivessem baquetas e diante de mim uma bateria incrível.
Eu olhava para o céu estrelado à noite e traçava nele os passos que devia seguir para completar meu plano: aprender a tocar bateria, entrar em uma banda, compor músicas contagiantes, fazer apresentações, fechar contrato com uma gravadora, ficar famoso! Eu sabia que, para dar certo, eu precisava acreditar com toda força que daria certo... E eu acreditava!
O tempo, porém, parecia não querer cooperar para que meus sonhos passassem a ser minha realidade e corria em câmera lenta, como se os dias se estendessem por semanas e as noites por meses... Era como estar sentado numa sala de espera de um consultório, olhando para o relógio de minuto a minuto e o tempo parecesse ter parado justamente quando chegara a sua vez... Ou como se você pudesse ser um camundongo correndo desesperadamente em sua rodinha, na sua gaiola e corresse, corresse, corresse e continuasse sempre no mesmo lugar, não importava quão cansado você tivesse ficado... Será que camundongos conseguiriam pensar sobre isso?
Eu só sabia que estava pronto! Estava pronto pro meu sonho começar! Eu queria subir no palco e colher os suculentos frutos da árvore da glória! Mas eu fui obrigado por uma força maior a esperar, arrastando meus passos pelo chão como se meus pés não pudessem avançar mais do que centímetros por pesarem uma tonelada cada. Talvez não pudessem mesmo. Talvez pesassem...
“Eu dependo da sua existência”.
Subir no palco era a melhor sensação de todas! Era algo tão inexplicável, tão fantástico que eu só conseguia descrever sentado em minha bateria, colocando nela todos os batimentos de meu coração como notas musicais e fazendo-os ecoar dez milhões de vezes mais alto, notas que eu jamais pensaria em tocar, lugares que eu jamais imaginara ir, pessoas que eu jamais pensaria em conhecer, sentimentos que eu jamais sonharia em sentir...
“Eu dependo da sua existência”.
Eu me virei na cama, no meio da noite, ainda sonolento e esbarrei sutilmente na pele lisa e morna de Mariana, lindamente adormecida ao meu lado, exausta de tanta saudade que tínhamos sentido de casa dessa vez. Era muito bom poder tê-la comigo quando viajávamos durante as turnês, porque eu sabia que não conseguiria aguentar de saudades longe dela, mas era ainda melhor quando podíamos voltar pra casa.
“Eu dependo da sua existência”.
Puxei-a para os meus braços, aninhando-a em meu peito e sentindo o delicioso perfume de sua pele. Ela era tudo o que eu desejava agora. Aquele contorno esguio de seu corpo, a temperatura de suas mãos em meu rosto, seus lábios deslizando e marcando minha pele, seu sabor doce se espalhando pela minha boca, sua voz macia caminhando por meus ouvidos, seus olhos grandes e arroxeados fixos nos meus, buscando unir nossos espíritos da mesma forma que nossos corpos buscavam um ao outro para se transformarem todas as noites em um só... Tê-la daquela maneira tão perfeita para mim me fizera acreditar que duas pessoas podiam ser unidas de maneiras inexplicáveis pelo fio vermelho que jamais se partia...
— O que é que você quer? – ela perguntou divertida, ainda de olhos fechados e eu deslizei meus lábios por seu pescoço, beijando sua nuca e seus ombros até que ela se virasse de frente para mim e unisse nossos lábios, exigindo uma resposta verbal.
“Eu dependo da sua existência”.
— Você – sussurrei contra seus lábios, num fio quase mudo de voz, como se ali houvesse alguém que não pudesse descobrir esse segredo.
— Eu serei sua para sempre – ela também sussurrou, passando seu corpo por sobre o meu e nossos lábios tornaram a se encontrar, agora com mais desejo e mais voracidade. Bastava um simples toque dela para que eu perdesse completamente meu autocontrole.
O Tempo, que sempre arrastara minha vida lentamente enquanto eu esperava que meus sonhos se realizassem, corria depressa quando eu tinha Mariana em meus braços, quando eu mais queria que os minutos durassem horas, fazendo que a manhã sempre chegasse cedo demais e o Sol nascesse horas antes do que deveria... Eu queria poder ficar com ela ali pela eternidade, apenas descobrindo aquela doce sensação de ser dela e de ela ser minha, caindo naquele êxtase profundo que era o corpo dela em minhas mãos, de me apaixonar milhares de vezes a cada novo movimento...
Enquanto ela arquejava sobre meu corpo, eu sentia em mim como ela me modificava, como eu descobria quem eu realmente era naquele momento, naquele ato tão apaixonado, naquelas mãos tão delicadas. Descobria que não sabia nada sobre mim mesmo antes dela aparecer e que era ela quem sabia mais, quem sabia o que eu queria e do que eu gostava... Quem eu seria dali em diante...
“Eu dependo da sua existência”.
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